RESGATEM O PLANETA, por GEORGE MONBIOT

OBRIGADO A GEORGE MONBIOT E A THE GUARDIAN

 

Bail out the planet, por George Monbiot

Airlines and oil giants are on the brink. No government should offer them a lifeline, The Guardian, 29 de Abril de 2020

Monbiot.com, 1 de Maio de 2020

Selecção e tradução de João Machado

 

Temos a oportunidade de remodelar as nossas economias de modo a conseguir sustentar a vida sobre a Terra. Os governos deviam aproveitá-la.

Não Ressuscita. Esta etiqueta deveria ser presa às companhias de petróleo, aviação e do sector automóvel. Os governos proporcionariam apoio financeiro aos trabalhadores daquelas companhias enquanto a economia estivesse a ser reformulada no sentido de criar novos empregos noutros sectores. Só deveriam ser incentivados sectores que contribuam para a sobrevivência da humanidade e do resto do mundo vivo. As indústrias sujas seriam ou compradas e encaminhadas para tecnologias limpas, ou então encaminhadas para o que muitas vezes reclamam, mas nunca querem: deixar o mercado decidir. Noutras palavras, permitir-lhes que abram falência.

Esta é a nossa segunda grande oportunidade de fazer as coisas de maneira diferente. A primeira, em 2008, foi espectacularmente desperdiçada. Vastas quantidades de dinheiro público foram gastas para reerguer a economia velha e apodrecida, e ao mesmo tempo assegurar que a riqueza continuasse nas mãos dos abastados. Hoje, muitos governos parecem determinados a repetir este erro catastrófico.

O “mercado livre” foi desde sempre um produto da política governamental. Se as leis contra os monopólios são fracas, uns poucos de mastodontes sobrevivem, enquanto todos os demais afundam.  Se as indústrias sujas são submetidas a regras apertadas, as limpas florescem. Se não, os desregrados ganham. Mas nas nações capitalistas as empresas raras vezes têm estado tão dependentes das políticas públicas. Muitas das indústrias mais importantes, para sobreviverem,  estão actualmente inteiramente dependentes do estado. Os governos têm a indústria do petróleo à sua mercê – com centenas de milhões de barris que não conseguem vender – assim como tinham os bancos à sua mercê em 2008. Nessa altura falharam ao não usarem o seu poder para erradicarem as práticas socialmente destrutivas do sector e reconstrui-lo a partir das necessidades humanas. Hoje estão a cometer o mesmo erro.

O Banco de Inglaterra decidiu comprar dívida das companhias petrolíferas como a BP, Shell e Total.  O governo fez um empréstimo de 600 milhões de libras à easyJet, isto apesar de, há poucas semanas, a companhia tenha repartido 171 milhões de libras de dividendos: o lucro é privatizado, o rico socializado. Nos Estados Unidos, o primeiro resgate inclui 25 biliões para as companhias aéreas. O governo absorve tanto petróleo quanto for possível para as reservas estratégicas e corta nas leis contra a poluição, enquanto congela as energias renováveis. Vários países europeus estão a pensar socorrer as suas linhas aéreas e fábricas de automóveis.

Não acreditem quando vos dizem que fazem isto para vos beneficiar. Um inquérito recente da Ipsos, realizado em 14 países, sugere que, em média, 65% das pessoas querem uma recuperação verde. Por todo o lado, os eleitorados têm de se esforçar para persuadir os governos a agirem segundo os interesses do povo, mais do que segundo os interesses das corporações e bilionários que os financiam e fazem lóbis. O desafio democrático permanente é quebrar os laços entre os políticos e os sectores económicos que eles deviam estar a regular, ou, no caso actual, estar a fechar.

Mesmo quando os legisladores procuram levar à prática estas preocupações, os seus esforços são muitas vezes fracos e ingénuos. A carta dirigida há pouco tempo ao governo por um grupo de parlamentares de vários partidos no sentido de as companhias aéreas só serem resgatadas se “desenvolverem mais esforços no sentido de fazer frente à crise climática” podia ter sido escrita em 1990.  O tráfego aéreo é inerentemente poluidor.  Não existem medidas realistas que, mesmo a médio prazo, consigam fazer uma diferença significativa. Sabemos hoje que a compensação que os parlamentares pretendem não faz sentido – todos os sectores económicos têm de maximizar os cortes dos gases de estufa. Mudar esta responsabilidade de um sector para outro não resolve nada. A única reforma significativa é fazer menos voos. Pensar em algo que impeça a contração da indústria de aviação impede a redução dos seus impactos.

A pandemia dá-nos uma ideia de como é muito o que temos de fazer para conseguirmos saltar fora da nossa desastrosa trajectória. As grandes mudanças que temos feito nas nossas vidas deverão levar a um corte nas emissões globais de dióxido de carbono neste ano de apenas 5,5%. Um relatório das Nações Unidas mostra que para se ter uma probabilidade razoável de conseguir evitar um aquecimento global de 1,5º ou mais, temos de cortar as emissões em 7,6% por ano durante a próxima década. Por outras palavras, o confinamento  põe em evidência os limites da acção individual. Viajar menos ajuda, mas não é suficiente. Para se conseguir fazer os cortes necessários, precisamos de uma mudança estrutural. Isto quer dizer uma política estrutural inteiramente nova, criada e guiada pelo governo.

Governos como o do Reino Unido deveriam abandonar os seus planos de construção de estradas. Em vez de expandirem os aeroportos deveriam elaborar planos para reduzirem as faixas horárias. Deveriam implicar-se numa política explícita de deixar os combustíveis fósseis no solo.

Durante a pandemia, muitos de nós começámos a descobrir quantas das nossas viagens foram desnecessárias. A partir daí, os governos podem pensar em elaborar planos para reduzir as necessidades de deslocação, investindo em andar a pé, de bicicleta e – quando o distanciamento físico é menos necessário – transporte público. Isto significa passeios mais largos, melhores pistas para bicicleta, carreiras de autocarro para servirem as pessoas, não para darem lucro. Deveriam investir fortemente na energia verde, e com ainda mais força na redução da procura de energia no isolamento dos lares e em melhor aquecimento e iluminação. A pandemia põe à luz do dia  a necessidade de um melhor planeamento das comunidades de vizinhança, com menos espaço público para os automóveis e mais para as pessoas. Também põe à luz do dia a necessidade que temos de um tipo de segurança que nunca será proporcionado numa economia com poucos impostos e desregulamentada.

Por outras palavras, temos de nos decidir pelo caminho que muita gente já andava a pedir antes de nos cair em cima este desastre: um novo acordo verde. Mas por favor deixemos de pensar nele em termos de um pacote de estímulos. Estimulámos demasiadamente o consumo durante o século passado, e é por isso que agora temos de enfrentar o desastre ambiental. Chamemos-lhe pacote de sobrevivência, cujo objectivo é proporcionar rendimentos, distribuir riqueza e evitar catástrofes, sem alimentar um crescimento económico perpétuo. Resgatem o povo, não as corporações. Resgatem o mundo vivo, não os seus destruidores. Não desperdicemos a nossa segunda oportunidade.

 

http://www.monbiot.com

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Pode ler este artigo no original clicando em:

Bail Out the Planet

E também em:

https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/apr/29/airlines-oil-giants-government-economy

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Nota – Traduzimos e publicámos este artigo com a autorização de George Monbiot. Conforme referimos acima, foi publicado no jornal britânico The Guardian em 29 de Abril último.  Não poderá ser republicado na imprensa antes de decorridos 3 meses sobre aquela data. Reproduzimos a seguir a mensagem de George Monbiot:

Dear João,
Many thanks for your email. You’re welcome to translate and republish the article, but please note the conditions below.

Conditions

Please note: if you republish an article in print within 3 months of publication in the Guardian then you will need to get permission from the Guardian as well. Contact link here: https://syndication.theguardian.com/contact-us/.

If it is more than three months since publication or if it will only be published online then you are free to reproduce it with my permission.  Please acknowledge where the article was first published and include a link to Guardian Unlimited www.theguardian.com and www.monbiot.com.

All good wishes, George

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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