
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
Os chiques contra as pessoas comuns
Por George Friedman
Editado por
em 17 de dezembro de 2019 (The Posh versus the Blokes in the UK, ver aqui)
Cheguei a Londres no sábado à tarde. O trânsito estava pesado e demorou quase duas horas para chegar ao meu hotel, dando muito tempo para falar com o meu motorista. Foi um tempo bem passado. Era um escocês que já vivia e conduzia em Londres há muito tempo. Discutimos a eleição, claro, e a devastação do Partido Trabalhista e a ascensão dos Conservadores. Ele tinha votado nos Conservadores. Ele explicou que isso se devia à sua repugnância pelo que ele chamou de “chiquismo londrino ” e ao seu ódio à Inglaterra ao mesmo tempo que se enriquece de forma desenvergonhada e se despreza todos os que não têm o culto que eles têm.
Por “culto” ele não se estava a referir à religião, mas à crença deles de que a Inglaterra é corrupta e exige uma reforma implacável. Ele estava particularmente enfurecido que a mensagem expressa pela canção “Rule Britannia ” fosse vista pela esquerda chique como vergonhosa, porque prestava homenagem a um mal pelo qual a Grã-Bretanha deveria estar a desculpar-se repetidamente: o Império Britânico. A perda do império não o incomodava. O que o incomodava era que a esquerda chique não estava disposta a respeitar que quaisquer que fossem as falhas que a Grã-Bretanha pudesse ter tido, a Grã-Bretanha foi um grande momento na história humana, e ele como súbdito britânico e como escocês não estava preparado para se envergonhar disso.
O que aconteceu na Grã-Bretanha é algo que pode ser visto em outros lugares. O partido de esquerda tornou-se o partido da elite abastada e educada. Os conservadores tornaram-se o partido dos trabalhadores. Os primeiros exigem o direito de manter o seu estatuto, mas também de redefinir o significado da história de uma nação e usar o seu poder para impor princípios morais a uma sociedade que não está preparada para os respeitar. O Partido Trabalhista da Inglaterra tinha sido o partido da classe trabalhadora, mas parece, em grande medida, ter-se virado contra os trabalhadores.
A questão da União Europeia está misturada com isto. Os chiques (vou usar este nome quando me refiro às elites das grandes cidades britânicas) apoiaram entusiasticamente a adesão à UE. De acordo com o meu motorista, os chiques de esquerda estão todos envolvidos nas finanças, e eles viram a filiação na UE como benéfica para eles. Mas houve outro aspeto que ele não mencionou. Se uma das coisas que o você deseja fazer é entrar a fundo na história britânica e negar aos britânicos o direito de admirar a grandeza e se perdoarem a si mesmos o mal que fizeram, então a UE é o veículo perfeito. Ao anunciar e tentar impor uma identidade europeia, desvalorizando a própria nação, a UE deu aos chiques uma ferramenta poderosa para subordinar a brilhante, escura e amada história da Grã-Bretanha.
O desejo desta classe social de ganhar mais dinheiro é fácil de entender. Mais difícil de entender é o desejo desta mesma classe de redefinir a lembrança britânica do seu passado. Quando os eleitores optaram por deixar a UE, estas elites ficaram estupefactas e enfurecidas. Podia-se ler muitas vezes sobre como as pessoas que votaram a favor da saída da União Europeia eram consideradas pessoas pouco instruídas, sem qualquer compreensão do que estavam a fazer. Os chiques queriam deslegitimar a eleição e insistiam em que fosse repetida. O desejo de uma repetição era do seu interesse racional, mas algo mais estava a acontecer. Os chiques acreditavam ter o direito de governar, e que aqueles que votaram contra eles eram pretendentes ilegítimos ao poder. À medida que a luta para reverter o Brexit se intensificava, a batalha para deslegitimar os inimigos da UE também se intensificava. Tendo começado por declarar os eleitores ignorantes, eles estenderam o seu ataque para incluir uma série de outros valores, como o patriotismo, e o direito de preservar e celebrar a cultura britânica. A luta pelo Brexit não iniciou a guerra cultural, mas empurrou a classe trabalhadora industrial para uma revolta contra os chiques e as suas crenças.
Havia, naturalmente, uma enormíssima dimensão económica. A classe operária industrial das Midlands não estava a sentir nenhum benefício de se pertencer à UE. Os chiques de Londres, esses estavam. A UE desempenhou um papel importante nisto. A Grã-Bretanha é a segunda maior economia da UE, e a sua perda seria extremamente dolorosa. A UE tinha duas rotas possíveis. Uma era chegar a uma redefinição da relação com a Grã-Bretanha. A outra era ser totalmente rígida em encontrar uma resolução. A hipótese seguida pela UE foi a de que a rigidez era mais racional, uma vez que forçaria uma mudança no alinhamento político britânico que reverteria o Brexit. Fez tudo o que podia para fazer o Brexit parecer um desastre, e convenceu todos aqueles que já acreditavam nisso, enquanto alimentava fortemente a raiva contra a UE naqueles que não acreditavam. A colaboração política entre os chiques e a UE levou a um aumento do fosso que separava as duas classes sociais inglesas e reforçou a crença de que a aceitação racional da UE estava a ser bloqueada por nacionalismo primitivo e ignorante. Assim, as batalhas económica e financeira fundiram-se.
A estrutura política britânica mudou enormemente. O Partido Trabalhista tinha sido o partido da classe trabalhadora industrial e alinhado com a sua cultura, ao contrário dos marxistas que o queriam transformar. O Partido Conservador era o partido dos ricos e do império. Hoje, o Partido Trabalhista é o partido dos chiques, exigindo mudanças culturais, enquanto os Conservadores são o partido que perdeu Londres chique e tirou um enorme pedaço das Midlands industriais. Deve-se notar que a grande mudança foi cultural e não económica. O Partido Trabalhista não foi claro quanto à UE e partilhava com os chiques o desejo de uma reforma moral. Os Conservadores estiveram do lado da classe trabalhadora, tanto em questões económicas como culturais.
O realinhamento britânico é algo que também vemos mais amplamente no mundo euro-americano. Os partidos que antes eram da classe trabalhadora passaram a apoiar os abastados e a concentrar-se na mudança cultural. Os partidos que antes eram os partidos dos ricos estão agora a falar pelos trabalhadores, e particularmente pelas suas opiniões culturais. Isto não é nada particular para a Grã-Bretanha. O desejo de proteger os valores culturais tradicionais é poderoso entre as classes trabalhadoras, que veem o ataque aos seus valores por antigos aliados como uma traição. Assim, o Partido Trabalhista tornou-se o partido dos chiques, e os Conservadores falam pelo meu motorista de táxi.
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O autor: George Friedman é um analista geopolítico internacionalmente reconhecido e estrategista em assuntos internacionais e fundador e presidente da Geopolitical Futures. O Dr. Friedman é um autor best-seller do New York Times e o seu livro mais popular, The Next 100 Years, é mantido vivo pela presciência das suas previsões. Outros livros mais vendidos incluem Flashpoints: The Emerging Crisis in Europe, The Next Decade, America’s Secret War, The Future of War e The Intelligence Edge. Os seus livros foram traduzidos para mais de 20 idiomas. O Dr. Friedman informou várias organizações militares e governamentais nos Estados Unidos e no exterior e aparece regularmente como especialista em assuntos internacionais, política externa e inteligência nos principais meios de comunicação. Por quase 20 anos antes de renunciar em maio de 2015, o Dr. Friedman foi CEO e então presidente da Stratfor, uma empresa que fundou em 1996. Friedman recebeu o seu bacharelado pela City College da City University of the City University of New York e é doutor em Governação pela Cornell University.

O Autor esqueceu de mencionar – e isso é importantíssimo -. que a Inglaterra nunca viu com bons olhos a existência dum bloco continental europeu. Sempre que um qualquer conglomerado continental europeu pretendeu impor regras aos ingleses, felizmente, perdeu. Henrique VIII libertou-se da ditadura do Vaticano; W. Pitt levou Napoleão de vencida; W. Churchill, conduziu sabiamente a derrota de Hitler e, agora, mais uma vez, felizmente, os germânicos – sempre iguais a si próprios – estão a ter a resposta que mais convém a todos os europeus. CLV