A DERROTA DE CORBYN, UMA CONSEQUÊNCIA DA CRISE POLÍTICA A OCIDENTE – II – PORQUE É QUE A “MURALHA VERMELHA” DOS TRABALHISTAS DESABOU, por CHRIS MCGLADE

 

The Full Brexit

FOR POPULAR SOVEREIGNTY, DEMOCRACY, AND ECONOMIC RENEWAL

 

 

Why Labour’s “Red Wall” Finally Crumbled, por Chris McGlade

The Full Brexit, 19 de Dezembro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Para defender o valor dos nossos votos, as comunidades da classe trabalhadora não tiveram outra escolha senão votar Partido Conservador, devido a sentirem-se traídas  pelo Partido Trabalhista, escreve Chris McGlade.

 

Eis-nos perante um testemunho fundamental para compreender a situação não só na Grã-Bretanha, mas em todos os países da Europa. Publicado no site “Fullbrexit”, este testemunho tem sido amplamente divulgado.

“Eu sou de Redcar, uma antiga cidade industrial em Teesside. Nunca tivemos um deputado conservador, mas apesar dos conservadores terem dizimado a nossa indústria siderúrgica, fechado o nosso forno de coque e o maior e mais antigo alto forno da Europa, a Redcar  votou esta semana mesmo assim  como conservadora, por uma enorme margem de 15,5% face ao  Partido Trabalhista. Eu já fui membro do Partido Trabalhista. Eu estive afetivamente muito próximo de Militant  quando tinha 18 anos. Já estive em três sindicatos. Toda a minha família é da classe trabalhadora, saída da imigração irlandesa e tem sido apoiante do Partido Trabalhista durante décadas. Não nos fizeram uma lavagem cerebral, mas todos votámos. Conservadores.

Porque é que votámos conservador? Porque esperamos ser ignorados pelos Conservadores, mas não esperamos ser ignorados pelo nosso próprio partido e foi isso que aconteceu. O Partido Trabalhista é dominado e controlado por liberais progressistas de classe média que não pensam como nós, não falam como nós, não agem como nós, que não sofreram como nós. Eles olham-nos de cima como se tivessem a andar sobre  alguma coisa. Eles  preocupam-se tão pouco connosco exatamente como os Conservadores, mas esperamos isso dos Conservadores. Não esperamos isso do nosso partido, o partido criado para nos defender, não para zombar de nós e pensar que somos uns brutos e racistas  porque votamos para deixar o clube dos mega ricos conhecido sob o nome de  União Europeia.

As pessoas da classe trabalhadora não são intolerantes. Pouco importa a raça, cor, credo, religião, sexo ou sexualidade. Mas os liberais progressistas estão convencidos de que todos nós somos atrasados. Desde as eleições, eles vêm para o  Facebook e chamam as pessoas da classe trabalhadora de ignorantes, estúpidas e racistas, dizendo que nós mesmos estamos a dar cabo das nossas vidas. Uma mulher culpou-me por ter arruinado a educação da filha. Outra mulher disse que arruinámos o serviço de saúde, que piorámos a nossa situação. Outro até disse que a classe trabalhadora seria a primeira a ser atacada.  Manifestantes nas ruas de Londres e Leeds, vieram para as ruas gritavam sobre o resultado de uma eleição democrática,  “oh, Jeremy Corbyn”. Mas Jeremy Corbyn odeia a UE tanto quanto nós. Você pode ser a favor da EU mas não ele. Ele foi forçado, com uma faca ao peito, a apoiar os Remainers.

Os operários sempre tiveram uma vida difícil. Não recebemos esmolas da mãe e do pai, não recebemos uma mesada para irmos fazer uma sabática à volta do  mundo. Quando o Sul estava  próspero, as nossas comunidades estavam  dizimadas. As nossas minas estavam a fechar. As nossas siderurgias estavam a ser encerradas. Sempre conhecemos a adversidade aqui e, sim, agora estamo-nos a  preparar  para mais adversidades. Quando a educação pública e os serviços de saúde declinam, são os nossos filhos que vão sofrer. Mas nós levamos tudo isso em consideração e, APESAR DE TUDO, O VALOR DO NOSSO  VOTO,  A DEMOCRACIA NESTE PAÍS, SIGNIFICAVA MAIS. PORQUE SE PERDERMOS ISSO, NÃO TEMOS MAIS NADA.

Falei com o meu tio de 72 anos, um canalizador reformado. Um homem duro no seu tempo, um homem orgulhoso, um homem que nunca votou Conservador até agora, e ele disse que o seu pai iria rebolar na sua sepultura se soubesse que ele o tinha feito agora. Ele votou nos Conservadores porque, como eu, não teve escolha. Votámos LEAVE, ou seja, defensores da saída da EU,  e os liberais progressistas de classe média que dominam o Partido Trabalhista fizeram de nós um partido de Remainers, defensores da permanência do Reino Unido na EU.   O meu tio disse: “Como posso eu votar num deputado que ignorou os seus próprios eleitores?” E a resposta foi, não podemos. Ela não merecia ser reeleita só porque usava uma rosa vermelha.

O Partido Trabalhista já não representa  os trabalhadores do Nordeste. Já não fala mais connosco. Não pensa como nós. Já não é como  nós. Nós não temos voz. E assim votámos no único partido que se ofereceu para respeitar aquilo em que votámos em 2016. Ontem votámos em Redcar pela democracia e pelo valor do nosso voto. Se tivéssemos perdido isso por causa de um grupo de liberais progressistas de classe média que foram eleitos e que organizaram  um segundo referendo, teríamos perdido tudo. Eles levaram-nos  tudo daqui, até o nosso Partido.. O nosso voto, a nossa única proteção contra eles, não nos poderia ser tirada também.

A relação entre trabalhadores do norte e os trabalhistas  é como uma relação de violência, em que se está com uma pessoa horrorosa que nos maltrata , eles continuam a mentir-nos nas nossas costas com outras pessoas. Mas porque se gosta do Partido Trabalhista, continua-se a apoiá-lo,  , porque ele é tudo o que sabes, porque tens medo de a deixar, porque fomos  enganados a pensar que não conseguimos  viver sem ele e que precisas dele. Então de repente, numa manhã, acordas e pensas: Não tenho de aturar mais isto. Não tenho necessidade de ninguém a olhar para mim. Eu vou deixar o Partido. E de repente vai-se  acabar com isto,  vai-se  encontrar outra pessoa. Podem ser melhores, podem ser piores – quem sabe? Quando se  termina uma relação abusiva, a pessoa que abusou de você volta, tenta abraçá-lo, tenta voltar a  juntar-se, e quando  não se lhe dá o que ela  quer, ela torna-se má e começa a abusar de nós.  É exatamente assim que tem sido a relação entre o povo do Norte, a classe trabalhadora, e o Partido Trabalhista. Eles tomaram-nos  por garantidos, nos trataram-nos como lixo,  desprezaram-nos, cortejam os liberais progressistas de classe média, e nós estamos fartos. Merecemos mais do que ser mantidos de rastos e aí ficar todo o tempo.

Dizem-nos constantemente que não devemos fazer discriminação  com base no sexo, género, raça e religião. Mas há uma discriminação constante contra a classe trabalhadora – branca, negra, muçulmana, cristã. Toda e qualquer instituição e profissão na sociedade é dominada pela classe média liberal, que constantemente nos insulta, depois nos liga e nos deseja mortos porque estamos fartos de um Partido Trabalhista que já não nos representa e não tivemos outra escolha senão votar no único partido que manteria a decisão que tomamos em 2016. Quanto mais estamos a ser vítimas de abusos  mais justificado eu me sinto em ter votado no Partido Conservador.

Fonte:  Chris McGlade, sitio The Full Brexit, Why Labour’s “Red Wall” Finally Crumbled. Texto disponível em:

https://www.thefullbrexit.com/post/why-labour-s-red-wall-finally-crumbled

Sobre o autor:

Chris McGlade is a comedian who came up through the Working Men’s Club circuit, and who performed as George the boxing coach in the West End run of Billy Elliot. His new show, Forgiveness, runs at London’s Soho Theatre from 26-29 February 2020.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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