ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O TEOREMA DE RICARDO (4/5). Por Júlio Marques Mota

 

 

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Nota do editor: em virtude da sua extensão, o texto é editado em 5 partes.

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ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O TEOREMA DE RICARDO (4/5)

 Por Júlio Marques Mota

                                     em 25 de Setembro de 2020

 

ÍNDICE

  1. Introdução

1.1. A razão de ser deste artigo

1.2. Sobre dois textos de referência

  1. Ricardo e a Globalização

2.1. A importância de Ricardo, hoje

2.2. Ricardo e a distribuição do rendimento

  1. Ricardo e a globalização comercial

3.1. O exemplo numérico de Ricardo em termos de vantagens/desvantagens

3.2. O teorema de Ricardo enunciado em termos de preços relativos

3.3. Os pressupostos do teorema de Ricardo

3.4. A especialização por decisão de política económica e não por imposição dos mercados

  1. O modelo de Ricardo-Stuart Mill

4.1. A introdução do progresso técnico no modelo de Ricardo

4.2. A política industrial como instrumento de política de Estado num mundo de vantagens absolutas

4.3. Análise crítica da contribuição de Paul Samuelson

4.4. As vantagens comparadas, a concorrência mundial e os “paradoxos” do discurso neoliberal

  1. Da especialização à Ricardo à necessidade de um outro ensino: Conclusões finais

Principais referências bibliográficas

 

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(4ª parte)

 

4.3. Análise crítica da contribuição de Paul Samuelson

Estando-se agora minimamente preparados para uma visão crítica do teorema de Ricardo que nos leva a uma posição contrária à sua visão da globalização, vejamos agora como no modelo acima explicado se enquadra  também o texto de Paul Samuelson, que passamos a acompanhar de muito perto e fazendo-o também de forma crítica. Não nos podemos esquecer que Paul Samuelson foi no plano teórico, e durante décadas, um dos economistas mais relevantes, senão mesmo o mais relevante, na elaboração da moderna teoria da livre-troca, da globalização.

Neste seu último texto teórico sobre a teoria do comércio internacional, Paul Samuelson situa-se -se no quadro de dois países, China e Estados Unidos, dois produtos, bens 1 e 2, o clássico modelo 2x2x1, ou seja dois países, dois produtos e um só fator, o trabalho.

Sejam dois países, os USA e a China a produzirem dois bens a que chamamos bem 1 e bem 2. Os trabalhadores americanos são em média 10 vezes mais produtivos que os Chineses, mas enquanto os Estados Unidos dispõem de 100 homens os Chineses dispõem de 1000. Significa isto que se assume que os dois países têm a mesma dimensão económica. A estrutura de custos em horas de trabalho é a seguinte:

 

A estrutura das duas economias expressa pelas produtividades próprias a cada setor é a seguinte, sabendo-se que a produtividade em cada produto é o inverso do seu valor, ou seja, é o inverso da quantidade de trabalho necessária à reprodução de cada mercadoria considerada.

 

Quando em ambos os países a preferência dos consumidores é semelhante nos dois bens, ou seja, é gasta metade do rendimento em cada um deles e isto nos dois países, o que se traduz em que em cada produção são utilizados metade dos trabalhadores disponíveis – 50, 50 para os Estados Unidos, 500, 500 para a China – as quantidades produzidas são as seguintes:

 

A produtividade média do trabalhador americano é pois  e medida esta mesma produtividade pela média geométrica da produtividade dos dois setores. Igualmente para a China. A produtividade média por trabalhador é expressa por  . A relação da produtividade média entre os dois países é então (1/2) / (1/20) = 10, que nos diz que o trabalhador americano é dez vezes mais produtivo que o trabalhador chinês.

A seguir, tome-se as seguintes referências quanto aos preços relativos: os P maiúsculos referem-se aos preços dos Estados Unidos, os p minúsculos referem-se aos preços da China e quando nos queremos referir aos preços em economia aberta colocamos o símbolo I, com P1I a representar o preço relativo internacional do bem 1, P2I o preço relativo internacional do bem 2.

Para cálculo dos preços relativos só se entra em linha de conta com o trabalho na estrutura de custos.

O salário é então, por definição, igual nos dois ramos de produção e expresso em termos do valor da produção, ou seja, igual ao valor produzido.

Chamo a isto vivermos num mundo sem capital, e isto num modelo que se quer representativo do capitalismo avançado!

 

Nos USA virá WA= 2 P1= (1/2) P2, onde 2 representa a produção por trabalhador no bem 1 e (1/2) representa a produção por trabalhador no bem 2. Desta relação nos Estados Unidos obtém-se o preço relativo do bem 2 em termos do bem 1 neste mercado, ou seja: 4 P1 =1 P2 .

Vejamos a determinação do preço relativo do bem 2 em termos do bem 1 na China. O salário WCH é então dado por WCH= (1/20) p1= (1/5) p2. Destas igualdades temos pois como preço relativo do bem 2: p2= (1/20)/(1/5) = (1/4) p1.

Temos pois a China a produzir o bem 2 a preço relativo mais baixo e os Estados Unidos a produzir o bem 1 a preço relativo mais baixo, uma vez que neste país o preço relativo do bem 1 em termos do bem 2 assume o valor P1= (1/4) P2 enquanto na China p1= 4p2.

De acordo com o teorema de Ricardo a China irá produzir o bem 2 e os Estados Unidos irão produzir o bem1. Do ponto de vista económico ambos os países têm igual dimensão económica. A China dispõe de 1.000 homens mas como são dez vezes menos produtivos que os americanos, diremos que o potencial produtivo é igual entre os dois países.

Na linha de Stuart Mill, as preferências dos consumidores são iguais para os dois bens pelo que é gasta metade do rendimento em cada um deles e isto nos dois países. Igualdade na dimensão económica, igualdade nas preferências dos consumidores, hipóteses necessárias mas não suficientes para que se garanta o preço relativo internacional PI dentro do intervalo de preços relativos internos.

O preço relativo internacional é aqui dado pela média geométrica dos preços relativos internos, ou seja, o preço relativo internacional do bem 2 em termos do bem 1 é dado por PI2=  = 1.

Vejamos como evolui o rendimento dos dois países.

Em economia fechada os USA utilizam 50 homens a produzir o bem 1 e produzem 100 unidades enquanto os restantes 50 produzem 25 unidades do bem 2. O seu rendimento expresso pela média geométrica das duas produções, como um índice, é de e o seu rendimento per capita é de (50/100)= 0,5.

Por seu lado, a China em economia fechada coloca 500 homens a produzir o bem 1, onde produzem (1/20). 500= 25 unidades e os restantes 500 homens produzem (1/5).500= 100 unidades do bem 2. O seu índice de rendimento é expresso pela média geométrica das duas produções, ou seja  e o seu rendimento per capita é de (50/1000) = 0,05.

Ou seja, o rendimento per capita dos USA é dez vezes superior ao da China. A soma dos rendimentos dos dois países medidos pela média geométrica é 50+50=100 .

Na passagem de economia fechada a economia aberta a China especializa-se no bem 2, produz 1000. (1/5) = 200 unidades e os Estados Unidos especializam-se no bem 1 e produzem igualmente 200 unidades (100 . 2). O rendimento mundial expresso pela média geométrica é então  .

Aumentou a massa de valores de uso do bem 1 de 125 para 200 unidades, e do bem 2 de 125 unidades para 200 unidades. Na passagem de economia fechada a economia aberta, o rendimento mundial dobrou (de 100 para 200). E o rendimento de cada país também, a significar que os ganhos da passagem de economia fechada a economia aberta foram equitativamente repartidos. O preço relativo internacional é 1, definido aqui pela média geométrica dos preços relativos internos. Cada país gasta metade do seu rendimento em cada um dos bens, Os Estados Unidos produzem 200 unidades do bem 1. Gastam 100 do bem por si produzido e exportam 100 do bem 1, e com o valor das suas exportações, ao preço relativo internacional considerado, importam 100 do bem 2. Não nos devemos esquecer que uma das hipóteses é que a balança comercial está equilibrada. O seu rendimento de 100 unidades do bem 1 e 100 unidades do bem 2 é pois de , dobrando relativamente ao rendimento de economia fechada que era de 50. Para a China obtemos o mesmo resultado. Metade do que produz é gasto internamente, logo consome 100 unidades do bem 2. Produz 200 unidades deste bem, exporta pois 100 unidades. Ao preço relativo internacional considerado estas 100 unidades valem 100 unidades do bem 1. O seu rendimento passou a ser de quando era de 50 em economia fechada. O rendimento mundial dobrou (de 100 para 200), o rendimento de cada país dobrou (de 50 para 100).

Mas admitamos agora que a China pelo seu próprio processo de desenvolvimento aumentou a produtividade dos seus trabalhadores no bem em que se especializou, o bem 2, a hipótese que foi pela primeira vez levantada pelo jovem John Stuart Mill [17]. O progresso técnico [18] foi tal que a sua produção por trabalhador na produção deste bem passa agora a ser de (8/10) contra (2/10) anteriormente, ou seja, passou a produzir 800 unidades.

Na lógica de Stuart Mill dois pressupostos são aqui considerados: A repartição permanece constante e continua a verificar-se o pleno emprego. Neste contexto, a redução dos custos em trabalho repercute-se imediatamente na íntegra sobre o preço dos produtos ao consumidor. Este é o verdadeiro beneficiado com o progresso técnico. Vejamos a taxa de redução dos custos e depois vejamos o impacto dessa redução sobre o preço relativo internacional em vigor.

A taxa de redução dos custos é dada por , ou também = , onde X representa os custos em trabalho, constantes porque a repartição é considerada constante, Q a quantidade produzida por trabalhador antes do progresso técnico e Q* a quantidade produzida pós progresso técnico.

Há uma redução de ¾ nos custos de produção, há uma descida do seu preço no mercado na mesma proporção. Ora se uma unidade do bem 2 valia uma unidade do bem 1, agora, como o bem 2 se depreciou de ¾ do seu valor, passa pois a valer P2I (1-3/4) de P1I = (1/4) P1I. O preço relativo internacional do bem 2 é agora apenas (1/4) de bem 1. Este seria então o impacto imediato do progresso técnico na China sobre o preço relativo internacional em vigor. Mas será um preço relativo internacional de equilíbrio? Vejamos vários cenários.

A China continua a gastar metade do seu rendimento no bem 2 e a outra metade no bem 1. O custo de produzir 400 unidades na China é o mesmo que se tinha antes a produzir 100 unidades. Portanto, a produzir as 400 unidades tem o mesmo custo e continua pois a querer com as 400 unidades do bem 2 comprar as 100 unidades que antes comprava aos Estados Unidos. E os Estados Unidos? Admitamos que com a descida do preço do bem 2 os Estados Unidos procuram então 400 unidades e para tal estão disponíveis a colocar no mercado 100 unidades do bem 1. As exportações tomam aqui um papel passivo: cada país está sempre disponível a exportar o que ao preço em vigor é necessário para pagar as importações que pretende fazer.

Sendo assim: o quadro de oferta e procura dois países ao preço P2I= (1/4) P1I é o seguinte

O total produzido em economia aberta pelo conjunto dos dois países: China 800 unidades, USA 200 unidades. As quantidades consumidas são:

 

Dir-se-á que neste caso a elasticidade de procura relativamente ao preço para o bem 2 nos consumidores americanos é igual à unidade. A quantidade importada pelos americanos aumentou na ordem inversa à redução dos preços. Como expressão da elasticidade no arco utilizamos a seguinte expressão:

y= (dQ/Q)/(dp/p’)

onde (dQ/Q) é a taxa de variação das quantidades procuradas face à variação relativa do preço. (dp/p’) é a taxa de variação do preço do bem considerado e em que p’ é o novo preço. A relação destas duas variações expressa pois a elasticidade da procura em relação à variação do preço. No nosso caso, dp= (3/4) e p’= (1/4). A taxa de variação do preço, (dp/p’) assume pois o valor 3. Uma vez que a taxa de variação das quantidades dQ/Q é também igual a 3, a elasticidade vem igual a 1. Repare-se que o acréscimo das quantidades procuradas é exatamente de 300 unidades, ou seja quantidades e preços evoluem na mesma proporção mas de sinal contrário: os preços descem e as quantidades aumentam na mesma proporção.

Repare-se ainda que os ganhos foram repartidos equitativamente. Face à situação que existia antes do progresso técnico a nova situação trouxe um acréscimo de produção do bem 2 de 600 unidades. A tabela acima ilustra os resultados: cada país usufruiu de 300 unidades do bem 2. O rendimento dos Estados Unidos relativamente ao rendimento mundial é dado por , o mesmo se passando com a China. Naturalmente assim. Repare-se que as 400 unidades exportadas pela China têm para ela o mesmo custo que as anteriores 100 unidades exportadas. Os Estados Unidos importam 400 unidades do bem 2 mas que têm o mesmo custo que as 100 unidades exportadas do bem 1.

Dizíamos nas nossas aulas que o país que tem progresso técnico nada ganhava de adicional, do ponto de vista do comércio internacional, com o progresso técnico, mantendo constantes as vantagens adquiridas com a passagem de economia fechada a economia aberta..Com efeito, para o mesmo custo em tempo de trabalho obtêm exatamente a mesma quantidade de importações. Ganhava porém do ponto de vista interno, pois com a mesma quantidade de trabalho com que antes produzia 100 unidades do bem 2 para consumo interno consome agora 4 vezes mais, ou seja, consome as 400 unidades acima referidas.

Mas admitamos agora que a elasticidade da procura relativamente ao preço dos consumidores americanos não é igual à unidade, admitamos que esta elasticidade é menor do que a unidade e com tudo o resto constante. Esta é uma outra via de análise aberta por Stuart Mill quando considerava que as elasticidades da procura seriam iguais ou inferiores à unidade

Assim, face à descida do preço do bem 2 a China posiciona-se no mercado a oferecer 400 unidades, tal como no caso anterior e pelas razões assinaladas aí referidas. Porém, agora a elasticidade preço da procura americana pelos bens da China é menor do que a unidade. Significa isto que que a quantidade procurada pelos americanos vai ser menor do que 400 unidades. Temos pois a seguinte situação:

A procura do bem 2 é menor do que a oferta, o que significa que o preço do bem 2, em termos absolutos terá de descer. Inversamente quanto ao bem 1. A oferta dos Estados Unidos é menor do que 100 enquanto a procura é de 100. O preço absoluto do bem 1 terá pois de subir. Consequentemente o preço relativo do bem 2 continua a descer e atinge na nova situação de equilíbrio o valor de (1/5). Vejamos o que se pode passar, considerando uma elasticidade de 0,7:

Da expressão γ= (dQ/Q)/( dp/p’), obtemos: 0,7 = (dQ/100) / (4/5 / 1/5), ou dQ = 280

Ou seja, dQ, a variação das quantidades procuradas pelos americanos e oferecidas pelos chineses quando o preço relativo do bem 2 desce para (1/5) e a elasticidade é de 0,7, é de 280 unidades. A quantidade procurada pelos americanos do bem 2 é pois de 280+100=380 e ao preço de um quinto significa que os americanos exportam 76 unidades do bem 1 (380/(1/5)) Inversamente, os chineses exportam 380 unidades do bem 2 e importam 76 unidades do bem 1.

A este nível as trocas internacionais na situação de equilíbrio são as seguintes:

 

O consumo dos países, pós progresso técnico e em economia aberta, é então o seguinte:

Sabemos que os países, ambos gastam metade do seu rendimento em cada um dos bens. O rendimento mundial, expresso em termos do bem 1 pode ser expresso de forma simples em 200+800 (1/5)= 360 uma vez que (1/5) é o valor do bem 2 expresso em termos do bem 1. O rendimento mundial é pois de 200+160= 360 unidades do bem 1. A posição relativa de cada país é a seguinte: USA = 200/360, enquanto a posição relativa da China= 160/360 .

Comparemos agora a situação de economia aberta antes do progresso técnico com a situação que acabámos de encontrar:

Confrontando os dois quadros vemos que os Estados Unidos ganham ao nível dos dois bens, pois aumenta o consumo de cada bem com a existência do progresso técnico. Quanto à China, o seu rendimento que em termos do bem 1 era de 200 antes do progresso técnico passa agora para 160 unidades em termos do bem 1. Este país importa agora 76 unidades para pagamento das quais terá de vender 380 unidades do bem 2 que lhe “custam” o trabalho de 475 homens enquanto que se tivesse de produzir estas mesmas 76 unidades gastaria 720 homens. Conclusão, esta hipótese é para a China pior do que quando a elasticidade era igual à unidade mas é ainda superior à situação de economia fechada.

Continuando ainda a confrontar a situação da elasticidade igual a 1 com a situação da elasticidade igual a 0,7, verifica-se que, de uma situação a outra, a China começou a reduzir os ganhos da sua presença no comércio internacional. Com efeito, quando a elasticidade da procura americana relativamente ao preço era igual à unidade a China consumia 100 do bem 1 e 400 unidades do bem 2, o mesmo se passando com os americanos. Mas passámos a admitir a elasticidade preço da procura americana igual a 0,7. Então de uma situação a outra, de elasticidade 1 para 0,7 o consumo americano aumenta nos dois bens e o consumo chinês diminui nos dois bens. Ora, se a China não obtinha ganhos adicionais com o comércio internacional, mantendo pois as vantagens que tinha adquirido com a passagem de economia fechada a economia aberta, como resultado do progresso técnico quando a elasticidade da procura americana era igual a 1, então na passagem da situação de elasticidade igual à unidade para a situação de elasticidade igual a 0,7 passou a perder parte das vantagens que tinha alcançado quando passou de economia fechada a economia aberta. Dizemos perdeu parte, porque a China continua a ter vantagens em permanecer nos mercados mundiais

Para sermos mais claros, imaginemos que a situação de equilíbrio se encontra com a elasticidade da procura relativa ao preço nos americanos de 0,4 e com o preço de equilíbrio de P2I=(1/10).

Da expressão γ (dp/p’) Q= (dQ), com γ=0,4, com (dp/p’)= 9 e com Q=100 que é a quantidade do bem 2 procurada pelos americanos antes do progresso técnico, obtemos que a variação da procura americana do bem 2 é de 360 e a quantidade do bem 2 que no final é importada pelos Estados Unidos é então de 360+100=460, enquanto exporta 46 unidades do bem 1 para pagamento dessas mesmas importações. Os consumos finais serão então:

 

O rendimento dos dois países em economia aberta é de 200+800. (1/10)=280 e a posição relativa de rendimentos é pois a seguinte EUA= 200/280  enquanto que a posição relativa da China é agora de 80/280, o que se deve à sua degradação dos termos de troca. Como vimos, com a elasticidade a diminuir a China perde relativamente face aos Estados Unidos que continuam a crescer no consumo dos dois bens, enquanto que a China tem um movimento inverso para os dois bens. A medida que o preço relativo do bem 2 vai descendo os ganhos dos Estados Unidos vão aumentando e inversamente para a China em que para este país os ganhos que lhe advieram da passagem de economia fechada para economia aberta vão se esfumando. No entanto, a China ainda continua numa melhor posição que em economia fechada. Portanto, mesmo nesta hipótese mantém-se em economia aberta. Neste caso, dirá Samuelson, a China estará a estar sujeita a um fenómeno dito de crescimento empobrecedor, dito Immiserizing growth, em que o crescimento chinês leva a que a China passe a ficar mais pobre do que estava, em economia aberta, antes do crescimento económico. [19]

Confrontemos agora esta situação de elasticidade 0,4 com a situação anterior de elasticidade 0,7. Os Estados Unidos aumentariam o seu consumo nos dois bens. E a China reduz o consumo dos dois bens. Vejamos com algum detalhe:

 

 

A China tem vindo a perder posição à medida que passamos a considerar a elasticidade da procura americana relativamente ao preço mais baixa, o mesmo é dizer à medida que o preço relativo do bem 2 vai perdendo valor em termos do bem 1.

 

4.4. As vantagens comparadas, a concorrência mundial e os “paradoxos” do discurso neoliberal

Mas uma pergunta se nos levanta aqui: até onde é que pode descer o preço relativo do bem 2?

Vejamos com algum detalhe a resposta à pergunta agora formulada.

Retomemos os rácios das produtividades ou dos custos da China pós progresso técnico. As produtividades eram pois de δ1=1/20 no bem 1 (antes da abertura da economia a China) e de δ2= (8/10) no bem 2. A relação de preços internos é pois (1/20) p1= (8/10) p2. Daqui se tira (1/16) p1=p2.

No nosso estudo sobre elasticidades, à medida que a elasticidade da procura americana relativamente ao preço ia diminuindo o preço relativo do bem exportado pela China ia igualmente diminuindo.

 

Até onde é que pode diminuir? Nas nossas aulas explicávamos que era quando o preço relativo internacional atingia o valor do novo preço relativo interno. No nosso caso de agora o preço relativo internacional do bem 2 não pode descer abaixo de (1/16). Aí todos os ganhos havidos pela parte da China com a passagem da economia fechada a economia aberta se esfumaram.

Vejamos então no quadro do nosso exemplo: A China exporta o bem 2. O seu preço é (1/16) e, portanto, o valor da sua produção vale 50 unidades e o rendimento do conjunto dos dois países vale 200+50. Ou seja, a China regressa ao rendimento que tinha enquanto economia fechada. A posição relativa da China em termos de rendimento vale agora apenas (1/5) do rendimento do conjunto e o rendimento dos Estados Unidos vale (4/5) do rendimento do conjunto. Nesta hipótese, e a este preço, a China consumiria 400 unidades do bem 2 e compraria com as restantes 400 unidades do bem 2 as 25 unidades do bem 1 importadas. Em contrapartida, os Estados Unidos consumiriam 400 unidades do bem 2 importadas e 175 unidades do bem 1. Repare-se que a relação de troca internacional é a mesma que a relação de troca interna na China. Por esta razão, dir-se-á que deixaria de haver comércio internacional.

Contudo, no plano formal, e aceites todas as hipóteses subjacentes ao Teorema de Ricardo-Mill, não me parece ser uma via lógica pois se não ganha nada em estar no comércio internacional, também não se perde nada, depois do que já se terá perdido, e portanto, permanecer em economia aberta quando o preço relativo do bem 2 desce a este valor de (1/16) evitaria os custos de transformação da economia para economicamente ficar na mesma.

A conclusão a que aqui chegámos nas primeiras páginas do presente texto é, do ponto de vista da análise dos números, equivalente à que Samuelson chegou, com uma diferença de fundo: é que não aceitamos o modelo neoclássico nem o de Ricardo, ou de Ricardo-Mill que é equivalente, como explicação do comércio internacional. De resto, de forma subtil, o próprio Samuelson vai enumerando as hipóteses de que se parte. Ora, em vez de uma subtil crítica às hipóteses de um modelo que em termos gerais não contesta, devem-se preparar os estudantes para uma visão crítica aprofundada dessas mesmas hipóteses, o que pressupunha um razoável conhecimento da teoria do valor, sendo certo que nelas estavam contidas as hipóteses enumeradas por Samuelson.

Até aqui, temos estado a acompanhar a análise que Samuelson faz sobre a contribuição do jovem Stuart Mill para a teoria do comércio internacional formulada por Ricardo. De resto, nesta parte da exposição estamos igualmente a fazer uma apresentação simplificada [20] do que foi a contribuição de Stuart Mill, mas em tudo muito semelhante à que se fazia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e que derivava exclusivamente do texto de Stuart Mill. Não se tratava, pelo nosso lado, de apresentar uma outra teoria, mas sim de sistematizar e unificar o que tínhamos aprendido ao longo dos anos sobre estas matérias, e por isso tratava-se nas nossas aulas de analisar criticamente um texto, uma contribuição feita no século XIX por um jovem com pouco mais de 20 anos, John Stuart Mill [21]. Um texto impregnado da ideologia dominante na época: a Inglaterra era o centro do capitalismo, era portanto o centro que face à periferia melhor poderia ser gerador de progresso técnico e, mostrava Stuart Mill, com as elasticidades a serem iguais ou inferiores a 1 era do máximo interesse dos países da periferia inserirem-se no mercado mundial pois beneficiariam do progresso técnico dos países dominantes. Ou seja, com o texto de Stuart Mill prosseguem-se os mesmos objetivos que já se pretendiam com Ricardo, adicionam-se apenas mais hipóteses e afina-se o raciocínio. Por exemplo, Ricardo colocava o preço relativo internacional a meio do intervalo dos preços relativos internos, o que se pode fazer coma média aritmética ou geométrica, e arrumava assim a questão da formação do preço relativo internacional. Stuart Mill parte de Ricardo e afina a análise quanto à formação do preço relativo internacional.

Mas tal como o fazíamos desde há décadas na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Samuelson introduz a hipótese de progresso técnico num bem e no país que está relativamente menos apto a produzi-lo, hipótese esta nunca levantada por Stuart Mill, mas que no plano lógico é tão óbvia como a hipótese contrária, a que assumiu Stuart Mill de que haveria progresso técnico mas apenas no bem em que o país já usufruía de vantagem relativa. Vejamos com algum detalhe os resultados a que se chega com a hipótese contrária à assumida por Stuart Mill.

Retomemos o nosso cenário de partida. Os Estados Unidos estão especializados no bem 1 e a China no bem 2, em que as suas produtividades iniciais eram:

 

Mas agora a China, mantendo constante a sua produtividade no bem 2, alcança progresso técnico no bem que tinha deixado de produzir, o bem 1, e tal que a sua produtividade neste produto é agora de (8/10).

Nos Estados Unidos a relação de preços mantém-se constante: 2P1=(1/2) P2, ou seja, P2= 4P1.

Na China temos então com esta mudança nas condições possíveis para produzir o bem 1 a relação de preços expressa por : (8/10) p1=(1/5) p2, pelo que p2 = 4p1.

Estamos, pois, perante preços relativos iguais, ou seja, gerou-se uma situação em que não há nenhum interesse em que haja comércio internacional. Dito de outra forma, deixa de haver ganhos com o comércio internacional, uma vez que a relação de troca, se há comércio internacional, é feita ao mesmo preço relativo que se ambos os produtos fossem produzidos internamente em qualquer dos dois países.

Ora, nós partimos de economia fechada para economia aberta, onde houve necessariamente ganhos. O progresso técnico na China e no bem 1 passa agora a eliminar estes ganhos. A China, neste caso, continuando à Mill a gastar metade do seu rendimento em cada bem, gastará o trabalho de 500 homens a produzir o bem 2 e 500 homens a produzir o bem 1. As suas produções seriam então de 100 unidades do bem 2 (500. (1/5)) e produziria 400 unidades do bem 1 (500.(8/10)). Logicamente, teria como usufruto adicional os efeitos da aplicação do progresso técnico sobre o bem 1. Os Estados Unidos passando a economia fechada voltavam a consumir 100 unidades do bem 1 e 25 unidades do bem 2. Os Estados Unidos seriam os perdedores porque empurrados para uma situação de autarcia perdiam os ganhos que resultariam da existência de vantagens comparadas que se esfumaram agora com o progresso técnico, pela simples razão que estas devem ser encaradas em dinâmica e não em estática. E em dinâmica o progresso na China levou a que a vantagem comparada dos Estados Unidos no bem 1 tenha desaparecido e este tenha sido levado a ser o perdedor da globalização e tanto mais facilmente quanto as técnicas podem migrar dos Estados Unidos para a China.

Diz-nos Samuelson:

A história económica está repleta de exemplos em que o país [tem progresso técnico no produto em que se especializa], primeiro insidiosamente e mais tarde decisivamente: nos Estados Unidos, a agricultura mudou-se de leste para oeste há dois séculos; a produção de têxteis, calçado e outros produtos manufaturados foram mudados de Nova Inglaterra para o sul dos Estados Unidos onde os salários eram mais baixos no início do século passado; A hegemonia da indústria transformadora da época da rainha Vitória foi substituída por incursões dos yankees depois dos anos de 1850.. Mesmo onde os países lideres continuaram a progredir em termos de crescimento absoluto, a sua taxa de crescimento tendia frequentemente a ser atenuada pelos ventos adversos negativos que eram gerados por concorrentes de baixos salários e pela imitação das técnicas.

Epílogo

As especializações ( com progresso técnico no bem em que se tem vantagem comparada-ato I) (e com progresso técnico no bem em que está em desvantagem relativa- ato II) demonstraram que, por vezes, a globalização do comércio livre pode converter uma alteração técnica no estrangeiro num benefício para ambas as regiões; Mas às vezes um ganho de produtividade num país pode beneficiar esse país sozinho, enquanto permanentemente prejudica o outro país, reduzindo os ganhos do comércio que são possíveis entre os dois países. Tudo isto constitui efeitos schumpeterianos de longo prazo, o que é uma outra coisa completamente diferente dos danos transitórios do funcionamento a curto prazo ligados aos custos do ajustamento de curto prazo ou às rendas temporárias das patentes e da erosão dos monopólios sobre o conhecimento.

Não se segue das minhas correções e emendas que as nações devem ou não devem introduzir protecionismos seletivos. Mesmo onde um prejuízo real é tratado pela roleta das vantagens comparativas em evolução num mundo de comércio livre, o que uma democracia tenta fazer em autodefesa pode muitas vezes equivaler a gratuitamente disparar um tiro nos pés. Uma síntese pragmática e cientificamente mais correta para a globalização poder-se-ia ler como se segue.

Se o passado e o futuro comportam ambos o tipo de invenções do tipo caso 1 que prejudicam o nosso país e invenções do tipo caso B que o ajudam e quando os dois tipos de invenções se somam ao bem-estar do produto líquido mundial – então o comércio livre pode afirmar-se como sendo, de um ponto de vista pragmático ainda o melhor para cada região em comparação com as pautas induzidas por lobistas e por quotas que envolvem quer a perversão da democracia quer as perdas nada subtis que resultam das distorções ao comércio introduzidas pelas quotas.. Em 1900, os defensores do comércio livre proclamaram: “as tarifas são a mãe dos trustes.” Neste milénio uma mais importante verdade pode ser expressa: “as tarifas são geradoras da arteriosclerose económica.” (Fim de citação)

Porém, podemos levar o nosso caso do teorema de Ricardo ao contrário, ao extremo. A China, admitamos agora, alcança o domínio da produção do bem 1 utilizando a técnica dos Estados Unidos na sua produção.

O quadro das produtividades viria então:

 

Como o que aqui nos interessa são os preços relativos vejamos agora quais são estes: Nos Estados Unidos nada mudou e, portanto, 2P1=(1/2) P2, ou seja, 4P1=P2 ou alternativamente P1= (1/4) P2, enquanto que na China teremos 2p1= (1/5) p2. Daqui obtemos 10 p1= p2. O bem 1 passa a ser relativamente mais barato na China que nos Estados Unidos.

De acordo com o modelo de Ricardo-Mill, e na lógica igualmente de Samuelson, a China passa a especializar no bem 1, e teremos os Estados Unidos a especializarem-se no bem 2.

Tudo se passa aqui como sendo um exemplo das instabilidades criadas pela globalização, em que a pressão do global sobre o local pode ter efeitos devastadores sobre as comunidades nacionais, como se tem vindo a assistir nestas duas últimas décadas, pelo menos. De uma forma repentina, a China recoloca-se no mercado mundial com uma capacidade produtiva no bem 1 semelhante à dos Estados Unidos, alterando os preços relativos internacionais, invertendo as especializações entre os dois países, no quadro do modelo de Ricardo-Stuart Mill.

A especialização segue os ventos agrestes da globalização. Com uma diferença de monta. Agora quanto ao bem 1 não podemos supor que os chineses são dez vezes menos produtivos no bem que os americanos, não, não podemos, somos antes obrigados a aceitar que então os Chineses terão atingido neste setor o mesmo nível de produtividade que os americanos, o que lhes permite passar a produzir 2000 unidades do bem 1, uma vez que dispõem de 1000 homens e têm no bem 1 a mesma produtividade que os americanos. Retomando a estrutura de consumo à Mill os chineses consumiram 1000 unidades do bem 1 e terão disponível para o mercado mundial 1000 unidades desse mesmo bem. Ora os americanos neste caso especializam-se no bem 2 e produzem 50 unidades. Encontramos aqui um problema de dimensão económica. Os Estados Unidos consomem 25 unidades desse bem 2 quando os chineses querem consumir as 100 que consumiam antes. O preço relativo internacional do bem 2 atinge o seu valor máximo possível, ou seja, atinge o preço relativo interno da China, p2I=10p1I. Os chineses importam 25 unidades e terão de produzir as 75 restantes para satisfazerem o seu consumo interno. Os Estados Unidos passam a assumir o estatuto de pequeno país, a China o estatuto de grande país ou de especialização incompleta, porque é ainda obrigada a produzir alguma quantidade do bem 2 para satisfazer a sua procura deste bem em que não se especializa, uma vez que o seu país fornecedor, os EUA, por ser relativamente pequeno não conseguem abastecer totalmente a China.

Repare-se que os Estados Unidos antes da inovação e em economia aberta consumiam 100 do bem 1 e 100 do bem 2, e agora passariam a consumir, por hipótese 25 unidades do bem 2 e 250 unidades do bem 1. Se considerarmos que o preço era de 1:1, relação a que eram valorizados os bens, os consumidores americanos “perdem” 75 unidades do bem 2 mas “ganham” 150 unidades adicionais de bem 1, Diríamos mesmo que ficaram a ganhar quando comparada a situação de economia aberta e antes do progresso técnico! Pelo lado da China, a este preço relativo internacional a China não ganharia nada em estar no comércio internacional, mas uma vez que já está em economia aberta, também não ganha nada em passar para economia fechada, antes pelo contrário, ficando em economia aberta e em especialização incompleta evitaria ainda parte dos custos de custos de adaptação à situação de autarcia. O dado a ressaltar é que os Estados Unidos ficariam a ganhar, no quadro do modelo Ricardo-Stuart Mill em passarem a ficar subalternos à China, face a quem passariam a ser um pequeno país. Um curioso teorema, portanto.

Podemos ainda aqui admitir uma variante deste raciocínio. Sabemos que muita da política chinesa no que toca à investigação e à indústria faz parte do seu pacote de políticas discricionárias e com uma visão de longo prazo determinada pelo Estado Chinês, ao contrário do Ocidente que pretende delegar tudo na soberania dos mercados e no curto termismo dos mesmos. É pois possível e admissível que a China reduza a quantidade de trabalhadores a trabalhar neste setor e desloque os restantes trabalhadores para o setor público e para o setor social, o terceiro setor, com o desenvolvimento dos setores da saúde, educação, apoio à terceira idade e à primeira idade, etc. Por memória, há alguns anos, as estatísticas mostravam que 25% das crianças chinesas eram crianças left-behind, deixadas no interior da China rural enquanto os pais iam trabalhar para a China industrial, o que significa que só neste campo se poderia investir massivamente para melhorar as condições de vida dos chineses e das futuras gerações!

Poderíamos admitir uma hipótese mais realista que a China passaria a dinamizar o setor público assim como o terceiro setor da sociedade chinesa, através da deslocação de parte dos trabalhadores do sector de produção do bem 1 para estes mesmos setores, deixando de se posicionar a produzir 2000 unidades do bem 1. Adicionalmente passamos ainda a considerar que os Estados Unidos e a China estão inseridos no mercado mundial.

Admitamos que neste setor se reduz a quantidade de trabalhadores aí empregues que passa a ser de metade, desenvolvendo-se o setor público e o terceiro setor, dito setor social ou terceiro setor, a partir dos 500 trabalhadores deslocados.

Em economia aberta e antes do progresso técnico no bem 1 a China dispunha de 1000 trabalhadores no setor de produção do bem 2. Há inversão de especialização e, face à queda dos preços no mercado mundial do bem 1, o governo chinês decide uma outra política, em que salvaguarda o pleno emprego, a de desenvolvimento do setor de serviços não negociáveis internacionalmente, o setor público e o setor dito terceiro setor, reduzindo para 500 os trabalhadores que passam da produção do bem 2 para a produção do bem 1 e deslocando os restantes 500 que estavam a produzir o bem 2 para o setor público e para o terceiro setor.

Admitamos então a seguinte sequência: no momento inicial tínhamos os Estados Unidos especializados no bem 1 e a China no bem 2. Houve progresso técnico na China no bem 1, um progresso técnico exógeno, à boa maneira dos neoclássicos. A China passaria assim a produzir 1000 unidades do bem 1. Admitamos que Estados Unidos e China estão inseridos no mercado mundial. O aumento da oferta do bem 1 terá feito descer o preço relativo do bem 1, que era antes do progresso técnico na China de 1P1I=1P2I, ou inversamente teria feito subir o preço relativo internacional do bem 2, de modo a que uma unidade do bem 2 passa a valer 1,6 do bem 1. O preço relativo internacional passaria assim de P2I=P1I que se verificava em economia aberta mas antes do progresso técnico, para P2I= 1,6 P1I. Os Estados Unidos produzem 50 unidades do bem 2, exportariam 25 e importariam 40 unidades do bem 1. A China poderia, por exemplo, produzir 1000 unidades do bem 1, exportar 560 para os Estados Unidos e para o resto do mundo e consumir 440 unidades deste bem, importando então 350 unidades do bem 2, 25 das quais dos Estados Unidos e o restante do mercado mundial.

A China apareceria então como o grande vencedor da globalização, aumentando o seu consumo de 250 unidades do bem 2 e de 340 do bem 1, enquanto os Estados Unidos, por exemplo e tal como o resto do mundo, aparecem aqui como os grandes perdedores. Um passo que Paul Samuelson não deu.

De tudo isto ressalta que logo à partida, o teorema de Ricardo-Mill, a base teórica para os defensores da globalização tal qual ela existe hoje, assenta numa lacuna de fundo, a ignorância de um facto fundamental nas relações económicas internacionais. As vantagens comparadas não são estáticas, são dinâmicas como assinala Allais [22].

Isso é uma realidade que se compreende bem desde o trabalho de Alexander Hamilton de 1791 (Report On the manufactures), é uma realidade que os chineses entendem bem, ao contrário dos ocidentais que preferem confiar no curto termismo do senhor Mercado para que se estabeleça uma política industrial, com o argumento espantoso de que a melhor política industrial é não haver nenhuma política industrial. Sobre este ponto de vista vejamos o que nos diz George Friedman [23] num artigo recente:

De acordo com um estudo publicado pela Fundação Bertelsmann, uma maioria de investimentos chineses na Alemanha é feita nos setores que são o foco do Made in China 2025. Antes de 2015, o ano em que a estratégia foi anunciada, houve pouco investimento chinês no setor da Biomedicina e de dispositivos biomédicos, por exemplo. Desde então, houve 18 parcerias entre empresas chinesas e alemãs.

A Fundação Bertelsmann analisou 175 operações de fusão e aquisição em que os chineses compraram pelo menos uma quota de 10 por cento nas empresas alemãs de 2014 a 2017. Quase 64 por cento destes investimentos foram dirigidos nos setores que a China planeia dominar por volta de 2025. A maioria dos investimentos relacionados com a Iniciativa Made in China 2025 é focada em três regiões: Baden-Wuerttemberg (23 por cento), Renânia do Norte-Vestfália (20 por cento) e Baviera (16 por cento). Estas são precisamente as regiões onde a maioria das empresas de tecnologia alemã líderes mundiais estão implantadas .

(…)

Isto tornou-se problemático em 2016 quando Midea Group, um grande fabricante chinês de eletrodomésticos, comprou uma participação maioritária no fabricante alemão de robótica KUKA. Os produtos KUKA são amplamente utilizados na indústria transformadora alemã, incluindo na indústria automobilística, o setor de exportação mais importante do país. Neste sentido, a tecnologia de robótica KUKA tem um valor estratégico para várias empresas alemãs. Como resultado do negócio, o grupo Midea adquiriu tecnologia de topo de gama em robótica para utilização na indústria, o que significa que as empresas da indústria transformadora alemã deixariam de ser os principais utilizadores desta tecnologia de ponta. Em 2017, a Alemanha, juntamente com a Itália e a França, solicitaram à Comissão Europeia que aumentasse a capacidade de filtragem de Bruxelas e, se necessário, bloqueasse o investimento estrangeiro nas empresas europeias. As preocupações alemãs sobre a transferência de tecnologia para os concorrentes chineses, quer através de compras de empresas alemãs ou através de empreendimentos conjuntos com empresas chinesas, são cada vez mais um obstáculo ao desenvolvimento de relações comerciais e de investimento mais estreitas.”

Refira-se aqui, como diz o texto, que o investimento das empresas chinesas na Alemanha não tem como finalidade exclusiva o lucro, tem sobretudo como finalidade adquirir vantagens comparadas em dinâmica para a China enquanto país e isto independente dos preços e do mercado mundial, tem como objetivo permitir que a China ganhe vantagem absoluta nos produtos em que os outros têm atualmente vantagem absoluta. Isto significa que se está perante uma conceção de política industrial promovida pelo governo chinês, a do exemplo de Ricardo ao contrário., e não apenas pela dinâmica dos mercados autorregulados, como se pensa no Ocidente. Foi também assim com Bismarck na Alemanha, não o esqueçamos, foi assim com o Japão, foi assim com a Coreia do Sul, etc. Não o esqueçamos. Mas aqui estamos para aquém e para além dos mercados globais e do seu curto termismo, estamos para além da lógica de Ricardo assim como da lógica neoliberal, assente na liberdade dos mercados e na submissão do Estado soberano a estes mesmos mercados. Não deixa de ser oportuno citar aqui Aaron Wildavsky quando este afirma:

“Em termos gerais, portanto, cada país tem uma política industrial aproximadamente equivalente à sua economia política. O sistema de preços é a política industrial do capitalismo, da planificação estatal do socialismo, e de algumas das economias mistas. Não ter uma política industrial não é possível. A ausência de direção estatal significa apenas dependência dos mercados. Tanto o modelo de regulação como a sua ausência constituem uma política industrial. Fim de discussão.

O que resta? Apenas os detalhes. (..) No entanto, os detalhes são detalhes; a política industrial continua a ser o reflexo económico dos principais modos de vida (os valores e crenças comuns que justificam as relações sociais desejadas) a que chamamos cultura” [24].

A lógica de Ricardo-Mill pressupõe pois uma cultura económica e a visão do mundo que lhe está subjacente, a do mundo neoliberal de hoje e que é completamente oposta à daquelas que estiveram na base da criação de grandes estados industriais como os que acabámos de citar. A lógica de Ricardo-Mill pressupõe, pois, uma ausência de política industrial, com tudo o que esta implica, contra uma política industrial profundamente intervencionista, como é agora exemplificado com a China.

(continua)

 

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Notas

[17] Os meus alunos que leiam este texto lembrar-se-ão do exemplo do tecido e das ferramentas, da Inglaterra e da Alemanha, os dois produtos e dois países que utilizamos nas aulas.

[18] Utilizamos a definição mais corrente de progresso técnico: para a mesma quantidade de fatores aumenta a quantidade produzida. A quantidade produzida passa de Q para Q’ com Q’>Q. A repartição está constante, donde a quantidade de trabalho e capital  são as mesmas , pelo que com a remuneração por unidade trabalhador e por unidade de capital constantes, a mesma quantidade de fatores tem o mesmo custo X. Ora, o custo total, constante, a dividir pela quantidade a aumentar traduz a redução unitária dos custos. Ora se as remunerações estão constantes, então o progresso técnico, a sua redução de custos, obrigatoriamente é repercutida na sua totalidade na redução dos preços ao consumidor! Estas são as hipóteses de Stuart Mill.

[19] Um processo que resulta da inserção das economias nacionais no mercado mundial. Deste ponto de vista, preferimos como explicação do fenómeno de empobrecimento de países inseridos no mercado mundial os modelos resultantes das contribuições de Arghiri Emmanuel e dos teóricos neo-ricardianos, embora estes últimos só possam ser lecionáveis aos níveis de mestrados de alto nível ou de doutoramentos. Curiosamente diz-nos Michael Pettis que estes foram autores por si estudados aquando de uma sua pós-graduação em Columbia.

[20] Quando professor de Economia Internacional editei um longo texto sobre Stuart Mill formalmente bem mais desenvolvido do que a exposição aqui e agora apresentada.

[21] Curiosamente, para a exposição sobre o teorema ao contrário de Ricardo muito terá contribuído o livro de Samir Amin, L’accumulation à l’échelle mondial, de 1972, a Troca Desigual de Arghiri Emmanuel, e dois artigos, cito de memória, um de Alain Gomez, de Thompson e um outro de Jacques Calvet, então PDG de Peugeot. Hoje, são referências bibliográficas simplesmente perdidas, daí o não poder citar os respetivos artigos. Para a análise de Stuart Mill, muito contribuiu um excelente manual de Economia Internacional editado pela PUF, de Gerard Marcy, que lamentavelmente carecia de uma apresentação gráfica que não se compadecia com o formato dos livros da PUF. A formação geral entretanto adquirida fez o resto.

[22] Veja-se igualmente. Maurice Allais (Combats pour l’Europe, Paris, Clement Juglar, 1995)

[23] Veja-se George Friedman, The Future of German-Chinese Trade: Prospects and Pitfalls / Geopolitical Futures|, disponível em: http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.com/2018/07/the-future-of-german-chinese-trade.html

[24] Wildavsky, Aaron, Industrial Policies in American Political Cultures, pag. 15. Texto publicado The Politics of Industrial Policy, edited by Claude Barfield and William A. Schambra, 15–32. Washington, DC: American Enterprise Institute Press. Texto disponível em: http://www.aei.org/publication/the-politics-of-industrial-policy/.

 

 

 

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