Eleições presidenciais em Novembro: aprofundamento da queda dos EUA ? Texto 10 – O Futuro do Liberalismo Americano. Por David Brooks

Espuma dos dias Eleiçoes EUA 2020

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O Futuro do Liberalismo Americano

O que Biden pode aprender com F.D.R.

David Brooks  Por David Brooks

Publicado por The New York Times em 30/06/2020 (ver aqui)

Republicado por GonzaloRaffo logo (ver aqui)

 

Eleições presidenciais em Novembro 10 D Brooks O Futuro do Liberalismo Americano 1
O New Deal de Franklin Roosevelt trouxe equilíbrio a uma economia que se tinha tornado selvaticamente desequilibrada. Arquivo/Getty Images de Bettmann

 

Os Estados Unidos acabam de suportar o seu pior trimestre económico da história dos seus registos.  Se esta tendência tivesse continuado durante um ano inteiro, a produção económica americana teria diminuído cerca de um terço.

Portanto, espero que Joe Biden e a sua equipa estejam a ler sobre a política conduzida por Franklin Roosevelt e o seu New Deal. Os defensores do New Deal tiveram sucesso num momento como este. A sua experiência oferece algumas lições poderosas para Biden enquanto ele faz campanha e se ele ganhar:

Oferecer uma grande mudança que nos parece familiar.

As calamidades económicas e sanitárias são vividas pela maioria das pessoas como se fossem desastres naturais e colapsos completos da sociedade. As pessoas sentem intensas ondas de medo em relação ao futuro. Querem um líder, como F.D.R., que demonstre coragem e otimismo.

Querem alguém que, uma vez no cargo, produza uma intensa explosão de atividade que seja simultaneamente nova mas que também ofereça segurança e proteção às pessoas. Durante o New Deal, a Segurança Social deu aos mais velhos aposentações seguras. A Administração do Progresso das Obras deu a 8,5 milhões de americanos empregos seguros.

O slogan de Biden “Build Back Better” [Reconstruir Melhor] é um encapsulamento perfeito deste estado de espírito de saudade simultânea da segurança do passado enquanto se avança para um futuro mais brilhante.

Pragmatismo de difusão, não ideologia.

Os defensores do New Deal estavam dispostos a tentar tudo o que fosse capaz de responder às emergências específicas do momento. Havia um forte enviesamento anti-ideológico na administração e uma forte vontade de experimentar. Por exemplo, o primeiro instinto de Roosevelt foi cortar as despesas governamentais de modo a reduzir o défice, até que ele inverteu esta posição, percebendo que essa política austeritária não iria fncionar numa depressão.

“Eu realmente não sei qual é o princípio básico do New Deal”, admitiu um dos seus principais conselheiros. Esse pragmatismo tranquilizou o povo americano, que não queria uma revolução; eles queriam uma recuperação da economia.

Mesmo numa crise de capitalismo, defender o capitalismo.

O historiador Richard Pells observa que revistas progressistas como The Nation e The New Republic não apoiaram F.D.R. em 1932, mas sim o seu adversário socialista, Norman Thomas. Com o sucesso do New Deal, muitos intelectuais progressistas mobilizaram uma barragem de críticas contra ele. Em 1934 estavam a produzir livros com títulos como “A Vinda da Revolução Americana” e apelando à criação de um novo partido político de esquerda.

Entendiam que Roosevelt era um capitalista liberal, não um socialista. “Eu quero salvar o nosso sistema, o sistema capitalista”, disse ele a certa altura. “O meu desejo [é] o de evitar a revolução”, disse ele noutro ponto. Ele estava a tentar salvar o capitalismo dos capitalistas, que tinham concentrado demasiado poder em si próprios. Ele estava a tentar reformar o capitalismo para o preservar.

 

Fazer avançar o capitalismo.

A Reconstruction Finance Corporation, dirigida por Jesse Jones, um sobrevivente da administração Hoover, deu incentivos aos banqueiros para levarem o capital que tinha estado depositado nos seus cofres e para o levarem para a comunidade. A Administração Federal de Habitação apoiava as hipotecas. Como observa Louis Hyman of Cornell, a F.H.A. induziu mais empréstimos privados em poucos meses do que a Administração de Obras Públicas gastou durante toda a década. O New Deal foi mais inteligente e diversificado do que apenas o liberalismo orçamental e de gastos.

Adotem a perícia.

Huey Long, o Padre Coughlin e Francis Townsend lideravam uma revolta populista que ameaçava impor uma era de autoritarismo de baixo para cima. F.D.R. tentou cooptá-los um pouco, mas na maior parte dos casos ele apenas os superou com talento. Ele empregou na sua administração um conjunto de advogados, professores, economistas e assistentes sociais muito brilhantes e competentes.

Olhe-se para os desequilíbrios.

As economias capitalistas de vez em quando ficam desreguladas. O New Deal trouxe equilíbrio. Tornou mais fácil para os trabalhadores sindicalizarem-se e negociarem em termos mais equitativos com as empresas. Wall Street era demasiado poderosa. O New Deal dominou-a.

Devolver o poder ao Congresso.

O historiador Ira Katznelson argumenta que é dada demasiada atenção a F.D.R., quando a verdadeira ação estava no Congresso. Se se quiser desencadear uma torrente de ação, é preciso deixar que os membros individuais do Congresso conduzam as suas próprias iniciativas, e não concentrar o poder na Casa Branca ou no gabinete do Presidente.

O New Deal não produziu uma reviravolta económica imediata. Mas mostrou que o capitalismo democrático ainda podia funcionar. Os seus inimigos apelidavam Roosevelt de socialista ou populista, mas na realidade foi Roosevelt quem derrotou o socialismo e o populismo. Pelo menos na América, eles gastaram todas as suas forças até 1939.

F.D.R. também demonstrou que os líderes mais eficazes em crise estão frequentemente no centro do seu partido, e não na vanguarda da esquerda ou da direita. Abraham Lincoln recebeu um enorme apoio dos abolicionistas. Mas foi ele quem derrotou a escravatura. Theodore Roosevelt tinha uma disposição conservadora e ficou atrás de muitos progressistas. Mas foi ele que liderou as reformas Progressivas. F.D.R. foi capaz de aprovar tanta legislação precisamente porque era tão mutável e pragmático e não transformou tudo numa guerra polarizada.

Não vamos ter outro Roosevelt. Mas numa época de crise, numa era ideológica, ele mostrou que é possível fazer muita coisa se baixarmos a temperatura ideológica, se fugirmos à guerra cultural, se estivermos dispostos a ser positivos e abertamente experimentais.

Essa é a grande lição dos defensores do New Deal para Joe Biden & Companhia.

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O autor: David Brooks [1961 – ] tem sido colunista do The Times desde 2003. É o autor de “The Road to Character” e, mais recentemente, “The Second Mountain”.

 

 

 

 

 

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