Texto 2. Camilo Lourenço e o Serviço Nacional de Saúde. Por Júlio Marques Mota

Espuma dos dias Coronavirus Colapso Sistemas Saúde

 

Um conjunto de 4 textos que põem em evidência o contraste entre visões esclarecedoras sobre as causas das dificuldades de resposta sanitária a esta crise do coronavírus, quer sejam de direita conservadora inglesa, de que se pode discordar mas que tem nível, (Ambrose Pritchard), quer sejam de esquerda (Júlio Marques Mota, Vivien Schmidt), e uma abordagem da crise pandémica à moda da direita portuguesa mais reacionária (aqui representada por Camilo Lourenço). São os seguintes:

Texto 1. As análises de Camilo Lourenço – uma visão crítica. Por Júlio Marques Mota

Texto 2. Camilo Lourenço e o Serviço Nacional de Saúde. Por Júlio Marques Mota

Texto 3. A EU responde ao coronavírus: o já visto, outra vez?. Por Vivien Schmidt

Texto 4. O sistema bancário mundial não pode resistir a um longo bloqueio económico. Por Ambrose Evans-Pritchard

 

FT

_________________________

Texto 2. Camilo Lourenço e o Serviço Nacional de Saúde

julio-marques-motaPor Júlio Marques Mota

Coimbra, 26 de Março de 2020

 

Sobre o país que nós temos, um texto publicado por um economista, Camilo Lourenço, um homem que na televisão de todos nós defendeu a ocupação do país pela Troika e pelos seus leais servidores, belas figuras ao seu serviço, das quais destacamos, entre muitos outros nomes, os de Relvas, Álvaro Santos Pereira, Vitor Gaspar, com estes dois a serem altamente premiados pelos seus serviços prestados à causa da austeridade. Vitor Gaspar está no FMI e o Álvaro Santos Pereira na OCDE.

Mas eu subscrevia grande parte do texto do dito jornalista em assuntos de economia. Diz.nos Camilo Mendonça no primeiro parágrafo:

“Faltam máscaras de proteção aos profissionais de Saúde e forças de segurança? Faltam ventiladores? Não há batas suficientes para médicos e enfermeiros?  Faltam enfermarias delicadas ao tratamento de doentes com covid 19. Os testes que o país tem em stock não chegam para as encomendas? “

Pessoalmente e contrariamente ao que se diz por aí, acredito que isto seja verdade, pura e dura. Falta material por todo o lado. Falta aqui, falta em França, falta na Itália, falta em Espanha, falta nos EUA, falta em todo o lado. No caso português, a explicação é simples: falta pessoal, porque a situação criada pela Troika e pelo desmantelamento das carreiras socioprofissionais levou a que milhares tenham emigrado e enchidos os serviços de outros países que pouparam na criação e formação dos técnicos que assim caíam gratuitamente nos seus países. Nos outros países, a explicação é a mesma: o desmantelamento do Estado Providência, de que a Troika é, aliás, um símbolo.

Falta material. Falta tanto material que para marcar uma consulta em neurologia nos HUC pelo Serviço Nacional de Saúde é preciso esperar um ano e, depois, para marcar uma ressonância magnética pode ser necessário um ano mais. Entretanto o doente pode morrer. Não foi assim também  na Grécia? E isto nada tem a ver com o Covid 19. Passava-se antes e, naturalmente,  passa-se também agora. A crise pandémica que atravessamos  apenas retirou de forma violenta a poeira que nos andaram a atirar para os olhos ao longo de décadas, mostrando a pauperização a que tudo isto tinha já chegado.

Depois de a União Europeia ter respondido à crise de 2010 como respondeu, pelas políticas de austeridade e de bloqueio ao crescimento (a austeridade favorece o crescimento, dizia Trichet, dizia Passos Coelho, parece que Camilo Lourenço era da mesma opinião), neste seu tratamento os serviços de saúde foram dos que mais pagaram por essa terrível fatura.

Hoje, isso sente-se e ressente-se. A Cruz Vermelha Internacional num relatório fundamental para a análise do que foi a política de saúde na UE nesse período, e dedicado à situação sanitária em cada Estado-membro, atacou frontalmente a União Europeia pelo facto de numa situação de uma forte e brutal crise económica ter obrigado os países a cortarem na Segurança Social e nos Serviços de Saúde, o que seria a primeira vez na história das sociedades desenvolvidas que se cortava nos apoios sociais e sanitários numa situação de crise. Disso, o exemplo mais flagrante é o da Grécia, e também o de Portugal. Lembram-se das mentiras sobre a Ala Pediátrica no Porto. Ela é disso um bom exemplo. De nada disso fala o economista Camilo Lourenço. Como seria possível neste contexto investir em saúde? Ele que mo diga. Mas parece que a memória lhe falha: ainda em janeiro passado, há três meses, dizia o comissário europeu com a pasta da Economia, Paolo Gentiloni:

O comissário europeu com a pasta da Economia, Paolo Gentiloni, afirmou hoje em Bruxelas que Portugal tem tido “resultados muito positivos” nos últimos anos, mas advertiu que o Governo deve assegurar-se de ter “sob controlo a despesa pública”.

Gentiloni falava à entrada para uma reunião do Eurogrupo, na qual os ministros das Finanças da zona euro vão discutir a versão atualizada do plano orçamental português para 2020 à luz do recente parecer da Comissão Europeia, segundo o qual o mesmo apresenta risco de incumprimento.

O comissário italiano — que sucedeu a Pierre Moscovici na tutela dos Assuntos Económicos e Financeiros — apontou, no entanto, que há duas metas específicas “no quadro do processo de vigilância económica da Comissão”, designadamente “o saldo estrutural e a despesa pública”, nas quais Bruxelas identificou “riscos de desvio”. (cf. DN 20/01/2020)

Insisto, como seria possível neste contexto investir em saúde?

Subscrevo o que ele diz nesta matéria e até aquilo que ele não diz que é o desmantelamento das carreiras profissionais que foi feito em nome do neoliberalismo que ele defende.

Subscrevo o que ele diz em matéria de saúde exceto no que toca à pessoa criticada que no seu texto é o António Costa e não a União Europeia como deveria ser. Não será por acaso, certamente.

A este respeito tomo a liberdade de reproduzir aqui um pequeno texto sobre investimentos em saúde no quadro das sociedades neoliberais e que ajuda a explicar a razão de ser destas tais faltas que ele considera como verdadeiras e eu também, mas enquanto ela as imputa a António Costa, eu imputo-as ao colete de forças em que política austeritária imposta pelos nórdicos colocou os países do Sul da Europa. O texto é de Michael Roberts, intitulado Condicionamento Social, (Lockdown) publicado a 24 de março de 2020:

“Se os governos tivessem agido imediatamente com as medidas certas quando a COVID-19 apareceu pela primeira vez, os isolamentos sociais poderiam ter sido evitados.

Texto 2. Camilo Lourenço e o Serviço Nacional de Saúde 1A

Quais eram estas medidas certas? O que sabemos agora é que todas as pessoas com mais de 70 anos de idade e/ou com condições médicas problemáticas deveriam ter entrado em auto-isolamento. Deveria ter havido testes em massa de todas as pessoas regularmente e qualquer pessoa infetada deveria ter ficado em quarentena por um período de duas semanas. Se isto tivesse sido feito desde o início, então teria havido menos mortes, hospitalizações e uma morte mais rápida do vírus. Por isso, os bloqueios poderiam provavelmente ter sido evitados.

Mas testes e isolamento não foram feitos desde o início na China. No início houve negação e encobrimento do risco do vírus. Quando as autoridades chinesas agiram corretamente com os testes e o isolamento, Wuhan foi sujeita a forte controlo sanitário e o isolamento foi instalado.

Pelo menos os chineses tinham a desculpa de que este era um novo vírus desconhecido para os humanos e que o seu nível de infeção, propagação e mortalidade não era conhecido antes. Mas não há desculpa para os governos nas principais economias capitalistas. Eles tiveram tempo para se preparar e agir. A Itália deixou isso para mais tarde e passou a aplicar os testes e o isolamento demasiado tarde, pois passaram a aplicar o isolamento quando o vírus já estava bem instalado. O sistema de saúde deles está agora sobrecarregado e dificilmente pode lidar com isso.

Alguns países adotaram testes em massa e um isolamento eficaz. A Coreia do Sul fez ambos; e o Japão, onde 90% da população usava máscaras e luvas e se lavava frequentemente, parece ter refreado o impacto da pandemia através de um auto-isolamento eficaz sem ter de impor um bloqueio.

(…)

Da mesma forma, numa pequena aldeia italiana a viver em pandemia, Vo Euganeo, que na verdade teve a primeira morte do vírus na Itália, eles testaram todos os 3000 residentes e colocaram em quarentena os 3% afetados, mesmo que a maioria não tivesse sintomas. Através do isolamento e da quarentena, o isolamento necessário teve aí apenas a duração de duas semanas.

No outro extremo, o Reino Unido e os EUA demoraram muito tempo para acelerar os testes (o que ainda é inadequado) e a colocar os vulneráveis em autoisolamento. Nos EUA, o governo federal ainda não está a optar por uma quarentena social em todo o país.

(…)

Porque é que os governos do G7 e outros falharam em agir? Como Mike Davis explica, a primeira e principal razão era que os sistemas de saúde das grandes economias não estavam em posição de agir. Nos últimos 30 anos, os sistemas de saúde pública na Europa foram dizimados e privatizados. Nos EUA, o sector privado dominante cortou os serviços para aumentar os lucros. De acordo com a Associação Hospitalar Americana, o número de camas hospitalares para internamento diminuiu uns extraordinários 39% entre 1981 e 1999. O objetivo era aumentar os lucros através do aumento do “censo” (o número de camas ocupadas). Mas a meta da gestão de 90% de ocupação significava que os hospitais deixavam de ter capacidade de absorver o fluxo de pacientes durante epidemias e emergências médicas.

Como resultado, há apenas 45.000 camas de unidades de cuidados intensivos disponíveis para lidar com a vaga projetada de casos graves e críticos de coronavírus. (Em comparação, os sul-coreanos têm mais de três vezes mais camas disponíveis por mil pessoas do que os americanos). Segundo uma investigação do USA Today “apenas oito estados teriam camas hospitalares suficientes para tratar os 1 milhão de americanos com mais de 60 anos que poderiam ficar doentes com o COVID-19”.

Os departamentos de saúde locais e estaduais têm hoje 25% menos pessoal do que tinham antes da Segunda-feira negra de há 12 anos atrás. Além disso, na última década, o orçamento do CDC (Center for Disease Control and Prevention) diminuiu 10% em termos reais. Sob Trump, as carências orçamentais apenas foram exacerbadas. O New York Times informou recentemente que “21% dos departamentos locais de saúde relataram reduções nos orçamentos para o ano fiscal de 2017”. Trump também fechou o gabinete da Casa Branca contra a pandemia, uma direção criada por Obama após o surto de Ébola de 2014 para assegurar uma resposta nacional rápida e bem coordenada às novas epidemias.

A indústria de lares de idosos com fins lucrativos, que cuida (armazena) 1,5 milhões de idosos americanos, é altamente competitiva e baseia-se em baixos salários, falta de pessoal e cortes ilegais de custos. Dezenas de milhares morrem todos os anos devido à negligência das instalações de cuidados de longo prazo em relação aos procedimentos básicos de controle de infeções e ao fracasso dos governos em responsabilizar a gerência pelo que só pode ser descrito como homicídio involuntário deliberado. Muitas destas casas acham mais barato pagar multas por violações sanitárias do que contratar pessoal adicional e dar-lhes formação adequada.

O Life Care Center, um lar de idosos no subúrbio de Seattle, em Kirkland, é “um dos piores do estado” e todo o sistema de lares de idosos de Washington “como o mais subfinanciado do país – um oásis absurdo de sofrimento austero num mar de dinheiro da tecnologia”. (sindicato dos trabalhadores). As autoridades de saúde pública ignoraram o fator crucial que explica a rápida transmissão da doença do Life Care Center para outros nove lares próximos: “Trabalhadores de lares de idosos no mercado de aluguer mais caro da América trabalham universalmente em vários empregos, normalmente em vários lares de idosos.” As autoridades não conseguiram descobrir os nomes e a localização desses segundos empregos e, assim, perderam todo o controle sobre a disseminação da COVID-19.”

Tudo nos parece claro, e se dúvidas há quanto às opções inicialmente escolhidas pela Alemanha, Reino Unido, Holanda e outros, para resposta ao Covid19 veja-se, na linha do texto agora citado, o artigo de Roberto Buffagni, intitulado Epidemia coronavirus, duas abordagens estratégicas em confronto a publicar em a Viagem dos Argonautas. Quanto a estas duas abordagens em confronto, veja-se igualmente a informação dada pelo Imperial College COVID-19 Response Team Imperial College London num relatório científico de 16/03/2020, sobre as duas abordagens ao Covid 19 em que se explica que o método de resposta seguido pelos países acima indicados teria como resultado expectável 510.000 mortos no Reino Unido e mais de 2,2 milhões nos EUA. Mais precisamente:

1. Modelo escolhido por Boris Johnson, Trump, pelo governo holandês e Bolsonaro – uma epidemia não mitigada

“Na (improvável) ausência de quaisquer medidas de controle ou mudanças espontâneas no comportamento individual, seria de esperar um pico na mortalidade (mortes diárias) após aproximadamente 3 meses (…). Em tais cenários, (…) prevemos que 81% das populações da GB e dos EUA seriam infetadas ao longo do curso da epidemia. Os timings das epidemias são aproximados dadas as limitações dos dados de vigilância em ambos os países: Prevê-se que a epidemia seja mais vasta nos EUA do que na Grã-Bretanha e que atinja o seu pico ligeiramente mais tarde. Isto é devido à maior escala geográfica dos EUA, resultando em epidemias localizadas mais distintas entre os estados do que as observadas na Grã-Bretanha. O maior pico de mortalidade em GB deve-se ao menor tamanho do país e à sua população mais velha em comparação com os EUA. No total, numa epidemia não mitigada, preveríamos aproximadamente 510.000 mortes na GB e 2,2 milhões nos EUA, sem contar com os potenciais efeitos negativos dos sistemas de saúde serem sobrecarregados com a mortalidade” (cf. pág. 6 do relatório Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID19 mortality and healthcare demand de 16/03/2020).

 

2. Modelo de epidemia mitigada – modelo chinês, italiano, português e espanhol

“(…) Talvez a nossa conclusão mais significativa seja que é improvável que a mitigação seja viável sem que os limites de capacidade de emergência dos sistemas de saúde do Reino Unido e dos EUA sejam ultrapassados muitas vezes. Na estratégia de mitigação mais eficaz examinada, que leva a uma epidemia única e relativamente curta (isolamento de casos, quarentena familiar e distanciamento social dos idosos), os limites de surtos tanto para as camas da enfermaria geral como para os das UCI seriam excedidos em pelo menos 8 vezes sob o cenário mais otimista para as necessidades de cuidados críticos que examinamos. Além disso, mesmo que todos os pacientes pudessem ser tratados, prevemos que ainda haveria uma ordem de 250.000 mortes na GB, e 1,1-1,2 milhões nos EUA”. (cf. pág. 16 do relatório Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID19 mortality and healthcare demand de 16/03/2020)

Face a este documento tudo mudou na Alemanha, na Inglaterra e também nos Estados Unidos, a dar fé no que disse a porta-voz da Task Force da Casa Branca para o ataque ao Covid 19, Deborah Birx.

A opção 1, ou seja, o modelo escolhido por Boris Johnson, Trump, pelo governo holandês e Bolsonaro – uma epidemia não mitigada, corresponde ao modelo neoliberal puro e foi esta a opção inicialmente escolhida pelos pesos dominantes do neoliberalismo na Europa, Alemanha na zona euro e a Grã-Bretanha fora do euro e, desse ponto de vista recomenda-se a leitura do acima citado texto de Roberto Buffagni.

Ainda dois exemplos rápidos a justificar o que nos diz Michael Roberts sobre a opção de desmantelar os sistemas de saúde publica nas sociedades neoliberais.

Dizem-nos de França:

Hospital: 17 500 camas fechadas em seis anos

De acordo com as estatísticas do Ministério da Saúde, o hospital perdeu 5,3% das suas camas desde 2013. Só as instituições públicas perderam 13.631 camas” (…)

Orçamento 2020 da Segurança Social: os hospitais públicos na situação de dieta

No orçamento 2020 a Segurança Social, os hospitais públicos, em que seis em cada dez estão em situação de dificuldade financeira, deverão ainda fazer 800 milhões de euros em economias.”

Texto 2. Camilo Lourenço e o Serviço Nacional de Saúde 2
Vamos voltar a um período de dieta quando teria sido preciso o contrário para tirar os hospitais da crise”, confidenciou Frédéric Valletoux, presidente da Federação Hospitalar Francesa.

 

Sobre os hospitais em França diz-nos Philippe Lévy, professor das Universidades, chefe de Serviço, Hospital Beaujon em Clichy (Hauts-de-Seine):

“O pessoal não médico – enfermeiros, auxiliares de enfermagem, psicólogos, etc. – são esmagados por causa dos salários de miséria, da constante mudança de horários, da impossibilidade de encontrar alojamento perto dos hospitais, da destruição das equipas ligadas a um serviço, o que não permite uma formação adequada ou a transmissão de conhecimentos ou solidariedade. Os enfermeiros já não têm meios para realizar as suas tarefas dentro do tempo previsto… As camas devem ser fechadas em sectores inteiros, restringindo a capacidade de acolhimento. Não há mais assistentes sociais para acompanhar o atendimento de pacientes precários.

Nos hospitais, há falta de pessoal para a imagiologia. A Administração dos Hospitais está a substituir as Secretárias por um software que faz os emails. Mas as Secretárias organizam o tempo dos médicos, são capazes de distinguir entre urgência e acessório, de gerir a ansiedade… A direção já não controla os cuidados de saúde em geral. Está saturado pela gestão de horários, pela constante mudança de tarefas. A Administração dos Hospitais foi gravemente afetada pela reforma dos polos, que destruiu as unidades funcionais que eram serviços em torno do chefe de departamento. A criação dos polos tem gerado inúmeras reuniões e a introdução de indicadores de desempenho. Os super-polos inter-hospitalares foram inventados com um gestor médico e um executivo paramédico que estão geralmente muito afastados do que são os diferentes serviços e as suas preocupações. Os superpolos funcionaram ainda menos bem do que os polos. Depois foram criados os departamentos médico-universitários, sem mais sucesso. Os jovens médicos foram mantidos em estado precário durante anos. Apesar da óbvia necessidade de médicos titulares, eles permanecem sem contrato e são renovados (ou não) em cada seis meses. No entanto, todos eles são graduados com 10 anos de educação superior e são responsáveis por vidas humanas!”

Para quem conhece o sistema de saúde português e os hospitais percebe que o que se passa aqui é exatamente o que se passa em França, com a centralização de serviços por imposição da Troika.

Curiosamente, o caso francês apresenta-nos alguns aspetos caricatos da camarilha que está no topo de muitos governos neoliberais europeus.

Assim enquanto Macron cortava nas despesas de saúde e armava até aos dentes a polícia francesa contra os Coletes Amarelos, não contra os Black Blocs, a mulher de Macron andava a fazer um peditório a favor dos hospitais públicos franceses. Relatava a imprensa francesa em janeiro de 2020 que Brigitte Macron, esposa do presidente, andou mesmo a pedir ajuda para os hospitais através de uma operação de caridade “Moedas amarelas”, que dirigiu e que terminou em 15 de fevereiro de 2020.

“Um pequeno grupo de “Coletes Amarelos” e membros do pessoal, representantes do sindicato Sud-Santé, estiveram presentes em frente ao hospital de Orleães (Loiret) na quarta-feira, 8 de Janeiro, para dar as boas-vindas a Brigitte Macron. A esposa do chefe de Estado veio lançar a 31ª coleta de fundos chamada Pièces Jaunes, acompanhada pelo padrinho Didier Deschamps, mas não deixou de mencionar a crise nos hospitais públicos.

“Como Primeira-Dama de França, ela deve vir até nós para falar connosco e para lhe explicar-nos as nossas dificuldades”, disse um membro do grupo. Questionada por jornalistas, Brigitte Macron respondeu: “Compreendemos muito bem, compreendo as suas exigências porque, se lutam, lutam pelo hospital. O que lhes quero dizer ” é que a fundação, vamos lutar com eles, estamos com eles”. (veja o vídeo aqui). (cf. franceinfo de 08/01/2020)

Por outro lado, depois da sua mulher andar a pedir esmolas para os Hospitais públicos, o Presidente da Républica,  Emmanuel Macron, em 12 Março de 2020, numa carta enviada aos franceses,  e em claro contraste com a politica de austeridade por ele seguida até aí e desde os tempos em que era ministro de François Hollande,  afirmava:

(…) Meus caros compatriotas, amanhã teremos de aprender as lições do momento que estamos a passar, questionar o modelo de desenvolvimento a que o nosso mundo se comprometeu durante décadas e que revela os seus defeitos em plena luz do dia, e questionar as fraquezas das nossas democracias. O que esta pandemia já está a revelar é que os cuidados de saúde gratuitos, sem condições de rendimento, carreira ou profissão, e o nosso Estado-providência não são custos ou encargos, mas sim bens preciosos, bens indispensáveis quando o destino se abate sobre eles. O que esta pandemia revela é que há bens e serviços que devem ser colocados fora das leis do mercado. Delegar a nossa alimentação, a nossa proteção, a nossa capacidade de cuidar do nosso ambiente de vida aos outros é uma loucura. Temos de recuperar o controlo, de construir ainda mais do que já fazemos uma França, uma Europa soberana, uma França e uma Europa que tenha firmemente nas suas mãos o seu destino. As próximas semanas e meses exigirão decisões para romper com o passado neste sentido.”

O Presidente da República francesa reconhece o que Camilo Lourenço não reconhece, a lógica de um modelo, o modelo neoliberal imposto na Europa pelas potências dominantes, França e Alemanha, com a consequente política de austeridade que durante décadas foi praticada e cujos terríveis resultados Macron agora reconhece.

Dizem-nos de Itália

Excerto de um relatório sobre a situação da saúde na Itália (4° Rapporto sulla sostenibilità del Servizio Sanitario Nazionale – Fontazione GIMBE, junho de 2019, a págs II e III do Executive Summary)

Texto 2. Camilo Lourenço e o Serviço Nacional de Saúde 3

Subfinanciamento público. No período 2010-2019 foram subtraídos ao Serviço Nacional de Saúde um pouco mais de 37 mil milhões de euros, dos quais cerca de 25 mil milhões em 2010-2015 como soma de várias manobras financeiras e 12,11 mil milhões em 2015-2019 para o contínuo recálculo em baixa dos níveis de financiamento previstos. O aumento global das necessidades nacionais de saúde (SNS) tem sido considerado pelo governo de 8,8 mil milhões de euros, em média 0,9% por ano, o que é inferior à inflação média anual (+1,07%). Olhando para o futuro, a Lei Orçamental de 2019 confirmou os mil milhões já atribuídos da legislatura anterior para 2019, aos quais se somam 2 mil milhões de euros em 2020 e 1,5 mil milhões em 2021, para um aumento global de 8,5 mil milhões de euros durante o período de três anos 2019-2021.

Mas esses recursos, além de previsões ousadas de crescimento económico, estão sujeitos à assinatura de um Acordo Estado-Regiões sobre o Pacto de Saúde 2019-2021, previsões todas em alta, já que a situação económica do país não permite excluir o risco de novos cortes nos cuidados de saúde. O Programa de Estabilidade 2019 (DEF 2019)  mantém a tendência dos anteriores com previsões otimistas sobre as despesas de saúde a médio prazo que se reduzem abruptamente no curto prazo: a relação despesas de saúde/PIB passa de 6,6% em 2019-2020 para 6,5% em 2021 e para 6,4% em 2022, tornando ilusório um aumento das despesas de saúde superior a 7,6 mil milhões de euros no período 2018- 2022 (+6,6%). Como resultado desta definição impressionante e progressiva, as despesas de saúde em Itália estão agora próximas das dos países da Europa de Leste: a percentagem do PIB afetada às despesas totais de saúde em 2017 está ligeiramente acima da média da OCDE (8,9% vs. 8,8%) e vê a Itália no fim da lista, juntamente com a Espanha e a Irlanda entre os países da Europa Ocidental. Mas acima de tudo, a despesa total per capita é inferior à média da OCDE (3.542 dólares versus 3.807 dólares), colocando a Itália em primeiro lugar entre os países mais pobres da Europa.

Os resultados desta política de austeridade durante mais de uma década estão á vista, dramaticamente à vista para que possamos aceitar argumentos como os apresentados por Camilo Mendonça contra António Costa.

Depois desta análise da situação francesa e italiana, poderíamos continuar a analisar o texto de Camilo Mendonça, parágrafo a paragrafo, mas achamos que fazê-lo seria conferir demasiada importância intelectual a um texto que a não merece. Atribuímos importância isso sim aos que leem este tipo de artigos e que na ausência de outras informações lhe conferem credibilidade. Daí a razão de ser desta nota.

Acusar António Costa pelo que ele não é responsável como faz Camilo Mendonça ou é cinismo, ou é ignorância ou é maldade pura. Parece-me mais provável a primeira hipótese e esta não exclui poder ser adicionada à terceira hipótese.

Podíamos, isso sim, criticar António Costa pelo seu contrário, por ter andado até agora a dar voz às decisões da União Europeia sem delas se vislumbrar uma crítica pública em forma, e este é o terreno crítico em que me situo [1] face a António Costa, este nunca foi nem é o terreno em que Camilo Lourenço se situa.

_________________

Nota

[1] Esta minha posição está largamente expressa na longa carta aberta que dirigi a António Costa em novembro de 2018 e publicada pelo blog A Viagem dos Argonautas.

Leave a Reply