CARTA DE BRAGA – “de gins e capelas” por António Oliveira

 

Uma Carta para estes dias!

Havia e tinha noites em que despejava gins como se estivesse a pagar uma promessa, a cumprir um castigo, ou a despachar uma empreitada.

Mas não era um gin qualquer. Ensinou o barman a fazer o gin Rickey, servido em copo alto e feito com duas partes de gin, uma parte de sumo de lima, uma parte de caramelo de açúcar, uma rodela de lima e o resto do copo com soda, até ficar quase cheio.

É o gin que bebia o escritor Scott Fitzgerald!’ explicava o barman com elegância, depois de solicitado para tal, ‘ensinado e apurado por aquele senhor ali, aquele senhor sem idade!’ apontando-o discretamente com o queixo.

Teria muitos anos, ninguém sabia ao certo quantos, por ali ter aparecido um dia e se ter quedado, dividindo-se entre o bar, o quarto da pensão quatro estrelas pago ao mês e com avanço, o banco do miradouro de onde avistava o mar, a ida aos correios para saber se havia correspondência no apartado, mais os tascos onde sempre comia, porque ‘só se come bem em sítios de pouca cerimónia!

Tinha passado grande parte da vida no mar e nos states, nunca explicou porquê, nem a fazer o quê e ninguém lho perguntou, embora todos dissessem que não devia ter sido vida de pobre, a ver pela que ali podia fazer.

Não éramos muitos a partilhar-lhe os momentos de voltar lá atrás, ‘Tenho coisas que nem a mim gosto contar’ e um dia, dei-me conta que só ali estávamos eu e mais uma pessoa de quem não sei o nome, nem o que fazia!

Só sei que bebia para fazer companhia ao ‘marinheiro’, era assim que lhe chamava, por ter andado no mar e por beber como bebiam aos marinheiros dos filmes de piratas, a imaginar pelo que tinha visto no ‘Gavião dos mares’ com o Errol Flynn e nos outros filmes parecidos que se lhe seguiram.

Um dia, ou melhor, uma noite, a tal pessoa falou de uma capela sensacional pelo ambiente e pelo silêncio que lá havia, até de nos poder levar para bem longe do mundo.

Lá contava-Lhe dos seus e nossos problemas, como Ele podia olhar para as desigualdades gritantes que havia no mundo e, sem o atingirem grandemente, deixavam milhões na mais profunda das misérias. Até por isso se sentia bem lá, naquela meia luz das velas e das poucas aberturas que havia nas paredes.

O ‘marinheiro’ faz sinal ao barman a pedir um gin Rickey, sem interromper nem deixar de ouvir o fulano a dissertar sobre as valias da tal capela. Bebeu o gin numa pressa e faz sinal ao barman a pedir mais outro.

Bebeu um bom gole, a tal pessoa que dissertava sobre a capela calou-se e ele levantou a mão a pedir vez para falar. Olhou, viu que estávamos os dois à espera do que iria dizer e ‘você não sabe bem o que está para aí a dizer!

(Ressalvo que, embora respeitando totalmente a ideia, as palavras não são exactamente as dele, por os anos idos já me impedirem de as repetir ipsis verbis!)

A pessoa da dissertação corou (naquele tempo ainda se corava e disso ainda me lembro bem!) e ele, o homem com muitos anos e de ninguém saber ao certo, debita isto, temperado com goles de gin Rickey.

Não vá mais a esses templos escuros que dizem ser a casa d’Ele! Ele vive nos rios, nas florestas e nas montanhas! Aí é a Sua casa!

Bebe um gole do gin.

Não O culpe de coisas que estarão nos livros que dizem sagrados e Lhe atribuem, mas que nada têm a ver com Ele! Não viva a pedir-Lhe perdão! Ele criou-o livre!

Mais outro gole do gin.

Se não O encontrar num nascer do sol, num ribeiro que corre, nos olhos de uma criança ou no voo de um pássaro, nunca O irá encontrar nas páginas de um livro, mal lido à fraca luminosidade das velas de um templo a pedir luz!

Acabou o gin de um único gole, fez um sinal de adeus ao barman e saiu porta fora!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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