O combate ao coronavírus fará mudanças duradouras nas economias. Por Michael Mackenzie

Espuma dos dias Coronavirus

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O combate ao coronavírus fará mudanças duradouras nas economias

Os investidores que tentam saber até onde vai o mercado na sua descida têm pela frente uma tarefa assustadora

Michael Mackenzie Por Michael Mackenzie

Publicado por FTimes em 20/03/2020 (“The coronavirus fightback will make lasting changes to economies”, ver aqui)

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Uma máscara cirúrgica é colocada sobre a Rapariga sem Medo-‘Fearless Girl’ – em frente à bolsa de Nova Iorque. © AP

Na luta para travar o surto de coronavírus que desestabilizou a economia mundial, os bancos centrais fizeram todo o possível, com intervenção após intervenção, para acalmar os mercados de capitais.

Os governos estão a seguir de perto, anunciando iniciativas de despesa massiva para proteger as suas economias de recessões profundas. Quando a pandemia acabar por recuar, os efeitos destas ações continuarão a fazer-se sentir. Isto introduz outro elemento de incerteza para aqueles que tentam traçar o rumo de uma eventual recuperação das ações e de outras classes de ativos.

Num mundo em que os países estão a tornar-se ilhas e as cidades estão a tornar-se agregados familiares, os investidores temerosos estão a acumular dinheiro, em particular dólares americanos. Após uma década de dívida excessiva, está a ter lugar um balanço doloroso nos mercados globais. Nenhuma classe de ativos é segura, à exceção dos títulos do Tesouro dos EUA de curto prazo. À medida que os seus preços subiram, os rendimentos implícitos destes títulos – vistos como equivalentes de caixa – ficaram abaixo de zero durante a frenética negociação desta semana entre ações, crédito, moedas, dívida pública e petróleo.

O método geralmente fiável de seguro de carteira, através da compra de ouro ou de obrigações do Tesouro de longa maturidade que se saem bem quando os ativos mais arriscados sofrem, não foi poupado.

Alguns investidores precisam de dinheiro para fazer face aos resgates dos fundos que gerem ou para reembolsar garantias sobre posições que continuam a afundar-se abaixo da linha de flutuação. Outros optaram claramente por acumular dinheiro enquanto esperam que a extrema volatilidade do mercado diminua.

Um fortalecimento do dólar americano realça a magnitude desta desalavancagem global. Em todas as classes de ativos, as transações de fuga aos ativos é voraz e a fuga dos mercados emergentes é fortemente ilustrada pelo Institute of International Finance. De acordo com os seus números, as saídas dos mercados emergentes desde finais de Janeiro já são duas vezes superiores às de um período semelhante durante a crise financeira global de 2008 e muito maiores do que em outros episódios como a reação dos mercados em pânico em 2014, dita o “taper taantrum”

Os investidores habituados aos fortes picos na  subida e na descida do valor dos ativos podem muito bem olhar para o ambiente atual e ver sinais de uma boa oportunidade de compra a longo prazo. As grandes quedas são seguidas por grandes recuperações. Mas os eventos deste ano são diferentes.

Uma pandemia de duração indeterminada está a causar uma profunda recessão económica – que fecha a porta das empresas e aos seus trabalhadores, em particular aos da economia gig, criando dificuldades para muitos que dependem inteiramente dos seus cheques de salário semanais ou mensais.

O espectro de uma crise de solvência para a economia em geral fez com que os bancos centrais e os governos entrassem em ação.

Os investidores terão de atacar nos próximos meses, mas “quando a pandemia começar a diminuir”, o momento terá passado

Rob Arnott, Research Affiliates

Os esforços dos decisores políticos são cruciais para travar os prejuízos económicos, mas este é um ambiente em que – em vez de esperar por boas notícias nos dados económicos – a única estatística que conta é a evidência do pico do Covid-19. Só então os investidores poderão realmente começar a avaliar que tipo de recuperação poderá ser encarada e o que representa o justo valor para os preços dos ativos.

Alan Ruskin do Deutsche Bank argumenta que o otimismo numa eventual recuperação em forma de V é “quase impossível quando a economia real só está a começar a caminhar pelo lado negativo do V e a um ritmo que é verdadeiramente histórico. Ainda é muitíssimo cedo para começar a ver o seu fim, que é a métrica fundamental para a recuperação do risco”.

Procurar determinar o ponto mínimo e máximo no valor dos ativos é uma tarefa assustadora. Mas para os investidores com um longo horizonte temporal, há uma oportunidade de comprar ativos que sofreram um forte rebaixamento, talvez por pequenos passos.

Rob Arnott, fundador da Research Affiliates, diz que esses investidores terão de atacar nos próximos meses – uma vez que “quando a pandemia começar a diminuir”, argumenta, o momento terá passado. “A janela de oportunidade será curta, mas altamente gratificante a longo prazo”.

Outro desafio a longo prazo consiste em avaliar o terreno pós-pandémico para as empresas e as economias.

As recessões profundas eliminam frequentemente os galhos secos do ciclo económico anterior, o que facilita uma recuperação rápida. As empresas que sobreviverem à próxima vaga de incumprimentos tornar-se-ão mais fortes à medida que a concorrência se for intensificando, enquanto as prováveis mudanças na forma como as pessoas trabalham e interagem entre si apresentam oportunidades para as empresas para além da atual crise. Isso pode muito bem revigorar o próximo ciclo económico.

Há também a possibilidade de os governos e os bancos centrais não reduzirem a sua pronunciada presença nos mercados e na economia quando a crise passar. Há muita margem para os bancos centrais monetizarem um grande aumento das despesas públicas, dada a dimensão dos potenciais prejuízos económicos que se avizinham.

A injeção  de dinheiro diretamente para as mãos das pessoas e empresas, em vez dos bancos, como foi feito na sequência da crise financeira de 2008, irá sem dúvida revelar-se popular – especialmente na medida em que se trata de estimular a recuperação económica. Mas também é provável que venha a criar uma inflação muito mais elevada no futuro.

Os investidores irão ajustar-se e encontrar os motores do próximo mercado em alta, mas terão também de navegar por profundas mudanças em todo o sistema económico e financeiro. Nesse sentido, as consequências do surto de coronavírus continuarão a pairar sobre o panorama dos investimentos nos próximos anos.

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O autor: Michael Mackenzie é comentador senior de investimentos do FT. Foi editor de mercados globais em Londres e, antes de 2015, foi o editor dos EUA. Juntou-se ao escritório do FT em Nova Iorque em 2006, depois de cobrir os mercados de obrigações e derivados americanos para o Dow Jones a partir de 2000. Antes da sua carreira jornalística, Michael foi corretor de derivados para a Tullett & Tokyo em Hong Kong, Londres, Toronto, Nova Iorque e Tóquio.

 

 

 

 

 

 

 

 

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