A GALIZA COMO TAREFA – matizes – Ernesto V. Souza

Percebermos a diferença delicada, por vezes mínima, entre cores, opiniões, objetos, produtos, elementos ou discursos de um mesmo género é uma habilidade. E, como tal, pode ser cultivada ou apagada.

Pintores, escultores, músicos, naturalistas, publicistas, vendedores, militares, ebanistas, policiais, diplomatas, poetas, políticos, cientistas, jornalistas, observadores da realidade… Enfim, é muita a gente (e ofícios) especialmente dotada para perceber matizes. E não menos a capacitada para aproveitá-los, transformando-os em elementos característicos, em chaves interpretativas, em jogos simbólicos. Dimensões, texturas, brilhos, equilíbrios e contrastes de cores, ou de ecos e sons nos jogos de harmonias musicais que nos preparam ou comunicam sensações, oportunidades, em mensagens profundas, marcantes ou eficazes.

Perceber matizes é uma prova de inteligência ou de sensibilidade. Dar-lhes valoração, importância, sentido e medida já é uma questão de pragmática comunicativa e de contexto social. Concorrência, interesses de classe, grupo, preconceitos, antipatias pessoais, rancores entram aí em jogo, provocando ou evitando conflitos, procurando ou limando divisões, estorvando ou facilitando a comunicação, os desacordos e os acordos.

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Edward Hopper’s ‘Soir Bleu’ © Heirs of Josephine N. Hopper, licensed by the Whitney Museum of American Art (via The Wall Street journal)

Há quem faz de uma miga um monte e quem de um monte os Himalaias; e há também quem defenda a gorja rachada e peito partido que cômaros são cômaros e não canelhas, corgos, corredoiras, ou congostas. Há, por outra banda, quem acha que se bem é verdade que há altos, cotos, cuinhas, outeiros, cotarelos, montes, cerrinhos e outelos, há por outra parte montanhas, penedias esgrévias e altas serras, e não cumpre, e menos quando a jornada por diante é longa, confundirmos uns com outros no mapa.

Bem é verdade que dous não brigam se um não quer e não é menos que quando alguém anda a procura de peleja qualquer escusa lhe presta. No discurso e opinião social, literária, histórica e política acontece igual. Grandes polémicas e bandos de facção foram depois apagados pelo tempo, as novidades ou igualados por terceiros contrários, alheios ou distantes.

Mas, a diferença irreconciliável pode ser apenas questão de matiz, de perspectiva, tempo, momento, oportunidade ou de falta de uns outros elementos de permeio, observação atenta ou contextos explicativos. A sensibilidade, a educação, a formação, o ambiente e também os interesses e modas epocais favorecem, exageram ou desintegram o valor e importância que concedemos a matizes e diferenças.

Vivemos tempos nos que se desbotam matizes e se procuram diferenças. Tempos nos que é frequente a anulação dos outros e dos seus discursos, queimados pela rede ou ao vivo na efígie radical do inimigo fanático, no canto de integrá-los. Negar-se a perceber os matizes que se explicam ou evidenciam é um jeito como outro de romper os debates fixando posições discordantes, discrepantes, divergentes.

A incapacidade ou a negativa a perceber os inúmeros matizes de qualquer pessoa, discurso, projeto, grupo na procura e elementos comuns define bastante o presente reacionário que nos tocou. Nada de consensos: escutamos sem ouvir; lemos sem perceber, apenas na procura da frase ou detalhe em que cravar os dentes. Monologamos na defesa, e para triunfo da nossa ideia, sem atender as razões doutros. Escapamos à conversa e procuramos dominar o debate.

Quando aconteceu isto na Espanha? quando foi que aceitamos, a direita e esquerda, como normal o pensamento de barra, torcida, de bandeiras e de cores, sem matizações, reticências, críticas ou discrepâncias. Tudo ou nada. Branco ou preto. Comigo ou contra mim. Partidos políticos, campanhas, jornais adscritos a eles, coletivos, grupos de interesses, reivindicativos ou associativos, redes sociais. Não se trata apenas de se posicionar quanto de declararmos que a razão completa e absoluta é uma em única e monolítica perspectiva imposta. E não vale com dar razão, senão que se exige declararmos ser conversos e reeducar-nos à mais peregrina, arbitrária ou absurda crença que outra gente tenha por questão.

Ninguém ganha, claro. E a tolerância, a democracia vão-se esfarelando entrementres o vento vai levando, entre as cinzas da terra queimada e os restos de grandes e pequenas pontes, os matizes.

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