A DERROTA DE CORBYN, UMA CONSEQUÊNCIA DA CRISE POLÍTICA A OCIDENTE – X – UMA OUTRA LEITURA SOBRE O QUE É A CLASSE OPERÁRIA – O PARTIDO TRABALHISTA DEVE PÔR EM QUESTÃO O MITO DE QUE A CLASSE TRABALHADORA APOIA O BREXIT – por PAUL MASON

 

Labour must challenge the myth that the working class supports Brexit, por Paul Mason

NewStatesman, 27 de Fevereiro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

O partido deve fazer campanha sobre os valores  em que os seus apoiantes acreditam, na verdadeira classe trabalhadora, uma classe progressista e multiétnica, e não sobre os valores das pessoas que nunca irão votar nele.

 

Até mesmo com o porta-voz de Jeremy Corbyn a fazer  um comunicado  contra a sua nova linha sobre Brexit, os leitores podem ser desculpados se estiverem confusos sobre o que isso significa. Por isso, deixa-me soletrar. Significa a rejeição decisiva da tentativa de revolta do Partido Trabalhista Parlamentar contra a posição da conferência dos trabalhistas.

Em Dezembro, um grupo de deputados trabalhistas, incluindo alguns dos membros da bancada de frente, começou a agitar-se contra o compromisso do partido para com um segundo referendo. Eles foram apoiados pelo secretário-geral do Unite, Len McCluskey, o Partido Comunista da Grã-Bretanha e escritores do sítio norte-americano Jacobin. Os seus argumentos eram os seguintes:

“A classe trabalhadora quer o Brexit e por eles nós temos de o levar a cabo. Não podemos ganhar lugares marginais nas Midlands e em partes de Yorkshire se propusermos  um segundo referendo. O meu círculo eleitoral  não entenderá pois  porque é que conseguimos levar a cabo  o Brexit e verão mesmo  um segundo referendo como uma traição.” E  face aos   membros da base: “Quero defender o Remain mas não posso enfrentar uma batalha cultural com a extrema-direita na minha cidade, que é o que vai acontecer no caso de um segundo referendo.”

Tudo isso são argumentos decentes – e estão a estimular alguns deputados, mesmo agora, e com isso estão a desafiar a tentativa de Corbyn de apoiar a chamada emenda Kyle-Wilson, que garantiria um referendo sobre qualquer acordo aprovado. Vamos enfrentá-los, um a um.

A classe trabalhadora apoia o Brexit? Isto depende da definição de “classe trabalhadora” como pessoas brancas e pouco qualificadas que vivem em pequenas cidades inglesas. Vejam o mapa eleitoral das terras do coração dos Trabalhadores: Manchester vermelha apoia Brexit? Será que Liverpool, Bristol, Glasgow e Newcastle? Eles não o fizeram em 2016 e não o fazem agora.

Veja a sondagem do MRP feita pela Hope Not Hate e Best for Britain: mostra que, mesmo naqueles círculos eleitorais em que Leave pontuou alto, e onde os trabalhistas têm uma chance de ganhar as próximas eleições gerais, em média, houve uma oscilação de seis pontos percentuais de Leave  para  Remain – com as mulheres da classe trabalhadora, os jovens eleitores trabalhistas e os muçulmanos, os grupos mais propensos a mudar de opinião.

E olhe-se para a verdadeira classe trabalhadora da Grã-Bretanha. Contém 2,7 milhões de cidadãos europeus, muitos dos quais são os próprios operários fabris  e os trabalhadores agrícolas que o movimento operário nasceu para representar. Incluímo-los na classe trabalhadora britânica? A Escócia incluiu-os  em 2014 – quando lhes deu a votação – então porque não podemos nós fazê-lo?

E a um nível estratégico, o argumento “a classe trabalhadora apoia Brexit” é fraco, de  uma maneira que, se algum desses rebeldes trabalhistas tivesse lido um livro de ciências sociais decente, seria bem clara.

O historiador marxista Edward Thompson escreveu uma vez que “a classe é definida pelos homens enquanto vivem a sua própria história, e no final esta é a única definição”. Para os marxistas, uma classe  é formada em torno de um projeto: não é criada por práticas capitalistas de contratação, nem é definida simplesmente pelo rendimento  ou níveis de educação.

Thompson mostrou que a classe trabalhadora britânica se definiu em torno dos projetos de democracia e dos direitos dos trabalhadores. Fê-lo repetidamente: a classe operária da greve dos estivadores de 1889 era uma entidade autodefinida em torno do projeto de sindicalismo de massa, autoajuda e representação política.

No século XXI, como argumentei no Pós-Capitalismo, a classe operária tornou-se submersa  – destruída e reformada – numa demonstração de resistência mais em rede e individualista. As enfermeiras são a classe trabalhadora; os médicos em formação – quando entram em greve – são a classe trabalhadora; os precários habitantes dos bairros da cidade, atormentados pelas drogas e pela criminalidade, mas determinados a auto-organizar-se – também eles são classe trabalhadora. Os estudantes, oito em cada dez dos quais têm empregos a tempo parcial, também fazem parte da classe trabalhadora. Assim como os migrantes afegãos tecnicamente autónomos que dirigem táxis Uber. E sim, também tudo o que resta da força de trabalho industrial.

A questão é: qual é o projeto em torno do qual esta classe se formou? A resposta é: modernidade progressiva e um mundo globalizado. Os seus filhos vão de férias em Ayia Napa; os seus avós possuem bangalôs em Marbella; os seus noivos vão de avião, de  easyJet passar a lua de mel em Tallinn. Numa  tarde de sábado, eles assistem a equipes de futebol formadas a partir de  todo o mundo.

Se olharmos para a classe trabalhadora britânica, não como uma categoria sociológica construída pelos media, mas como uma formação cultural viva construída por nós mesmos, uma coisa é clara: a classe  operária não apoia o Brexit. Ela é cada vez mais definida pela sua oposição ao Brexit. E sabe o que enfrenta: uma aliança da elite Tory e  de nacionalistas brancos amargurados, provenientes de todas as classes, em torno de um projeto rival de etnopopulismo.

A seguir, tomemos o argumento de que os trabalhistas não podem vencer na disputa dos  40 a 60 lugares marginais nos Comuns  de que necessitam para assegurar o poder, se apoiarem um segundo referendo.

Em primeiro lugar, é um pontapé nos dentes para os trabalhistas escoceses. Se aceitarmos, taticamente, a necessidade de tomar uma posição que nos possa ser  muito grata  em Walsall, mas que nos destrua em Glasgow, o que diz isso sobre as prioridades dos trabalhistas como partido de todo o Reino Unido?

Mas mesmo nos seus próprios termos, isto está errado. A análise das sondagens encomendada pelo sindicato TSSA, e amplamente divulgada nos principais círculos trabalhistas, mostra que, se o Labour for visto como facilitador do Brexit, perderá 16 lugares em Londres e cinco na Escócia, ao mesmo tempo que não vai conseguir lugares extra nas Midlands inglesas.

Este documento de dez páginas, que, segundo sei, pesou muito na mente do círculo interno de Corbyn, mostra que a única hipótese que os trabalhistas têm de ganhar as próximas eleições é, se se oporem claramente ao Brexit, ao mesmo tempo o voto conservador ou se divide ou é perdido  por causa da suavidade do acordo de Theresa May.

Aqueles que nos dizem  que o apoio a um segundo referendo levará a “danos catastróficos” nas Midlands e Yorkshire não têm qualquer prova de apoio nas sondagens. Nem precisam de nenhuma. Porque todas as conversas com os Lexiteers acabam por levar à afirmação de que as sondagens estão a ser manipuladas pelos Conservadores para “confundir” os Trabalhistas, levando-os a tomar a posição errada. O mundo deles é um mundo em que a último voz de um qualquer  reformado confuso que apareceu na TV é mais importante do que as provas da ciência política.

Terceiro vem o argumento: “Não posso olhar os meus eleitores na cara se apoiar uma repetição do referendo Brexit.” Sim, vai ser difícil. Mas se os Trabalhistas conseguirem mostrar que foram os Conservadores que, dada a tarefa de levar a cabo o Brexit, falharam – e que tentaram a todo o momento fazer passar uma versão mais suave de Brexit – esse argumento pode ser amenizado.

Finalmente, há o problema do que um segundo referendo fará à coesão social e aos níveis de cólera na sociedade civil das pequenas cidades britânicas. Isso é real. Posso simpatizar com qualquer pessoa que tenha tido de viver numa cidade onde os pubs se tornaram zonas de guerra ideológica entre Momentum e Ukip, sem quase nenhum centro liberal existente. E consigo entender as pessoas que dizem “não posso pensar em  ter de   fazer isso de novo”.

Eu também não. Mas nesse caso, pare de me contar sobre a Cable Street em 1936, ou Lewisham em 1977. O movimento operário tem o orgulho de enfrentar e derrotar a extrema-direita, tanto física como ideologicamente. Nos círculos da esquerda há uma teoria de que, se evitarmos uma guerra cultural ao estilo americano, podemos conseguir um governo de esquerda sem lágrimas. Mas essa guerra cultural tem sido travada nas comunidades de classe trabalhadora há anos, e  intensificou-se  à medida que o apoio a nenhum acordo se solidificou durante a barragem da xenofobia nos media.

Ver como a esquerda americana luta me faz ansiar por uma raça de políticos como as democratas Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib e Ayanna Pressley. A sua atitude em relação ao racismo branco é não para apaziguá-lo, mas para contar uma história melhor baseada no futuro, não no passado. Para  falar em termos de desafio  sobre os  seus próprios valores – mas para oferecer a toda a América um acordo económico: empregos reais, crescimento, investimento e prosperidade.

É disso que precisamos aqui. Após o resultado do referendo eu, como outros, aceitei a necessidade de tentar realizar o  Brexit. Mas se nenhuma forma disponível de Brexit é aceitável para os fantasistas de direita que realmente o querem, não é tarefa da esquerda levar a cabo o Brexit.  Uma vez esgotadas todas as vias parlamentares para resolver isto, o problema tem de ser devolvido ao povo. E quando é, seja em eleições gerais ou em referendo, os trabalhistas devem argumentar com o coração.

Temos de fazer campanha sobre os valores em que acreditam os nossos principais apoiantes da classe trabalhadora real, progressista e multiétnica, e não sobre os valores das pessoas que nunca votarão em nós.

Leave a Reply