CARTA DE BRAGA – “do zoológico à esperança” por António Oliveira

Começo esta Carta com uma consideração esmagadora, feita pelo escritor e jornalista John Carlin que, de algum modo, nos pode situar, aos ocidentais, numa outra dimensão deste mundo, agora de pernas para o ar.

Escreveu Carlin, ‘milhões de seres humanos confinados, vivem hoje em condições similares às outras espécies das selvas, pradarias e mesmo dos oceanos, por ter sido sempre essa a essência da condição humana, mas não nos podemos enganar mais’.

E completa, rude e realista ‘A maioria de nós tem hoje a vida ociosa do nosso primo gorila, sem noção do futuro, sem fazer planos, coisa que pensávamos nos diferenciava dos animais. Dormimos, comemos e, se temos oportunidade, fazemos o necessário para nos reproduzirmos. E acima de tudo, enjaulados num zoológico’.

Tirando a questão da família, até sou obrigado a acompanhar Carlin. Como também me sinto obrigado a acompanhar Rabindranath Tagore ‘enquanto desfrutávamos as comodidades das nossas casas, esquecíamos a multidão de seres que, com ou sem culpas, sofriam humilhações em calabouços imundos, privados de gozar livremente os benefícios do ar e da luz, um privilégio outorgado por Deus

Agora já não há dúvida que uma entidade minúscula, com um desenho horroroso que não passaria nem na mais modesta mesa de um também modesto designer, veio trazer pânico a uma sociedade aquietada pelos seus likes e selfies, como se o mundo fosse apenas uma passerelle para as pessoas exibirem vaidades, para serem compensadas emocionalmente.

E devemos dar atenção, diz Viriato Soromenho Marques ‘Que seja um vírus a ter sucesso onde as políticas públicas de ambiente e sustentabilidade têm falhado, levando a moderar o consumo, a produção, as viagens, o ritmo e a intensidade do trabalho, a colocar um freio numa «economia que mata» (na designação realista do Papa Francisco), só nos pode convocar para um humilde exercício de meditação’.

Este deve ser o momento da inflexão, o momento de determinar novas rotas e futuros pois, garante Yuval Harari, o historiador autor de ‘Homo Deus’, ‘a crise não é só sanitária, mas também política, os media não se deviam distrair apenas com a epidemia, deveriam focar-se na política e pressionar os políticos para fazerem só o correcto, pois sejam quais forem os próximos eleitos, não terão capacidade para reverter o que for feito agora’.

Mas Harari vai mais longe ao pedir uma liderança mundial credível, por nos devermos lembrar que ‘se a epidemia se expande num país, estarão todos em risco e, se alguns quebrarem, o caos, a violência e as ondas de emigração, desestabilizarão o mundo todo’.

Mas tal liderança exigiria um protocolo universal, afirma Euduald Carbonell Roura, um muito elogiado arqueólogo destes tempos, pois tais ‘protocolos que já deveriam estar feitos há anos, pela aparição de outras epidemias’.

O arqueólogo adianta ‘Protocolos de estrito cumprimento como espécie, sem querer saber do país a que se pertença e conduzidos por epidemiólogos e virólogos. Quando há um perigo para a própria espécie, não se pode discutir mais nada além da sua sobrevivência e reprodução, mas não me parece que a humana olhe pela sua sobrevivência, mais do que olha pelos interesses de cada geração’.

E pelo que se tem visto até hoje, esta crise é resultado da ordem dominante na sociedade actual, que não compreende como a compulsiva maneira de devorar a natureza no altar da ganância, é a melhor maneira de se devorar a si mesma.

Uma situação que António Damásio, perguntado se encontraria uma palavra capaz de definir a actual situação humana, respondeu ‘Escolheria três palavras mágicas: tragédia, incerteza e esperança’.

É já um campo para entrarmos nos domínios da sociologia e da filosofia mas, para aligeirar esta Carta, já suficientemente pesada, termino com o comentário de um amigo depois de ter feito uma viagem, devidamente autorizada, ‘Vi polícias em todos os cruzamentos, a parar os carros e a perguntar de onde vínhamos e para onde íamos. Tal e qual como os filósofos, mas com multas!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
 

2 comments

  1. Maria de sa

    *Quanto me lamento por nao ter traquejo para responder habilmente ao artigo.* *Guardo religiosamente os artigos do Professor .* *Como me sinto “vingada “nas minhas limitações.*

    *Bem haja *

    *Maria *

    Sem vírus. http://www.avast.com

  2. António Oliveira

    Obrigado, muito!
    A.O.

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