A Universidade em Declínio a Alta Frequência – Miséria das Universidades e Universidades de miséria (1ª parte). Por Olivier Le Cour Grandmaison

Espuma dos dias 2 UNIVERSIDADE 2

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Miséria das Universidades e Universidades de miséria (1ª parte)

Olivier Le Cour Grandmaison Por Olivier Le Cour Grandmaison

Publicado por Mediapart em 04/02/2020 (ver aqui)

 

A Lei de Programação Plurianual da Investigação defendida pelo governo não diz apenas respeito aos membros do ensino superior. Pais, são as vossas esperanças, os vossos esforços individuais e financeiros, e o futuro dos vossos filhos que estão em jogo e que correm o risco de ser ainda mais prejudicados se este projecto liberticida e desigual for adoptado. O mesmo se aplica aos estudantes do ensino secundário e universitário.

Novembro de 1997. A Associação para a Reflexão sobre Ensino Superior e Investigação (ARESER) publicou um livro em que participaram muitos académicos e investigadores [1]. Entre eles, Pierre Bourdieu que, juntamente com o historiador Christophe Charle e o sociólogo Bernard Lacroix, coordenou esta publicação. Os diagnósticos estabelecidos são graves e revelam já a situação alarmante das universidades. Subinvestimento crónico por parte dos poderes públicos, falta de enquadramento dos estudantes, em particular no domínio das ciências humanas e do direito, o que resulta numa elevada taxa de insucesso nos estudos universitários para as pessoas mais frágeis do ponto de vista social e cultural, desmoralização dos professores cada vez mais absorvidos por múltiplas tarefas administrativas [2] e incapazes de desempenhar as suas missões de ensino e investigação em boas condições, opacidade dos mecanismos de recrutamento de professores-investigadores e o “peso crescente do localismo”, a que se junta uma “concorrência” exacerbada “por lugares escassos” devido a restrições orçamentais e a uma política malthusiana que nunca foi desmentida.

E os autores recordam este singular paradoxo. Embora a educação e a escolarização das crianças sejam grandes preocupações das famílias num contexto de desemprego de massa e de longa duração, bem como a prossecução do ensino superior após a obtenção do diploma de bacharelado (conclusão do ensino secundário), os dirigentes políticos só se preocupam com o estado das universidades, a situação dos estudantes, do pessoal administrativo e dos professores quando existem mobilizações significativas e/ou dificuldades financeiras de particular gravidade, alternando medidas precipitadas para restabelecer a calma e a prossecução de políticas de “austeridade”.

Vinte e três anos mais tarde, a situação não parou de agravar-se, independentemente das maiorias na Assembleia Nacional, dos governos em funções e dos presidentes. O mandato de François Hollande, de cinco anos, confirmou-o. Quem se lembra dos diáfanos Secretários de Estado do Ensino Superior, primeiro Geneviève Fioraso, depois Thierry Mandon, e das suas acções significativas em prol das universidades? Depois de terem servido com docilidade o principal coveiro da maioria presidencial e do Partido Socialista, eles, como muitos outros, desapareceram de todo da cena pública depois do descalabro político que conhecemos. Tanto à direita como na defunta esquerda governamental, apesar de pequenas oposições retóricas sem grandes consequências práticas, o orçamento do ensino superior foi desde há muito uma variável de ajustamento sempre concebida como uma despesa, nunca como um investimento a longo prazo que exige uma certa constância na afectação de recursos financeiros e humanos a fim de construir universidades capazes de realizar de forma óptima as suas missões de ensino e investigação.

Hoje, os ocupados porta-vozes do governo encontraram outros termos para além de “rigor” para descrever as orientações implementadas. “Modernização”, “racionalização” e agora “Programação plurianual da Investigação” (LPPR) apresentada pelo Primeiro-Ministro, Édouard Philippe para, segundo a linguagem utilizada, “devolver à investigação a visibilidade, a liberdade e os meios”. Cabe a Frédérique Vidal, a transparente Ministra do Ensino Superior, Investigação e Inovação, efetuar “uma ampla consulta da comunidade científica francesa” que, segundo ela, já “em parte deixou a sua marca” neste projecto. Após o chamado “Grande Debate Nacional” e a preparação da lei das pensões, sabemos o que se passa com as consultas presidenciais e governamentais: uma engrenagem  grosseira e barulhenta, pretensamente democrática, ao serviço da imposição autoritária de políticas decididas em altos cargos. Fazer manobras de diversão, alimentar os meios de comunicação social e os tagarelas lucotores de rádio e televisão que se apresentam nos ecrãs e aparecem na radio, e dividir ao máximo as forças envolvidas, são estes os principais recursos para estas dispendiosas encenações governamentais.

Obrigado ao Presidente-diretor-geral do CNRS, Antoine Petit, por revelar o que se esconde por detrás do zumbido das fórmulas acima referidas, e o que Matignon e de Bercy estão a tramar, falando alto e bom som a favor de uma lei “ambiciosa, desigual” e “darwiniana” (26 de Novembro de 2019). Luminoso, mas muito preocupante. Tais declarações permitem compreender o seguinte: para os neoliberais empenhados na destruição dos serviços públicos em geral e do ensino superior em particular, liberdade significa luta de todos contra todos para obter fundos públicos e privados para financiar a investigação e reforço dos laços entre universidades e empresas para as instituições que o possam fazer e que, por conseguinte, beneficiarão de somas muito substanciais. Isto é ilustrado pelo desejo da companhia petrolífera Total se instalar no campus da École Polytechnique, onde já está a financiar, com 3,8 milhões de euros, uma cadeira de ensino intitulada “Desafios Tecnológicos para uma Energia Responsável”. Não é preciso ser um grande especialista  para saber que quem tem os cordões da bolsa também determina o conteúdo da investigação e as utilizações que lhe serão dadas. Os ministros e os homens do sim-sim da maioria presidencial cantam os louvores da “modernização” e da liberdade reencontrada, temos de compreender que por isso eles entendem a vassalização e privatização desenfreadas das actividades de investigação e o empobrecimento da maioria.

Indignação subjetiva? Verdades objetivas. A prova. Por quanto tempo mais vamos tolerar a contínua degradação das universidades deste país, que ocupa o oitavo lugar no que se refere à quantidade de dinheiro gasto no ensino superior? Recordemos que “a despesa interna com a educação em proporção da riqueza diminuiu de 7,7% para 6,7% entre 1996 e 2016″. Isto significa que todos os anos”, a França “dedica uma parte menor da sua riqueza à formação dos jovens”. (Fontes: Observatoire des inégalités e OCDE) Por quanto tempo mais vamos tolerar que 20% dos estudantes e jovens entre os 18 e os 24 anos vivam abaixo do limiar de pobreza, ou seja, mais 3,6% do que em 2002? Por quanto tempo mais vamos tolerar que 30.000 alunos tenham que frequentar os “Restos du Coeur”[fundação que se destina a distribuir comida grátis aos mais desfavorecidos] devido à falta de meios financeiros suficientes? Por quanto tempo mais iremos tolerar que 13,5% dos estudantes desistam dos cuidados médicos para não sobrecarregar ainda mais o seu orçamento? Por quanto tempo mais iremos tolerar a devastação da selecção social nas instituições de ensino superior, a que apenas 11% dos filhos dos trabalhadores têm acesso, apesar de representarem 30% dos jovens entre os 18 e os 23 anos? Durante quanto tempo mais iremos tolerar que 46% dos estudantes trabalhem durante o ano letivo, correndo o risco de comprometer seriamente os seus estudos [3]? Por quanto tempo mais iremos tolerar salas de aula superlotadas e taxas de apoio estudantil que desencorajam os mais fracos e são a causa de muitos fracassos no primeiro ciclo da Universidade ?

Por quanto mais tempo vamos tolerar a obscenidade acrescentada ao horror quando a Ministra Frédérique Vidal, após a imolação de um estudante de 22 anos em frente ao Centro Regional de Obras Universitárias (Crous) de Lyon, em 8 de Novembro de 2019, propõe como solução, para aqueles que enfrentam sérias dificuldades financeiras, a criação de um número de telefone, e por cima a pagar? O autor deste artigo telefonou para saber do que se tratava e descobriu o seguinte: os estudantes em causa são encaminhados para os serviços sociais já existentes e simplesmente informados dos seus direitos. Esta é pois a resposta do governo aos 130 000 estudantes que se encontram em situação de grande precariedade. Por quanto tempo mais vamos tolerar o aumento constante do emprego precário entre o pessoal administrativo e docente e a diminuição contínua do número de postos de trabalho para estes últimos (3650 postos foram assim perdidos entre 2012 e 2018)? Por quanto tempo mais vamos tolerar que os doutorandos, no final do seu contrato, utilizem o subsídio de desemprego para concluir a sua tese em condições cada vez mais difíceis?

Cada um é livre de completar esta lista, que não é de modo algum exaustiva. Por detrás destes números, há dezenas de milhares de jovens mulheres e homens cujas esperanças são arruinadas por esta política que transforma num destino social a existência daqueles que estão menos preparados para enfrentar a massificação e o empobrecimento do ensino superior. Sórdida e insuportável violência social e simbólica infligida às pessoas mais carenciadas.

A Lei de Programação Plurianual da Investigação defendida pelo governo não diz apenas respeito aos membros do ensino superior. Pais, são as vossas esperanças, os vossos esforços individuais e financeiros, e o futuro dos vossos filhos que estão em jogo e que correm o risco de ser ainda mais prejudicados se este projecto liberticida e desigual for adoptado. O mesmo se aplica aos estudantes do ensino secundário e universitário. São as suas aspirações pessoais, académicas e profissionais que estão em jogo. A coordenação das universidades e laboratórios em luta decidiu fazer do dia 5 de Março de 2020 um dia de mobilização nacional. É urgente fazer recuar este Governo e o Chefe de Estado.

Notas

[1]. ARESER, Quelques diagnostics et remèdes urgents pour une université en péril, Paris, Liber-Raisons d’Agir, 1997. Foram também associados F. Balibar (Paris-VII), C. Baudelot (ENS Ulm) e D. Roche ( Paris-I), nomeadamente.

[2]. Já em 1964, Paul Ricoeur escreveu: “Temos de pôr fim ao estúpido esmagamento dos académicos sob o peso de tarefas administrativas, se não acessórias, à monumental estupidez do desperdício de energia a que a falta de meios conduz.” «Faire l’université.» In Lectures 1. Autour du politique, Paris, Seuil, 1991, p. 375. O Chefe de Estado, que conseguiu fazer as pessoas acreditarem que é discípulo deste filósofo, faria bem em lê-lo o mais rapidamente possível.

[3]. « Se não estivessem a trabalhar, os estudantes empregados teriam uma probabilidade 43 pontos mais elevada de passar o seu ano”. Inquérito do INSEE de 19 de Novembro de 2009. “O impacto do emprego dos estudantes no sucesso e na continuação dos estudos universitários”. M. Beffy, D. Fougère e A. Maurel. https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=3&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwi554241rfnAhUOhRoKHa1bBi0QFjACegQIARAB&url=https%3A%2F%2Fwww.persee.fr%2Fdoc%2Festat_0336-1454_2009_num_422_1_8017&usg=AOvVaw2VosSxRcXoSOn-GaVaQiSB

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O autor: Olivier Le Cour Grandmaison [1960 -] é um político e autor francês cujo trabalho se centra principalmente no colonialismo. É mais conhecido pelo seu livro “Coloniser, Exterminer – Sur la guerre et l’Etat colonial”. Le Cour Grandmaison é professor de ciências políticas na Universidade Évry-Val d’Essonne e professor no Collège International de Philosophie. É presidente da Associação Contra o Esquecimento, de 17 de Outubro de 1961, que defende o reconhecimento oficial dos crimes cometidos pela Quinta República durante o massacre de Paris em 1961.

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