Ajudará o rendimento básico universal à recuperação do trabalhismo britânico? – 3. Justificar-se-á o rendimento básico garantido? Parte 0. O trabalho é importante para o bem estar humano. Por Bill Mitchell.

Espuma dos dias_porcos podem voar

Seleção e tradução de Francisco Tavares

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Publicamos uma minisérie de 8 textos sobre o debate rendimento básico universal versus garantia de emprego. O primeiro texto (ver aqui)– de Guy Standing – datado de 15 de janeiro último, escrito no rescaldo dos resultados das últimas eleições gerais no Reino Unido, reflete sobre como construir uma aliança progressista na Grã-Bretanha, colocando à cabeça dos elementos chave “combater a desigualdade e a precariedade avançando para um rendimento básico …” e terminando com uma proposta de mudança de nome de partido Trabalhista para partido Progressista.

O segundo texto, que publicámos ontem (ver aqui), é uma certeira e bem articulada resposta de Bill Mitchell. Como muito bem diz: “E os porcos podem voar!” Conclui ele que “As propostas para um RBU representam antes uma rendição à mentira neoliberal de que o governo [emissor de moeda] não pode …… sempre fornecer trabalho suficiente para aqueles que o querem, caso o sector não governamental venha a falhar.”

Este terceiro texto faz parte de um conjunto de seis textos que são uma análise detalhada feita em 2016 por Bill Mitchell sobre a proposta de um rendimento básico garantido (ou universal), onde finalmente conclui que pela sua oposição à introdução deste Sistema, que cria um grupo estigmatizado por não trabalhar, que não fornece nenhum amortecedor de inflação, que não acrescenta nada produtivo à sociedade, independentemente do estado do ciclo económico, não fornece uma arquitetura para o desenvolvimento das capacidades individuais, trata as pessoas como meras unidades de consume. Afirma Mitchell que, “essencialmente, a abordagem do rendimento básico ignora o papel social intrínseco e de capacitação da participação em trabalho remunerado”. Ao contrário, “A Garantia de Emprego é um veículo muito melhor para reconstruir o sentido de comunidade e a natureza intencional do trabalho. É a única alternativa real para evitar desvantagens intergeracionais” e “Fornece também o enquadramento para que o próprio conceito de trabalho possa ser alargado de modo a incluir actividades que muitos actualmente dispensariam como sendo lazer, o que é consistente com as aspirações de alguns defensores do rendimento básico.

FT

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3. Justificar-se-á o rendimento básico garantido? Parte 0

O trabalho é importante para o bem estar humano

Bill Mitchell I Por Bill Mitchell

Publicado em 14 de setembro de 2016, http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=34412

 

Modern Monetary Theory … macroeconomic reality

logo bill mitchell

 

Estarei em Kansas City nos próximos dias, por isso os textos poderão sair em momentos estranhos ou fora de horas. Estou perto de finalizar o manuscrito para o meu próximo livro (em co-autoria com o jornalista italiano Thomas Fazi) que traça o modo como a esquerda ficou presa daquilo que chamamos o mito da globalização e começou a acreditar que o Estado se tinha atrofiado e estava impotente face aos movimentos transnacionais de bens e serviços e aos fluxos de capital. Consequentemente, os políticos social-democratas opinam frequentemente que a política económica nacional deve ser aceite pelos mercados financeiros globais e comprometer o bem-estar dos seus cidadãos como resultado disso. Na Parte 3 do livro, que estamos a acabar, tencionamos apresentar um ‘Manifesto Progressista’ que oriente o desenho de políticas e as escolhas políticas para os movimentos progressistas. Esperamos também que o ‘Manifesto’ fortalecerá os grupos comunitários demonstrando que a mantra do TINA, em que aos alegados objetivos dos amorfos mercados financeiros globais é conferida prioridade sobre os verdadeiros objetivos, como o pleno emprego, as energias renováveis e a revitalização dos setores fabris, pode ser afastada e que estão disponíveis uma série de opções, que atualmente são tabu neste mundo neoliberal. Uma proposta que parece ter cativado as chamadas forças políticas progressistas é a da necessidade de um rendimento básico garantido. Como os meus leitores saberão sou um reconhecido defensor das garantias de emprego. Considero as propostas de rendimento básico uma rendição às forças neoliberais – uma aceitação da inevitabilidade do desemprego massivo. Nesse sentido, os proponentes foram seduzidos pela noção de que o Estado nada pode fazer quanto ao desemprego. É curioso que eles pensem que afinal o Estado é suficientemente poderoso para proceder à redistribuição do rendimento. Penso também que as propostas de rendimento básico demonstram uma falta de imaginação daquilo em que o trabalho se poderia tornar e uma conceção muito estreita do papel do trabalho no bem estar humano. Este texto será o primeiro entre vários (provavelmente quatro) em que esboço os argumentos que serão desenvolvidos (mas mais rigorosamente editados) no manuscrito final.

 

Preso à expressão trabalhador remunerado [1]

Os dados estatísticos sobre a força de trabalho (emprego, desemprego, taxas de participação) influenciam a narrativa política regularmente (normalmente numa base mensal). Cada vez que uma agência nacional de estatística divulga as estimativas resultantes dos inquéritos surgem logo manchetes nos meios de comunicação e todo o tipo de afirmações por parte dos políticos em defesa das suas posições políticas (independentemente dos resultados reais).

As estatísticas são coligidas e divulgadas com base em definições especificadas no ‘Labour Force Framework’, que assentam em acordos internacionais entre agências estatísticas nacionais. Atividade constitui o conceito base – uma pessoa passa a ativa se estiver a trabalhar ou à procura de trabalho e estará inativa se não fizer nenhuma dessas coisas. Existem normas complexas para demarcar os diferentes estatutos dentro do quadro estabelecido (empregado, desempregado, etc).

Anteriormente à introdução do sistema ‘Labour Force Framework’, que resultou da Grande Depressão, as mais importantes abordagens da recolha de dados do mercado de trabalho ignoravam amplamente o desemprego.

Por exemplo, o chamado sistema do ‘trabalhador remunerado’ [‘gainful worker’ framework], que data dos inícios do século 19, considerava que os trabalhadores estavam ‘empregados com remuneração’ se tivessem uma ‘ocupação remunerada‘ [gainful occupation] (Hauser, 1949: 339):

Uma ‘ocupação remunerada’ no sentido utilizado pelo Census é uma ocupação pela qual a pessoa que a exerce ganha dinheiro, ou um equivalente monetário, ou na qual ele participa na produção de bens comercializáveis.

[Referência: Hauser, P.M. (1949) ‘The Labor Force and Gainful Workers-Concept, Measurement, and Comparability’, American Journal of Sociology, 54(4), 338-355 – JStor .]

O enquadramento Força de Trabalho substituiu a abordagem designada ‘trabalhador remunerado’ [gainful worker] enquanto base para a recolha de dados estatísticos do mercado de trabalho nos anos de 1930 em virtude de o desemprego se ter tornado uma importante preocupação e não haver processos para medir esse problema.

Hauser (1949: 340) escreveu:

Aos olhos do público, era claro de que ninguém conhecia os factos sobre o mais importante problema que a nação enfrentava nesse tempo – o desemprego massivo. O foco da atenção do público no problema do desemprego e a sua importância política indubitavelmente deram um grande impulso aos muitos inquéritos experimentais realizados nos anos 30, dos quais emergiu um novo conceito e um novo método de medição do trabalho.

Contudo, embora o conceito de ‘trabalhador remunerado’ fosse considerado uma base inadequada para recolher e divulgar as estatísticas da força de trabalho como orientação para a política, o enviesamento que transmitia sobre o modo como pensamos o emprego produtivo persistia.

O ‘trabalhador remunerado’ era efetivamente considerado estar envolvido em atividades de lucro privado em vez de atividades de bem estar social. Outras atividades, especialmente o emprego no setor público tinha um ‘estatuto’ mais baixo e em muitos casos não era considerado produtivo de modo nenhum.

De modo idêntico, o conceito de produtividade foi concebido como conceito dos ‘mercados privados’ em vez de estar associado a resultados que avançam o bem estar geral.

Este enviesamento repercutiu-se na estigmatização dos programas de criação de emprego do setor público nos quais termos como “trabalhos desnecessários e sem valor para desempregados” [boondoggling and leaf-raking!] e “esquemas para criar trabalho” [make work schemes] entraram na nomenclatura para condicionar a opinião pública de que nada de bom vem deste tipo de programas.

Tal é a perceção que as pessoas têm sobre a criação de postos de trabalho no setor público, que foi expressa pelos opositores como esquemas para ‘criar trabalho’. Quantas vezes não ouvimos já políticos conservadores dizendo que tais iniciativas não criam ‘verdadeiros’ postos de trabalho?

Em 1958, os Estados Unidos passaram por uma acentuada recessão com elevado desemprego (5 milhões de pessoas foram despedidas) e o debate incidiu sobre o que se deveria fazer. O Time Magazine em 24 de fevereiro de 1958 relatou que o vice Presidente republicano, Richard Nixon, atacou as propostas dos Democratas de introdução de programas de criação de emprego generalizados.

Nixon foi citado como tendo dito:

O grito de batalha dos opositores da Administração será, obviamente, ‘A depressão está aí ao virar da esquina’. Alguns estão a instar-nos para que regressemos aos multibilionários trabalhos desnecessários e sem valor para desempregados que fracassaram tão miseravelmente nos anos de 1930 … [se os Democratas estão] … a apostar na depressão … [os Republicanos estão] … a apostar na prosperidade.

Os principais governadores democratas enviaram um “telegrama” ao Presidente Eisenhower pedindo que ele introduzisse “um programa prático para combater a crescente recessão nacional.”

O líder da maioria Democrata no Senado, Lyndon Baines Johnson, afirmou que os Democratas estavam a elaborar um programa anti recessão de 10 pontos, que se concentraria em trabalhos públicos generalizados, e defendeu o regresso ao programas da Works Progress Administration (WPA) que foram introduzidos sob o New Deal durante a Grande Depressão.

Tal como atualmente, os conservadores queriam cortar impostos enquanto os Democratas queriam programas de criação direta de postos de trabalho.

Nixon rejeitou o plano, dizendo:

Se a escolha é entre um programa massivo de trabalhos desnecessários e sem valor para desempregados e um corte nos impostos, eu pessoalmente sou a favor de um corte nos impostos. Daria um impulso imediato à economia.

Rejeitar os postos de trabalho do setor público (principalmente aqueles criados como parte de um estímulo orçamental) por serem atividades ‘desnecessárias e sem valor’, quando muito permite aos conservadores denegrirem os apelos para que o setor público empregue trabalhadores desempregados para trabalharem no desenvolvimento de projetos comunitários por um salário mínimo.

Mas ao mesmo tempo, os mesmos conservadores exaltam as virtudes do setor privado que cria centenas de milhares de postos de trabalho de baixa qualificação, mal pagos, precários e estupidificantes que deixam esses trabalhadores no estado de ‘pobreza ativa’.

Não obstante, esta é também uma longa história em que os programas de criação de postos de trabalho no setor público deixaram massivos legados positivos para os que neles se envolveram e para as gerações futuras que beneficiaram dos resultados gerados.

Por exemplo, durante a Grande Depressão, o New Deal do Presidente Roosevelt foi introduzido quando o setor privado abandonou em grande escala a criação de emprego. A Public Works Administration (PWA), que fazia parte do New Deal, criou centenas de milhares de postos de trabalho e esse trabalho ajudou a restaurar estruturas públicas envelhecidas (tais como estradas, barragens e pontes).

Muitos edifícios novos foram construídos neste período (escolas, espaços recreativos, livrarias, hospitais), que geraram benefícios para as gerações seguintes.

Harry Kelber (2008) escreveu que a WPA significou que:

Milhares de escritores desempregados, atores, músicos e pintores tiveram a oportunidade de ganhar uma modesta subsistência com os seus talentos artísticos … e enriquecer as vidas de incontáveis cidadãos culturalmente desfavorecidos. As produções do WPA Theater Project, por exemplo, entretiveram uma fenomenal audiência totalizando 60 milhões de pessoas, muitos dos quais nunca tinham assistido a uma peça de teatro.

A autoridade do Tennessee Valley era um projeto hidroelétrico enorme introduzido durante este período e trouxe eletricidade e prosperidade a algumas das mais pobres áreas rurais dos Estados Unidos.

Na altura, Kelber (2008) faz notar que os fornecedores privados de eletricidade se opuseram a esse desafio ao seu controlo monopolístico. O resultado foi que o projeto os obrigou a reduzirem os preços da eletricidade.

Em geral, o dinamismo do setor público da época provocou enormes clamores por parte dos capitalistas que não queriam ver desafiadas pelo setor público empresarial as suas indústrias confortavelmente lucrativas.

Mas a sociedade do bem estar avançava de forma inequívoca.

[Referência: Kelber, H. (2008) ‘How the New Deal Created Millions of Jobs To Lift the American People from Depression’ The Labor Educator, maio 9, 2008]

Existem muitos outros exemplos de resultados da criação de empregos pelo setor público que deixaram valiosos legados ao longo dos anos em muitos países.

O preconceito contra os programas públicos de criação de emprego existe da avaliação evidente. Melvin M. Brodsky (2000: 31) avaliou os resultados de programas de criação de emprego em muitos países da OCDE e concluiu que:

Os programas públicos de emprego … podem ser o único caminho efetivo para ajudar aqueles desempregados de longa duração que têm menos qualificação e menos instrução.

[Referência: Brodsky, M.M. (2000) ‘Public service employment programs in selected OECD countries’, Monthly Labor Review, October, 31-41.

Brodsky constatou que os países que consideravam simultaneamente as necessidades do desemprego e do mercado laboral local e operavam desenvolvendo a conceção dos postos de trabalho obtinham mais sucesso. Além disso estes programas de sucesso eram “mais flexíveis, mais orientados para as necessidades locais, e melhor interligados com outros serviços do mercado laboral” (Brodsky, 2000: 36).

Por favor leiam no meu blog – Boondoggling and leaf-raking … – para maior aprofundamento deste ponto.

Para efeitos da presente discussão, o problema que identificámos é que os políticos progressistas foram também seduzidos pelo preconceito contra os programas públicos de criação de emprego.

Engolindo as narrativas neo-liberais sobre os limites orçamentais do Estado e não compreendendo que as causas do desemprego massivo são os défices orçamentais limitados, dadas as escolhas de consumo e poupança do setor não público, os políticos progressistas caíram na aceitação do desemprego massivo e para apaziguar as suas preocupações de justiça defendem esquemas de garantia de rendimento em vez de soluções de garantia de emprego.

Esta série de textos formarão a base do material sobre o tema desemprego e garantias de rendimento (incluindo robots etc) da Parte 3 do livro que estou a concluir neste momento, que espero vir a publicar nos finais de 2016.

Defenderei que as soluções tipo rendimento básico, que foram originariamente advogadas pelos seguidores de Milton Friedman, são uma abordagem inferior para um futuro progressista quando comparado com os benefícios das garantias de emprego.

Defendo que as propostas de rendimento básico:

  1. Foram subscritas da maneira mais conforme com a racionalização neoliberal do trabalho através de políticas orçamentais fracassadas e articulam erradas propostas macroeconómicas, que não são substantivamente diferentes das ideias padrão neoliberais sobre défices orçamentais, etc. Os proponentes do rendimento básico garantido entregaram a questão do pleno emprego aos requisitos neoliberais de que existe uma contínua reserva de desempregados que elimina o crescimento dos salários e permite ao capital aceder a cada vez maiores quotas do rendimento real.
  2. Vêem o trabalho em termos limitados – isto é, como uma atividade de obtenção de rendimentos e falham em aceitar a realidade do trabalho enquanto aspeto integral do nosso bem estar em sentido mais amplo. Neste sentido, o conceito de trabalho para os proponentes do rendimento básico não é assim tão diferente do dos economistas das correntes dominantes que vêem o trabalho como algo mau em competição com o lazer que é um bem.
  3. Vêem os humanos como unidades de ‘consumo’ e os limites da responsabilidade dos governos situando-se no fornecimento de um nível mínimo de consumo a cada pessoa. São recusadas as responsabilidades mais amplas, que estão disponíveis aos governos emissores de moeda, em termos de desenvolvimento e mobilidade social.
  4. Consequentemente, os advogados do rendimento básico garantido nunca propõem um rendimento de subsistência mas antes alguns montantes básicos para sobreviverem sem significativas possibilidades de atingirem qualquer mobilidade de ascensão social. Deste modo, os proponentes do rendimento básico consolidam efetivamente a distribuição de riqueza existente.
  5. Não levam em consideração qualquer inflação. Isto é, o rendimento básico não constitui um quadro macroeconómico estabilizador. A âncora da inflação continua a ser as flutuações do desemprego, o que é extremamente oneroso para os indivíduos e a sociedade.
  6. Não proporcionam uma dinâmica segundo a qual a sociedade pode debater a definição de trabalho de tal modo que os desafios futuros da robotização e das mudanças estruturais possam ser enfrentados alargando o significado de atividade produtiva. Deste modo, os proponentes do rendimento básico consolidam a divisão convencional entre trabalho e não-trabalho.

Trabalho e bem-estar

Escondendo-se por detrás da sofisticação incorporada nos modelos económicos matemáticos da dinâmica estocástica do equilíbrio geral e outros do seu género, que estão entre as últimas novidades utilizadas pelos economistas das correntes dominantes para criarem uma quase imune retórica como forma de parecerem respeitáveis, estão algumas ideias muito simples.

Quanto à questão do trabalho, os economistas neoliberais da corrente dominante apresentam modelos de manual estilizados em que é pressuposto os agregados familiares poderem escolher entre rendimento e lazer. Para obterem rendimentos têm de renunciar ao lazer (classificado como um bem) e trabalharem (classificado como algo mau).

Assim, o trabalho é um sacrifício que os indivíduos fazem para obterem rendimentos (um bem) e quanto mais os termos do sacrifício se tornam onerosos mais aumentarão o lazer (trabalhar menos). O desemprego é então construído como sendo uma decisão voluntária para aumentar o tempo de não trabalho (lazer) e gozar de menos rendimento.

É uma estupidificante formulação do mundo real e sob vários aspetos torna-se logicamente inconsistente e insolúvel, o que é tema para outra conversa.

Enquanto os economistas da corrente dominante gostam de permanecer na segurança do seu mundo artificial construído com método dedutivo que utiliza pressupostos simplistas e errados sobre a psicologia humana e outras proposições a priori sobre o mundo que não são sustentáveis na prática, outras disciplinas como a sociologia e a psicologia, que são largamente ignoradas pelos economistas, têm um conhecimento avançado sobre maneiras que nos ajudam a perceber a importância do trabalho.

Por exemplo, existe uma extensiva literatura de investigação que analisa o papel do trabalho no avanço do bem estar dos indivíduos e das suas famílias (ver o contributo de Blustein, 2008 e referências adicionais).

[Referência: Blustein, D.L. (2008) ‘The role of work in psychological health and well-being: A conceptual, historical, and public policy perspective’, American Psychologist, 63, 228-240.].

Blustein (2008: 230) conclui (ver também Fassinger, 2008; Fouad e Bynner, 2008):

… que trabalhar é importante, e na verdade pode ser fundamental, para a saúde psicológica … Consideráveis investigações … demonstraram que trabalhar pode promover a conexão com o mundo social e económico mais em geral, fortalecer o bem estar, e proporcionar meios de satisfação individual e desempenho …

[Referências: Fassinger, R.E. (2008) ‘Workplace diversity and public policy: Challenges and opportunities for psychology’, American Psychologist, 63, 252–268.

Fouad, N.A., and Bynner, J. (2008) ‘Work transitions’, American Psychologist, 63, 241–251.]

A literatura está repleta de análises em que “os indivíduos que perdem os seus postos de trabalho se debatem frequentemente com problemas de saúde mental, como a depressão, toxicodependência e ansiedade” (Blustein, 2008: 230).

Blustein (2008: 230) documenta as constatações de uma plétora de estudos de investigação que se centram na importância do trabalho para a saúde mental.

  1. “a perda de trabalho tem sido ligada consistentemente a problemas com a autoestima, conflitos relacionais, toxicodependência, alcoolismo, e outros graves distúrbios da saúde mental”.
  2. “a perda de trabalho tem sido associada com notável declínio da qualidade de vizinhança, declínio das relações familiares e aumento de crime, bem como problemas noutros aspetos críticos da vida contemporânea”.
  3. “a perda de oportunidades de emprego … [conduz] … a uma marcada desintegração da qualidade de vida, com os correspondentes aumento de abuso de drogas, atividade criminal, violência e apatia.”

De um ponto de vista antropológico, Blustein assinalou (2008: 230) que:

Em resumo, trabalhar é um ingrediente central no desenvolvimento e sustentação da saúde psicológica. A natureza do trabalho está inextricavelmente ligado à nossa evolução passada, assim como a nossa sobrevivência estava (e ainda está) dependente da nossa capacidade para encontrar alimentos, abrigo e desenvolver uma comunidade para apoio e fomento mútuo …

Os proponentes da garantia de emprego partilham a conclusão de Bluestein (2008: 232) e outros investigadores de que “para muitas pessoas”:

… trabalhar é o “terreno de jogo” das suas vidas, onde as interações com os outros e com os costumes sociais são mais pronunciadas, com oportunidades de obter satisfação e alegria, bem como importantes desafios e, por vezes, considerável sofrimento psicológico e físico.

Uma visão progressista claramente não pode ignorar o contexto histórico dentro do qual é conduzida a discussão sobre os benefícios do trabalho.

Obviamente, num sentido mais amplo, o atual modo de produção, em que os trabalhadores estão dissociados da propriedade dos meios de produção e têm de se sujeitar aos caprichos do capital para ganharem a vida, é opressivo e coercivo.

Mas, ao identificarmos a importância do trabalho para o bem estar psicológico, não ignoramos esta faceta opressiva. Contudo, é claro que as pessoas funcionam em muitos níveis e ao mesmo tempo com diversas predominâncias na sua consciência diária.

A este respeito, Blustein (2008: 330) defende que:

… trabalhar é o papel social no qual as pessoas geralmente interagem com o mais vasto contexto político, económico e social que enquadra as suas vidas, trabalhar muitas vezes torna-se o ponto de ligação para a opressão social, bem como uma fonte de recompensas, resiliência e relacionamentos …

É neste sentido que defendemos que o trabalho enquanto atividade organizada é um aspeto essencial do bem estar humano, independentemente do contexto sócio-económico existente.

No atual contexto social o não-trabalho é prejudicial para o bem estar humano, manifeste-se ele através de desemprego ou por alguma forma camuflada de desemprego tornada possível pela introdução de um rendimento base garantido.

Um dos fortes resultados empíricos que emergiram da Grande Depressão é que os programas de criação de postos de trabalho que os vários governos implementaram para atenuar o massivo crescimento do desemprego foram muito benéficos. Na época, compreendeu-se que tendo os trabalhadores ficado afastados do processo de produção em virtude de não serem gerados suficientes postos de trabalho pelo setor privado isso era não apenas irracional do ponto de vista de perda de rendimento mas também causava problemas adicionais à sociedade.

Em resumo, está bem documentado que um desemprego duradouro implica significativos custos económicos, pessoais e sociais que incluem:

  • perda de produção;
  • exclusão social e perda de liberdade;
  • perda de competências;
  • danos psicológicos, nomeadamente taxa crescente de suicídios;
  • problemas de saúde e redução da esperança de vida;
  • perda de motivação;
  • enfraquecimento das relações humanas e da vida familiar;
  • desigualdade racial e de género e
  • perda de valores sociais e responsabilidade.

Muitos destes “custos” são difíceis de quantificar mas claramente têm substantiva evidência qualitativa.

Para aprofundamento da discussão deste ponto veja os meus textos – The costs of unemployment – again e The daily losses from unemployment.

 

Conclusão

Na segunda parte da pequena mini-série desenvolverei o conhecimento sobre a proposta do rendimento básico e indicarei as suas deficiências.

Depois abordarei a garantia de emprego, robotização e a segunda era das máquinas, e a transição progressiva no apoio do trabalho e do rendimento.

 

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Nota

[1] N.T. Por exemplo, nos Estados Unidos o conceito de “gainful worker” utilizado nas estatísticas desde 1870 até 1930, foi substituído a partir de 1940 pelo conceito de “labor force”. Vd. http://www.journals.uchicago.edu/doi/abs/10.1086/220370?journalCode=ajs

Vd. também http://en-ii.demopaedia.org/wiki/Gainful_occupation

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O autor: Bill Mitchell [1952 – ] doutorado em Economia, é professor de economia na Universidade de Newcastle, Nova Gales do Sul, Austrália e um notável defensor da teoria monetária moderna. É também Professor Doutor em Economia Política Global, Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Helsínquia, Finlândia. Autor entre outras obras de : Macroeconomics (Macmillan, Março de 2019), co-escrito com L. Randall Wray e Martin Watts; Reclaiming the State: A Progressive Vision of Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Setembro de 2017), co-escrito com Thomas Fazi; Eurozone Dystopia: Groupthink and Denial on a Grand Scale (Maio 2015); Full Employment Abandoned: Shifting Sands and Policy Failures (2008), co-escrito com Joan Muysken. Bill Mitchell tocou guitarra elétrica com várias bandas, a última das quais, Pressure Drop, se retirou em 2010.

 

 

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