Eleições no Reino Unido: uma tentativa de explicação dos resultados eleitorais desastrosos para o Partido Trabalhista, para Jeremy Corbyn, para o Reino Unido e para todos nós, gente de esquerda (1ª parte). Por Júlio Marques Mota e Francisco Tavares

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em 20 de dezembro de 2019

1ª parte

 

Na campanha eleitoral para as eleições de 12 de Dezembro na Inglaterra, esteve  em debate o Brexit, esteve em debate não as razões que estão na base do Brexit mas as politiquices que fazem uma história já longa, fazem a história de um Parlamento que decidiu, por bem ou por mal, não cumprir o voto popular e querer substituir-se a ele, que decidiu não estar ao serviço do povo, mas servir-se dele. Nesta inversão de papéis os deputados trabalhistas terão tido um papel fundamental, uma vez que em vez de Brexieters estes deputados eram na sua maioria Remain ou Reform and Remain e, portanto, eram sistematicamente opositores à execução do referendo. Por isso se compreende que os trabalhistas tenham resistido até ao limite à exigência ou ameaça de eleições gerais.

Fez-se a campanha, fizeram-se as eleições e nestas o Partido Trabalhista perdeu estrondosamente a favor dos conservadores. Uma derrota de uma dimensão tal que pior que esta só se verificou em 1935. Porquê esta derrota?

Iremos assistir a partir de agora a muitas explicações para estes resultados, algumas serão mesmo muito violentas contra Corbyn, vindas nomeadamente, e talvez sobretudo, dos mesmos que muito contribuíram para este resultado eleitoral: o grupo dos Blairistas, para não falarmos igualmente de quase toda a imprensa londrina e dentro desta destacar-se-á o jornal Guardian. Muitas destas críticas serão puras manipulações uma vez que os maiores opositores a Corbyn provêm do grupo Remain que tem politicamente muito poder, sobretudo no Partido Trabalhista no Parlamento, e estes têm tido como slogan “All but Corbyn”, ou seja, “tudo menos Corbyn”.

Ora, Corbyn tem sido acusado de não se ter posicionado contra o Brexit, porque se o tivesse feito o Referendo teria tido o resultado oposto! Agora vai ser igualmente criticado por ter tido mais recentemente uma posição ambígua face ao Brexit em vez de ter tomado uma posição firme no Parlamento contra ele. Ora, se este tipo de críticas se verificar, diremos que é preciso ter muito pouca vergonha ou mesmo nenhuma para as apresentar, pois os dados mostram à evidência  que o povo inglês quer maioritariamente sair da UE. Mais ainda, grande parte dos maus resultados eleitorais agora obtidos devem-se ao facto de muitas das circunscrições eleitorais historicamente trabalhistas se terem deslocado para os conservadores porque era nestes que eles confiavam, que confiavam que iriam ter o Brexit. Se há uma crítica a fazer a Corbyn é de não ter forçado o partido trabalhista, apesar dos seus  blairistas, a posicionar-se a favor do Brexit e puxar a si os dividendos políticos que daí se poderiam retirar. Os dados eleitorais que iremos apresentar é isso mesmo que nos levam a concluir; que Corbyn teve estes péssimos resultados devido a ter tomado uma posição exatamente oposta, a de não se ter pronunciado a favor do Brexit.

Curiosamente, um dos mais influentes jornais ingleses, o Guardian, que é um jornal considerado  à esquerda, desde sempre fez campanha contra Corbyn. A escassos dias das eleições gerais publicava um artigo de Larry Elliott intitulado “As condições económicas favorecem a esquerda, então porque é que não se espera que o Partido Trabalhista ganhe as eleições com facilidade?” (ver aqui), onde se afirma:

“Tudo isso levanta uma questão óbvia. Se as condições económicas são – e continuarão a ser – tão favoráveis a um partido da esquerda progressista, porque é que os trabalhistas não estão em condições  de vencer imediatamente as  eleições gerais de 12 de Dezembro? Haverá aqui  algum problema com a mensagem, com a maneira como a mensagem foi comunicada, com o mensageiro ou as três coisas ao mesmo tempo? Talvez as sondagens  estejam erradas. Caso contrário, algumas lições difíceis precisam ser aprendidas. E rapidamente.”

Ora as sondagens não estavam erradas. Daqui, somos levados a admitir que  mensagem de Larry Elliot é  bem clara: para o autor trata-se de um problema de mensagem, de transmissão de mensagem e do mensageiro. Trata-se das coisas em simultâneo. E o mensageiro é Corbyn, a mensagem é a que é produzida sobretudo pelos esquerdistas dos anos 70 entre os quais John McDonnell, o Chanceler Sombra do Tesouro, que assumiram a liderança do Partido Trabalhista e o meio de transmissão é toda a máquina partidária nas mãos dos mesmos e dos jovens do grupo Momentum!

Nesta mesma altura, o Guardian dá guarida igualmente a um dos economistas  mais ortodoxos da atualidade e que é um dos  mais conhecidos defensores das politicas de austeridade, Kenneth Rogoff, num texto (ver aqui) que é um chorrilho de banalidades mas com uma mensagem implícita, a de que a Inglaterra não se pode afundar em dívida. Não pode alinhar com o programa de Corbyn. Ora o programa de Corbyn é um programa fortemente expansivo, económica e socialmente, e em que se pretende aumentar o papel do Estado como agente na economia real, aumento esse a ser aplicado e em paralelo às renacionalizações que o mesmo pretendia fazer.

No projeto trabalhista para a sociedade inglesa descrito no folheto “It ‘s time for real change- for the many not the few”, diz-nos Corbyn, ao lançar a campanha eleitoral geral do Partido Trabalhista no sul de Londres:

Esta eleição é uma oportunidade única numa geração para transformar o nosso país, atacar os interesses instalados que atingem o bem-estar das pessoas e garantir que nenhuma comunidade é deixada para trás“,. “Juntos, podemos derrubar um sistema corrupto e construir um país mais justo que realmente cuide de todos.(…)” Disse ainda: “A verdadeira mudança está a chegar ” porque “quando o Partido Trabalhista  ganha, é a enfermeira que ganha, o reformado que ganha, o estudante que ganha, o trabalhador de escritório que ganha, o engenheiro ganha. Todos nós ganhamos”.

Quanto ao texto de Rogoff, trata-se de mais um texto com uma mensagem tanto explicita como implícita relativamente ao programa económico e social do Partido Trabalhista, sobretudo deste, porque a escala expansionista em que este se coloca não tem nada a ver com a escala em que se coloca o Partido Conservador.

Boris Johnson, por seu lado, viu-se obrigado a uma política económica expansionista e a uma política social favorável às classes menos favorecidas para assim captar o voto dos trabalhistas das zonas abandonadas pela globalização feliz ao mesmo tempo que lhes garantia o Brexit. Desta forma, coloca-se nas antípodas do que tem sido a política económica e social desenhada e executada pelos Conservadores, grandes defensores do aprofundamento do mercado livre e da redução do papel do Estado. E essa dupla política, o Brexit mais a política económica e social expansionista, deu eleitoralmente os seus resultados, tornando-se devastadora para o Partido Trabalhista em zonas que historicamente poderiam ser consideradas um feudo do Labour, como as Midlands e o norte desindustrializado da Inglaterra, como veremos ao apresentar alguns dos mais emblemáticos resultados eleitorais.

Para se perceber bem os resultados eleitorais destas eleições inglesas, devemos ter em conta o efeito devastador da globalização feliz sobre vastas zonas da Inglaterra, globalização esta assente no modelo neoliberal de que a União Europeia se assume como guardiã e zeladora pela sua aplicação no espaço comunitário. Relembremos aqui que políticas neoliberais puras e duras foram aplicadas em profundidade pelos Conservadores desde Margaret Thatcher a Cameron e pelos Trabalhistas com Blair e Brown. E quanto aos seus efeitos devastadores, nada melhor do que reproduzir aqui alguns excertos do relatório produzido por “Equality Trust” sobre a desigualdade no Reino Unido, conforme noticiado pelo correspondente Rupert Neate no The Guardian, em 3 de dezembro último (ver aqui):

“A pobreza extrema é a história dos Ferraris e dos bancos alimentares” diz a organização  Equality Trust

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Seis bilionários no topo da liga de riqueza do Reino Unido têm uma fortuna combinada de £39,4 mil milhões. Fotografia: Dan Kitwood/Getty Images

 

As seis pessoas mais ricas do Reino Unido controlam tanta riqueza como os 13 milhões mais pobres, de acordo com estudos sobre a desigualdade crescente na sociedade britânica.

Seis bilionários no topo da liga da riqueza do Reino Unido têm uma fortuna combinada de 39,4 mil milhões de libras esterlinas, que, de acordo com a análise do Equality Trust, é aproximadamente igual aos ativos de 13,2 milhões de britânicos de menores rendimentos .

Os seis mais ricos são: os irmãos indianos Gopichand e Srichand Hinduja, que controlam um conglomerado de empresas, nomeadamente carros e bancos, e lideram a tabela com uma fortuna de £12,8 mil milhões; Sir Jim Ratcliffe, presidente e CEO da empresa química Ineos, com £9,2 mil milhões; o gestor do fundo de cobertura (fundo especulativo) Michael Platt, que tem uma fortuna estimada em £6,1 mil milhões; e os irmãos promotores de  imobiliários David e Simon Reuben, cujo património líquido é estimado em £5,7 mil milhões cada. As estimativas são baseadas em relatórios de riqueza produzidos pela revista Forbes e pelo Credit Suisse.

(…)

O líder trabalhista nomeou outros cinco membros da “elite” que ele visaria se se tornasse primeiro-ministro: Mike Ashley, o proprietário da Sports Direct; Crispin Odey, um chefe de um fundo de investimento especulativo que fez milhões a apostar contra a libra no período que antecedeu o referendo da UE; Rupert Murdoch, proprietário do Sun and the Times; e Hugh Grosvenor, o Duque de Westminster, que controla um grande império imobiliário no centro de Londres e Jim Ratcliffe, director executivo da empresa petroquímica Ineos.

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Só para bilionários, por favor! O cofre de Londres só se abre para os ultra-ricos.

(…)

No outro extremo da escala, o Equality Trust estimou que cerca de 14 milhões de pessoas na Grã-Bretanha vivem na pobreza. Destas, quatro milhões são consideradas mais de 50% abaixo do limiar da pobreza e 1,5 milhões são indigentes.

“Este relatório deve chocar qualquer pessoa que se preocupe com o estado atual do Reino Unido”, afirmou a Dra. Wanda Wyporska, diretora executiva do Equality Trust. “Um fosso tão grande entre os muito ricos e a grande maioria do país é perigoso. Essa riqueza extrema nas mãos de tão poucas pessoas demonstra como o sistema económico está quebrado.”

“Por detrás dos números, a extrema desigualdade do Reino Unido é a história dos Ferraris e dos bancos alimentares. Famílias de todo o país estão a trabalhar para lutar contra a pobreza e são incapazes de prometer aos seus filhos um futuro melhor e mais seguro. Os ricos vivem mais tempo e os seus filhos recebem a melhor educação, os melhores empregos e uma grande ajuda na escada da habitação. A economia do Reino Unido fornece milhares de milhões para alguns e a pobreza para milhões. A miséria é a triste realidade para milhões neste Natal”.

O combate à desigualdade tornou-se um campo de batalha fundamental na campanha das eleições gerais, com o líder trabalhista, Jeremy Corbyn, a prometer que um governo trabalhista iria atuar contra as pessoas super-ricas que exploram um “sistema manipulado” para se beneficiarem à custa de muitos.”

Resumindo, a situação inglesa em termos de desigualdade (ver aqui):

  • No Reino Unido, as cinco famílias mais ricas possuem mais riqueza do que 13,2 milhões de pessoas.
  • Nos últimos dez anos, o número de bilionários no Reino Unido quase duplicou e a riqueza dos bilionários do Reino Unido mais do que duplicou desde 2010.
  • O grupo dos 1% da população mais ricos no Reino Unido possui a mesma riqueza que 80% das pessoas no Reino Unido, ou seja, 53 milhões de pessoas.
  • 14 milhões de pessoas, um quinto da população, vivem na pobreza. Quatro milhões destes estão mais de 50% abaixo do limiar de pobreza, e 1,5 milhões são indigentes, incapazes de pagar os bens essenciais básicos

Desde 2010, o número de bilionários no Reino Unido quase dobrou, de 29 bilionários em 2010 para 54 bilionários em 2019. Durante o mesmo período, a quantidade de riqueza detida pelos bilionários no Reino Unido mais do que dobrou, de 58,1 mil milhões de libras em 2010 para 123 mil milhões de libras em 2019.

Entretanto, a pobreza aumentou

Há 4,1 milhões de crianças que vivem na pobreza, 70% das quais em famílias trabalhadoras e este número deverá aumentar para 5,2 milhões até 2022. De acordo com o Relator Especial da ONU sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema, “14 milhões de pessoas, um quinto da população, vivem em pobreza. Destes, quatro milhões estão mais de 50% abaixo do limiar de pobreza e 1,5 milhões de euros abaixo do limiar de pobreza. são indigentes, incapazes de pagar o essencial básico”. Ao mesmo tempo em que a Forbes calculou a lista de bilionários em março de 2019, o Trussell Trust informou que a  sua rede de  “bancos alimentares distribuiu 1,6 milhões de suprimentos alimentares de emergência de três dias para pessoas em crise, um aumento de 19% de aumento em relação ao ano anterior. Mais de meio milhão destas ajudas foram para crianças “.

 

Este é pois o contexto económico e social que poderíamos dizer muito favorável ao programa do Partido Trabalhista, contexto este que foi curto-circuitado pelo Brexit e pela política económica e social concebida por Boris Johnson como contraponto. Esta viragem “à esquerda” de Boris Johnson é tão relevante que um conservador de alto gabarito, Victor Hill, considera que atualmente o Partido Conservador não é um partido de direita mas sim de centro esquerda! A estes dois  poderosos favores de contenção do Partido Trabalhista devemos acrescentar dois outros; 1) o papel dos media dominantes desde sempre dispostos a todos os golpes para denigrir a imagem de Jeremy Corbyn, entre os quais se distinguiram a “independente” BBC e o Guardian para além de toda a imprensa de direita; 2) o comportamento eleitoral das classes médias altas que deslocaram o seu voto para os Liberais Democratas, do que falaremos a seguir.

Adicionalmente, na companha de ataques desferidos contra Corbyn temos também que salientar o papel negativo dos blairistas, ainda com muito peso no Partido Trabalhista, que tomaram como slogan ”ABC- All But Corbyn”.

A seguir apresentamos dois excertos que nos mostram como Corbyn é visto tanto pela direita “pura” como pela esquerda “pura”, a blairista. O leitor que procure as diferenças se estas existirem, uma vez que não as vislumbro. Garantidamente!

The Telegraph, a direita ”pura”

O Corbynismo foi esmagado pela decência e bom senso da classe trabalhadora britânica (ver aqui)

Por James Bickerton, em 16 Dezembro de  2019

Na quinta-feira passada, o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn não foi apenas derrotado. Foi esmagado. Foi reduzido a quase nada. Foi esfarrapado.

Claro que isto não é mais do que ele merecia. Mas o que deve ser particularmente intolerável para os seus adeptos é que a classe trabalhadora, não uma elite mal definida, deu-lhe  o golpe fatal. O corbinismo foi vencido precisamente pelas mesmas pessoas em nome das  quais arrogantemente proclamou falar.

(…)

(…) A suprema ironia de tudo isto é o colapso do apoio da classe trabalhadora ao Partido Trabalhista que teve lugar sob Corbyn, um homem que vendeu o conflito de classes mais cruamente do que qualquer outro líder na era moderna.

A estratégia eleitoral do Partido Trabalhista foi baseada em torno de sua pretensão de falar pelos “muitos” contra os “poucos”, com ambas as categorias a ficarem  deliberadamente mal definidas. (…)

(…)

Claro que estes resultados eleitorais  se deveram  em grande parte ao Brexit, que todas as sondagens disponíveis indicavam ter um apoio desproporcionado da classe trabalhadora, mas isto não foi uma exceção à regra. (…)

Às vezes, sentia-se que os trabalhistas estavam mais interessados em fortalecer o poder do Estado para o seu próprio proveito, independentemente dos beneficiários, do que em ajudar qualquer grupo social em particular.(…)

(…)

O corbinismo, com o seu anti-semitismo e simpatia para com os bandos terroristas, foi esmagado pela decência e bom senso da classe trabalhadora britânica. Que assim continue por muito tempo.

The Guardian, a esquerda “pura”

Desprovido de agilidade, carisma e credibilidade, Corbyn levou os trabalhistas ao abismo, é o título de um artigo de Polly Toynbee num artigo de 13/12/2019.

Num outro artigo, desta vez de Jonathan Freedland (um indefectível blairista), da mesma data (ver aqui), o título é: Este resultado eleitoral é um repúdio do Corbynism. O PartidoTrabalhista tem de abandonar a política de seita.

E prossegue este autor:

Uma clique de extrema-esquerda dos anos 70 levou o partido a um beco sem saída – e são os pobres e vulneráveis que vão pagar o preço.

(…)

Podemos estar zangados com os Conservadores por terem ganho esta eleição, mas temos de sentir a mesma raiva pelas pessoas que os deixaram ganhar. Estou a falar daqueles que conduziram o principal partido da oposição por um beco sem saída que acabou no pior desempenho eleitoral dos trabalhistas desde a década de 1930 – um desempenho que bateu novos recordes de fracasso. (…)

Os defensores da liderança não perderam tempo a culpar o Brexit. É verdade que o Brexit convulsionou a nossa política e tornou a coligação eleitoral trabalhista perigosamente difícil de manter unida. Mas faça-se  uma pausa antes de declarar que esta foi a eleição do Brexit: de facto, o Serviço Nacional de Saúde (de sigla NHS) ultrapassou o Brexit como a principal preocupação dos eleitores. O problema foi que os eleitores confiaram mais em Johnson do que em Jeremy Corbyn. (…)

(…) Os dados das sondagens eram claros e volumosos neste ponto muito antes das eleições. Corbyn é o líder da oposição mais impopular desde que há registos. E embora possamos não gostar, sabemos que a avaliação dos eleitores sobre os líderes do partido desempenha um papel importante na sua decisão.

(…)

Talvez fosse demais pedir que ele abrisse caminho para um candidato menos certo de repelir o eleitorado. Mas ele fez disso uma campanha presidencial, deu o seu rosto em todos os lugares enquanto outros pesos pesados trabalhistas foram banidos das ondas de rádio. No seu lugar estavam factualmente reconhecidos cães que aprovavam acenando com a cabeça como Richard Burgon. Não importava que fossem inúteis, o que importava era que fossem leais à clique dominante.

Os trabalhistas e Corbyn inventaram um manifesto mais cheio de ofertas do que a gruta do Pai Natal, e mais ou menos tão credível como aquela . O eleitor que gostou bastante do açúcar adicional no seu chá representado por, digamos, propinas gratuitas, engasgou-se quando o adoçante de tarifas ferroviárias reduzidas, da  compensação Waspi, da banda larga gratuita e de uma promessa de £6.700 por ano para cada família foram todos eles colocados na chávena de chá.

(…) a clique de liderança arrastou na campanha eleitoral a sua bagagem dos anos 70 e as suas obsessões ideológicas arcanas – o anti-semitismo surgiu não por acaso, mas como o resultado inevitável de uma tensão de pensamento conspiracionista de esquerda – que os marcou como maníacos, impróprios para governar o país.

(…)

Em contraponto a esta linguagem de escárnio e ódio vejamos um excerto do que nos diz Corbyn face aos resultados eleitorais :

“A polarização no país sobre o Brexit tornou mais difícil para um partido com forte apoio eleitoral de ambos os lados. Creio que pagámos um preço por termos sido vistos por alguns como uma tentativa de ultrapassar essa divisão ou de querermos voltar a realizar o referendo. (…)

Precisamos agora de ouvir as vozes daqueles que, em Stoke e Scunthorpe, Blyth e Bridgend, Grimsby e Glasgow, não apoiaram os trabalhistas. O nosso país mudou radicalmente desde o crash financeiro e qualquer projeto político que finja o contrário é uma indulgência, é uma pobreza. (…)

Orgulho-me de termos ganho os argumentos e reescrito os termos do debate político sobre a austeridade, o poder empresarial, a desigualdade e a emergência climática. Mas lamento que não tenhamos conseguido converter isso numa maioria parlamentar a favor da mudança.

Sofremos uma pesada derrota, e eu assumo a minha responsabilidade por isso. Os trabalhistas terão em breve um novo líder. Mas seja quem for, o nosso movimento continuará a trabalhar em prol de uma sociedade mais justa e equitativa e de um mundo sustentável e pacífico.

Passei a minha vida a fazer campanha por esses objetivos, e vou continuar a fazê-la. A política da esperança deve prevalecer sobre tudo o resto.”

 

Em suma, Corbyn é politicamente assassinado por ter cão e por não ter cão, como diria o ditado popular português. Politicamente assassinado por não ser pelo Brexit, e aqui temos o deslocar dos votos das classes trabalhadoras para os Conservadores. Também politicamente assassinado por não ser um europeísta, por não defender a permanência na União Europeia, daí o deslocamento de votos defensores da permanência na União Europeia  para os Liberais Democratas, um voto aparentemente perdido dado o sistema uninominal inglês, mas não foi um voto perdido porque atingiram o principal adversário Corbyn, o slogan ABC, retirando o voto aos trabalhistas.

(continua – amanhã publicaremos a conclusão deste artigo)

 

 

 

One comment

  1. C. Leça da Veiga

    Regressar ao ano de 1938 e voltar à Política do Apaziguamento, isto é, não ser abertamente contra a UE/IVºReich seria optar pela desonra e, como disse Churchill, “ter a guerra”. Felizmente a população inglesa conservou os ensinamentos de W.Churchill e sob dizer alto aos germânicos. O Senhor Corbyn falhou. Que esperar duma imitação de Chamberlain . CLV

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