UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (320)

A CORDOARIA VELHA

 

Raramente ando de autocarro, mas na outra semana resolvi ir com um amigo e um seu filho até à Ribeira, e fomos num. O 500 é um autocarro de dois andares que faz a marginal do mar do Porto e do rio Douro até que sobe em direcção à Praça de Almeida Garrett.

Lá íamos nós no piso superior a apreciar a paisagem quando se ouve:

– Próxima paragem, Cordoaria Velha

Segundos depois o Gonçalo toca-me no braço e diz:

– Tio, aqui é que é a Cordoaria? Pensava que não.

Lá me entretive a contar-lhe a história das Cordoarias do Porto.

– No Porto, não houve apenas uma Cordoaria, mas cinco!, comecei.

– Sabes o que são e para que serviam os Cordoeiros? – Eu não, respondeu!

Sob o olhar atento do ganapo, continuei.

O Porto é uma cidade que tudo ou quase tudo deve ao mar, ao rio e à construção naval, engrandecendo-a. E neste caso, o da construção naval, as cordas eram parte integrante e essencial.

Os Cordoeiros eram operários especializados em fazerem as cordas para os navios da altura. Tudo funcionava à base de cordas. Para subir e baixar as velas eram precisas as cordas mais compridas. às vezes com muitas dezenas de metros cada uma, se não até centenas. Por isso precisavam de muito espaço para as estenderem e por essa razão escolhiam praias extensas ou ruas compridas.

Aquela zona, Olival, que nós conhecemos pelo nome que nos ficou até aos dias de hoje, Cordoaria, esteve ali instalada desde 1661. Depois disso, e a partir de 1852 esteve instalado na Praça da República que. ao tempo, se chamava Campo de Santo Ovídeo. O comércio e a industria de cordas decresceu e, minguou de tal forma, que acabou por volta de 1924. Tínhamos entrado quase definitivamente na era do vapor e do aço.

Mas houve mais três zonas onde a prática da cordoaria se manifestou em pleno.

A, provavelmente mais antiga, ficava junto ao Ouro, ali atrás onde acabamos de passar, quase em frente ao Ilhéu do Frade, lembras-te de te ter contado a história?, continuei.

 

ILHÉU DO FRADE

 

Ainda lá está a rua da Cordoaria Velha de Lordelo, para nos lembrar da actividade existente em tempos antigos. Rua comprida que servia perfeitamente para estender as cordas das Naus dos séculos XIII, XIV, e XV.

 

ENTRADA DA RUA DA CORDOARIA VELHA DE LORDELO

 

RUA DA CORDOARIA VELHA DE LORDELO

Foi no Estaleiro do Ouro que se fizeram as Naus que seguiram para o Cerco de Lisboa, e as que foram para a conquista de Ceuta, em 1415, e de Alcácer-Ceguer em1458, sabes?

 

ANTIGO ESTALEIRO DO OURO

Depois encontramos na zona de Miragaia um dos locais propícios ao mister dos Cordoeiros. Na praia existente, grande, larga e comprida, estendiam-se as cordas que iriam servir para as Naus, por exemplo, para as que Vasco da Gama levou para a sua expedição até à Índia. Mas o areal foi ocupado com a construção da Alfandega, aqui mesmo, estás a ver?, e os Cordoeiros tiveram de mudar de lugar.

 

ALFÂNDEGA – VISTA DA RUA DE MIRAGAIA

Descobriram um local logo ali à beira, ali em cima, nas ruas que hoje são de Tomás Gonzaga e de Francisco da Rocha Soares, também elas compridas e excelentes para se estenderem as cordas, ali tendo permanecido até se mudarem para o Campo do Olival, que eu já antes referi.

Bem, chegamos ao fim da linha. Saímos aqui, disse eu ao Gonçalo. Vamos ali até ao muro dos bacalhoeiros.

– Muro dos Bacalhoeiros?, disse o Gonçalo, curioso. Então aqui havia bacalhoeiros?

Ora bem, comecei …

 

 

 

About José Fernando Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

5 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (320) | joanvergall

  2. Luiz A.F. e Sá- Parada de Gonta

    Excelente trabalho Fotográfico Amigo José Magalhães.E o Porto aqui tão perto.!……

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  3. Adriano Silva

    Muito interessante!

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  4. Carmino bastos

    Sempre uma delicia de escrita e de fotografia.. Continua Amigo Magalhães. Abraço

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  5. Manuela d'Oliveira

    Adorei. Não sou do Porto mas de Lisboa. Mas vivi recentemente nessa cidade que me encantou e calcorrei deslumbrada. Aprendi a sua história. Vivi lá 13 anos mágicos. Os meus planos eram de lá ficar para sempre não fora a doença de um filho a quem tive de atender. Adoeci também e tive de ficar por Lisboa onde tenho os meus cinco netos e a visita frequente da minha filha. Ai! mas o Porto continua e continuará para sempre na minha mente e no meu coração.

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