A DERROTA DE CORBYN, UMA CONSEQUÊNCIA DA CRISE POLÍTICA A OCIDENTE – XIII – THE FULL BREXIT – TRANSFORMAR A GRÃ-BRETANHA DEPOIS DO BREXIT: EDDIE DEMPSEY E A ESQUERDA DIVIDIDA

 

Transforming Britain After Brexit: Eddie Dempsey and the Divided Left, por George Hoare, Peter Ramsay, Lee Jones

The Full Brexit, 4 de Abril de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Uma resposta às críticas ao nosso recente evento em Londres por parte de alguns da esquerda, e um convite para mais debate

 

O Full Brexit co-organizou um conjunto  de sessões pelo país tendo como título   Transforming Britain After Brexit tour  porque queríamos abrir um espaço de discussão, dentro e fora da esquerda, sobre Brexit e a natureza da União Europeia. Em março realizámos eventos em Coventry, Manchester, Liverpool e Londres, com um evento em Durham no próximo mês e, esperemos, mais datas em cidades de todo o Reino Unido depois disso.

Acreditamos que a UE é antidemocrática na sua estrutura e que tem um efeito profundamente negativo sobre a política democrática dos estados membros. Também acreditamos que a UE não é reformável e por isso defendemos um “Brexit Pleno” como condição necessária (embora não suficiente) para a renovação democrática e económica.

O evento de Londres (na segunda-feira, 25 de março) foi uma casa cheia, com uma discussão animada e robusta a partir da sala sobre o caminho atual para a esquerda. O ativista sindical de  RMT Eddie Dempsey, (National Union of Rail, Maritime and Transport Workers) um orador da noite que também falou no nosso evento em Manchester, recebeu subsequentemente  críticas de alguns pelos seus comentários. Eddie afirmou que “o que quer que se pense das pessoas que aparecem naquelas  manifestações de Tommy Robinson ( NT- manifestações fascistas) ou qualquer outra manifestação  como essa – a única coisa que une essas pessoas, qualquer que seja o outro fanatismo que esteja a acontecer, é o seu ódio à esquerda liberal e eles têm razão em odiá-los”. Ele também observou que “há muita gente  no Partido Trabalhista a considerar que há uma certa   camada no topo da classe trabalhadora, em aliança com as pessoas, que pensa que partindo  de minorias étnicas e liberais, isso é  suficiente para as conduzir ao poder”

A acusação de que Eddie é de alguma forma “de extrema-direita”, “racista”, ou um “apologista de Tommy Robinson” é absurda e pouco convincente. Eddie tem frequentemente colocado a sua vida  em risco para lutar contra os fascistas nas ruas e tem, por exemplo, apoiado comícios de Black Lives Matter, um facto que os seus denunciantes cinicamente ignoram.

Eddie tem razão em dizer que muitos trabalhadores odeiam a esquerda liberal; a investigação  académica em muitas comunidades desindustrializadas – incluindo a que foi descrita aqui no The Full Brexit – demonstrou isso claramente. Eddie também tem razão em dizer que eles têm boas razões para o fazer: o seu sentimento de abandono e traição, particularmente pelo Partido Trabalhista, está firmemente enraizado na realidade. Eddie também tem razão em identificar o afastamento do partido trabalhista de uma política baseada na classe; mais uma vez, isto é amplamente notado na literatura académica, não só na Grã-Bretanha, mas em todas as democracias sociais ocidentais[1]; na verdade, isso tem sido ativamente encorajado por muitos intelectuais de esquerda[2]. No entanto, afirmar – como fez Clive Lewis MP – que Eddie disse que “os negros [estão]  a ser utilizados  como peões para subverter a classe trabalhadora (branca)” – é claramente desonesto. Com má fé deliberada, infere deliberadamente intenções racistas – a inferência de que a classe trabalhadora e as minorias étnicas não se sobrepõem – de uma única frase, ignorando totalmente o ativismo antirracista mais amplo de Eddie e as suas outras declarações que deixam absolutamente claro que ele não considera a classe trabalhadora como sendo exclusivamente branca[3].

Este ponto pode ter sido um pouco desajeitado (embora na verdade Eddie estivesse a parafrasear  um deputado trabalhista). No entanto, afirmar – como fez Clive Lewis MP – que Eddie disse que “os negros [estão] a ser usados como peões para subverter a classe trabalhadora (branca)” – é claramente desonesto. Com má fé deliberada, infere deliberadamente intenções racistas – a inferência de que a classe trabalhadora e as minorias étnicas não se sobrepõem – de uma única frase, ignorando totalmente o ativismo anti-racista mais amplo de Eddie e as suas outras declarações que deixam absolutamente claro que ele não considera a classe trabalhadora como sendo exclusivamente branca[3].

Para além das acusações pessoais[4], a resposta mais ampla – de pessoas como Paul Mason – às reivindicações políticas de Eddie sobre a situação da esquerda liberal e a sua relação com a extrema-direita é mais interessante, e mais preocupante, para aqueles de nós comprometidos com um projeto político transformador da esquerda. Revela uma profunda fissura dentro da esquerda sobre a UE.

Brexit deixou claro que a esquerda está dividida entre as suas alas liberal e socialista. A primeira está associada a uma variedade de posições anti-Brexit, incluindo “permanecer e reformar”, enquanto a segunda defende o voto  Brexit e critica a UE como antidemocrática. Em termos gerais, a esquerda liberal enquadra a política como uma forma de ajudar os mais desfavorecidos numa sociedade profundamente prejudicada pela austeridade, mantendo-se simultaneamente no quadro do sistema económico capitalista. A esquerda liberal tem uma profunda ambivalência em relação ao papel da classe trabalhadora na política. Fundamentalmente, ela vê a classe trabalhadora como um objeto de caridade, radical ou não; ela fica nervosa quando a classe trabalhadora se torna um sujeito da política, fazendo exigências e exercendo a sua voz  a corpo inteiro. Esta ansiedade é exposta através do exagero revelador de uma ameaça numericamente minúscula, de extrema-direita, levando a exigências para cancelar Brexit (que, ironicamente, é a única forma de reavivar o voto do UKIP, que foi esvaziado após o referendo).

Pelo contrário, a esquerda socialista não teme a tomada de consciência política  da classe trabalhadora; esta é todo o  propósito da sua política. A esquerda socialista entende a política não como um meio para dispensar caridade aos pobres, mas como uma luta para estender a democracia, em última instância da esfera política para a esfera económica. Esta exigência de democracia baseia-se numa longa tradição da classe trabalhadora que exige a extensão da soberania popular. Isto  estende-se a todos os trabalhadores, independentemente de suas características étnicas, sexuais ou outras.

Esta distinção ajuda-nos a compreender porque é que o debate sobre a UE assumiu uma forma tão moralizada, onde o debate racional se torna difícil e as denúncias vituperativas abundam. Grande parte da esquerda liberal “sacralizou” a UE, transformando-a num objeto sagrado. É vista como o “coração de um mundo sem coração”, como Marx e Engels uma vez se referiram à religião organizada; como a única instituição capaz de mitigar a situação dos pobres e marginalizados. O receio da esquerda liberal é que, na ausência de regulamentos da UE, se siga uma “corrida para o fundo”, com a Direita no comando e a extrema-direita encorajada, um desastre para a classe trabalhadora e especialmente para as minorias étnicas.

Falta completamente a esta visão sacralizada da UE qualquer verdadeiro acerto de contas com o papel real da UE no avanço do capitalismo neoliberal e na degradação dos direitos dos trabalhadores, que foram conquistados principalmente através de lutas internas. Também está ausente qualquer menção ao papel diabólico – e efetivamente racista – da UE na crise dos migrantes, incluindo o estabelecimento de campos de concentração em torno das fronteiras da Europa e no Norte de África. E falta, acima de tudo, qualquer sentido da própria ação política da classe trabalhadora. Os trabalhadores são tornados objetos passivos de controle estatal, meras vítimas de uma política desreguladora fantasista, já derrotada, e de possíveis fraudes da extrema-direita. A noção de que a classe trabalhadora poderia ser mobilizada para transformar Brexit num eixo central de transformação social progressista está completamente ausente do pensamento da esquerda liberal. Isto torna-se uma falácia auto-realizadora, uma vez que a esquerda liberal se recusa a liderar uma tal transformação, em vez de andar a denunciar Brexit como o tem feito, recuando  face à fome da classe trabalhadora por mudanças fundamentais, e apressando-se a difamar os seus representantes como sendo racistas.

A tarefa mais urgente para a esquerda é ultrapassar esta visão distorcida da UE e da classe trabalhadora, e concentrar-se claramente na situação política e económica que enfrentamos. A Esquerda não ganha nada com críticas infundadas aos indivíduos. Em vez disso, precisamos de um debate produtivo sobre a natureza da UE e o verdadeiro significado do socialismo democrático e do internacionalismo. Apesar das notáveis exceções, tem havido muito poucos eventos deste tipo organizados pela Esquerda. Por isso, convidamos Paul Mason, Clive Lewis e Michael Chessum para debater com The Full Brexit on the Left, the EU, e a natureza da extrema-direita.

No momento, a esquerda britânica está desmoralizada e dividida – e o seu curso atual só aprofundará essa desmoralização e aprofundará essas divisões. Há um risco real de que a janela de oportunidade aberta por Brexit – para uma renovação democrática e um programa económico genuinamente transformador da propriedade pública e da democracia dos trabalhadores – esteja a fechar-se. Não podemos dar-nos ao luxo de deixar que isso aconteça.

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 Notas:

[1] Por exemplo: “no final dos anos 90, os principais partidos [na Grã-Bretanha] estavam a virar-se  muito mais para os liberais de classe média, havendo aparentemente poucos incentivos para falar diretamente para  a classe trabalhadora… Eles deslocaram-se para o centro, o que Blair e Clinton chamavam de Terceira Via e os alemães de ‘Novo Centro’, ao mesmo tempo que se viravam  mais diretamente para a política identitária.”Roger Eatwell and Matthew Goodwin, National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy (London: Penguin 2018), p. 254. Veja-se também  Geoffrey Evans and James Tilley, The New Politics of Class: The Political Exclusion of the British Working Class (Oxford: Oxford University Press, 2017)

[2] O texto fundamental aqui é Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, Hegemony and Socialist Strategy: Towards a Radical Democratic Politics (London: Verso, 1985) [pdf link]. No prefácio da sua segunda edição (2001), os autores observam que “a maior parte do que aconteceu desde então tem seguido de perto o padrão sugerido no  nosso livro” (p. vii). Eles acrescentam: “É verdade que a evolução dos partidos de esquerda tem sido tal que eles se preocuparam principalmente com as classes médias, em detrimento dos trabalhadores” (p. xviii), ao mesmo tempo que renunciaram ao seu papel neste domínio.

[3]  Numa entrevista com o Dubliners Now, filmada antes dos ataques que lhe foram dirigidos, Eddie Dempsey declarou: “A classe trabalhadora não é só branca. Não são só pessoas como tu e eu… O problema é que porque o discurso político da esquerda em geral é tão dominado por ideias realmente liberais de conceitos individuais de identidade… quando se fala de classe, as pessoas pensam imediatamente que se está a falar da ‘classe trabalhadora branca’ ou de algum tipo de nativo – e a classe trabalhadora nunca foi assim… A parte de Londres de onde sou, de onde cresci, nunca, nunca foi assim, nunca. Não importa que parte da história você olhe para trás, sempre foi muito, muito misturada”.

[4] Para uma detalhada resposta às acusações, veja-se Red Resurgence blog.

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Leia o original em The Full Brexit clicando em:

https://www.thefullbrexit.com/post/2019/04/04/transforming-britain-after-brexit-eddie-dempsey-and-the-divided-left

 

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