A mercantilização das Universidades e da Investigação: o caso da grande indústria farmacêutica em período de Covid-19 – Nota Introdutória. Por Júlio Marques Mota

Espuma dos dias Mercantilização Universidade Investigação

Nota introdutória

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

em 8 de junho de 2020

 

Lancet é uma das principais revistas científicas à escala mundial sobre medicina. A sua direção deve sabê-lo, mas mais ainda, deve saber que aquilo que disser e sugerir é revestido de um tal peso que todas as autoridades públicas de saúde acatam o que em Lancet se escreve e se sugere. Foi assim com o agora famoso artigo em torno da cloroquina, “Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID-19: a multinational registry analysis”, publicado em 22 de maio último (ver aqui). E isto é tanto mais verdade que a Organização Mundial de Saúde suspendeu imediatamente os ensaios clínicos em torno da cloroquina e com ela muitos países fizeram o mesmo. Face às inúmeras críticas levantadas em torno deste relatório, nomeadamente de dados manipulados, a própria revista Lancet viu-se obrigada a emitir uma declaração, em 3 de junho, em que reconhece que “Foram levantadas graves  questões científicas sobre os dados” do referido relatório e que, embora os autores tenham solicitado uma auditoria independente à proveniência e validade dos dados, que se encontra em curso, a Lancet emite uma “Manifestação de Preocupação para alertar [sublinhado nosso] os leitores para o facto de terem sido trazidas ao nosso conhecimento questões científicas sérias”. E de tal modo que o artigo neste momento tem o carimbo de Recolhido [retracted]. Falta saber qual o impacto e consequências da decisão tomada pela OMS e por muitos países de suspensão dos ensaios clínicos. Grave, gravíssimo que uma revista do mais elevado gabarito mundial tenha caído nesta vergonhosa situação de publicar um artigo com dados manipulados.

Dito isto, devo dizer que eu, que não sou médico, pelo que tenho ouvido desde há muitos anos sobre esta revista científica, comungo da opinião geral de que se trata de uma publicação do mais alto gabarito, do mais elevado crédito.

Mas então como se explica isto? Muito poderia ser dito do ponto de vista do sistema avaliação em que assenta a carreira universitária e de investigação quanto a hipóteses de explicação para o sucedido mas retenhamos a hipótese mais provável de ter sido um artigo que foi sujeito a uma triagem por um conjunto de peritos avaliadores ditos independentes que depois sustentou a decisão de publicação (o que, no entanto, é contraditório com a posterior nota de alerta emitida pela revista), situação que, de resto, acontece também a uma escala muito mais geral que a revista Lancet.

Vivemos num mundo de “especialização“ absurdamente completa, com uma parcelarização de tarefas não menos absurda. As revistas científicas e os seus diretores descarregam a sua decisão de publicar o artigo x ou y na base da opinião de peritos avaliadores, de comentadores “ditos independentes e não conhecidos pelos autores dos textos analisados”, que lhes dizem publique-se ou não se publique. No caso de a sugestão ser a de “não se publique” fazem um relatório explicativo, ou de rejeição pura e simples ou de sugestões que deverão ser levadas em conta para nova sujeição aos mesmos peritos. Criam-se assim múltiplas linhas de interdependência ou até de eventual pressão que escapam ao controlo de quem quer que seja, criando-se assim redes de garantia de publicação. Há sempre quem conheça quem! E o recente caso da FCT e dos candidatos a projetos de investigação Covid pode ser encarado neste mesmo âmbito. Porque não?

As decisões de publicar ou não são deixadas à responsabilidade destes peritos avaliadores e estas decisões são sempre justificadas em nome da independência, da ciência, do rigor. Se olharmos para o sistema financeiro da crise de 2008 foi exatamente assim: montou-se uma cadeia de agentes económicos e financeiros, vendedores de casas pagos à comissão, empresas imobiliárias, bancos de crédito, bancos de investimento, arranjadores de pacotes de hipotecas e de segmentação de riscos, agências de rating, lançamento de emissões de títulos, autorizações da SEC, fundos de cobertura, fundos de pensões, toda uma cadeia de responsabilizações de uns sobre os  outros, em que bastava um tipo de agentes fazer falcatrua, para serem todos arrastados nela e ninguém era depois responsável. Foi o que aconteceu em 2008, daí a ausência de gente a ser presa pela enorme fraude criada……….

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Ora, vivemos num mundo onde se exige que se publique, publique, se publique cada vez mais, conforme sublinhámos nos nossos textos recentes sobre a crise universitária. Como se sublinhou num desses textos nunca tanta gente escreveu tanto para tão poucos. E a quantidade acaba por se sobrepor à qualidade. Assim, sucedem-se, e aos montes. os artigos submetidos à apreciação das revistas, a progressão na carreira assim o exige, e daí os múltiplos canais de pressão sobre as mesmas no sentido de publique-se. E uma publicação na Lancet, para efeitos de avaliação do autor vale ouro. Estas revistas, como defesa, face aos muitos artigos que recebem para publicação, recorrem cada vez mais aos ditos peritos. E haverá tantos mais avaliadores quanto maior for a segmentação do saber, o mesmo é dizer quanto mais se exige saber cada vez mais de cada vez menos, a lembrar a célebre frase de Niels Bhor. Desta maneira, os editores libertam-se de responsabilidades editoriais. Delegam nos ditos peritos avaliadores a decisão de publicar ou de rejeitar. Ora, muitos artigos apresentados a submeterem-se para editar significa muitos avaliadores em funções, muitos avaliadores em funções significa muitos custos como pagamento do seu trabalho e não só, enquanto que, por outro lado, muitos custos na edição de revistas exige receitas crescentes, exige  um número crescente de assinaturas, a sua fonte de base para as receitas e isto quando o número de Instituições que as assina tende a diminuir, dada a política de austeridade que passou a ser praticada nos Centros de Investigação e nas Universidades. A quantidade impõe assim custos a aumentar enquanto as receitas podem estar a diminuir e a qualidade a descer. Recorre-se, pois, à lógica de redução dos custos de edição e, como em todo o lado, reduzem-se os custos pela redução na qualidade dos serviços prestados. Uma das vias de redução de custos será baixar o custo nos peritos avaliadores e que podem ser muitos, contratando talvez jovens “turcos” em princípio de carreira. Evidentemente, com a carga de artigos submetidos nas direções das revistas seria impensável encontrar avaliadores de nome já feito, porque não estariam disponíveis, pelo trabalho que isso lhes dava, pela fraca remuneração que lhes seria proposta e porque não precisam de nenhuma linha acrescentada ao seu curriculum vitae. Dou-vos um exemplo que conheci de perto: a editora Dunod em França. O diretor de qualquer coleção teria de ser um especialista na temática geral da coleção, o tradutor de qualquer livro editado pela Dunod teria de ser um especialista na matéria tratada (!) e o seu revisor tinha de ser alguém que em termos científicos estivesse ainda acima dele. Consequência: o custo de livro editado pela Dunod era incomparavelmente superior ao de outras editoras. Talvez houvesse um outro concorrente ao mesmo nível, a Gauthier-Villars, concorrente em termos de qualidade e também de custo em alta!

O recurso aos jovens “turcos” é pois uma solução e estes quando fazem um relatório sobre um qualquer artigo a ser rejeitado ou em que é proposto ser modificado, fazem-no tanto para o autor criticado como para o editor, a mostrar os seus méritos na análise dos textos considerados. Noblesse oblige!

Esta é penso eu, a dinâmica no mundo editorial que se tem vindo a agravar, sobretudo em revistas menores. Hoje há situações mais delicadas do que a hipótese que se coloca para com a Lancet. Com efeito, não é agora estranho a esta dinâmica que recentemente tenham passado a existir revistas a exigir dinheiro para que os artigos sejam editados, com a justificação de ser um pagamento dos custos que não são compensados pelas receitas!!! Não deixa de ser curioso que, sendo assim que as coisas funcionam, se possam constituir por esta via e por esta forma notações de docentes, de centros de investigação, de Universidades. Mas não nos espantemos: o mesmo se passa no mundo dos livros. Muitas edições são pagas, são edições de autor, pagas à cabeça, com a chancela de editor. Conheci um caso em que foram pedidos 4 mil euros para editar um livro de poesia com 500 exemplares. O que houvesse de receitas acima dos 4 mil euros deste valor seria repartido entre editor e autor!

Deixem-me dar aqui um exemplo sobre publicações e peritos avaliadores: uma pessoa amiga submeteu a uma revista brasileira de qualidade, um artigo para publicação. Tratava-se de uma revista em que os artigos passavam pelo crivo dos avaliadores. Não foi admitido a publicação. Porém, admitia-se como possível a publicação se fossem aceites as sugestões propostas pelos avaliadores designados pela direção da revista. Houve assim dois relatórios sobre o referido artigo, dois longos e espantosos relatórios que, na minha opinião, me explicavam a olho nu que os seus relatores não perceberam nada do artigo e do tema tratado. As sugestões por eles emitidas iam no sentido oposto às teses defendidas pelo autor e tornariam o artigo num amontado de frases contraditórias se fossem aceites. Senti-me tão incomodado com os relatórios que li, relatórios muito extensos, acrescente-se, a mostrar que os seus autores se empenharam no trabalho realizado. Mas isso, por si-só, não lhes confere qualidade. Tão incomodado me senti que enviei o texto, traduzido em inglês, para um economista meu amigo, um economista de renome internacional, que me respondeu na volta do correio, dizendo que se tratava de um artigo de qualidade e que através dele percebeu, o que não percebeu pelas revistas da especialidade, as deambulações da Administração de António Costa no seu primeiro mandato em termos de política económica e social e da maquilhagem que estava a ser feita quanto à política da Troika que estava subjacente a muitas das posições de política tomadas nesse período.

Propus ao autor do artigo que me deixasse responder aos dois relatores, de uma forma simples, dizendo-lhes que terão lido muito, muito mesmo, a avaliar pelas referências bibliográficas em que assentavam os seus relatórios, mas caminharam sempre numa estrada em sentido contrário à seguida pelos grandes especialistas internacionais sobre a temática do artigo em questão e também do próprio autor, cuja visão do mundo se situava nas antípodas da dos avaliadores em questão. Não diria mais nada e, como exemplo, mandar-lhes-ia dois artigos, um de Stiglitz, outro de Martin Wolf que, escritos meses depois do artigo em discussão ter sido submetido à revista, confirmavam alguns dos pontos de vista que os peritos avaliadores pretendiam que se alterassem! A pessoa amiga não aceitou a minha sugestão e entendeu que o esquecimento era a melhor resposta. Aceitei e respeitei, mas discordei totalmente.

Curiosamente foi-me dado hoje a ler um artigo, publicado em 2015, de Richard Horton, editor de The Lancet, em que este afirma:

“O caso contra a ciência é simples: grande parte da literatura científica, talvez metade, pode simplesmente ser falsa. Afligida com estudos com amostras de pequenas dimensões, pequenos efeitos, análises exploratórias inválidas e flagrantes conflitos de interesses, juntamente com uma obsessão por prosseguir tendências de moda de importância duvidosa, a ciência deu uma viragem para a escuridão. Como disse um participante, “os maus métodos obtêm resultados”.

“A Academia das Ciências Médicas, o Conselho de Investigação Médica e o Conselho de Investigação das Ciências Biotecnológicas e Biológicas puseram agora a sua reputação por detrás de uma investigação sobre estas práticas de investigação questionáveis. O aparente carácter endémico do mau comportamento da investigação é alarmante. Na sua tentativa de contar uma história convincente, os cientistas esculpem demasiadas vezes os dados para encaixarem com a sua teoria preferida do mundo. Ou reajustam as hipóteses para encaixarem com os seus dados.”

O que o autor nos diz não é nada diferente daquilo que temos dito e também lido em muitos artigos. A seriedade aqui evidenciada leva-nos a acreditar que a nossa leitura sobre como foi possível a Lancet cair nesta situação é uma leitura plausível e, se o é, mostra na verdade que é todo o edifício da investigação e ensino superior que é posto em causa. Até os mais sérios acabam por cair naquilo que criticam fortemente e claramente estarão inocentes. Como na crise dita de suprime de 2008! Tratar este problema exige muita coragem e não sei se esta existe. A olhar para o que se passa no Ensino Superior em Portugal, coragem é aí hoje uma qualidade rara, raríssima.

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E dou-vos mais um exemplo de como as coisas vão mal no campo do ensino e das carreiras universitárias. Um amigo meu, hoje explicador de um conjunto de disciplinas de nível Universitário e Politécnico recebe uma mensagem com o seguinte pedido:

“- É o Dr. Manuel Gomes?

– Olhe eu sou (XXXX) professor do ensino secundário e inscrevi-me na Universidade Aberta para me doutorar e progredir na carreira. Mas tenho quatro cadeiras, Microeconomia, Macroeconomia, Análise de Projetos de Investimento e Cálculo Financeiro das quais não percebo nada. Eu sabia que as aulas não eram presenciais, mas julgava que eram aulas normais em vídeo pela net. Mas não. Os professores dão-nos apenas o programa e a bibliografia e temos que nos desenrascar só com isso. Vou ter um exame de Micro no sábado. Será que me pode ajudar a resolvê-lo online? “

A resposta do Manuel Gomes, meu amigo de longa data, foi obviamente NÃO, mas há aqui algo ainda bem mais preocupante do que esta fraude singular: como é que uma Universidade funciona nestes moldes, se é que isto é verdade, mas sinceramente nem quero procurar tal o nojo que tudo isto me mete. Porém, se isto é verdade, onde é que está a fraude maior: no aluno em questão que quer fingir saber o que não lhe ensinaram ou numa Universidade que quer carimbar um diploma, que quer fingir ter ensinado o que se deveria saber? Para mim, esta segunda fraude é bem mais grave. Passamos de uma fraude individual a uma fraude que tem contornos de fraude coletiva e coletivamente consentida. E se é verdade o que nos diz o texto do professor candidato ao grau de Doutorado, como é então possível que um Ministério do Ensino Superior e Investigação o consinta?

Tudo isto coloca as Universidades nas antípodas do que Walter Benjamin e o filósofo italiano Giorgio Agamben pensam sobre as Universidades e a forma de nelas se viver. Recentemente o jornalista António Guerreiro chamava a atenção para a leitura de Giorgio Agamben. Vejamos alguns excertos de um artigo sobre a Universidade publicado por este filósofo:

Passaram cem anos desde que Walter Benjamin, num memorável ensaio, denunciou a miséria espiritual da vida dos estudantes de Berlim, e exatamente meio século desde que circulou na Universidade de Estrasburgo uma brochura anónima que apresentava o seu tema com o título “A miséria no ambiente estudantil, considerada nos seus aspetos económicos, políticos, psicológicos, sexuais e especialmente intelectuais”. Desde então, não só o diagnóstico impiedoso não perdeu a sua atualidade, como pode dizer-se, sem receio de exagero, que a miséria – tanto económica como espiritual – da condição estudantil tem crescido de forma incontrolável. E esta degradação é, para um observador astuto, tanto mais evidente quanto se procura escondê-la através da elaboração de um vocabulário ad hoc, que se situa entre o calão da empresa e a nomenclatura do laboratório científico.

(…)

O estudo é, pelo contrário, uma condição permanente. Pode-se, de facto, definir o estudo como o ponto em que um desejo de conhecimento atinge a sua intensidade máxima e se torna uma forma de vida: a vida do estudante – melhor ainda, a vida do estudioso. Por esta razão – ao contrário do que está implícito na terminologia académica, em que o aluno é um grau inferior ao do investigador – o estudo é um paradigma cognitivo hierarquicamente superior à investigação, no sentido em que a investigação não pode atingir o seu objetivo se não for animada por um desejo e, uma vez atingido, não pode deixar de viver estudiosamente com ele, transformando-se em estudo.(…)

A condição de estudante é, na verdade, para muitos, a única oportunidade de viver hoje a experiência cada vez mais rara de uma vida despida de propósitos utilitários. Por esta razão a transformação das faculdades de humanidades em escolas profissionais é, para os estudantes, simultaneamente um engano e um desastre, um engano porque não existe nem pode existir uma profissão que corresponda ao estudo (e esta não é certamente a didática cada vez mais rarefeita e desacreditada); um desastre, porque priva os estudantes do que constituía o sentido mais adequado da sua condição, a vida e o pensamento unidos no estudo, deixando que ainda antes de serem capturados pelo mercado de trabalho, vida e pensamento, unidos pelo estudo, se separem irrevogavelmente para eles.

No exemplo acima citado, o estudante, professor de profissão, situa-se nas antípodas do que Walter Benjamim e Agamben entendem por estudante. Este “estudante” encara a sua presença na Universidade apenas como uma questão de subida na sua carreira profissional, o que é grave, muito grave, mas mais grave é ainda quando quer subir na carreira pela fraude e por uma fraude que a própria Universidade pelo seu próprio funcionamento consente. Esvazia-se o próprio conceito de estudo, cuja aprendizagem não existe e é substituída por um sistema de fraude. Há ainda uma outra pergunta, pergunta de base que deve ser formulada. Estamos a falar de um professor do ensino português, portanto estamos a falar de um licenciado que se propõe para um doutoramento. Mas na faculdade onde andou o que é que aprendeu que terá sido de tal modo tão pouco que o deixou incapacitado para poder continuar a aprender e tão incapacitado que não consegue sequer compreender nada de Microeconomia, Macroeconomia, Análise de Projetos de Investimento e Cálculo Financeiro? E na sequência desta pergunta cuja resposta imagino, levanta-se-me outra: que filtros de seleção há para que um qualquer aluno seja admitido a um projeto de doutoramento? Possivelmente um só: ter dinheiro para pagar as propinas que agora não serão baixas. É a isto que se tem estado a reduzir as Universidades em Portugal e não só, no resto do mundo também, mas os neoliberais dão um nome a este processo: competitividade do ensino sancionada à posteriori pelo mercado que fará o resto, selecionará. Aliás, um professor universitário, professor associado, ex-deputado na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, dizia-me há anos duas notas curiosas que aqui deixo em resumo:

1ª Nota.

Que os cursos deveriam ter muitas disciplinas de opção livre, porque isso aumentava a concorrência interna entre os docentes. Podia-se ir mesmo mais longe: ter disciplinas com o mesmo nome e professores diferentes com programas diferentes porque subiam-se mais níveis no aprofundamento da competitividade. Um truque simples reduzia tudo isto a zero: bastou colocar um limite mínimo de alunos para que uma disciplina pudesse funcionar para que os docentes se disputassem entre si para a inscrição de alunos e a concorrência era feita então pela maior ou menor facilidade com que se passava na disciplina! Caso contrário, arriscavam-se a ser professores ambulantes no quadro de uma licenciatura com distribuição de trabalho variável e ao sabor da afluência dos alunos e da imagem que estes tivessem sobre a respetiva disciplina e sobre a rigidez do professor que a lecionava.

Tudo simples então, e as faculdades passaram a ter um enorme sucesso escolar, medido por um só padrão de referência: o baixo grau de reprovação. Curiosamente, quando Paul Samuelson, prémio Nobel da Economia, veio a Portugal, à Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, então a funcionar no antigo ISCTE, os estudantes não assistiram à sua conferência, estavam nos corredores sentados no chão com diversos cartazes onde se lia: não queremos ser a melhor Faculdade do país pela alta taxa de reprovação. Moral daquela manifestação e daqueles cartazes: a diferença era marcada não pela qualidade do ensino, mas pela taxa de reprovação. Para os alunos a diferença entre a Faculdade de Economia da Universidade Nova e as restantes passava apenas por essa taxa. Curiosamente, era o que se podia deduzir dos diversos cartazes que os estudantes ostentavam!

2ª Nota.

Que não deveria haver exames: a sanção devia ser dada exclusivamente pelo mercado. Estes são soberanos na sua seleção, evitemos então repetição de funções.

O tratamento destas duas notas daria um outro artigo, mas deixemos isso.

 

Mas há uma outra perspetiva de se ver o esvaziamento da função da Universidade, não pela fraude, singular ou generalizada, mas pelo esvaziamento da sua função de criar capacidades de reflexão, na tal associação entre vida e pensamento, face ao mundo em que a Universidade, na sua nobre missão de criação de capacidades intelectuais, se deve situar.142 Mercantilização Univ e Invest Big Pharma 0 VD 3

Como assinala Bill Mitchell, a propósito do “mundo fictício da economia convencional” e de “como um corpo de ficção se tornou a ortodoxia e tem arruinado a vida de milhares de pessoas” (vd. aqui),

cria-se “uma geração ou mais de jovens estudantes [que] acabam com qualificações de pós-graduação ou de doutoramentos em ficção e entram no mercado de trabalho em posições de influência e com uma sobranceria assente na arrogância que estas qualificações convencionais geram e impulsionam políticas que nunca poderão funcionar no interesse dos trabalhadores e das suas famílias. (…)

E então exageram (caso da Grande Crise Financeira de 2008) ou então ocorre uma crise imprevisível (pandemia) e a sua conversa fiada de disparates fica exposta à vista de todos.(…)

É assim que o absurdo permeou a profissão e envenenou a mente de jovens aspirantes a economistas que não tinham a fibra moral para fazer frente aos professores que os levavam a interiorizar esta ficção e, em vez disso, empenharam-se em obter elevadas notas e o acesso a empregos que a “rede” dominante (os grupos de reflexão promovem estes percursos) gerou.

Em breve, os jovens tornaram-se professores e altos funcionários e a lavagem ao cérebro e a falta de coragem continuaram.

Mas nada disto resiste ao teste do tempo, pois não?

Um exemplo desse esvaziamento da função da Universidade assisti eu anteontem no programa Pós e Contras ao ouvir Clara Raposo, diretora de uma das mais prestigiadas Faculdades de Economia, o ISEG, sobre o tema Estabilizar Portugal, ou seja, sobre a crise atual, em que algumas das suas declarações não passaram de puras banalidades e/ou de muita ignorância, ou então de recusa em encarar a realidade. Para perceber o vazio das suas declarações olhemos primeiramente para dois documentos oficiais sobre a crise atual, um do BCE e outro do Congressional Budget Office dos EUA onde se espelha bem a dimensão da crise que atravessamos, uma crise que pode levar dez anos a retomar o ponto de partida de 2020:

 

Do BCE:

O PIB real registou um declínio sem precedentes no primeiro trimestre de 2020. De acordo com a estimativa provisória do Eurostat, o PIB real caiu 3,8% no primeiro trimestre de 2020, pondo fim a quase sete anos de expansão. Quase todos os países da área do euro registaram taxas de crescimento trimestrais negativas nesse trimestre, em particular França, Itália e Espanha, entre os países maiores da área do euro. A descida da atividade no primeiro trimestre foi a mais acentuada registada até à data. Os dados disponíveis sugerem que o comércio a retalho, os transportes, bem como as atividades artísticas, de entretenimento e recreativas sofreram as maiores perdas, embora de forma diferente em todos os países da área do euro. (…)

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Cenários alternativos para as perspetivas económicas da área do euro

A elevada incerteza em torno do impacto da pandemia da COVID-19 sobre as perspetivas económicas da área do euro justifica uma análise baseada em cenários alternativos. A presente caixa descreve dois cenários, que representam alternativas à linha de base das projeções dos especialistas de Junho de 2020, para ilustrar o leque de possíveis impactos da pandemia da COVID-19 sobre a economia da área do euro. Estes cenários podem ser vistos como fornecendo um intervalo ilustrativo em torno da projeção de base. (…)

Em comparação com o cenário grave, o cenário ligeiro implica tanto uma queda menor da atividade económica no segundo trimestre como uma recuperação mais forte no terceiro trimestre (ver Gráfico abaixo). O PIB real cairia cerca de 10% e 16% no segundo trimestre sob os cenários suave e severo, respetivamente. A isto se seguiria uma recuperação que implicaria taxas de crescimento trimestrais de cerca de 10% e 5% no terceiro trimestre, respetivamente, e cerca de 3% no quarto trimestre em ambos os cenários. A recuperação mais fraca no cenário grave é porque se assume medidas de contenção mais rigorosas do que no cenário leve e na linha de base, o que seria necessário tendo em conta o êxito muito limitado na contenção do vírus e o seu forte ressurgimento.

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Prevê-se que o PIB real recupere mais fortemente, em média sobre 2021-22, no cenário moderado, do que no cenário grave (ver Quadro acima). Isto  reflete a normalização da atividade, na sequência do êxito da contenção do vírus no cenário moderado. Em contrapartida, no cenário grave, a epidemiologia incerta do vírus, a eficácia limitada das medidas de confinamento e os prejuízos económicos persistentes assumidos continuariam a pesar na atividade económica ao longo do horizonte. Prevê-se que o PIB real em 2022 recupere próximo do nível previsto nas projeções de Março de 2020 no cenário moderado, situando-se ao mesmo tempo muito abaixo desse nível no cenário grave (cerca de 9,5% mais baixo).

Dizem-nos do Congressional Budget Office dos EUA:

PIB real. A previsão revista para o PIB nominal reflete uma redução significativa na projeção da produção real (corrigida da inflação) do CBO nos Estados Unidos, como resultado da pandemia. Espera-se que o encerramento  de empresas e medidas de distanciamento social reduzam os gastos dos consumidores, enquanto a recente queda nos preços da energia deverá reduzir severamente os investimentos dos EUA no setor energético. A legislação recente irá, na avaliação da CBO, mitigar parcialmente a deterioração das condições económicas.

A projeção de maio da CBO para o PIB real no segundo trimestre de 2020 foi de US$724 mil milhões (ou 13,3%) menor em dólares de 2019 do que a projeção de CBO feita a partir de janeiro. Após o segundo trimestre de 2020, a diferença entre essas projeções do PIB real reduz-se para 422 mil milhões de dólares de 2019 (7,6% menor na projeção mais recente) até ao final de 2020 e desaparece aproximadamente até 2030 (ver Figura 3). Como resultado dessas diferenças, o CBO projeta que, no horizonte de 11 anos, a produção real acumulada (em dólares de 2019) será de US$7,9 milhões de milhões, ou 3,0 por cento do PIB real acumulado, menos do que aquilo que o CBO projetou em janeiro.”

Figuras que ilustram o texto do CBO:142 Mercantilização Univ e Invest Big Pharma 0 VD 6

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Pois quando estas duas grandes Instituições se posicionam desta forma face à crise, ouvimos a senhora Diretora do ISEG, professora doutora Clara Raposo, dizer:

Questionada sobre a saída da crise fala-nos de um vago compromisso europeu e afirma:

“O compromisso europeu sozinho não chega. A Europa não vai poder estar a competir com um mundo com critérios muito mais baixos… não é… que depois se torna mais competitivo do que a Europa para tudo. Portanto, a Europa não é uma potência económica tão forte que consiga combater sozinha uma China, ou os EUA, que optem por outras soluções que sejam no curto prazo mais baratas, mesmo que nos levem para a desgraça… não é… enfim… no longo prazo”.

Não perceber a guerra comercial EUA-China, ou não entender que a solução num mundo globalizado em que a China make and the West take, passa por uma reconfiguração total do comércio internacional e das suas cadeias de criação de valor, assim como não perceber o quadro político sobre o qual a Ordem Económica Internacional tem sido gerida, é o que está implícito no discurso que foi proferido pela Diretora do ISEG. De resto, ao contrário do que diz a citada professora o que a UE tem exatamente praticado é ter-se transformado num espaço político diretamente às ordens de Washington e indiretamente sujeita aos desejos de Pequim, o que lhe tirou todo e qualquer espaço de manobra, ou seja, transformou-se numa colónia das potências hoje dominantes. E o resultado está à vista. Com esta posição, pelos vistos, parece pretender-se que continue assim, não se opor nem aos EUA nem à China, porque não se tem força. A ser assim continuaremos a manter uma sociedade de gente precária, fundamentalmente os trabalhadores que agora se descobrem como sendo os “essenciais” , quase sem condições de trabalho e sem direitos, em que se deseja que o Estado não se meta nos negócios privados. Esta tem sido a base da globalização feliz dos neoliberais.

Quanto à necessidade de intervenção do Estado no estado de crise que atravessamos foi-nos dito pela professora Clara Raposo:

“Quanto à estatização, acho que isto…acho que todos estiveram certos. Ninguém quer um Estado que é o motor da economia, que decide tudo e que é dirigista a esse nível. Esse é o Estado de que precisam os países que têm uma população acomodada, essencialmente. Isto gera uma população ou é o resultado de e ou provoca que as pessoas se tornem apáticas, desinteressantes e sem capacidade de inovação e mobilização e isso é bastante triste. E acho que nenhum de nós quer viver nas circunstâncias de sentir que um Big Brother decidiu por nós aquilo que devemos fazer a todos os níveis.”

Numa situação de crise como esta crise que está para durar como assinalam os documentos acima citados, em que a própria reconhece que os privados não têm capacidade para suportar as suas consequências, estar a argumentar desta forma e a defender um Estado neoliberal contra a necessidade forte de um Estado intervencionista é pura expressão do vazio intelectual que se forma através de brilhantes diplomas de uma Universidade que se perdeu na sua missão. Como é possível que alguém com um CV tão brilhante, como é o de Clara Raposo, se reduza num debate de tema tão sério a tanta falta de brilho? É o resultado da profissionalização da missão da Universidade a que se refere Agamben no quadro do modelo neoliberal de que Clara Raposo mostrou ser defensora. Uma situação tão grave ou bem mais grave que a do aluno professor defraudador porque significa a formação de elites que não sabem fazer outra coisa que não seja politicamente atuar de costas para a realidade e na lógica dos interesses de classe que representam [1].

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Depois do que escrevemos sobre as Universidades e do que publicámos sobre a desorganização da investigação em torno do COVID 19, perguntamo-nos se este caso criado pelo artigo publicado pela revista Lancet não é mais uma prova de que algo vai mal, muito mal, no Reino da Investigação e do Ensino Superior? E não é a prova de que todas as estruturas em que esta tem assentado devem elas, tal como as estruturas universitárias, ser completamente revistas? Responda quem souber.

É pois em todo este lodo que se situa o caso de Lancet e como diz o ditado popular: em bom pano cai a nódoa, sendo certo que o drama agora é que não se trata já de uma nódoa  nem de um bom pano, trata-se de uma vaga de sujidade  tão intensa  à qual não é possível que nenhum bom  pano lhe resista. E Lancet era mesmo feita de um bom pano.

Sobre o assunto publicamos os seguintes textos:

  1. O alucinante Golpe Montado contra a cloroquina, por Xavier Bazin
  2. Estudo Covid-19 sobre a utilização de hidroxicloroquina, questionado por 120 investigadores e profissionais médicos, por Melissa Davey do The Guardian
  3. Carta Aberta – Preocupações relativas à análise estatística e à integridade dos dados do estudo “Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID19: a multinational registry analysis”
  4. Um infectologista marroquino passa a pente fino o estudo de The Lancet que critica a cloroquina, por Kamal Louadj
  5. Curar doentes é um modelo de negócio sustentável? 1ªparte
    • A Goldman Sachs pergunta em relatório de investigação biotecnológica: Curar doentes é um modelo de negócio sustentável? Por Tae Kim
    • Goldman Sachs e a economia da cura das doenças. Por factotumk
    • Aconteceu finalmente: Goldman Sachs pergunta se “A cura dos pacientes é um modelo de negócio sustentável”. Por Walter Einenkel
  6. Curar doentes é um modelo de negócio sustentável? 2ªparte
    • Quando curar uma doença com terapia genética é mau negócio, por Antonio Regalado
    • O desafio da terapia genética: quanto deve custar e como é que vamos pagar por ela? Por Ricki Lewis
  7. Offline: o que é o medicamento dos 5 sigmas? Por Richard Horton

 

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Nota

[1] Estes dois exemplos nada têm de pessoal, como é óbvio. Refletem apenas os dois extremos da deformação do ensino superior: a banalização total por um lado, em que não sabe quase nada de quase tudo, caso do aluno candidato a um doutoramento, ou que sabe quase tudo, mas de quase nada que é, na minha opinião, o caso da diretora do ISEG, pela amostra dada nesse debate, produto da especialização extremada e levada ao limite. Os dois casos representam, um a formação generalista sobre nada, a maioria do que se gera nas Universidades atuais, o outro uma especialização tecnicista extrema de gente brilhante que a deixa incapacitante face ao mundo complexo que a perceção da crise pandémica exige, que representa a quase totalidade da minoria dos licenciados e doutorados hoje. Os restantes, uma escassíssima minoria de gente que se quer em extinção, representam o grupo que se pode identificar com o que diz Walter Benjamin e o filósofo  Giorgio Agamben, a que podíamos também chamar os polímatas. Este é um tema que tratarei neste blog num extenso texto de homenagem ao meu colega e amigo João Sousa Andrade, pelo que não me alongo mais, onde explicarei que a formação altamente especializada e ao menor custo de dinheiro e tempo é comparável, à escala das nações, à especialização extrema à Ricardo que levou ao slogan A China make, o Ocidente take e por esta via levou à desorganização industrial do Ocidente.

Não deixa, porém, de me espantar, no caso de Clara Raposo, que não perceber que o problema de Portugal e da Europa não é uma questão apenas de liquidez, mas de modelo, é grave, gravíssimo. A máquina eletrónica do BCE pode imprimir milhares de milhões de euros, o compromisso europeu de que se fala nesse debate, mas não pode imprimir empregos. Isso, no caso presente, só pode exigir um modelo macroeconómico coordenado à escala europeia para o crescimento e este exige o que ela recusa: um Estado forte assente num projeto coletivamente assumido e não na livre atuação dos mercados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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