Notas à volta de uma mala a tiracolo e não só. Por Júlio Marques Mota

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julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 29 de maio de 2020

Esta mala foi comprada na Belcinto, já lá vai um pouco mais de três décadas. Muito tempo na vida de uma pessoa, a garantir depois um afeto muito especial na sua utilização, como algo que faz já parte da nossa própria identidade. Tanto é assim, que dia, um antigo aluno meu da Faculdade de Economia, no final de tarde de um dia cinzento, a circular de carro na Avenida Manuel Gonçalves (Coimbra) no mesmo sentido que eu, pára de repente o carro e pergunta-me: Professor, quer boleia? Espantei-me e perguntei-lhe como é que me reconheceu pelas costas, ao que me respondeu: não o reconheci pelas costas, reconheci a sua mala a tiracolo. Essa mala é a sua marca de identidade quase que como se fosse o seu bilhete de identidade informal!

Aceitei a boleia e rimo-nos os dois. Depois, acrescentou um comentário curioso: desta vez, a mala não vai carregada de livros para nos ler excertos das badanas e com isso mostrar-nos a importância de os comprarmos, de os lermos. Rimo-nos, de novo.

Uma segunda nota de ligação a esta mala: um dia esqueci-me dela num dos cafés desta cidade onde frequentemente estudava, como professor, o café Trinanon, e com ela carregada de livros. Tratava-se de uma mala que muitas vezes carregava mais de dois livros de formato normal. Não era a primeira vez que dela me esquecia e não foi também a última. Para meu espanto e ainda eu não tinha dado pela falta dela e eis que me tocam à campainha. Eram estudantes de Direito que moravam no meu prédio, e que eu não conhecia, que me traziam a mala, com tudo. A dona do café tinha-se encarregado disso e apesar de eu não as conhecer, as raparigas conheciam-me, e reconheciam também a referida mala a tiracolo.

Olho para esta mala e revejo nela muitos anos de vida! Muitíssimo tempo de vida para uma mala. Muito tempo de vida para ser recordado. Mas nesta mala o tempo passou de duas formas. Pelo lado de fora, pela sua parte externa, o tempo foi deixando a sua marca embelezando o que já era elegância de fábrica, uma obra de verdadeiro artesão, porque com o passar dos anos a pele foi ganhando o encanto “da passagem do tempo”, um pouco como o vinho do Porto de quanto mais velho melhor, ou seja, neste caso de quanto mais velha mais elegante se tornava. Pela parte de dentro, temos um forte desgaste físico provocado pelo uso intenso ao longo de décadas, dos pesos transportados, temos o tecido dos forros sujeito a fricções das pontas dos livros muitas vezes carregados e a rasgar-se, temos os fechos a darem de si de tantas vezes abertos e fechados, temos inclusive, zonas em que o tecido já se está mesmo a desfazer.

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A mala restaurada

Com esta sua velhice, nesta mala, é toda uma vida profissional que nela se condensa, é tudo o que ela representa, para além da qualidade dos artesãos que a conceberam, que a fabricaram.

Hoje, depois da violência da pandemia, tenho a alegria de receber esta mala, como uma mala nova, mas de look antigo, e com um reforço nos cantos inferiores para lhe aumentar ainda mais a durabilidade.

Repare-se que quando contactei a Belcinto, na pessoa da sua diretora, não era para nada disto. Simplesmente queria saber se tinham para venda algo parecido com esta minha mala a tiracolo e isto depois de andar à procura de malas a tiracolo de marcas como Camel, Sansonite e outras. Este telefonema foi feito pela simples razão da extrema confiança nos produtos com a chancela Belcinto e de e que sou consumidor desde há anos.

Entretanto de um site americano dirigido por uma equipa chefiada por John Mauldin, um dos grandes analistas dos mercados financeiros, recebo um texto relativo à mudança dos hábitos alimentares operada nos americanos com a pandemia.

Do texto de Mauldin citamos um excerto (ver aqui):

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Um moinho já com mil anos está a aumentar a produção de farinha: Após 50 anos, o moinho de Sturminster Newton, na Grã-Bretanha, põe em marcha as suas mós movida pela corrente de água para produzir farinha para ajudar a alimentar o boom do pão caseiro. Qual é a dimensão desse boom? As vendas de farinha e levedura aumentaram 647% em março, taxa anualizada.

Um produto de referência- Um dos mais populares produtos de padaria em casa nos dias de hoje é o pão com massa fresca. Que é tão fácil de fazer (ou estragar) que o Laboratório Público de Ciências da Universidade Estadual da Carolina do Norte quer estudá-lo.

Mas pense, para além do pãozinho: Quer uma dose de Taco Bell (YUM) sem ter uma máscara a atrapalhar perante a sua suprema tortilha? Taco Bell Quarterly é uma nova revista literária que quer a sua história, poema, ou qualquer ode que deseje fazer ao seu menu.

Podemos nem sempre encontrar o alimento que desejamos e quando o desejamos, mas temos a sorte de ter muitas opções. Quais são então os seus novos favoritos que tenha descoberto e que nós talvez ainda não tenhamos tentado fazer de forma diferente. Diga-nos aqui: (…)“

 

Pois bem, qual a relação então entre a Belcinto e a minha mala e entre a revista Taco Bell Quartely e os consumidores de Taco Bell?

O que há de comum entre estas duas realidades é que em ambos os casos se procura fidelizar o cliente sem nenhuma mistificação, o que é cada vez mais raro, pela qualidade do serviço prestado ou a prestar e, portanto, pela confiança. Muito diferente do que assistimos hoje, em que tudo é descartável, momentâneo, sem nada para recordar, sem nada que nos fique na retina e na alma.

Tudo isto me faz lembrar um episódio que se deu comigo e com uma empresa suíça, a Thorens, na altura um dos melhores fabricantes do mundo, na década dos anos 80, de gira-discos de referência. Nessa época comprei um gira-discos à Thorens, um TD 127 e com um acessório de bomba de vácuo para fixar o disco em vinil à borracha do prato, retirando-lhe qualquer ondulação ou abaulamento. No transporte entre o ponto de compra e a chegada a Coimbra, a borracha especial do prato do gira-discos, própria para a bomba de sução de ar, estragou-se e esta não era seguramente barata. Escrevi à Thorens, pedindo-lhes o envio de nova borracha, explicando-lhes que o acontecido se devia a incúria no transporte. Nessa carta, falei-lhes da minha preferência pelos gira-discos da marca, referindo que na minha curta vida de audiófilo eram vários os modelos de gira-discos que tinha tido até ali: três, todos eles Thorens, contando com o 127TD então comprado e equipado com um braço SME R12. Enfim era um mundo onde Alta Fidelidade, a precisão dos timbres, o calor [1] e a transparência [2] dos sons, rimava bem com fidelização, a transparência nas relações entre empresas e trabalhadores, entre marcas e consumidores. Um mundo que a globalização arrumou para os limbos da memória dos mais velhos.

Na resposta ao meu pedido, recebo da Thorens a borracha com uma carta assinada pelo diretor da Thorens em que se sentiam reconhecidos pela confiança havida para com a sua empresa e informando-me que tinham muito gosto em me oferecer a nova borracha. Hoje, com a globalização, talvez a Thorens já não seja nada disto, não sei, talvez a Suíça como paraíso fiscal que passou dominantemente a ser, tenha pouco ou nada a ver com a imagem que dela se tinha na altura, a de um país que do ponto de vista industrial era líder na produção de bens intensivos em mecânica fina. A Thorens era disso um bom exemplo. E confirmava com esta sua posição o que então se sabia dos suíços: que era da tradição suíça a consideração extrema pelo consumidor assente numa relação em que se procurava salvaguardar uma certa fidelização, o que pressupõe, logicamente, a confiança e a qualidade de produção e do serviço pós-venda que lhe está associada, coisa que os franceses  ao nível industrial nunca souberam fazer.

Na mecânica fina ninguém batia os suíços. Hoje, com a financeirização crescente da sua economia a par com o aprofundamento da globalização talvez os suíços tenham sido no mercado global substituídos pelos checos, eslovacos ou eslovenos, uma vez que o atual líder mundial na produção de gira-discos, Pro-ject Audio, tem a sua unidade fabril em Litovel, na República Checa. Uma substituição de país que terá sido muito fácil de fazer, a partir de uma velha fábrica de gira-discos aí existente. Com a queda do bloco Leste, o capitalismo inteligente, não o selvagem, tinha à sua disposição artesãos-operários de formação superior à que habitualmente se tem hoje, que trabalhavam com máquinas do meados do século XX e com uma gestão de qualidade  inferior à que se praticava no pior do século XIX. Bastou mudar o mais fácil, as máquinas, bastou mudar a gestão, para que os mesmos artesãos tenham a seguir feito o resto, para que Pro-ject Audio se tenha tornado líder mundial em gira-discos de alta precisão. Um outro exemplo sobre a importância dos artesãos, operários, desenhadores, engenheiros ou outros, muito semelhante ao da Pro-Ject Audio encontramo-lo na Carl Zeiss em Jena, entre muitos outros possíveis.

Reencontrar esta mesma filosofia, na Belcinto, da qualidade e no respeito pelo consumidor, na Drª. Ana Maria Vasconcelos, no Pedro Dias, e igualmente nos seus qualificados artesãos, deixa-me um sentimento de orgulho pelas gentes de trabalho do meu país e com o desejo que nisto não seja apenas uma árvore a dar frutos, mas seja o princípio de uma floresta a ser criada pelos industriais portugueses. Sonho difícil de realizar, mas não deixa de ser oportuno nele pensar, tanto mais quanto este seria um projeto de gerações. Tal como em Litovel, era necessário dispor dos tais artesãos à escala nacional, o que a esta escala não temos, para que um tal projeto pudesse ser pensável. E isso exige o tempo longo da mudança de mentalidades e de profundas reformas no ensino tecno-profissional e superior. Pelo menos a estes dois níveis. Que, entretanto, subsistam como exemplo a seguir algumas pequenas pérolas industriais dispersas pelo país, como é o caso da Belcinto, já nos dá algum conforto.

E é tudo o que tenho a dizer à volta de uma mala, a minha velha mala a tiracolo.

 

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Notas

[1] Ao escrever estas linhas lembro-me do triplo concerto de Beethoven tocado por (Richter – Oïstrakh – Rostropovitch) e da emoção havida por sentir a alma com que aqueles artesãos dos sons tocaram a partitura.

[2] A propósito da precisão de timbres e da transparência lembro-me aqui do disco dos Pink Floyd, Wish You Were Here.

1 Comment

  1. Belíssimo texto. Mas empresas como essa(s) de que fala com saudade, na Suiça, substituídas por empresas na Rep. Checa, como a ‘Belcinto’, são pérolas ou já extintas ou em vias de extinção. Se as pessoas são descartáveis, nesta época de globalização, tanto mais o serão os cuidados na produção, no pós-venda e sobretudo nas relações de deferência para com o consumidor. a propósito de uma qualquer mercadoria..

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