A GALIZA COMO TAREFA – leitura de livros portugueses no século XVI a XVIII (ii) – Ernesto V. Souza

Ficou no ar, suspensa, como as espadas entre os capítulos famosos do singular combate de D. Quixote com o Biscainho, a pergunta que fazíamos na anterior entrega:

A questão é, como consideravam os galegos cultos antes do Século XVIII as fontes, as leituras e as falas portuguesas: como próprias, meio-próprias ou estrangeiras?

Ou dito doutro jeito, no momento entre os séculos XVI-XVII, em que sendo Portugal uma parte da Coroa e circulando profusamente elites nobiliárias, comerciais e intelectuais portugueses pelas Cortes e nos assuntos de Castela, e pelas de Portugal “castelhanos” (com relacionamento familiar com Portugal e obrigados pelos acordos de Tomar) que consideração e papel poderia ter para os galegos cultos a língua portuguesa?

Parece lógico pensar que se por uma banda o impacto da cultura castelhana e da língua literária, política e militar de Castela é evidente no Portugal e no português da época, não é menos que o português e Portugal, em menor proporção, atingiram a língua castelhana e os usos literários. Mas em que proporção, a Galiza e os galegos, entraram nestes relacionamentos?

É de supor que bastante. Quando menos na primeira fase da União Ibérica, de 1580 a 1618. É dizer entre a preparação da incorporação (na que tanto militarmente quanto diplomaticamente trabalharia, entre as elites e redes do imperio o lobby da nobreza galega) e a queda do Duque de Lerma (que por razões familiares e e por estratégia diplomática estava rodeado de galegos e portugueses vinculados a Valladolid, Salamanca, Toro, Benavente, Tordesilhas e Madrid: dos Salinas (Rui Gomes da Silva, a sua esposa Ana Mendoza de la Cerda e o seu filho Diogo, vice rei e poeta), até os Moscoso-Ossorio, passando pelos Lemos Andrade, Sarmiento, Zúñigas, Sandoval, Pimentel, Bexar (dos Soutomaior), Figueroas…

Não é para se surpreender: a nobreza galego-castelhana predomina e ocupa um destacado papel nas cortes de Filipe II e III e controla, norte do Douro e por tanto no reino de Castela, boa parte do aparato administrativo, diplomático e judicial da Coroa.

Este papel preponderante, tecido de relações, interesses e ambições, durante aqueles anos, explicaria bem, na guerra de propaganda que se estabelece via mecenato pela literatura e as artes, os ataques contra a Galiza e os galegos, manifestos na literatura castelhana (e portuguesa) do Barroco. E que se incrementam arredor da questão da recuperação do voto em Cortes, durante e nomeadamente depois da queda do Duque de Lerma.

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Retrato Pero Fdz. de Castro, VII Conde de Lemos

Neste contexto e após a conspiração palaciana, defenestração de Lerma e o ascenso de Uceda e do Conde Duque de Olivares no valimento, aparece uma curiosa obra propagandística: “El Buo gallego haciendo corte con las demás aves de España” (ca. 1620)

O panfleto, que circulou em numerosas cópias manuscritas e cuja polêmica em formas de respostas continuava inter-regiões um século depois, foi atribuído já na época ao VII Conde de Lemos, Pero Fernández de Castro. Trata-se de uma das mais sarcásticas e virulentas defesas da Galiza, dos galegos e a reivindicação da dianteira da sua nobreza e pátria por sobre todas as outras nações, como cabeça da Espanha e por tanto da Europa.

Resolvida, em jeito de alegoria satírica, a imitação dos fabliaux (e dos contos de animais na tradição dos apólogos orientais: Calila et Dima, Romance de Renart, Conde Lucanor), nela um bufo real, (com os atributos de nobreza, sabedoria e dissimulo) representando a Galiza, faz corte com as demais aves espanholas, num choupo, numa manhã de abril à beira do Mançanares, onde defende e debate a sua preeminência sobre as outras aves, que representa satiricamente em relação a tópicos e atributos. Assistem arredor da águia imperial austríaca, um tordo (chupim) biscainho, um cernícalo (peneireiro-vulgar) navarro, um cuco aragonês, uma milana (milhafre) catalã, uma merla de Valência, um corvo cántabro, uma andorinha murciana, um xílgaro (pintassilgo) português, um pavo (peru) andaluz, um ganso castelhano e um sisão manchego.

Os ataques do moucho centram-se principalmente no tordo (o que chama Juancho Garibay) e no pavo. Os choques entre a nobreza Cântabro-Biscainha e a Galega, na corte de Castela, é de supor que pela orientação e pelo poder, vinham de longe, do tempo das incorporação à coroa e as guerras civis que levaram o poder os Trastamaras e deveram ser importantes, estendendo-se, como sabemos à historiografia (o confronto na historiografia espanhola arredor dos cronistas Esteban de Garibay, (1592 até 1599) pelo partido biscaínho e Prudencio de Sandoval, (a partir de 1600 e até 1620) pelos galegos) e na literatura.

Pouco antes, em 1588, o fiscal da Chancelaria de Valladolid, o tudense Juan Garcia de Saavedra, abrira uma forte polêmica com a sua oposição jurídica a que a definição foral de fidalguia universal (direitos de herança, títulos e exenções tributárias) que se davam os biscainhos tivesse aplicação imediata em Castela. Foi tanto o escândalo do ditame que o próprio Filipe II teve de intervir, para satisfazer à honra do senhorio. A sua obra, De hispanorum nobilitate et exemptione…, não se volveu a imprimir, senão expurgada, até depois da sua morte.

Había ordenado Felipe II á su Chanciller Juan Garcia, escribiera é imprimiera un libro acerca de la Nobleza de España y en él (según dice la Real Provisión) «había escrito en perjuicio de la Antigüedad y Nobleza de dicho Señorio … y aunque era ansi que Nos le habíamos mandado escribir y no había que tomar tanto cuidado de ello, pues era opinión de un hombre, todavía por la opinion del vulgo y de los que no advierten y consideran tan bien las cosas, le será, y podrá ser de gran daño é inconveniente: y por esta y por otras justas causas que el dicho Señorio referia en la Carta que Nos es cribía, suplicándonos les hiciésemos la Merced que se esperaba, y se debía á su Nobleza, y servicios que nos ha hecho y hacía cada dia, y actualmente nos estaba haciendo, no permitiésemos poner dificultades y dudas en la Nobleza de dicho Señorio…; y la opinión de algún autor podíase permitir y pasar por ella cuando no tocare al honor de alguna particular Ciudad, ó Provincia, y de otra suerte convenía y era necesario que se quitase.. .» En vista de las razones alegadas, manda- mos á todos y á cada uno de vos en vuestros lugares y jurisdicciones, según dicho es, que siendo con ella (la Carta) requerido, hagais recoger, y recojais el dicho libro original, y los que por él se hubieren impreso, que se hallare en vuestra jurisdicción, hechos por el Juan García, nuestro Fiscal, intitulado: De Hispanorum Nobilitate et exemptione, y ansí recogidos los hagais enmendar, y enmendeis, testando y quitando de ellos lo contenido en la Certificación y Testimonio que con esta nuestra Carta os será mostrada … Y hecho esto los hagais volver y volvais á las personas, cuyos fueron, y no fagades ende al so pena de la nuestra Merced… » (1)

(1) Provisión Real ganada por el Señorío de Vizcaya en favor de su Nobleza el año 1590 em “Felipe II y los Fueros bascongados” Euskal-Erria : revista bascongada T. 51 (2o sem. 1904), p. 472-476)

O debate provavelmente tinha a sua origem na pretensão dos biscainhos, justificada entre outros no trabalho historiográfico de Garibay, de conseguir para o seu senhorio o título de Reino e com ele o prestígio e privilégio não apenas nas historiografias fundadoras espanholas, quanto o seu peso nos Conselhos, administração e Cortes de Castela. É mais que provável considerar que a oposição da nobreza galega e dos seus letrados e historiadores fosse um obstáculo às pretensões de Biscaia (e também a origem do revival de ambas as historiografias, posta em circulação de mitos originários e polêmicas ressultantes).

Não seria de descartar que este episódio pesasse na reviravolta da oposição, por parte de Biscaia e negativas quando a Galiza pretenda recuperar o voto em cortes para as cidades galegas, na década de 1610-20. Quando menos encaixaria bem para explicar as polêmicas arredor do Buo Gallego e as suas réplicas.

Em 1614, na Carta também famosa e muitas vezes depois citada do Conde de Gondomar a Andres de Prada, secretário real, referenciava deste jeito – e a colação também de leituras portuguesas depreciativas para com a perspectiva galegocéntrica – o episódio:

… y para que sea disparate y borrachera y mentira lo que dice Bernardo de Brito, y como tal, es bien que el libro [Monarchia Lusytana] se recoja y se queme; y si no hubiere quien lo pida, yo solo lo pediré; que menos dixo el fiscal Juan Garcia de los vizcainos, y se lo hicieron borrar. (em Cinco cartas político literarias, EMECE, 1943, p. 42)

A polêmica, longe de ter a ver com um conflito regional, tinha a ver, consideramos, com a narrativa histórica como justificante das preeminências, os interesses, pleitos, influências, controlo e postos na administração da velha aristocracia castelhano-galega, que agora recuperava a portuguesa, ameaçada na Corte e na Chancelaria pelas particularidades, apelações e competências da Sala de Vizcaya.

No Pavo andaluz, cujos pleitos e assuntos resolvia a Chacelaria de Granada, perfeitamente podemos ver a sombra crescente do Conde Duque de Olivares, na sequência dos Alba, Medina-Sidonia e da nobreza latifundiária andaluza (por outra parte também emparentada com a galega, castelhana e portuguesa mas separada administrativa e legalmente – e portanto dividida em âmbitos de influência e poder – pela astuta separação das Chancelarias). De feito, para além da réplica contemporânea do Tordo existe uma refutação culteranista e sarcástica que também circulou manuscrita, onde toma voz o Pavo andaluz (ambas as réplicas em Mañaricua: Polémica sobre Vizcaya en el siglo XVII, Gran enciclopedia Vasca, 1976) e diz num momento:

Levantose el pavo andaluz y aviendo inclinado la cabeça al Aguila, buelto al Buho Gallego, le dixo: Muy al contrário de lo que imaginas, te ha de suceder en esta ocasión: pues desnudo de las armas del valimiento, son pocas tus fuerzas para mi competencia. (Mañaricua p. 196)

Parece confirmar a leitura direita no episódio de substituição e defenestração do valido Lerma e ascenso de Olivares que em 1625, Alvaro Cubillo de Aragón, escreva o poema Curia leónica dedicada o Conde-duque de Olivares, onde representa Filipe IV em figura de leão e os representantes da corte e conselhos em alegoria de animais. O poema político foi refundido e ampliado posteriormente para louvar o sucessor do valido, Luis Méndez de Haro, em Las cortes del león y del águila, publicado em 1654 na sua obra completa. Nesta obra, a que volveremos noutra ocasião, já a independência portuguesa aparece refletida, e não deixa de ser curioso o protesto de navarros, biscainhos e catalães em defesa dos seus foros e a obrigada mas reticente e não pouco dissimulada cesão do buho. (cfr. p.32).

O conflito, pois, não é apenas regional, senão entre poderes, áreas de influência e grupos da nobreza, pelo controlo dos aparatos do estado e provavelmente também entre uma nobreza ao Norte do Douro (Lerma-Lemos) ligada com Portugal, defensora da ideia antiga da Espanha Ocidental e da articulação polissinodal e doutra ao Sul do Tejo (Alba-Olivares) com propostas reformistas, obsidiada com incorporar Aragão e Navarra e de controlo centralizador.

Já também na geração anterior, o conflito escalara entre Rui Gomes da Silva, poderoso cortesão de Filipe II e chefe do Partido ebolista e o Duque de Alba. Os bandos de Éboli e Alba defendiam duas visões diferentes para o futuro da Monarquia Espanhola em relação a Portugal e os outros reinos. Da Silva defendia a tradicional organização polissinodal da monarquia, com o respeito dos antigos órgãos, conselhos, das leis e dos foros dos vários reinos que a constituíam; Alba (e depois Olivares) pretendia promover uma reforma de todos eles a favor do centralismo direito e a unificação impositiva, orgânica e militar à francesa, mesmo que esta tivesse que ser imposta pelas armas.

Poderíamos inferir que não apenas se trata de um choque entre duas fações de uma classe nobiliar fechada e emparentada mas com interesses diversos e portanto poderes e choques nos Conselhos de Castela, Aragón, Portugal, Italia, Indias e Flandes. Conselhos que tinham controlo independente sobre as políticas e os territórios historicamente vinculados a cada um deles no Mediterrâneo, na América, na Ásia, na Itália e em Portugal. Senão e também entre vias políticas e escolas diplomáticas globais e partidos nos reinos de Castela: a castelhano andaluza e a galego-portuguesa.

Por isso, nesta obra, na que o Conde, retirado na altura nos seus Estados de Lemos e paço de Monforte, após a queda de Lerma (o seu sogro), parece descarregar a sua raiva, e também estabelecer uma teoria política e apontar com lamentação do declive do sistema polissinodal e a postergação da nobreza da Galiza (especializada em diplomacia e informação) implicando no isolamento do moucho, e nesse Galiza contra todos e todos contra Galiza, a transformação, rotura e delírio dos valores e equilíbrios internos, a prol do centralismo e resposta militar que protagonizará o conde Duque de Olivares e que causarão em breve a quebra com Itália, Catalunha, definitivamente com Portugal e os Paises Baixos e o declive do Império espanhol.

Mas deixemos estas complexidades da política imperial para melhor ocasião e voltemos à língua. Numa das sarcásticas respostas, o moucho diz:

El jilguero portugués es mi vecino, y los finos salieron de mi patria, y antes dél recibo gusto que daño alguno, porque me entretienen con sonoros passos de garganta. Es músico, y los tales antes deleitan que enfadan. No digo esto por tenelle grato que licencia tiene para decir lo que supiere, si bien estoy cierto que los désta nación dixeren mal de la mia, serán aves mosaicas; las que no, si lo hicieran dirán de si mismas.

Resulta interessante, dentro da minusvaloração geral da representação e atributos de todas as demais nações que se comparam, a que se faz dos portugueses como pequenas aves canoras. Também é interessante (volvendo a Brito e à historiografia portuguesa anti-galega) a insistência no tópico da origem e identidade dos portugueses (e ligado a ele a limpeza de sangue) na Galiza.

A questão é que como também testemunha a corte do Conde de Salinas em Lisboa (“um castelhano/de portugués enxertado”), a língua portuguesa deleitava os ouvidos deste grupo. Que também o Conde de Lemos lia livros portugueses e tinha na sua copiosa biblioteca parece cousa segura, infelizmente não dispomos de inventário direito, por causa do incêndio no Paço condal, em Monforte de Lemos, de 1672, no que se perdeu o principal da biblioteca, arquivo e a rica coleção de obras de arte.

Porem, temos uma outra valiosa referencia na correspondência do de Gondomar a Lemos, no trabalho antes citado de Escapa:

Otras veces fue don Diego el que regaló títulos en portugués, como hizo con un ejemplar de Menina e Moça que en 1614 remitió al conde de Lemos en Nápoles (RB, ii/2168, carta 197). «Tiene boníssimas cosas y no se alla ya ninguno», le advertía. El juicio con el que Gondomar acompañó el envío abunda en su condición de lector de obras de entretenimiento, un gusto, cabe suponer, compartido por el destinatario. Si bien no sabemos de qué edición se trataba, la advertencia da a entender que en 1614 ya no era fácil hacerse con un ejemplar de una novela que había pasado del medio siglo de edad desde su primera edición. A estorbar su tráfico contribuyó sin duda la condena que la Inquisición de Portugal hizo caer sobre ella en 1581. La que previsiblemente leyó don Diego corresponde a la edición lisboeta de Francisco Grafeo del año de 1559. En el catálogo de la librería fechado en 1623, comparte con un ejemplar del Palmerín de Inglaterra, también impreso en Lisboa (1592), el marbete común de «Historias fabulosas» (BNE, ms. 13594, fol. 99v). (em ESCAPA, # 23 https://journals.openedition.org/e-spania/26660 )

Não parece detalhe de pouca importância, para a história da língua e da cultura galega, considerar que no meio e meio daqueles séculos, umas vezes douro outras sombrios, no meio das grandes agitações identitárias e fições históricas, no meio da luta pelo poder com as suas conspirações e cifrados literários, no meio dessas reconstruções que preparavam a modernidade, as línguas e as nações, que quando menos o Conde de Gondomar e provavelmente o Conde de Lemos, andassem entretidos, a lerem, Menina e moça. Obra, como sabemos, onde nada é o que parece, senão a língua meio-própria.

 

 

One comment

  1. Abanhos

    Muito bom.
    Lástima que a maioria do pessoal não entende que isso das nações como sujeito político não vai além do século XIX. Antes o que havia eram os reinos e a sua soberania, que na origem era simplesmente a propriedade do rei o soberano.
    Pouco que se ranhar sempre se descobre que os galegos, além dos seus reis em cada altura, sempre foram a mesma coisa que os pirtugueses até nas suas esquisitas disputas que mais que se afirmarem diferentes afirmavam-se soberanias que se aceitavam, por bem ou a força
    O problema é com os estados nacionais e nacionalismos a construirem estados.
    E a espanha cos seus limites a marcarnos

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