A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? Texto 24. Coronavirus: as más prioridades do BCE e da Europa. Por Martine Orange

Berlim encontro refazer o muro

Um mês de março intenso em reuniões, em tragédias, em desacordos afirmados, em acordos adiados, em ameaças feitas e desfeitas ou adiadas, tudo isto se passou na União Europeia que se mostra claramente impotente face à tragédia Covid 19 e à crise financeira que nos bate à porta com uma enorme violência.

Um relato destes dias que mais parecem dias de loucura é o que aqui vos  queremos deixar nesta pequena série de textos intitulada A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ?

31/03/2020

JM

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 24. Coronavirus: as más prioridades do BCE e da Europa.

Martine Orange Por Martine Orange

Publicado por Mediapart (Coronavirus: les mauvaises priorités de la BCE et de l’Europe) em 12/03/2020 (ver aqui)

 

Numa altura em que a epidemia de coronavírus está a desencadear um colapso das bolsas mundiais, não é de política monetária ou orçamental que a Europa precisa, mas sim de políticas de saúde pública, do regresso dos Estados para combater a propagação do vírus.

 

Há muitos generais que estão habituados a combater na guerra antes dela se verificar.  As autoridades políticas e monetárias dão a impressão de que estão a cair na mesma armadilha face à epidemia do coronavírus: pensam que estão de novo numa crise financeira, comparável à de 2008, quando o que estamos a viver é, antes de mais, uma crise de saúde sem precedentes que afeta a economia real no seu próprio  coração. E estas duas áreas de crise não exigem as mesmas respostas que os mercados.

No entanto, é para os mercados financeiros que toda a atenção dos líderes monetários e políticos tem vindo a ser concentrada há várias semanas. A queda, é verdade, é impressionante. Pela segunda vez numa semana, os disjuntores tiveram de ser acionados, numa tentativa de travar a queda espetacular dos preços de abertura. Mas nada ajudou. Os mercados de Paris, Frankfurt, Londres, Milão e Nova Iorque perderam entre 10 e 16% durante a sessão. Foi a pior sessão de negociação para Wall Street desde 1987, quando os mercados tinham caído 26%.

Se não for um colapsoe, está a começar a parecer-se muito com um deles. Desde 20 de Fevereiro, quando o mundo financeiro despertou para os perigos do Covid-19, estes vários mercados perderam entre 26% e 35%. Mais de 9 mil milhões de dólares foram evaporados.

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Quebra global da bolsa de valores @Bryan Smith/ AFP

No entanto, foram envidados todos os esforços para tentar travar a queda dos preços e restabelecer a confiança dos financeiros. Já na semana passada, a Reserva Federal retirou a sua arma monetária da gaveta e baixou as suas taxas diretoras para 0,5%. Ainda para tranquilizar o mundo financeiro, aumentou drasticamente a sua liquidez no mercado monetário (Repo), que tem vindo a mostrar sinais crescentes de mal-estar desde setembro. De 100 mil milhões, aumentou a sua liquidez para mais de 150 mil milhões por dia.

Em consequência, o Banco do Japão anunciou que também irá retomar a sua política de flexibilização quantitativa e retomar a compra de obrigações no mercado. O Banco de Inglaterra seguiu o exemplo, reduzindo as taxas para 0,5% em 11 de Março.

Neste ambiente, a decisão do Banco Central Europeu de 12 de março era aguardada com expectativa. Foi mesmo visto como o batismo de fogo de Christine Lagarde, presidente da instituição monetária desde novembro. Isto desencadeou a “bazuca” monetária de que todos estavam à espera. Se o BCE não altera as suas taxas diretoras, que já são negativas (-0,5%), está pronto a utilizar todos os outros instrumentos monetários à sua disposição. A sua política de recompra de títulos (flexibilização quantitativa), que tinha sido aumentada para 20 mil milhões de euros por mês, será aumentada em 120 mil milhões de euros até ao final do ano. Os bancos que já beneficiam de condições excpcionais de refinanciamento serão ainda apoiados por um programa TLTRO III [Targeted Longer-Term Refinancing Operations] para garantir ao sistema financeiro uma liquidez ilimitada

Por último, graças a estas circunstâncias excecionais, o mundo financeiro conseguiu alcançar o que há muito vinha pedindo: as regras prudenciais e regulamentares, que tinham sido implementadas após a crise de 2008, devem ser flexibilizadas para, mais uma vez, aliviar os constrangimentos e incentivar os bancos a conceder empréstimos.

Para aumentar o poder destas medidas, Christine Lagarde apelou aos governos para que implementassem “uma resposta orçamental ambiciosa e coordenada”. Sensíveis às críticas sobre as suas políticas falhadas após a crise financeira de 2008 e a crise do euro que se seguiu, todos os líderes europeus prometeram não repetir os mesmos erros. Desta vez, todos dizem estar prontos a agir em conjunto, a utilizar “todos os instrumentos possíveis” para fazer face à epidemia e aos riscos de colapso económico a que ela pode conduzir. A política monetária e a política orçamental andarão de mãos dadas na Europa.

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Já na segunda-feira se espera que os Ministros das Finanças elaborem um plano conjunto para combater os danos causados pela epidemia do coronavírus. Ainda antes desta reunião, Angela Merkel anunciou em 11 de Março a sua intenção de regressar à regra do défice zero, que está consagrada em letras de ouro na Constituição e é considerada como um dos principais obstáculos a um estímulo orçamental europeu. “Vamos colocar o dinheiro necessário para combater a epidemia, vamos ver depois o que se fará quanto ao  défice”, disse a chanceler alemã.

Tudo isto deveria ter agradado ou, pelo menos, tranquilizado a comunidade financeira e restaurado a sua confiança. No entanto, tal como o FED cortou as suas taxas na semana passada e o Banco de Inglaterra cortou as suas taxas ontem, os mercados bolsistas europeus – os únicos que abriram na altura – caíram quando o  BCE fez os seus anúncios. Em poucos minutos, a Dax, o índice alemão, já em queda acentuada, perdeu mais de 2%.

Alguns analistas justificam estas reações pelo facto de as intervenções do BCE terem sido consideradas insuficientes, enquanto outros explicam que as ações do banco central estão a alimentar a ansiedade dos financeiros, reavivada pelas decisões de Donald Trump. Mas o mal-estar é sem dúvida mais profundo: está ligado à constatação por muitos de que os bancos centrais, os grandes decisores políticos do mundo nas últimas quatro décadas, são impotentes face ao coronavírus. Nem  os pacotes de estímulo quinquenais ou todos os benefícios fiscais e sociais para as empresas, por si sós, poderão remediar a paralisia que o mundo enfrenta.

A necessidade de políticas públicas

A política monetária não pode reparar cadeias de abastecimento que ficaram desarticulas e bloqueadas. […] O Presidente da FED, Jerome Powell, não pode reabrir empresas em quarentena […] … A política monetária não vai fazer voltar os clientes para os centros comerciais nem os passageiros para os  aviões, porque o seu principal problema é a segurança e não o preço. Infelizmente, o mesmo se aplica à política orçamental. Os créditos fiscais não voltarão a fazer funcionar a produção, quando os grupos estiverem preocupados com a saúde dos seus trabalhadores e com o risco de propagação da epidemia. O apoio  social não vai apoiar as despesas quando os consumidores estão é preocupados com a sua saúde“, diz o o economista Barry Eichengreen, recordando que as políticas macroeconómicas não podem fazer tudo.

Para este académico muito liberal, mas também para muitos economistas como os do Instituto Bruegel, a prioridade é colocar todos os meios disponíveis para tratar os doentes, para conter a epidemia e para apoiar os sistemas de saúde. Numa palavra, para fazer políticas de saúde pública, para reencontrar ação do Estado.

Esta é a única resposta adequada, na opinião deles, no futuro imediato. Quanto mais a epidemia se propagar, mais tempo durará, maiores serão os prejuízos para a economia mundial. Agora, uma vez que o coronavírus se espalhou pelos países ocidentais, o que mais impressiona é a falta de voz pública face ao coronavírus. E é também isto, sem dúvida, que está a provocar o pânico no mundo financeiro: a paralisia gradual de toda a atividade, devido à falta de respostas suficientes dos Estados, corre o risco de provocar um colapso geral, tanto mais violento e devastador quanto o sistema acumulou montanhas de endividamento e de torpeza ao longo da última década.

Com exceção da Itália, que aceitou pôr a sua economia em risco para conter a epidemia, a principal preocupação dos dirigentes europeus é manter a atividade, apoiar as empresas, para que tudo continue como antes, e não é a de fornecer recursos para esta crise sanitária. Com exceção, mais uma vez, da Itália, que libertou vários milhares de milhões de euros para combater a epidemia, para comprar medicamentos e equipamento e para recrutar profissionais de saúde, os outros não anunciaram nada.

A Comissão Europeia anunciou em 7 de março que seria compreensiva com a Itália se este país não cumprisse plenamente os seus objetivos em matéria de défice orçamental, provando uma vez mais o seu dogmatismo e a sua incapacidade de identificar as verdadeiras prioridades.

A solidariedade europeia foi mais uma vez ilustrada na crise do Covid-19. Longe de ajudar a Itália nesta crise sem precedentes, todos preferiram manter os seus medicamentos e equipamentos com eles. Foi a China que forneceu a Roma respiradores, medicamentos e ajuda.

Na sua defesa, a Comissão Europeia explica que as políticas de saúde são da responsabilidade de cada Estado. No entanto, nos últimos anos, a Comissão não se absteve de intervir nestas políticas de saúde. Nos últimos dez anos, as despesas hospitalares e de saúde têm sido o alvo preferido, as chamadas variáveis de ajustamento dos programas de austeridade europeus. Os orçamentos de investigação foram massacrados. Foi o que aconteceu em Itália, Espanha, França, Grécia e Irlanda e, de seis em seis meses, na Europa, os tecnocratas responsáveis pela revisão dos orçamentos dos Estados-Membros exigiram novos cortes no pessoal de saúde e nos recursos hospitalares, despesas consideradas supérfluas, mesmo de luxo, em comparação com o sacrossanto défice de 3%.

Porque foi assim com a saúde, como foi com a energia, a indústria e outras áreas: qualquer política era suposta distorcer a mão invisível do mercado.

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Evolução do número de camas de hospital por 1000 habitantes © OCDE

Em nome da “racionalidade” económica, ter camas extra era visto como um desperdício. Em França, 10.000 camas foram cortadas desta forma nos últimos anos com o pessoal que as acompanhou. 100.000 camas que nos faltam hoje.

Os danos desta política estão agora a ser claramente visíveis  com a epidemia do coronavírus. Todos os países europeus estão subequipados para fazer face a esta crise sanitária. Apesar de a epidemia não ter atingido o seu auge, todos os sistemas de saúde estão a dar sinais de rutura. Há onze meses que o pessoal hospitalar está em greve em França para denunciar o massacre do hospital público e a falta de recursos humanos, materiais e financeiros.

 

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A Presidente do BCE, Christine Lagarde, em 12 de Março. Daniel Roland/ AFP

Por dogmatismo, por cegueira, os líderes europeus não dão sinais de querer mudar a sua linha de orientação, de colocar políticas públicas no seu software, como provam as decisões do BCE. No seu novo programa de recompra de títulos, o BCE indicou que começaria por adquirir títulos de grupos privados e não obrigações do Estado.

Ora, é precisamente o contrário que deve ser feito: nestes tempos de incerteza, o BCE deveria apoiar os Estados, ajudando-os a combater a epidemia, ajudando-os a financiar as políticas de saúde. É aqui que reside a urgência. Poder-se-ia mesmo imaginar que, nestas circunstâncias excecionais, o BCE anularia a todas as obrigações do Estado que adquiriu nos últimos anos, como parte da sua política de flexibilização quantitativa, a fim de aliviar os Estados e devolver-lhes a sua margem de manobra financeira. Por uma vez, o dinheiro iria para o povo e não para os bancos.

Mas tudo indica que estamos longe, muito longe de uma decisão tão corajosa. Durante a sua conferência de imprensa, Christine Lagarde cometeu um erro que diz muito sobre a sua incapacidade de mudar o cenário, de compreender a natureza excecional da situação. Ela explicou que “não compete ao BCE reduzir os spreads entre títulos soberanos“. Em suma, as divergências crescentes entre as taxas de juro das obrigações alemãs e italianas e a coesão da zona do euro não são da competência do BCE. Voltemo-nos para os mercados. Mesmo que isso signifique colocar a terceira maior economia europeia sob total stress sanitário e económico.

Os financeiros  chegaram imediatamente a uma conclusão: o BCE não está ao lado da Itália nestes tempos difíceis. Imediatamente após esta declaração, as obrigações italianas foram massacradas. Em poucas horas, as taxas de rendibilidade das obrigações a dez anos passaram de 1,26% para 1,76%. [Nota do tradutor: significou um prejuízo na ordem dos dois milhares de milhões de euros]

O mau sinal dado por Christine Lagarde pode ter consequências graves. Nestes momentos de tensão, não é preciso muito para reacender os incêndios mal extintos da crise europeia. Desta vez, com a cólera da opinião pública por cima, é assim que a Europa se revela incapaz de responder às verdadeiras prioridades.

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A autora: Martine Orange [1958 -], jornalista da área economia social em Mediapart desde 2008, ex-jornalista do Usine Nouvelle, Le Monde, e La Tribune. Vários livros: Vivendi: A French Affair; Ces messieurs de chez Lazard, Rothschild, um banco no poder. Participação em obras colectivas: a história secreta da V República, a história secreta da associação patronal, Les jours heureux, informer n’est pas un délit. Recebeu o prémio de ética Anticor em 2019.

 

 

 

 

 

 

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