Cativaram sempre a minha atenção as prateleiras com livros. Aquelas próximas ou domésticas, nos gabinetes privados de trabalho e nas casas, que por relacionamentos vários ou ocasião, cumpre visitar ou frequentar. Numa olhada pode-se perceber muita cousa da quantidade, disposição, ordem, arrumação, tipologia e variedade dos volumes e coleções; do uso e da função, das livrarias.
O conjunto e o espaço que ocupam os livros também é definidor. Há espaços com livros e há verdadeiras bibliotecas particulares. Sejam decorativas, profissionais, especializadas, de colecionista, exibicionistas ou variadas. Acontece com a música, a pintura e as artes decorativas também: instrumentos, reprodutores, vinil, CD, pinturas, móveis, objetos artísticos ou decorativos, tudo conforma declarativamente o espírito dos quartos e das casas.

Todas as coleções devoram espaço físico, as bibliotecas também, mais aos poucos; como sabemos, são invasivas, implacáveis e teimudas. E não sendo as decorativas, compradas enteiras ou as planificadas por reforma ou traslado, conformam-se com tempo, durante anos, consumem recursos económicos, falam de hábitos, preferências, de etapas da vida, de escolhas, e de necessidades e vão alterando com a sua disposição, a da própria casa.
Uma casa de nenhum ou com poucos livros e prateleiras sem uso para eles resulta-me muito chocante. Uma biblioteca nutrida, regular de mais, com encadernações aparatosas idênticas e não conformada durante anos (salvo que seja herdada) também. O equilíbrio e os desequilíbrios entre os habitantes de uma casa e os seus livros também resulta curioso.
Há alguma cousa nelas, não apenas de ordem ou possibilidades domésticas, quanto também de estético e de adequação cronológica (que tipo de livros se compraram e desde quando se compram livros numa casa), e portanto não poucas vezes revelam tanto a sua funcionalidade quanto o valor e uso que se fez e faz dos livros.
Uma biblioteca grave, sem objetos pessoais e recordações integradas, com alguma desarrumação também não parece viva, em uso. E não parece verossímil, se não se adequa em anos ao périplo vital da pessoa proprietária.
O importante político liberal britânico, William Ewart Gladstone, aquele Gladstone (como lhe chama Anne Fadiman: Ex Libris: Confessions of a Common Reader, 2000) deixou uma interessante monografia com práticos conselhos sobre as bibliotecas particulares. Bem é verdade que as suas eram tamanhas e cuidadas e que parte delas terminaram integrando espaços públicos de leitura.
Well, then, bound or not, the book must of necessity be put into a bookcase. And the bookcase must be housed. And the house must be kept. And the library must be dusted, must be arranged, should be catalogued. What a vista of toil, yet not unhappy toil! (On books and the housing of them .- New York: Dood, Mead & Co., 1890 p. 18)
Os livros servem, como diz Mr. Gladstone, para nos comunicar com os mortos, para compartilharmos o seu saber; num quarto com alguns deles escolhidos arredor nunca nos sentiremos sós:
But books are the voices of the dead. They are a main instrument of communion with the vast human procession of the other world. They are the allies of the thought of man. They are in a certain sense at enmity with the world. Their work is, at least, in the two higher compartments of our threefold life. In a room well filled with them, no one has felt or can feel solitary. (p.9).
Reunião de talentos, como figura lavrado à entrada da Biblioteca Nacional de Uruguai, citando o Memorial de Paéz de Castro: “Viénense con seguridad los principales ingenios a donde están las fuentes de la doctrina“. Os livros agasalham, reconfortam, definem espaços privados e confortáveis.
Porém, não esqueçamos que uma biblioteca particular é parte de um estereótipo social ou imaginário sócio-cultural que se foi apurando, como complemento e atributos, como espaço refúgio primeiro do grand seigneur e mais tarde da burguesia, do prestígio. Com origem no colecionismo, a partir do renascimento, como espaço de trabalho do humanista, também com um pontinho de evasão e reclusão procurada, fixada com Montaigne, teve a sua configuração final no imaginário do intelectual na Inglaterra e na França do Século XIX. Uma imagem de cultura, saber que se corresponde ou integra (ou não) com a de poder ou potência económica e experiência que querem manifestar (ou atribuímos) os habitantes.
A cousa é que uma das imagens mais repetidas da pandemia televisiva foram as livrarias. Nas entrevistas e conexões ao vivo, com especialistas, técnicos, médicos, virologistas, jornalistas, protagonistas diversos, apareceram uma e outra vez, como fundo, como cenário escolhido preferente. É curiosa a repetida escolha de ambiente. E, justo por isso, resulta interessante comprovar os tamanhos, a função, a disposição, os valeiros, a ocupação compartilhada com objetos; as bibliotecas-fundo de muitas personagens que nos deixavam, assim ao acaso, entrar na sua intimidade.
Pode-se comprovar nas hemerotecas, como no decurso da pandemia, dos inícios improvisados até hoje, as bibliotecas ganharam mais importância como decor. No caso dos políticos esses cenários foram, em muitos casos variando. A imagem é importante. A assessoria de equilíbrios, gravatas, ternos, objetos decorativos e simbólicos, preparada. Livros nas mesas de trabalho, nas mesas auxiliares e por trás decorando, fazendo o fundo. Podemos dizer que em muitos casos, em pouco tempo, as prateleiras tornaram em livrarias e as livrarias em bibliotecas.
Enfim, uma boa biblioteca de papel, viva, variada, verossímil, com os seus detalhes decorativos: lá uma foto, cá uma bandeira, lá uma pedrinha, acolá uma lâmpada, confere autoridade, seriedade, dignidade e proximidade. Quem ia dizer, nestes tempos de tudo-gestão, apps e eletrónica.


