A propósito do conceito e iniciativas da Transição Justa – 8. O negócio da solidão. Por Helena Béjar

Transição Justa 1 Economia GIG e Falacia IMAGEM SERIE

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8. O negócio da solidão

Helena Béjar Por Helena Béjar

Publicado por El Pais em 10/09/2019 (ver aqui)

 

8 O negócio da solidão

Eulogia Merle

Mais vale pressionar o Estado para que crie políticas comunais para ajudar as pessoas que se sentem sozinhas, e explorar as energias da sociedade civil, do que deixarmo-nos capturar pelas promessas do mercado

 

 

Diz-se que nas sociedades modernas avança uma epidemia de solidão. Isso repousa sobre uma metáfora organicista: a sociedade é como um organismo vivo que adoece e pode perecer. A metáfora da epidemia é potente. Pressupõe que a solidão se estende rapidamente, sem controle, que é contagiosa e deve ser contida. Frente à privacidade, conceito próprio da cultura narcisista dos anos oitenta e noventa do século XX, que alude a um afastamento voluntário da companhia dos outros, e a um espaço de criação e de liberdade frente ao exterior, a solidão como fenómeno social irrompe em tempos de crise. Se a privacidade é —todavia— afim ao indivíduo singular e o seu potencial como nicho de mercado, a solidão é própria de um indivíduo infeliz.

Considerar a solidão como uma doença que requer tratamento pressupõe um passo mais no processo de civilização e individualização, que vão a par. Ambos são próprios da modernidade e constroem muros invisíveis entre os homens. Com o controle dos impulsos e da espontaneidade, homens e mulheres separam-se cada vez mais. Sobretudo nas metrópoles, contextos da solidão contemporânea. Vão separados nos autocarros —os solitários escolhem os assentos de fora —, nos aviões —onde os estranhos já não se falam, como até há pouco—, armados com uma tecnologia individualizadora que protege do toque social. “Quando se acende o telemóvel apaga-se a rua”, sentenciava Bauman. E como se não bastasse, o avanço do politicamente correto instaura novos temores e regras à vizinhança: o contacto físico é cada vez mais perigoso.

As causas da crescente solidão são estruturais: a mutação da família e do casamento, antigamente redes de segurança; a desinstitucionalização do trabalho como rede de encontros de identidade social, e o triunfo do individualismo. Os Estados Unidos, que idolatram a família, são ao mesmo tempo o berço do culto da autosuficiência que propaga o ethos psicoterapêutico. E é aqui onde se torna mais visível a solidão, que também corrói a Europa e até as outrora culturas coletivistas, como o Japão. A solidão é entendida como isolamento social, como falta continuada de contactos cara a cara. Como uma condição de saúde que incrementa os custos dos cuidados de saúde. Daí que os governos se interesem por ela e a medicalizem: o programa público de saúde norteamericano “care more health togetherness” trata de aliviar o isolamento dos idosos com visitas de voluntários. Mas a ajuda gratuita tem os seus limites, sobretudo numa cultura onde os jovens, que nutrem maioritariamente essa filantropia, raciocinam em termos emotivos de “gratificação” e “crescimento interno”, algo difícil de encontrar acompanhando idosos doentes e sozinhos. O projeto insiste na mensagem “positiva” —a togetherness, o estar juntos—, para que os afetados reconheçam a sua solidão, em vez de se envergonharem dela.

Há “festas de abraços” para gente que não quer sexo senão ser tocada para sentir-se mais humana

E é que a solidão acarreta consigo um estigma. O solitário incentiva desconfiança, a suspeita de que o seu isolamento é um estado merecido. Engendra tristeza e depressão, estados “negativos” que a cultura do “positivo” julga como reprováveis. A intolerância cultural com a tristeza, longe de produzir apoio, provoca rejeição. Quem está sozinho é um estranho. Tristes contínuos, depressivos débeis e solitários são incorporações do fracasso, emocional e social. Por isso os que estão sozinhos ocultam a sua vergonhosa condição: algo terão feito para estarem assim, não são “positivos”, “flexíveis”, são “tóxicos” e o seu mal pode ser contagioso. As fontes do sofrimento deixam de ser procuradas no exterior social (a ausência da família, o abandono do/a parceiro/a, a falta de amigos com o passar do tempo) mas antes nos défices das vítimas. A solidão é estigmatizada, silenciada. Só aparece nos meios de comunicação de vez em quando, como um problema incómodo e de difícil solução.

A auto-ajuda proclama a construção de um eu duro, que aceite o distanciamento e a solidão como seu horizonte. Os outros, que podem mitigá-lo, são seres sobrecarregados pela crescente aceleração do capitalismo tardio, e não se lhes pode pedir que cuidem dos fracos, que os escutem, muito menos que cuidem das necessidades dos solitários. Vivemos uma diminuição da empatia -particularmente nas gerações educadas em tecnologia -, base da sociabilidade. As conversas telefónicas estão a diminuir, substituídas por textos que não interrompem o portador do telemóvel. A conversa é percebida como uma interrupção do próprio tempo e uma intrusão no tempo dos outros. Os contactos cara a cara são entendidos como mais arriscados do que as trocas virtuais.

A auto-ajuda proclama a construção de um eu duro, que aceite a solidão e o distanciamento

Algumas iniciativas têm como objectivo contrariar estas tendências. Por exemplo, o projeto californiano Side walk talking, que insiste que “precisamos uns dos outros” e no reconhecimento da interdependência. Os voluntários levam cadeiras para a rua, convidando qualquer um a conversar. Os seus promotores rotulam o seu projecto como político, típico de uma democracia que liga emocionalmente os seus componentes. A sociedade civil reage ao aumento da solidão. É um passo mais além das redes sociais, que não criam um sentimento de pertença e conexão. Os grupos de reunião na Internet reúnem estranhos numa base ad hoc. Como são livres e anónimos, têm mais a ver com sair do que com compromissos. Embora sejam uma resposta à solidão, a circulação incessante de pessoas que assistem a vários eventos não consegue atar laços fortes e estáveis. Por sua vez, as redes de vizinhança na Internet estão invadidas por anúncios e servem como pontes de amizade para os mais jovens; os mais expostos à solidão só se atrevem a aconselhar serviços. Estas redes conectam mas não criam capital social.

O mercado alimenta-se da fraqueza das tentativas da sociedade civil para aliviar a solidão. Criado em 2009 nos Estados Unidos, o serviço “rent a friend” oferece um serviço de escuta a cada hora. O preço varia de acordo com o tempo e a intensidade da conversa. Se a amizade se baseia numa lógica de dom, segundo a qual o tempo e o envolvimento são dados gratuitamente, o amigo a contratar oferece um serviço de escuta livre de juízos e exigências. Os outros estão demasiado ocupados com os seus problemas para o atender, ou simplesmente não existem. Tal como no amor e no sexo, agora procurado na Internet, o mercado foi feito para a amizade. Há também “festas de abraços” para as pessoas que não querem sexo, mas apenas ser tocadas para que se sintam menos sós, mais humanas. Não nos iludamos, tais práticas não são apenas típicas do excepcionalismo americano. Pelo contrário, elas são as tendências do futuro. Mais nos vale pressionar o Estado a criar políticas comunitárias de união e, ao mesmo tempo, explorar as energias da sociedade civil, do que sermos capturados pelas promessas do mercado, que assenta na cultura individualista que afirma que somos auto-suficientes, fortes, sempre jovens. E que aceitemos a solidão ou compremos companhia.

 

__________________________

A autora: Helena Béjar é catedrática de Sociologia na Universidade Complutense de Madrid. O seu último livro é Felicidad: la salvación moderna (Tecnos, 2018). Outras obras: El ámbito íntimo: Privacidad, individualismo y modernidad (Alianza, 1988), La cultura del yo: Pasiones colectivas y afectos propios en la teoría social (Alianza, 1993), El mal samaritano: el altruismo en tiempos del escepticismo (Anagrama, 2002), Identidades inciertas: Zygmunt Bauman (Herder, 2007), sobre o sociólogo e filósofo polaco Zigmunt Bauman e La dejación de España. Nacionalismo, desencanto y pertenencia (Katz Editores, 2008).

One comment

  1. Maria de sa

    [image: excelente.gif]*Maria *

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: