A DISTOPIA DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS DA AUSTRÁLIA – UMA OUTRA ENTRADA PARA O BOLETIM NEOLIBERAL – por BILL MITCHELL

Australia’s bushfire dystopia – another entry for the neoliberal report card, por Bill Mitchell

Bill Mitchell – Modern Monetary Theory, 9 de Janeiro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A crise da Austrália

É difícil sentir mais vergonha pela minha nacionalidade do que já sinto pela forma como temos permitido que sucessivos governos australianos encarcerem indefinidamente refugiados inocentes nas ilhas do Pacífico, ao longo de muitos anos.

Estas pessoas procuravam abrigo da opressão e da agitação, grande parte da qual provinha, inicialmente, do facto de os nossos governos terem decidido jogar à bola com as nojentas e ilegais invasões de várias nações (Afeganistão, Iraque, etc.) desencadeadas pelos  americanos.

Existe uma profunda insegurança cultural na Austrália, onde parecemos pensar que qualquer coisa americana deve ser celebrada e priorizada em relação à nossa própria identidade e capacidades.

Essa “bajulação cultural” atravessa todas as áreas das nossas vidas – política, cultural e educacional. Precisamos de crescer.

Nos anos 60, o nosso Primeiro Ministro foi convidado a resumir a nossa política externa. Ele respondeu “Irei até ao fim com  Lyndon B. Johnson,”!

Em 1999, vários meios de comunicação social começaram a referir-se ao nosso primeiro-ministro (então John Howard) como o xerife adjunto dos Estados Unidos em referência ao nosso compromisso de nos juntarmos e  à atividade militar americana, na sua maioria ilegal na região. Howard nunca negou ou desrespeitou o uso do termo.

Foi era profundamente embaraçoso para uma nação independente, mas mesmo assim continuamos em frente a acompanhar os americanos.

Aqui estávamos, como um cão de colo, unindo-nos a empreendimentos ilegais sob o diktat  de um personagem louco como Bill Clinton e depois George W Bush.

Devíamos ter louvado a nossa independência e a nossa própria confiança para resistir à cultura imperialista dos EUA e ao culto da celebridade.

Tudo muito vergonhoso.

Mas, esse nível de vergonha aumentou nos últimos anos, pois  torna-se  óbvio que nosso governo está a liderar  uma cabala de negação das mudanças climáticas, o que está a minar  os esforços globais para agilizar as respostas razoáveis à crise.

Desde  há  alguns anos, tenho vindo a realizar  projetos de investigação  para o União dos Sindicatos de Bombeiros sobre uma série de questões diferentes.

Gosto de pensar que, como resultado desse trabalho, tenho uma boa compreensão do sector, dos seus desafios e dos riscos que as nossas comunidades enfrentam neste contexto.

Se as pessoas na população em geral realmente entendessem de que maneira nos tornamos vulneráveis em termos de proteção contra incêndios como resultado da austeridade  governamental, então a sensação de alarme seria enorme.

Nós calculamos a taxa de resposta e os quocientes de danos e somos capazes de calcular com bastante precisão quando os danos passam de pequenas perdas patrimoniais a graves perdas humanas.

As taxas de resposta são impulsionadas pelo investimento em infraestrutura e desenvolvimento de competências, e pelo número de bombeiros capazes de serem destacados rapidamente.

Já antes escrevi   sobre a miopia do neoliberalismo. Por exemplo: :

1. Mental illness and homelessness – fiscal myopia strikes again (January 5, 2016).

2. British floods demonstrate the myopia of fiscal austerity (January 4, 2016).

3. The myopia of fiscal austerity (June 10, 2015).

4. The myopia of neo-liberalism and the IMF is now evident to all (October 8, 2014).

Há inúmeros exemplos ao longo desta era neoliberal em que os governos, procurando reduzir os seus gastos líquidos, para gerarem excedentes sem considerar se essa ambição é apropriada, dado o gasto não governamental e as decisões de poupança, acabam por ter de aumentar os seus gastos líquidos em múltiplos dos montantes inicialmente reduzidos, como resultado dos impactos dessas reduções iniciais.

A minha própria pesquisa para a UFU ao longo de muitos anos indicou um subfinanciamento substancial dos serviços de bombeiros.

O governo federal, que emite a moeda, sempre atribui a culpa de quaisquer questões como esta aos governos estaduais, que, de acordo com a nossa Constituição, assumem a maior parte das responsabilidades dos gastos dentro da nossa nação.

Entretanto, é óbvio que o governo federal pode sempre aumentar os subsídios aos estados para financiar a infraestrutura nacional essencial.

Portanto, em última análise, o subfinanciamento de serviços essenciais como a proteção contra incêndios  resume-se  ao fracasso do nosso governo federal.

Ambos os lados da política na Austrália estão obcecados em obter um excedente orçamental, apesar de não terem compreensão do que esse objetivo realmente significa em termos de seu impacto sobre a economia em geral.

É uma busca sem sentido de homens e mulheres ignorantes que se dedicam cegamente à sua própria imagem e à manutenção do poder.

Agora está claro que delegações de especialistas no setor de incêndios, incluindo ex-chefes de bombeiros em nível estadual, procuraram financiamento extra do governo federal no início de 2019, sob o pretexto de que a Austrália estava  a enfrentar  um futuro imediato desastroso como resultado de uma seca de longo prazo, que havia deixado as nossas florestas e pastagens secas e vulneráveis.

Pelo que sei, o Primeiro-Ministro recusou-se a encontrar-se com eles.

Desde o início do inverno, quando começaram as queimadas, ficou claro que algo sem precedentes estava-lhes pela  frente. A nossa estação de queimadas é normalmente em Fevereiro (no final do Verão) e não durante o Inverno.

O governo não deu resposta a esses incêndios florestais do início da estação, que depois se agravaram progressivamente até que quase todo o país se incendiou.

Milhões de animais foram queimados vivos. O seu habitat foi destruído. Um número desconhecido mas enorme de casas foram destruídas e, em alguns casos, foram dizimadas cidades.

A cidade inteira teve que procurar abrigo na praia e esperar para ser resgatada por navios da Marinha enquanto a sua cidade ardia e  se ficava sem itens essenciais, como comida e água

As pessoas à espera.

                                                             A evacuação de Mallacoota

Milhões de hectares  de matas foram destruídos.

                                                                                 Fogos

Estima-se que pode levar 100 anos, até que se refaça o que agora foi destruído  dado o quão seca a nossa nação se tornou e como estes incêndios têm sido ferozes em resultado.

O governo conservador continua a dizer que a Austrália tem sempre fogos de mato. Mas é muito difícil, para quem entende da nossa história, comparar isso com  o desastre atual.

Quando os incêndios florestais começaram, o governo federal fez uma grande crítica a toda e qualquer pessoa que ousasse ligar o desastre ao debate sobre as mudanças climáticas.

A sua agenda tem sido claramente a de negar qualquer mudança climática e de recusar uma ação política apropriada.

Embora eu conheça todos os argumentos sobre as tendências dos dados e o facto de que os dados só estão disponíveis há tanto tempo, então extrapolar a partir de um conjunto de dados limitado (centenas de anos) pode ser muito difícil, o facto é que 2019 foi um ano recorde para os extremos climáticos na Austrália.

O Instituto  de Meteorologia informou que :

1. “Tem havido uma clara tendência ascendente nas temperaturas médias ao longo do último século.”

2. “Foi a primeira vez que uma anomalia anual chegou a dois graus acima da média.”

3. “Foi também o ano mais seco da Austrália, com apenas 277,6 milímetros de chuva em média para o país, 40% menos do que a média a longo prazo”.

4. “Os anos secos são frequentemente quentes porque a chuva arrefece as coisas, mas esta é a primeira vez por ano que é a mais quente e seca de que há registo.”

5. “Grandes inundações de Fevereiro a Abril através do oeste de Queensland trouxeram alívio a alguns e devastação a muitos.”

6. “Tempestade após tempestade de pó varreram  o país juntamente com uma série de tempestades que causaram estragos – desde a destruição das vinhas do sul da Austrália Riverland até ao granizo de 11 centímetros na região de Queensland’s Wide Bay.

7. “O sudeste do país até foi salpicado de neve em dado momento .”

8. “Janeiro foi assolado por ondas de calor, tornando-o o mês mais quente da Austrália.”

9. “Os incêndios arderam na Tasmânia durante semanas, resultando na pior época de incêndios do estado desde 1967.”

10. “Também houve grandes chamas em Victoria e na Austrália Ocidental no início do ano, e essa devastação só pode ser eclipsada pelos recentes incêndios de horror.”

11. “A 17 e 18 de Dezembro, a Austrália ultrapassou o seu dia mais quente de sempre – só falhou o dia 19 para hat-trick por uma unha negra .”

Eles ligam estas mudanças extremas do nosso tempo a “tendências muito bem definidas e claras … que temos visto ao longo das últimas décadas.

Em 9 de fevereiro de 2017, o nosso primeiro-ministro, então no Tesouro, trouxe um pedaço de carvão para o parlamento nacional como uma declaração de apoio à indústria de combustíveis fósseis e uma indicação de que ele rejeitou quaisquer narrativas de mudanças climáticas.

Ei-lo pois em plena forma :


                                                                               Scott e o carvão

E os seus colegas no banco da frente acharam que isto era histérico::

 

O governo continua dizendo que mesmo que houvesse mudança climática, a Austrália não deveria agir de forma significativa porque somos muito pequenos para influenciar o resultado geral e, portanto, só prejudicaria a nossa economia.

O argumento, é claro, não tem valor moral.

Mas também é claro que a nossa posição, por exemplo, na recente conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, em Madrid, foi uma vergonha.

O nosso governo não só procurou enganar o processo através do uso de uma lacuna contabilística  para cumprir a nossa meta climática, como também nos combinamos com os EUA e o Brasil para frustrar o progresso na reunião.

E então, as  nossas florestas e cidades começara, na verdade, a arder.

Portanto, temos um governo cientificamente ignorante, que se recusa a usar a sua capacidade  orçamental de forma responsável, e o resultado é uma enormíssima destruição em todo o nosso país.

O governo, por razões políticas, será arrastado para o processo de recuperação e será obrigado a desembolsar milhares de milhões de dólares como resultado.

Os meios de comunicação social já estão a falar sobre como isto irá pôr em risco o excedente orçamental .

O objetivo do excedente orçamental foi sempre irresponsável, dado que temos mais de 13,5% dos nossos recursos de mão-de-obra dispostos e capazes em inatividade, em desemprego.

Os meios de comunicação social deveriam aprender isso primeiro e deixar de manter o excedente orçamental  como sendo um objetivo político razoável que se tornou impossível de alcançar devido ao enorme desastre ambiental e civil provocado pelos incêndios florestais.

Devemos entender que a escala do desastre ambiental e civil, em parte, se deve à busca do excedente  orçamental  e ao subfinanciamento de programas ambientais e de proteção contra incêndios.

Nesse sentido, o governo federal tem agido de forma criminosa.

Também tem havido uma onda de ofertas de assistência financeira de várias pessoas conhecidas, que são manchete diariamente nos media  locais

Quase que se fica com a impressão, num espírito semelhante ao que aconteceu depois do incêndio em Notre-Dame de Paris,  de que essas “celebridades” se transformaram numa espécie de concorrência para se saber  quem é que pode oferecer mais  e quanto.

Também somos diariamente exortados pelos media a fazer doações a várias instituições de caridade para ajudar no processo de recuperação.

O problema é controverso.

Por um lado, a assistência financeira provavelmente proporcionará algum alívio, embora a falta de responsabilização em alguns casos suscite dúvidas quanto à eficácia dos fundos.

Por outro lado, deixa o governo desenrascar-se da situação.

Uma das marcas da era neoliberal tem sido a ascensão de instituições de caridade para preencher as lacunas de despesa pública  deixadas pela contração das funções do Estado, à medida que procuram a sua “retidão orçamental”.

. O Governo lança uma cortina de fumo na qual será ou não maravilhoso que os cidadãos na totalidade demonstrem generosidade nos tempos de crise, enquanto simultaneamente é minada a capacidade das comunidades em lidarem com a crise, devido à prossecução da insensata política de austeridade.

Assim, o ato de doações privadas realmente tira a pressão do governo para utilizar a sua capacidade orçamental de forma  adequada  e, muitas vezes, apenas faz deslocar  fundos daqueles que vivem em situação de necessidade  para outros que vivem igualmente em situação de necessidade, sob o pretexto da generosidade da comunidade.

Não é uma coisa fácil de discutir ou de resolver.

E, nas cidades, chegou-se  a isto.

Ontem, a poluição por fumo  em Newcastle foi tão má  que eu tive que colocar uma máscara P2 (compramos uma caixa inteira) para ir para a minha corrida matinal de 10k pela frente do oceano.

Eu nunca tive de fazer isso.

É a  vida nesta distopia ambiental.

 

Fonte: Bill Mitchell, Australia’s bushfire dystopia – another entry for the neoliberal report card .

Texto disponível em: http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=44048

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

2 comments

  1. franciscogtavares

    Mais um excelente artigo de Bill Mitchell. A negação da realidade, a fobia da austeridade (excedentes e etc.), da imposição da sociedade dita civil contra a intervenção do Estado, estende-se a todos os domínios.

    Gostar

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