A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? Texto 20. Entrevista a Klaus Regling concedida ao Financial Times.

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Um mês de março intenso em reuniões, em tragédias, em desacordos afirmados, em acordos adiados, em ameaças feitas e desfeitas ou adiadas, tudo isto se passou na União Europeia que se mostra claramente impotente face à tragédia Covid 19 e à crise financeira que nos bate à porta com uma enorme violência.

Um relato destes dias que mais parecem dias de loucura é o que aqui vos  queremos deixar nesta pequena série de textos intitulada A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ?

31/03/2020

JM

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 20. Entrevista a Klaus Regling concedida ao Financial Times

 

Texto 20. Entrevista a Klaus Regling concedida ao Financial Times 1

Publicada por esm

Transcrição integral da entrevista concedida ao Financial Times com o diretor do MEE, Klaus Regling. Entrevista conduzida por Sam Fleming e realizada a 31 de Março de 2020. (ver aqui)

Financial Times: A última cimeira europeia solicitou uma proposta do Eurogrupo dentro de duas semanas, mas não deu nenhuma  orientação explícita sobre o rumo que os líderes gostariam de seguir em termos da resposta económica coletiva, aparentemente devido à falta de consenso a este respeito. Gostaria de saber se poderia começar por nos dizer em que é que o Eurogrupo se está a concentrar, em que é que o trabalho se irá concentrar nos próximos dias e nas próximas semanas.

Klaus Regling: Sim, penso que todos no Eurogrupo estão conscientes de que estamos numa grande crise, como disse Mario Draghi na sua intervenção da semana passada, que esta é provavelmente a maior crise económica e humanitária da nossa vida. E isso significa que todos têm de contribuir para encontrar uma solução. Isto é verdade para os Estados-Membros, claro, e eles estão a trabalhar nisso e já tomaram decisões para ajudar com os custos de financiamento imediato do sistema de saúde, para ajudar as empresas a ultrapassar este período em que podem não ter quaisquer receitas. Estão a dar garantias, apoio orçamental. O Banco Central Europeu (BCE) tomou medidas. Não preciso de falar sobre isso. O Financial Times cobriu amplamente esta questão. E isso foi muito importante, pois isso esclarece o que pensam as instituições europeias e eu vejo três. Todas elas fazem alguma coisa, estão dispostas a fazer mais. E penso que é preciso distinguir entre o curto e o longo prazo.

A Comissão Europeia identificou 37 mil milhões de euros no que lhe resta do orçamento. Como  sabe, o ciclo orçamental termina no final deste ano, por isso há recursos limitados. Mas foram identificados 37 mil milhões de euros para apoiar os Estados membros neste período imediato. O Banco Europeu de Investimento (BEI) é uma das instituições europeias ativas; mesmo em tempos normais, no ano passado, concedeu empréstimos no valor de 62 mil milhões de euros, por exemplo. Eles estão à procura de formas de aumentar este valor. E eu acho que o  podem fazer. E o presidente do BEI, Hoyer, sugeriu 25 mil milhões de euros em garantias adicionais dos Estados-membros, que poderiam ser utilizados como alavancagem para mobilizar 200 mil milhões de euros em financiamentos adicionais para PMEs e para as eempresas de capitalização média.

E o Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE) está disponível com uma capacidade de empréstimo não utilizada de 410 mil milhões de euros, e estamos a procurar maneira de conseguir mobilizar parte disso. Portanto, acho que essa é a abordagem certa. É preciso olhar para as diferentes contribuições que podem vir de todas as diferentes fontes possíveis. Caso contrário, não seremos capazes de lidar com isto.

Esse é o curto prazo e eu distinguiria entre o curto prazo, que mencionei até agora, e o longo prazo, digamos, tudo depois do final deste ano. Depois disso, haverá possibilidades adicionais, é claro. Por exemplo, o orçamento da UE. A situação lá mudaria consideravelmente. Em 2021 terá início o próximo período de sete anos. O Presidente von der Leyen já indicou que haverá uma nova proposta para o orçamento da União Europeia.

Seja como for, a velha proposta que tem sido discutida há já algum tempo tem dois anos, e uma nova proposta centrar-se-á também, e com razão, na forma de reagir às consequências do coronavírus. Esperemos que a partir do próximo ano deixemos de nos ocupar dos custos imediatos dos cuidados de saúde, mas será então a questão de saber como financiar uma recuperação. Tendo em conta os danos que as medidas de contenção acarretam, isso é inevitável. Estas medidas de contenção terão este custo inevitável porque teremos grandes quedas do Produto Interno Bruto (PIB) em todos os nossos Estados-Membros. Por isso, é bom que o orçamento da UE a partir do próximo ano também se concentre nisso.

Isso não significa que todas as antigas prioridades sejam obsoletas – as questões verdes continuarão também a ser importantes, mas é adequado redireccioná-las, como anunciou a Presidente von der Leyen. Além disso, com o novo ciclo orçamental, essa poderá ser uma forma de a Comissão emitir dívida europeia mais do que tem feito até agora. E uma parte do orçamento da UE poderia ser utilizada como alavanca para esse efeito. Olhando para além deste ano, o BEI poderia aumentar o seu capital, o que lhe permitiria, nos próximos anos – quando teremos de lidar com a recuperação dos danos causados pelo coronavírus à economia -, emprestar mais, o que ajudaria a retoma. E tudo isto significa emitir mais dívida europeia; penso que esse é um ponto importante a ter presente.

Há um aceso debate sobre aquilo a que alguns chamam coronabonds, outros chamam eurobonds . Mas olhando para os factos, é muito claro que temos de facto uma dívida europeia. Na verdade, já a temos há décadas. Porque sempre que o BEI emite obrigações e quando a Comissão emite obrigações e quando o MEE emite obrigações, trata-se de uma dívida mutualizada. Quando se soma o que as três instituições têm em dívida neste momento, são mais de 800 mil milhões de euros. Isso pode ser aumentado se o BEI aumentar as suas atividades de empréstimo. Também terá de haver emissão de mais obrigações se a Comissão, talvez depois do próximo ano, utilizar alguns dos seus recursos orçamentais disponíveis para garantir a dívida; eles podem emitir mais dívida. E o MEE está lá sempre que emitimos dívida. Trata-se de uma dívida mutualizada – chamo-lhe dívida europeia.

Portanto, está lá, pode ser aumentada a longo prazo. É claro que também se pode criar uma nova instituição, se é isso que os Estados-Membros querem. Mas aqui, talvez a nossa experiência seja útil, porque quando foi criada o MEE e antes disso, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), nós sabemos quanto tempo demora desde o momento em que uma nova instituição é criada até que seja possível emitir dívida. O FEEF conseguiu fazê-lo em sete meses, sete meses desde a criação até à  emissão da primeira obrigação. Este foi um recorde mundial; quando olho para outros bancos multilaterais nas últimas décadas, como o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) em 1991, que levou cerca de um ano e meio para emitir a sua primeira obrigação. Quando olho para o Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB), com sede em Pequim, criado em 2015 ou 2014, penso que demoraram três anos a emitir a sua primeira obrigação.

É por isso que defendo que, a curto prazo, se deve utilizar as instituições existentes que têm experiência em fazer tudo isto, com os instrumentos existentes, e que, a longo prazo, podem ser adaptados em certa medida, existem outras possibilidades. Mas, mais uma vez, é preciso tempo para uma nova instituição. E não deve haver mal-entendidos: se uma nova instituição for concebida para emitir dívida europeia, necessitará de capital ou de garantias ou da afetação de receitas futuras. Não se pode criar obrigações a partir do nada. São estas, portanto, as implicações.

Nove Estados-Membros estão à espera e à procura de coronabondos; não é totalmente claro para mim o que isto significa exatamente em termos de propostas políticas pormenorizadas. Pode prever uma solução de coronabonds que obtenha um amplo apoio?

Tentei apenas explicar quais são as condições prévias se se criar uma nova instituição para o fazer. Levaria 1, 2 ou 3 anos, e os Estados-Membros têm de arranjar capital ou garantias, ou afetar receitas futuras. Isso seria assim se se pedisse a uma instituição completamente nova que o fizesse. Se utilizar as instituições existentes, a Comissão pode fazer muito mais a partir do próximo ano. O BEI poderia fazê-lo de imediato. O MEE está cá. Todos eles podem emitir uma dívida europeia mutualizada. Portanto, se quisermos cobrir as necessidades de financiamento a curto prazo, que é uma coisa necessária em resposta à crise da coronavirus, para financiar imediatamente a expansão do sistema de saúde e financiar algumas das ações necessárias para manter as empresas em funcionamento, então penso que a única maneira de o fazer é utilizar as instituições existentes com os instrumentos existentes. Caso contrário, isso demora algum tempo. E também não se esqueça, como já referi, que é preciso capital, garantias, ou receitas futuras  afetadas. Caso contrário, não pode haver nova dívida europeia que seja emitida.

Este é claramente um tema muito polémico e alguns Estados-membros, como a Alemanha, estão muito relutantes em enveredar pelo caminho dos coronabonds. Está o senhor a argumentar que as pessoas estão demasiado desconfiadas da ideia dos coronabondos? Há algum papel que se possa ver para algo neste sentido na atual crise?

Pois bem, vejo que, para além da resposta nacional, que é forte e crescente, precisamos também de uma resposta europeia. E penso que precisamos de solidariedade na Europa, porque, se queremos proteger o mercado único, não basta salvar a nossa própria economia. Penso que todos os Estados-Membros da UE têm interesse em garantir que todos os outros Estados-Membros da UE possam ultrapassar esta crise, a maior desde a Segunda Guerra Mundial.

Por isso, penso que existem razões para a solidariedade. Quero também salientar que a solidariedade é um dos princípios fundadores da União Europeia. A solidariedade existe desde 1957 através do orçamento da UE. E, na verdade, há transferências. Por vezes, os académicos questionam-se se existem transferências na Europa – deveriam olhar para o orçamento da UE. Desde 1957, o princípio tem sido que os países mais ricos pagam mais para o orçamento da UE do que recebem dela. São eles os contribuintes líquidos. E os países mais pobres recebem mais do que aquilo que pagam para o orçamento europeu. E isso mudou com o tempo. Quando a Irlanda aderiu à UE, nos anos 80, era o país mais pobre, era um forte beneficiário dos fundos da UE. Hoje, é o segundo país mais rico e é contribuinte líquido. Com o próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP), e agora que a tónica se deslocará também para o combate às consequências do coronavírus, é possível ter em conta, por exemplo, quais são os Estados-Membros particularmente atingidos pelo coronavírus, com consequências económicas negativas particularmente fortes.

Talvez nesse contexto se possa pensar se faz sentido a Itália ser um contribuinte líquido, de 5 mil milhões de euros por ano. Talvez, nas atuais circunstâncias, isso já não se justifique. Por isso, penso que o orçamento da UE é um elemento importante neste contexto. Mais uma vez, tentou falar de coronabonds; eu tentei explicar como os vejo. Temos dívidas mutualizadas; o coronabond é, presumivelmente, uma dívida europeia mutualizada. Temos isso – já dispomos de mais de 800 mil milhões de euros. Pode ser aumentada, mas a curto prazo apenas através das instituições e instrumentos existentes. A longo prazo, existem outras opções. Mas elas exigem capital, garantias ou receitas afetadas. Tenho de o repetir para que seja claramente compreendido.

 

Vê, no desenrolar da crise, a necessidade de aumentar a capacidade de empréstimo do MEE, ou das outras instituições existentes, em especial do MEE que é aquela de que o senhor é responsável? Considera que as necessidades de financiamento vão ser de tal forma enormes que o MEE precisa efetivamente de expandir a sua capacidade de concessão de empréstimos para além da capacidade atual de 410 mil milhões de euros?

Não, não me parece que seja uma questão urgente, porque existem 410 mil milhões de euros de capacidade de empréstimo não utilizada. E não creio que precisemos agora de desperdiçar energia a pensar em aumentar esse valor. Há muita coisa disponível. Olho para tudo isto em conjunto, para todas as instituições europeias. Penso que é importante reorientar o orçamento da UE, como anunciou a Presidente von der Leyen. E depois há dinheiro disponível. É claro que nunca é fácil tomar as decisões certas e haverá desacordos políticos sobre a forma de o fazer. Mas reorientar as coisas faz sentido. O BEI já fez propostas e penso que no BEI se pode ir e olhar para o futuro para além das atuais propostas. O BEI solicitou 25 mil milhões de euros em garantias para que possam alavancar isso e mobilizar 200 mil milhões de euros. O MEE tem capacidade de empréstimo suficiente neste momento, pelo que não me parece que precisemos de um debate sobre a forma de aumentar o nosso capital ou a dimensão do MEE, que não é o mais urgente neste momento.

 

Atualmente, os trabalhos no MEE estão centrados na Linha de Crédito em Condições Melhoradas. Quais são os benefícios desta linha de crédito nesta crise? O que vai trazer para cima da mesa?

Obviamente, o FEEF e o MEE foram criadas durante a crise do euro. A crise de hoje é completamente diferente, muitos já o disseram. E eu penso que é verdade. Hoje lidamos com uma crise simétrica que não foi provocada por erros políticos em cada país. É por isso que penso que faz agora muito sentido olhar para instrumentos que não foram utilizados antes. É uma instituição segura. Mas temos instrumentos que não foram utilizados durante a crise do euro e que parecem ser agora bastante adequados. Por isso, penso que o MEE está a evoluir. E podemos comparar isso com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O FMI foi criado após a Segunda Guerra Mundial. De certa forma, foi criado em resposta à depressão global. E durante 25 anos, a sua tarefa foi a de assegurar que as taxas de câmbio fossem estáveis – o sistema de Bretton Woods. Quando isso foi abandonado no início dos anos 70, em resposta à crise do petróleo, o FMI não fechou as suas portas. Adaptou os seus instrumentos e continua a ser muito útil e necessário atualmente, em circunstâncias muito diferentes.

Estão agora, por exemplo, a adaptar o seu mecanismo de empréstimo de emergência, que é muito diferente das suas práticas  normais. E estão a falar com mais de 80 dos seus Estados membros sobre a forma de os apoiar financeiramente. No MEE, somos uma instituição criada durante a crise do euro. Mas propomo-nos utilizar hoje instrumentos muito diferentes dos de há dez anos. E a linha de crédito de precaução parece ser a mais adequada nas atuais circunstâncias. E os senhores sabem como funcionam as linhas de de crédito de precaução. Insisto, o FMI utilizou-as no passado.

A ideia é que se chegue a acordo sobre uma linha de crédito. Numa situação ideal o dinheiro não será necessário e não será ativado. Mas as circunstâncias podem mudar e, se um país precisar de dinheiro, o dinheiro pode fluir muito rapidamente, porque existe uma linha de crédito organizada. O FMI utilizou-o com muito êxito nos últimos anos, com países como o México, a Colômbia e a Polónia. Nunca o utilizámos no passado. Penso que, neste momento, seria uma boa opção. E é possível adaptar os prazos de vencimento às necessidades que existem neste momento.

As condições em que poderiam ser disponibilizadas seriam completamente diferentes de há 10 anos, porque se trata de uma crise diferente. As condições poderiam ser, por exemplo, reservar o dinheiro, se este for disponibilizado, para despesas no sector da saúde, para financiar as medidas necessárias para contrariar as consequências económicas da crise do coronavirus. Evidentemente, trata-se de empréstimos. Por conseguinte, temos também de garantir o nosso reembolso. É por isso que deve haver também um compromisso de respeitar os quadros de vigilância da UE, o que, de qualquer forma, é uma obrigação para todos os Estados-Membros da UE. Mas penso que, nestas circunstâncias, também teria de se aplicar. E não seria mais do que isso. Por conseguinte, penso que esta poderia ser uma opção e que demonstraria que esta crise é, de facto, muito diferente da última crise, pelo que proporíamos a utilização de um instrumento diferente.

É evidente que, politicamente, um dos países que está agora sob grande pressão é a Itália. Mas, politicamente, existe aí uma enorme relutância em recorrer a qualquer instrumento do MEE. Como ultrapassar essa relutância política?

Bem, penso que nos encontramos agora num processo de discussão no Eurogrupo. Só posso constatar que a Itália não perdeu o acesso ao mercado; na semana passada emitiram uma obrigação. Portanto, não estamos a sentir que haja um risco agudo de perda de acesso ao mercado, como há 10 anos. E penso que, de um modo mais geral, quando se olha para a diferença entre esta crise e a última crise, como disse, esta é simétrica. Mas também todos os nossos Estados-Membros estão em muito melhor forma. Não existem enormes desequilíbrios macroeconómicos na zona euro, que é muito diferente de há 10 ou 12 anos atrás, onde muitos países apresentavam défices orçamentais e da balança de transações correntes superiores a 10% do PIB. Isso simplesmente não existe neste momento. A propósito, temos também instituições muito mais fortes e adicionais a nível europeu que não existiam há 10 anos, como a  União Bancária e as suas diferentes instituições, o Mecanismo Único de Supervisão (MUS), o Conselho Único de Resolução (CUR), e também o Conselho Europeu do Risco Sistémico (CERS), a Autoridade Bancária Europeia (ABE), o MEE.

Temos um tipo de crise diferente, mas também temos um ambiente diferente na Europa e nenhum Estado Membro perdeu neste momento o acesso ao mercado. É por isso que a linha de crédito com melhores condições parece ser a mais adequada, porque é para países que têm acesso ao mercado neste momento, mas onde poderá haver problemas no futuro, e então o dinheiro poderá fluir rapidamente.

Parte da preocupação tem a ver com a questão do estigma. Foi por isso que inicialmente se sugeriu que talvez as linhas de crédito com melhores condições [ECCL-Enhanced Conditions Credit Line] pudessem ser estendidas a todos os Estados-Membros, mas parece já não ser esse o plano. Como abordar esta questão do estigma que poderia estar associado aos países se estes utilizassem o MEE?

Insisto, penso que a resposta é que estamos a propor um instrumento muito diferente do de há 10 anos. As linhas  de crédito com melhores condições têm um impacto positivo nos mercados. Vimos isso no FMI quando os países aplicaram e acordaram a linha de crédito condicional a título de precaução do FMI; não houve qualquer efeito negativo sobre os mercados. Na verdade, pode ser tranquilizador para os mercados, porque eles sabem que se algo inesperado acontecer, se contra o pressuposto de base, o dinheiro tiver de fluir, será disponibilizado muito rapidamente.

O preâmbulo do Tratado fala do papel do FMI. Acha que o FMI precisa de ter um papel, se fosse oferecida uma linha de crédito com melhores condições?

De um modo geral, há que ter sempre presente que cada Estado-Membro da zona euro é também um Estado-Membro do FMI. Assim, o FMI, nesse sentido, está envolvido, através das suas consultas anuais. Tenho falado com o FMI nos últimos dias. Eles não esperam qualquer envolvimento financeiro na Europa nas atuais circunstâncias até certo ponto, porque acreditam que a Europa pode lidar consigo própria, mas também, o que é importante, como já foi referido, estão inundados por pedidos de outros Estados-Membros fora da Europa, mais de 80 pedidos de recursos do FMI. Isto nunca aconteceu na história do FMI. Isso sublinha uma vez mais que se trata de uma crise global, de enormes consequências. Por conseguinte, mais países do que nunca estão agora a falar com o FMI e estão a chegar ao limite daquilo com que podem lidar, pelo que, por essa segunda razão, não esperam ser envolvidos em qualquer acordo financeiro. Mas é evidente que os países europeus são membros do FMI e que haverá relações, haverá diálogo.

Alguns economistas argumentam que um aspeto importante da linha de crédito com melhores condições [ECCL] é o facto de esta poder potencialmente desbloquear a utilização das Transações Monetárias Definitivas (OMT-Outright Monetary Transactions). Posso ter uma ideia da relevância da Transações Monetárias Definitivas quando se trata do papel das linhas de crédito com melhores condições na crise atual?

Penso que os argumentos a favor das linhas de crédito com condições melhoradas (ECCL) já são convincentes por si só, porque os Estados-Membros podem ter enormes necessidades de financiamento e trata-se de um instrumento muito diferente do passado, com condições muito, muito diferentes. Cabe ao BCE decidir se a decisão de Setembro de 2012, em que ficou claro que para ativar as Transações Monetárias Definitivas seria necessário um programa MEE com condicionalidade, continua a ser aplicável. E a linha de crédito com condições melhoradas foi mencionado nesse contexto. Teria de se ver se isso ainda é relevante, porque a situação mudou. O nosso programa de linhas de crédito com condições melhoradas a meu ver, teria condições muito limitadas, que basicamente garantiriam que o dinheiro seria gasto da forma correta e que o MEE seria reembolsado um dia. Esta é, portanto, uma decisão que o Conselho do BCE teria de tomar.

Mencionou o facto de os empréstimos terem obviamente de ser reembolsados um dia. Que tipo de maturidade espera para as linhas de crédito com condições melhoradas, se este programa for utilizado?

Aí temos flexibilidade. Ainda não foi tomada qualquer decisão. Não temos limites, nesse sentido somos mais flexíveis do que o FMI, por exemplo, onde existem regras firmes para diferentes facilidades, para qual é o prazo de vencimento. Isto é algo que o Eurogrupo irá discutir nos próximos 10 dias, mais ou menos. Há flexibilidade.

 

E os senhores tendem a pensar que está a surgir um consenso para a utilização do programa de linhas de crédito com condições melhoradas, como foi discutido no último Eurogrupo, mas também em torno da condicionalidade que será associada a isso? Acha que existe agora um consenso entre os ministros sobre esta matéria?

Provavelmente não hoje, porque, desde a última cimeira, os ministros não se voltaram a reunir. É esse o trabalho que continua a ser feito na retaguarda e espero que consigamos chegar a um consenso. Mas eu não esperaria, e os senhores não devem esperar que haja hoje um consenso, porque os ministros não se voltaram a reunir desde a cimeira.

Vê o mesmo risco que vimos na última crise do euro quanto à própria moeda única, em se que se viu a coerência da própria moeda única ser posta em causa? Até que ponto é grande a ameaça à Europa desta vez?

Penso que não é muito grande esse risco. Sei que muitas pessoas gostam de escrever sobre o assunto. Não o vejo assim. Penso que todos os Estados-Membros da zona euro têm agora de lutar com as consequências do vírus e todos nós vamos entrar em recessão. Todos os 19 países juntos. Temos de facto instrumentos para sairmos disto juntos. E não vejo porque é que isto deveria constituir um risco para o euro no seu conjunto. Penso que o mundo deveria habituar-se à ideia de que existe uma moeda para estes países, para os 19 países neste momento. Isto continuará a crescer, o número de países que utilizam o euro. E penso que não é apropriado, sempre que há um problema, estar a dizer também que o euro está em risco.

A pergunta seguinte que lhe quero fazer é  uma pergunta sobre a dimensão do desafio das finanças públicas que agora prevê. Estou interessado em que me fale nas garantias que estão a ser oferecidas. Penso que o Eurogrupo as quantificou em 13% do PIB da zona euro. Mas a preocupação é, obviamente, a de que se trata agora de passivos contingentes, mas que poderiam ser acionados. E dada a dimensão das falências, vemos a pressão sobre estas economias em que  uma grande parte destas garantias pode ser acionada. Qual será a pressão que estas garantias vão exercer sobre as finanças públicas, assim como sobre as despesas fiscais imediatas e a perda de receitas fiscais?

Não há dúvida de que haverá pressões orçamentais. Porque, como disse também o Eurogrupo, até agora, os Estados-membros adotaram medidas orçamentais  que ascendem a 2% do PIB. Penso que a Comissão afirmou, nos últimos dias, que este valor subiu agora para 2,3% do PIB. Mas, para além disso, os estabilizadores automáticos funcionarão. E foi também acordado que devem funcionar plenamente. Isso significa que o défice aumentará em média mais de 2,3%, devido aos estabilizadores automáticos, haverá uma perda de receitas e necessidades de despesas adicionais. E depois, de facto, há as responsabilidades implícitas. Mas não creio que se deva partir do princípio de que os 13 por cento se tornarão relevantes na sua totalidade. Alguma parte dele, tenho a certeza. Quanto, penso eu, dependerá muito da rapidez com que controlarmos o vírus, porque isso irá determinar a profundidade da recessão, a queda do PIB este ano, e ninguém pode ter a certeza disso. Isso irá determinar a extensão dos estabilizadores automáticos, o impacto que daí advirá. E irá igualmente determinar a extensão na qual as garantias, as responsabilidades implícitas, serão necessárias. Por isso, não me parece que se possa ter um número real sobre isso neste momento. Mas tenho a certeza de que não será 13 por cento. Mas haverá. O quanto dependerá da extensão do problema do vírus.

Gostaria também de lhe colocar uma questão sobre os bancos. Obviamente, o MEE também tem aqui um papel a desempenhar, potencialmente. Temos assistido a quedas profundas nos preços das ações dos bancos em vários países, incluindo a Itália, mas também noutros grandes mutuantes. Que pressão está agora a ser exercida sobre o sistema bancário? E vê o potencial para que esta crise económica volte a ter consequências prejudiciais significativas para o sector bancário na Europa?

Bem, primeiro, penso que temos de nos lembrar que os bancos europeus estão hoje muito melhor capitalizados do que há dez ou doze anos atrás. Portanto, isso ajuda muito. Depois, algumas das medidas tomadas pelos governos, as garantias de que acabámos de falar, são para os bancos, para que estes possam conceder empréstimos adicionais ou permitir a utilização de facilidades de descoberto. Por isso, se houver problemas no futuro, então eles não vão cair no balanço dos bancos, vão cair nos balanços dos governos. Mas é claro que, em certa medida, os bancos são afetados, vamos ter uma recessão. Todos os países terão, este ano, taxas de crescimento negativas.

Assim, esta tendência muito positiva de redução do crédito malparado (NPL) a que assistimos ao longo dos últimos cinco anos, e que aí têm tido muitos progressos, em todos os países, em particular naqueles que começaram com níveis muito elevados de crédito malparado, será, em certa medida, invertida. E os volumes de crédito malparado vão subir. Provavelmente, eu esperaria isso em todos os 19 Estados-Membros da zona euro, em todos os 27 Estados-Membros. Portanto, sim, há problemas, mas penso que estamos a partir de um ponto de partida muito melhor. E muitos dos empréstimos adicionais que irão agora acontecer serão garantidos pelos governos. Por conseguinte, penso que o problema será contido.

Referiu-se há pouco ao texto de Mario Draghi no FT que, eventualmente, os custos desta crise terão de ser absorvidos pelo balanço do sector público. Acha que o sector público pode realmente suportar, pode suportar a imensa enormidade do que vai ser assumido? E, claramente, começamos agora a ouvir as pessoas falar da necessidade, ou da inevitabilidade de alguma monetização da dívida. Temos vindo a ver isso nos Estados Unidos neste momento. Qual é a sua perspetiva sobre esse ângulo da questão?

Concordo com a análise de Mario Draghi de que esta é uma enorme crise, e penso que ele disse que é uma tragédia humana de proporções potencialmente bíblicas – isso é correto, infelizmente. É certamente a maior crise, a crise económica da nossa vida. Em primeiro lugar, claro, as perdas em vidas humanas, em todos os nossos Estados-Membros. Mas depois temos de lidar com o enorme e inevitável custo económico que isso representa. E muito disso vai acabar nos balanços dos governos.

Significa também que vamos ter um nível de vida mais baixo com uma diminuição do PIB. Os rendimentos irão diminuir, um dia irão recuperar. Com as políticas certas a nível nacional, mas também com a contribuição das três instituições europeias para minimizar esse facto. Mas haverá problemas por todo o lado. A dívida pública será maior em 10 a 20 pontos percentuais do PIB, não se pode ter um número preciso porque, mais uma vez, depende da rapidez com que o vírus for controlado, porque isso determina então a profundidade da recessão.

Mas será um salto na dívida pública. Neste momento, veremos as taxas de juro como elas são. Isso será controlável. E não vejo que, com o aparecimento de tão grandes hiatos de produção não só na Europa mas em todo o mundo, venha a haver uma pressão inflacionista. Portanto, penso que as taxas de juro podem ser baixas durante muito tempo e que a dívida mais elevada será controlável.

Muito obrigado.

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