Um epitáfio político para Corbyn. Por Juan Antonio Sacaluga

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Seleção e tradução de Francisco Tavares

Um epitáfio político para Corbyn

O Brexit provocou uma grande polarização e o partido Trabalhista não superou a divisão entre remainers e leavers.

juan a sacaluga Por Juan Antonio Sacaluga

Editado por nueva tribuna, em 18/12/2019 (ver aqui)

 

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Na exposição pública que fez sobre as razões da “decepcionante” derrota eleitoral de 13 de dezembro, o líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, estabelece as chaves do que aconteceu e as suas consequências (1). Dessa exposição podem extrair-se dez ideias:

1) A volatilidade política acentuou-se. Em 2017, o partido Trabalhista, já com a atual liderança, subiu dez pontos e em 2019 desceu oito.

2) As comunidades das zonas industriais arrasadas das Middlands, Gales e o norte sentem uma grande frustração perante a desigualdade e a falta de soluções.

3) O Brexit provocou uma grande polarização e os Trabalhistas não conseguiram superar a divisão entre remainers e leavers.

4) Os conservadores capitalizaram este sentimento de frustração com uma falsa mensagem em volta do Brexit, apesar da sua própria incapacidade para levá-lo a cabo.

5) O Partido Trabalhista duplicou os seus efetivos em dois anos e impôs-se no debate público sobre a necessidade de uma mudança social, expresso na simpatia demonstrada em relação ao programa eleitoral (Manifesto).

6) Esta autoridade política não teve correspondencia num triunfo eleitoral, necessário para enterrar as políticas de austeridade e promover melhorias para os setores mais desfavorecidos.

7) A tarefa que temos por diante consiste em continuar a escutar essas comunidades, e não afastarmo-nos delas e voltarmos a defender políticas injustas.

8) A classe trabalhadora deve continuar a ser a força motriz do partido.

9) A grande maioria dos meios de comunicação, aliados dos conservadores e dos poderes económicos, foram muito hostis.

10) Assumiu a responsabilidade pessoal pelo fracasso eleitoral e anunciou a sua demissão como líder, uma vez feita uma reflexão e que se prepare a sucessão.

 

A CRÍTICA INTERNA TRABALHISTA

No partido e no meio trabalhista, há coincidências e divergências nas críticas desencadeadas pelo resultado mais desfavorável desde 1935. Moderados e radicais coincidem em:

– Censurar o instinto defensivo, quase impermeável de Corbyn, ao rodear-se somente dos mais fieis e desprezar, senão mesmo afastar e purgar, qualquer elemento crítico.

– Ressaltar a acumulação de propostas sem clareza nem consistência. A defesa dos serviços públicos ficou submersa sob um programa (Manifesto) sobrecarregado de promessas discutíveis (a semana laboral de 4 dias ou a gratuidade da banda larga, por exemplo).

– Destacar a falta de jeito, indefinição e ambiguidade de Corbyn sobre o Brexit. A posição favorável à saída da Europa foi corrigida com a defesa de outro referendo mas sem definir uma posição: não se contentou nem aos remainers nem aos leavers (2).

Em The New Statesman (publicação situada à esquerda do The Guardian), o escritor e documentalista Paul Mason disseca os erros e a falta de jeito de Corbyn e reclama uma convergência não só entre as distintas correntes do partido, mas também com o centro liberal para travar os nacional-populistas nas municipais da próxima primavera (3).

Os setores alinhados que dominam o bloco parlamentar, mais ou menos com o blairismo, sentem-se maltratados por Corbyn desde 2017, admitem que as disputas internas pelo Brexit influenciaram o resultado (seria impossível negá-lo), mas retiram importância a este fator ou consideram-no secundário em relação ao estilo de liderança. Os moderados apontam Corbyn como o responsável do fracasso, baseando-se nas seguintes censuras:

– atrincheiramento numa ideologia estatal, baseada no aumento do gasto público e no intervencionismo, sem ter em conta a capacidade real de gestão e o impacto fiscal.

– sectarismo organizativo com o afastamento de dirigentes não incondicionais.

– campanha caótica e errática, dominada pela proliferação de mensagens, falta de foco numa propuesta clara e convincente, luta de egos e escassa habilidade comunicativa (4).

– antisemitismo subjacente, assunto que gerou uma polémica abundante durante o verão sem desaparecer completamente, o que teria prejudicado a imagem ética do partido.

 

Não obstante, tanto moderados como progressistas não corbynistas admitem que o septuagenário deputado por Islington teve a coragem para defender uma visão de igualdade e direitos sociais num ambiente devastado após a austeridade neoliberal dos conservadores (e também de Blair, não o esqueçamos) e a hostilidade da maioria dos meios de comunicaçõo.

Os porta-vozes da moderação não oferecem, porém, um relato conclusivo sobre como se deveria ter respondido à intoxicação provocada pelo Brexit. Quando Corbyn defendia a saída de uma União Europeia dominada pelo neoliberalismo, criticavam-no. Quando tentou situar-se numa posição intermédia entre remainers e leavers, acusaram-no, com certa razão, de ambiguidade e falta de clareza.

O apoio a um segundo referendo custou ao trabalhismo a perda de muitos dos seus feudos do norte. A sua base operária aderiu ao relato que atribuí à Europa boa parte da responsabilidade na decadência. A destruição do tecido industrial tinha que ver sobretudo com fatores internos do sistema britânico, mas essas verdades incómodas não eram tragáveis.

 

A FUGA DO VOTO OPERÁRIO PARA O NACIONAL-POPULISMO

Os exegetas do Brexit encontraram-se perante uma oportunidade inédita: saldar a sua obsessão doentia com o continente e fazerem valer a demagogia nacional-populista para “romper o muro vermelho” e conquistar distritos eleitorais operários secularmente afetos ao trabalhismo (5). Margaret Thatcher destruiuas nunca atraiu as bases trabalhadoras. Johnson, pelo contrário, fez apelo ao operário desesperado que, à falta de propostas verdadeiramente alternativas, agarra-se à solução milagrosa do Brexit. “Surgiram os “tories vermelhos”, intitulava o muito eurofóbico Daily Telegraph, entre a ironia e a alegria (6). Um voto emprestado, como reconhecia Johnson, que não é tory, nem pode sê-lo, mas antes nacional-populista, Como ocorre, mutatis mutandis, em França, Alemanha, os países nórdicos, Itália, e, em menor medida de momento, a própria Espanha.

A oposição conservadora aproveitou a campanha de demolição do líder trabalhista de turno praticada pelos corrosivos tablóides para debilitar ainda mais a imagem de Corbyn. Somente foram mais benignos ou, no caso dos diários de Murdoch, até mesmo favoráveis.

Os meios liberais como o semanário The Economist foram mais comedidos nas suas certidões de óbito, embora já tivessem desqualificado a proposta trabalhista como perigosa para a economia, excessiva no seu alcance, profusa em detalhes e confusa na sua apresentação (7). Então, na sua estimativa de derrota, o caderno de notas Bagehot do The Economist acentuava a importância das desaconselháveis companhias de que Corbyn se tinha rodeado:

– o movimiento de base Momentum, a que chama a “guarda pretoriana”, com os seus 40.000 ativistas, que primero o elevaram à liderança do partido e depois o “protegeram” das críticas de parlamentares e outros setores moderados,

– a facção mais radical dos sindicatos, em particular de Unity, que controla a direção dos Trade Unions desde a sua ruptura com Blair.

The Economist prevê que estes males prevalecerão no processo de transição. A influência de Momentum e da ala radical dos sindicatos continuará e a nova liderança estará tão à esquerda como Corbyn (8).

É tempo de reflexão mas seria um erro atirar tudo fora, a criança e a água da banheira. Afinal, o trabalhismo obteve uns 32% dos votos (o sistema eleitoral britânico, já se sabe, premeia de forma abusiva ao que é mais votado). Uma percentagem que bem gostariam ter os socialistas na Holanda (6%), em França (menos de 8%), na Bélgica (16%), na Itália (19%), na Alemanha (20,5%); e ainda assim superior à dos países onde governam, como Suécia e Espanha (28%) ou a Dinamarca (26%) e Finlândia (18%). Somente em Portugal ou em Malta a social-democracia reúne maior apoio popular.

 

NOTAS

(1) “We won the argument, but I regret we didn’t convert that into a majority for change”.  JEREMY CORBYN. THE OBSERVER, 14 de dezembro.

(2) “Why Labour lost -and how it can recover from an epic defeat”. GEORGE EATON. THE NEW STATESMAN, 15 de dezembro.

(3) “Corbynism is over. Labour’s new leader must unite the center and the left”. PAUL MASON. THE NEW STATESMAN, 13 de dezembro.

(4) “Clash of egos and ‘policy incontinence’: inside Labour’s campaign”. HEATHER STEWART. THE GUARDIAN, 13 de dezembro.

(5) “Working-class voters desert Labour as ‘red wall’ crumbles”. JOHN HARRIS y JOHN DOMOKOS. THE GUARDIAN, 13 de dezembro.

(6) “A great victory for Red torysm. But Boris can’t take his new voters for granted”. PHILLIP BLOND. THE DAILY TELEGRAPH, 14 de dezembro.

(7) “Labour publishes s a manifesto to expand the British state. THE ECONOMIST, 21 de novembro.

(8) “Jeremy Corbyn’s crushing defeat”. BAGEHOT. THE ECONOMIST, 13 de dezembro.

 

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O autor: Juan Antonio Sacaluga: durante 30 anos trabalhei na RTVE, onde desempenhei, entre outras, as seguintes responsabilidades: Coordenador dos correspondentes na RNE, Chefe de Notícias Internacionais (1988-1995), Director de Notícias Internacionais (1995-1999) e Director de ‘En Portada’ (2004-2008). Em Dezembro de 2008, foi-me aplicado o dossier de regulamentação do emprego RTVE e estou numa situação de pré-reforma. Na área universitária, leccionei a disciplina de Televisão no Mestrado em Relações Internacionais e Comunicação, Universidade Complutense de Madrid, entre 2000 e 2010. Atualmente, publico as minhas análises na Fundación Sistema e na Nueva Tribuna.

 

 

 

 

 

 

 

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