Entre a crise de 2008 e a que há-de vir, está a crise dos políticos atuais – Introdução, por Júlio Marques Mota

beco

 

Introdução

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

em 5 de dezembro de 2019

 

Dia 12 de Dezembro, um homem vai falhar, o político mais importante e mais coerente na Europa neste quase quarto de século, Jeremy Corbyn irá perder as eleições a favor de Boris Johnson e de Farage.

Significará isto uma viragem à direita na Inglaterra? Não o creio, creio antes que isso, se se verificar, significará apenas um bloqueio ao avanço eleitoral do Partido Trabalhista sob a direção de Jeremy Corbyn.

E a sua queda vai dever-se a uma coisa muito simples: a classe política trabalhista inglesa, de domínio ideológico blairista, tudo tem feito para o destruir e o debate eleitoral que deveria incidir sobre os problemas do país vai ser circunscrito ao Brexit. Esta é uma forma encapotada de passar ao lado dos reais problemas com que se debate o Reino Unido, bloqueando a esquerda e é isso o que interessa à classe dominante. Em contrapartida, e pela primeira vez desde há décadas, o Partido Trabalhista aparece com uma programa de política económica e social capaz de responder aos principais anseios da maioria da população britânica e por isso basear a campanha eleitoral sobre o Brexit é estar a querer ignorar as grandes linhas de força da sociedade inglesa e dos seus problemas, encurralando o Partido Trabalhista nas traições passadas que o Partido Trabalhista no Parlamento tem feito aos seus eleitores, ao povo inglês. Com efeito foram eles, mais do que os Conservadores que bloquearam o Brexit. Para se ter uma ideia:

No Referendo de 2016, 60,7 por cento dos eleitores trabalhistas votaram a favor da saída da UE (75,4 por cento dos eleitores conservadores também votaram pela saída da UE). No entanto, apenas 3 em 256 deputados trabalhistas votaram a favor do Acordo de Saída quando se votou nos Comuns.

Aqui vale a pena um exercício apresentado por Bill Mitchell confrontando os resultados da noite em que o Acordo de Saída foi rejeitado nos comuns. Tendo em contra a repartição dos resultados do referendo com a seguinte pergunta abaixo com duas hipóteses de resposta:

Remain a member of the European Union

Leave the European Union

 

E se o Parlamento, fosse constituído na base da repartição das respostas ao referendo, e de acordo com as sondagens sobre onde votavam os eleitores de cada partido, teríamos a segunda coluna de números que está na tabela abaixo:

1 Introdução 1

Repare-se: a maioria dos eleitores trabalhistas, em termos de círculos eleitorais e segundo inquéritos feitos, votou pela saída do Reino Unido da União Europeia. Tudo isto nos diz que o Partido no Parlamento não esteve com as bases e por aqui que se encontra o que tem sido toda a farsa do Brexit.

A farsa tem sido tão grande que o Presidente da União Europeia, Donald Tusk, colocou no Tweeter:

Se um acordo é impossível, e se ninguém quer uma saída sem acordo, então quem terá finalmente a coragem de dizer qual é a única solução positiva?

If a deal is impossible, and no one wants no deal, then who will finally have the courage to say what the only positive solution is?

 

A pergunta que agora se faz é então saber se nestas eleições empoladas em termos de Brexit os eleitores do Partido Trabalhista se manterão a votar Partido Trabalhista quando emocionalmente não têm nenhuma garantia que a sua pretensão não seja pervertida. Não haverá aqui aumento na abstenção pela parte dos trabalhistas da Inglaterra profunda? Tanto mais séria a questão quanto tem sido usual no partido Trabalhista as promessas eleitorais não corresponderem à prática dos seus eleitos no Parlamento.

Podemos ainda acrescentar um outro argumento utilizado pela esquerda radical que pode preferir votar Boris Johnson para obter o Brexit do que votar Trabalhista e não haver Brexit [1] pois podem pensar que sem Brexit não é possível a política de expansão preconizada por Corbyn pois que sem a saída da UE encontrará todos os entraves possíveis à aplicação do seu plano.

Esta hipótese de abstenção ou de deslocação de voto a favor dos conservadores, a favor de Boris Johnson, levanta-se, por um lado, pela falta de credibilidade de muitos dos possíveis eleitos do Partido Trabalhista nesta matéria, enquanto pelo lado de Boris Johnson, se põe em relevo a sua determinação em levar avante o Brexit. Vejam-se as suas declarações no Parlamento:

“Um ponto de ordem, Senhor Presidente em exercício do Conselho. A Assembleia interveio e o Governo vai ouvir. É evidente que a Assembleia não apoia este acordo, mas a votação desta noite não nos diz nada sobre o que apoia; nada sobre como, ou mesmo se, tenciona honrar a decisão que o povo britânico tomou num referendo que o Parlamento decidiu realizar. As pessoas, em especial os cidadãos da UE que aqui viveram e os cidadãos do Reino Unido que vivem na UE, merecem ser esclarecidos sobre estas questões o mais rapidamente possível. (…)

A segunda garantia é para o povo britânico que votou a favor da saída da União Europeia no referendo realizado há dois anos e meio. Tornei-me Primeiro-Ministro depois desse referendo. Creio que é meu dever cumprir as suas instruções e tenciono fazê-lo.”

Aqui uma outra questão se nos pode colocar: tendo em conta o programa ambicioso e a sinceridade do seu líder, que para a maioria dos trabalhistas é inquestionável, não haverá antes deslocação de voto dos conservadores ou dos indecisos para os trabalhistas compensando as perdas potenciais da hipótese anterior? Aqui parece-me que a resposta pode ser de que pode não haver nenhuma compensação de eleitores. Porquê? Porque, por um lado, como se disse atrás, o Brexit tem como função abafar a discussão em torno dos graves problemas com que a Inglaterra se debate e estes são muitos como se pode ver na introdução ao Manifesto eleitoral do Partido Trabalhista e, por outro lado, este programa exige volumes de investimentos ao longo de toda a legislatura que levam a que se ignore um princípio que o Partido Trabalhista diz respeitar , que se ignore a Regra da Credibilidade Orçamental. Vejamos o que nos diz o Partido Trabalhista quanto à Regra de Credibilidade orçamental:

“E porque queremos assegurar que a dívida do Governo está numa trajetória sustentável, comprometemo-nos a assegurar que, no final de cada legislatura, a dívida pública em percentagem do PIB tendencial seja inferior à do início da mesma legislatura.

– Reservamo-nos o direito de, enquanto a política monetária não puder desempenhar o seu papel habitual devido ao seu limite inferior, suspender os nossos objetivos para que a política monetária e fiscal possa funcionar em conjunto.

– Em vez de um corte arbitrário nas previsões do PIB, daremos ao Comité de Política Monetária do Banco de Inglaterra autoridade para suspender a regra nas circunstâncias em que é evidente que a política fiscal tem de trabalhar em conjunto com a política monetária para que a economia volte a funcionar.”

A partir daqui teremos quase toda a imprensa britânica a bater na tecla do despesismo, da falta de credibilidade face aos mercados financeiros. Como assinala já o Financial Times:

“A promessa do Partido Trabalhista de 2017 de contrair empréstimos de um montante de 250 mil milhões de libras esterlinas em 10 anos para um novo fundo nacional de transformação irá agora expandir-se, acrescentando 150 mil milhões de libras ao longo dos primeiros cinco anos – elevando o fundo para pelo menos 400 mil milhões de libras após uma década com grande parte da despesa antecipada. (…)

A nova promessa de empréstimo obrigará o Partido Trabalhista a abandonar elementos da sua “regra de credibilidade orçamental” de 2017, que se comprometeu a manter o nível da dívida pública em percentagem do rendimento nacional a descer entre o início e o fim de cada legislatura durante. O Gabinete independente para a Responsabilidade Orçamental calculou que qualquer aumento nos empréstimos para despesas superiores a 25 mil milhões de libras por ano quebraria essa regra.”

 

Iremos assistir na Inglaterra ao mesmo tipo de discurso que foi utilizado da direita portuguesa nos anos sinistros da austeridade cruel contra o despesismo, contra o alargamento da dívida, etc. De resto a austeridade imposta por Cameron aos ingleses não fica nada a dever à austeridade que foi imposta pela Troika ao povo português [2]. Como as classes médias, as levemente favorecidas do sistema, podem “engolir” este discurso, é também aqui provável que neste estrato populacional aumente a abstenção., sobretudo nas hostes trabalhistas, de gente urbana e bem situada na vida. Um movimento que pode ser liderado pelos blairistas cujo slogan face a Corbyn era desde há tempos “ABC” («Anything but Corbyn) (“Tudo menos Corbyn”).

Penso pois que por todo este conjunto de razões, um homem irá perder em 12 de dezembro, Jeremy Corbyn, e com ele garantidamente perdemos todos nós.

Para uma melhor perceção do que temos estado a afirmar veja-se a sondagem de YouGov e o trabalho de ajustamento feito por Bill Mitchell sobre esta mesma sondagem.

Vejamos a sondagem de YouGovde 2019:

1 Introdução 2

 

 

Face a estes resultados Bill Mitchell fez alguns ajustamentos e vejamos o resultado (vd. aqui):

“Eu fiz alguns ajustamentos hoje para ver quantos assentos trabalhistas da eleição de 2017, que também haviam votado a favor da Saída da UE no Referendo de 2016, ainda pretendiam votar no Partido Trabalhista nas próximas eleições gerais de dezembro de 2019.

A tabela seguinte apresenta as minhas estimativas preliminares. As colunas são de leitura imediata até às duas últimas.

O que fiz foi calcular as condições conjuntas – se o círculo eleitoral votou Saída da EU em 2016 e manteve a filiação partidária do deputado entre 2017 e o resultado projetado do YouGov 2019.

A última coluna mostra os círculos eleitorais que passariam dos Conservadores para os Trabalhistas e vice versa.

Assim, dos 237 círculos eleitorais conservadores de 2017 que votaram a favor da saída da UE, o YouGov prevê que todos manterão um deputado conservador em dezembro de 2019.

No entanto, para o Partido Trabalhista, a situação é muito deprimente.

Embora o YouGov preveja a perda total de 51 lugares nas Eleições Gerais de dezembro, 40 desses lugares vêm de circunscrições eleitorais que votaram Saída da UE em 2016 e que se tornariam lugares dos Conservadores.

Mantêm 112 desses 158 círculos eleitorais.”

Eis a tabela com os ajustamentos de Bill Mitchell:

1 Introdução 3

 

Deprimente, é o que nos diz Bill Mitchell (vd. aqui).

“Vou fazer mais algumas análises deste conjunto de dados muito rico, mas os meus primeiros cálculos parecem apoiar a minha conjetura de longa data de que a incerteza do Brexit expressa pela liderança trabalhista não ajudou as suas perspetivas eleitorais.

Eu acho que eles deveriam ter apostado no espaço como partido do Leave como um reflexo de sua garantia inicial de defender os desejos das pessoas em 2016, que eram perfeitamente claros.

Afinal, não se trata de ciência de foguetes.

Quando a maioria dos seus deputados vem de assentos que votaram para Leave, virar as costas aos eleitores e defender Remain (como muitos dos principais deputados trabalhistas fizeram), é uma forma segura de perder votos.”

________________________________________

Notas

[1] O partido Brexit de Nigel Farage revelou  que um antigo comunista revolucionário que já apoiou o republicanismo irlandês e se opôs ao acordo de paz de Sexta-feira Santa como um dos cinco novos candidatos às eleições europeias.

Claire Fox, que agora se apresenta como uma libertária e é membro do painel do programa Moral Maze da BBC Radio 4, disse no evento de lançamento que provavelmente só concordou com Farage sobre um assunto – o Brexit.

[2] Como exemplo, o Reino Unido ocupa o quarto lugar na Europa em termos de pobreza entre as pessoas com mais de 65 anos.

 

 

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