Reflexões em torno do 25 de Abril, agora (1/3). Por Júlio Marques Mota

25deabril 2020

 

Reflexões em torno do 25 de Abril, agora (1/3)

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

em 25/04/2020

Foi-me solicitado pelos meus editores do Blog A viagem dos Argonautas um texto sobre o 25 de Abril. A primeira reação foi dizer não, mas insistiram tanto, tanto, insistiram até que percebi que sendo eu um homem que viveu nas ruas de Lisboa, ouvindo alguns tiros pelo meio, o Abril de portas mil, só poderia dizer sim. Foi o que fiz, deixando em aberto o que fazer, o que escrever.

Como base para este texto, tomo duas linhas de referência. Como primeira linha de referência, a esperança de Abril, do outro, o de 1974, que de golpe de Estado pela força do povo em revolução foi transformado, versus a desesperança do Abril de agora face não só à crise sanitária mas sobretudo ao medo opressor da crise que aí vem. Como segunda linha de referência temos, em claro contraste, a coragem dos capitães de Abril, por um lado, que arriscaram a vida pela liberdade de todos nós face à crise económica e política de então, em que o sistema estava a cair de podre e, por outro, o medo e a incapacidade dos nossos dirigentes europeus (em alguns tratar-se-á mesmo de maldade e incompetência), não os nacionais, de responderam à crise de agora. com políticas adequadas e corajosas, com políticas que talvez não venham nos livros.

Esta segunda linha de referência faz-me lembrar um texto que li há largos anos sobre a queda do Titanic e da lição que se pode retirar desse enorme desastre marítimo. Um texto de alguém, politicamente um moderado, o editor do blog Maximus Fábius. Daqui fazemos uma montagem que passamos a transcrever:

“ Aprender com o Titanic

Às 23h40 do dia 14 de Abril de 1912 o RMS Titanic aproximava-se de uma crise, navegando quase à sua velocidade máxima através de um campo de gelo sob um céu escuro (sem lua, sem a estrela Vénus), sem vento (sem ondas a quebrar no gelo). Avisos de gelo foram recebidos e ignorados. Os vigias tocam três vezes o sino – um objeto inerte situado à frente do barco. A catástrofe era inevitável neste momento, ou será que os oficiais poderiam ter salvo a maioria dos passageiros e da tripulação?

(a) O que poderia ter feito o Primeiro Oficial William Murdoch?

Ele ordenou ao leme “forte a estibordo ” e os motores “completamente à ré “, com a intenção de navegar contornando o iceberg. O Titanic quase o conseguiu; debaixo de água o casco roçou suavemente contra o gelo. A água entrou pelas  longas linhas onde as placas se dobraram e as costuras se abriram.

O Titanic provavelmente poderia ter sobrevivido se nesse momento exato  Murdoch tivesse decidido  não virar o navio e,  em vez disso, ir bater de frente contra o iceberg. Apenas os primeiros compartimentos teriam sido inundados.  Os cerca de 56 bombeiros que estavam  no bloco  da frente do convés F teriam morrido, juntamente com dezenas de passageiros da 3ª classe. Mas bater diretamente no iceberg não se tratava de uma resposta segundo “as regras dos livros”, e só um oficial corajoso (genial ou imprudente) o teria feito.

No entanto,  Murdoch também não deu as ordens segundo “as regras dos livros “. Segundo ele pôs os “motores a potência máxima  à ré “. Fê-lo, em vez de continuar na mesma linha com os motores a toda a velocidade. O poder de viragem máxima do leme provém da força da corrente da água que vai contra ele. A resposta do livro corria o risco de danificar a popa e os rebites do barco (ao bater no gelo), mas podia (possivelmente) ter dado ao Titanic os poucos centímetros extra de que necessitava para sobreviver – ou pelo menos para flutuar até que a ajuda chegasse.

A força do mar revolto  puxou a proa para baixo, acelerando o ritmo de afundamento. Em vez disso, poderiam ter aberto algumas portas estanques e permitido que a água se movesse para trás, para a popa. Isto poderia ter atrasado o afundamento de 2 a 4 horas; o SS Carpathia chegou 1 hora e 40 minutos mais tarde.

Porque é que os oficiais do Titanic não fizeram isto? Este procedimento só se tornou do conhecimento geral durante a Primeira Guerra Mundial (o Titanic impulsionou o desenvolvimento destes métodos). Por exemplo, em Pearl Harbor, a 7 de Dezembro de 1941, os oficiais subalternos de vigia ordenaram a contras-inundação de modo que apenas um navio de guerra se virou.

 [Tom McCluskie, funcionário de  Harland & Wolff ( a construtora do navio)  escreveu no seu livro, Anatomia do Titanic (1998):

“Nos últimos anos, Harland & Wolff tem realizado extensas simulações em computador para tentar determinar o que teria acontecido se o Titanic tivesse realmente dado um golpe mais direto no iceberg. A partir desta investigação determinou-se que, se assim tivesse sido, os danos teriam ficado confinados ao extremo dianteiro ([à proa] e o Titanic não teria afundado. Os danos sofridos não teriam sido suficientes para inundar os seis compartimentos da frente. Não surpreende, porém, que a reação imediata ao icebergue na ponte tenha sido a de se afastar do perigo, numa tentativa de evitar a colisão“.

O autor de A Night to Remember, sobre o Titanic Walter Lord, é da mesma opinião, afirmando que, se Murdoch tivesse “navegado em frente em vez de tentar fugir-lhe , poderia ter salvo o navio. Teria havido um acidente temível – os passageiros e a tripulação nos primeiros 100 pés teriam morrido devido ao impacto – mas o Titanic teria permanecido à tona de água“. No entanto, Walter Lord não culpa Murdoch pela sua decisão. “Ele fez o que tinha sido treinado para fazer – o que qualquer oficial prudente faria – nas mesmas circunstâncias“.

Ora a situação de agora é em muita coisa semelhante à opção urgente que o Primeiro oficial teve de tomar para salvar o paquete, a resposta segundo as regras aprendidas nos livros, uma resposta que saindo dos livros poderia por estes ser adotada, numa nova edição claro, ou um ato de coragem, com uma decisão que de forma alguma se inscrevia nos cânones da aprendizagem da época, dar toda a força aos motores e ir de frente contra o iceberg, a oção que ele quis evitar a todo o custo, optando por uma outra que foi a de contornar o iceberg procurando o confronto mínimo e obtendo o confronto máximo. Essa é uma das leituras que se faz sobre o trágico acidente.

Mas esta é uma lição que podemos aproveitar para perspetivar este nosso Abril de hoje, encurralados dolorosamente em casa por causa de uma crise pandémica e assustados pela crise que já galopa ao nosso encontro.

Tal como no Titanic , com a crise atual temos três variantes possíveis para responder à situação atual:

  1. Fica-se colado aos livros da estrutura de pensamento dominante e temos a repetição pura e simples do que se passou entre 2008 e 2020, já que objetivamente hoje ainda não se saiu completamente desta crise pois as feridas profundas são muitas e levam anos a cicatrizar.
  2. Ou se pretende reformas pontuais para responder à situação atual, com algumas medidas um pouco já fora dos livros, mas circunscritas sobretudo ao período pandémico.
  3. Ou se responde à crise de com coragem e inovação fora do que os livros ensinam.

Nesta terceira via estão autores como Martin Wolf diretor do Financial Times, Adam Tooze, o autor de um dos melhores livros sobre a crise de 2008-até quando?, Michael Roberts, Bill Mitchell, Jeremy Corbyn, Heiner Flassebeck, Michael Pettis, Domenico Mario Nuti, um ilustre autor alemão dos anos 30 intencionalmente desconhecido, Wilheim Lautenbach,  e muitos outros.

Quem diria há um ano atrás que aquele que foi possivelmente o mais importante ideólogo do pensamento dominante, Martin Wolf, escreveria recentemente e que agora passo a citar:

“ O que temos de fazer é concentrarmo-nos nos passos que temos pela frente, se quisermos evitar sair do nosso estreito caminho e depararmos, depois, ou com mortes em massa de um lado, ou com uma enorme devastação económica do outro. Se não evitarmos cair numa qualquer destas duas calamidades num futuro próximo, arriscamo-nos ao caos que se avizinha.

Mesmo que o consigamos fazer, não voltaremos à normalidade que tínhamos tido como um dado garantido . Para isso, temos pelo menos de esperar por uma cura ou uma vacina. Os danos económicos e sociais vão permanecer ainda por mais tempo.(…)

O impacto imediato destas ações poderá ser uma redução do produto interno bruto no grupo dos sete principais países de elevado rendimento, entre 20 e 30 por cento. Cada mês, quando grandes partes das nossas economias permanecem fechadas, o crescimento anual pode cair 2 pontos percentuais.

Ao considerar o que deve ser feito para gerir o impacto económico devastador, para além de reabrir as economias tão rapidamente quanto é razoavelmente seguro fazê-lo, há três considerações essenciais.

Em primeiro lugar, proteger os mais fracos, tanto no interior dos países como entre eles. Uma doença ameaça a todos. A forma como se reage é uma medida dos nossos padrões éticos. É essencial garantir a segurança económica básica para todos se não puderem trabalhar.

Um rendimento básico universal temporário é uma opção óbvia. Do mesmo modo e de forma crucial, há que encontrar formas de apoiar economias vulneráveis.

Há muitas possibilidades radicais. Uma delas é uma nova e enorme emissão dos Direitos de Saque Especiais do FMI, com a doação pelos países de elevado rendimento da sua quota-parte para um fundo em benefício dos países em desenvolvimento mais vulneráveis.

Também será crucial uma paragem nos pagamentos do serviço da dívida durante toda a crise.

Em segundo lugar, não causar danos. A ferida mais profunda resultaria da destruição total do sistema de comércio internacional. Isso tornaria muito mais difícil restabelecer a prosperidade global depois da crise ter terminado.

Em terceiro lugar, abandonar as ideias já desacreditadas. Os governos já abandonaram as velhas regras orçamentais , e com razão. Os bancos centrais também têm de fazer o que for preciso.

Isto significa o financiamento monetário dos governos. Os bancos centrais fingem que o que estão a fazer é reversível e o mesmo não acontece com o financiamento monetário. Se isso os ajudar a agir, tudo bem, mesmo que provavelmente não seja verdade. Na zona euro, eles falam muito de euro-obrigações, também chamadas  eurobonds.

Mas o apoio que importa terá de vir do Banco Central Europeu. Não há alternativa. Ninguém se deve preocupar com isso. Há formas de gerir as consequências.

Mesmo o “dinheiro de helicópteros” pode muito bem ser plenamente justificável numa crise tão profunda.

A gestão de compromissos tão dolorosos depende de elevados níveis de confiança e fiabilidade, características pouco salientes das democracias de hoje. Mas o teste é agora.

Os governos que não conseguirem enfrentar estes desafios correm o risco de entrar em colapso. Os sistemas políticos que produzem tais governos correm o risco de perder a sua legitimidade.

Temos de dar estes próximos passos de forma correta. Tudo depende de os darmos assim ou não.

Este seria, em termos de Titanic, o primeiro oficial que lá não estava [1].

Sobre a primeira variante, em homenagem ao 25 de Abril, recuso-me  a falar dos seus defensores, referindo apenas alguns como  Jens Weidman, governador do Bundesbank, Schauble, Trichet, Monti, Matteo Renzi, Hans-Werner Sinn, Francisco Assis e Passos Coelho entre muitos outros que encheriam páginas.

Quanto à segunda variante, nesta situam-se quase todos os militantes e simpatizantes dos partidos do arco do poder, o arco do extremo centrismo, envolvendo desde o centro direita ao centro esquerda, onde está o nosso PS, no fundo os moderados de dentro do sistema. Destes, cito por exemplo o emblemático Emmanuel  Macron, depois da sua entrevista ao Financial Times, Peter Bofinger, Eduardo Paz Ferreira, Zoltan Pozsar, um ex-membro do FED de Nova Iorque [2], João Andrade, meu colega e amigo de longa data, Mario Draghi o homem que queria salvar o Euro com a flexibilização quantitativa, mas matando a zona euro com a condicionalidade, entre muitos outros. Estes são a correspondência ao nosso Primeiro oficial do Titanic que com coragem tentou salvar o paquete, saindo apenas um pouco fora dos livros. Um erro que custou caro e relembrando Martin Wolf acima transcrito : “Os governos que não conseguirem enfrentar estes desafios correm o risco de entrar em colapso. Os sistemas políticos que produzem tais governos correm o risco de perder a sua legitimidade. Temos de dar estes  próximos passos de forma correta. Tudo depende de os damos assim ou não.

 

Do que se trata é que necessitamos urgentemente de um novo New Deal, ação que é interior ao sistema que se deve reestruturar, e não de um  apoio vindo do exterior, um novo Plano Marshall, para apoiar o sistema que se quer apenas retocar.

Aliás, a partir da posição assumida por Sousa Andrade em defesa das decisões do Eurogrupo de 9 de março, escrevo o texto que se segue, em que o texto de Sousa Andrade é para mim apenas o pretexto para procurar explicar que muitos dos problemas que nos tornam impotentes hoje face à dimensão de uma crise que se irá desenvolver em quatro planos, o plano económico e financeiro, o plano social, o plano pandémico, o plano climático, não esqueçamos que o verão aí vem, são o resultado das politicas austeritárias de todo um sistema que agora se pretender apenas retocar, para que depois tudo fique na  mesma.

O texto que se segue em homenagem ao abril de outrora é uma análise sobre muitas das coisas que deste abril de agora devemos rejeitar. E esta é melhor homenagem que aos capitães de Abril e ao povo português de ontem e de hoje sou capaz de prestar.

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Notas

[1] Curiosamente e por analogia, Salgueiro Maia seria aqui o correspondente ao Primeiro Oficial que o Titanic infelizmente não teve.

[2] Ainda recentemente Pozsar afirmava: “o que o Fed precisa é do equivalente monetário do Dr. House: alguém que possa diagnosticar o que é que está realmente errado com as ferramentas monetárias, em vez de usar a mesma velha abordagem de injetar milhões de milhões de dólares em liquidez bruta para o mercado, que claramente já não está a funcionar”.

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