A GALIZA COMO TAREFA – interposição – Ernesto V. Souza

Vieram dar nas minhas mãos, ou por melhor dizer, diante dos meus olhos no ecrã, uma série de artigos a respeito do relacionamento entre dous textos que sempre chamaram a minha atenção:  “Consolaçam ás tribulaçoens de Israel” (1553) de Samuel Usque, e “De los Nombres de Cristo” (1583), de Frei Luis de León.

Parece que o polemista, teólogo, poeta e erudito salmantino de origens conversas, teve conhecimento das obras saídas das imprensas italianas do exilado Usque português; considerando o conhecemento da edição da tradução castelhana do Tanakh ou Bíblia de Ferrara, e muito provavelmente a existência de ecos da Consolaçam em De los Nombres de Cristo.

Ilustração final Biblia Kennicot no site da Bodleian

Estabelecida, possível ou figurada, a relação de conjunto, não parece improvável. Traduções, erudição bíblica, contactos entre livreiros, impressores e humanistas, estudo do hebreu e da tradição bíblica, cripto-judaismo, perseguições, prisões, censuras, refutações, defesas, índices, proibição de livros e leituras, desterros, mortes, raízes.

Leituras desenhadas sobre inúmeras leituras, escolas e tradição na leitura e exegese bíblica, os dous textos (três se incluímos o “Menina e moça” (1553) de Bernardim Ribeiro, publicada também por A. Usque) são complexos de mais, deixam impressão de um mundo soterrado de maravilhas. Ficam-nos longe, mas também no trilho do Siervo livre de amor (ca. 1440) de Rodriguez do Padrão e dentro de profundas tradições culturais, para podermos interpretar com qualquer plenitude ou garantia de compreensão, para além da sensação de um algo indefinido de família.

Lendo cá, e lá, tirando de fios soltos, lembrando pousos velhos, descobre-se sempre mais nestas alegorias e nas leituras que provocam. Mas fascina sem dúvida neles, a profunda beleza da prosa e a inquietante comunicação que provocam por baixo da linguagem. Dizer saudade não resolve a profunda sensação de mistério, de chaves perdidas que deixam.

Divago e penso em Francisco Sanches, em Espinoza, na Bíblia da Crunha (Kennicott), e em Chimen Abramsky, nos seus livros, família e na sua erudição lendária e sem medida; fica-me, como tantas vezes piscando no Zohar ou tentando entender arredor qualquer cousa cabalística, a ideia de um mundo que, sem ser completamente distante, escapa.

O sentido e função dos textos não é completamente percetível. Mas em todos há um lamento e um protesto, também uma advertência de que estamos a ser privados de alguma cousa com esta destruição, perseguição e leva.

Sempre me fascinou a condição dos presos, dos exilados e dos perseguidos e provavelmente a própria vida distante leva-me a empatizar com esta tipologia de intelectual dissimulador-honesto ou desarraigado. Mas não é isso que me interessa. No que mais penso é na violência e a destruição programada pelos estados, dos indivíduos sinalizados como dissidentes, na lógica criminal da Inquisição e dos pogroms, na obriga da conversão, nas fugidas, no ocultamento como medida, na assimilação e na mímese; nos desterros e também na existência de um mundo, de uma dimensão paralela, escrita na mesma língua (ou noutras), de uma parte que nos foge porque no-la furtou, com as chaves, a intolerância.

Nesse sentido é que chama, de novo, também a minha atenção o início de “De los Nombres…”:

De las calamidades de nuestros tiempos, que, como vemos, son muchas y muy graves, una es, y no la menor de todas, muy ilustre señor, el haber venido los hombres a disposición que les sea ponzoña lo que les solía ser medicina y remedio, que es también claro indicio de que se les acerca su fin, y de que el mundo está vecino a la muerte, pues la halla en la vida.

Notoria cosa es que las Escrituras que llamamos sagradas las inspiró Dios a los profetas, que las escribieron para que nos fuesen, en los trabajos de esta vida, consuelo, y en las tinieblas y errores de ella, clara y fiel luz; y para que en las llagas que hacen en nuestras almas la pasión y el pecado, allí, como en oficina general, tuviésemos para cada una propio y saludable remedio. Y porque las escribió para este fin, que es universal, también es manifiesto que pretendió que el uso de ellas fuese común a todos, y así, cuanto es de su parte, lo hizo; porque las compuso con palabras llanísimas y en lengua que era vulgar a aquellos a quienes las dio primero.

Y después, cuando de aquéllos, juntamente con el verdadero conocimiento de Jesucristo, se comunicó y traspasó también este tesoro a las gentes, hizo que se pusiesen en muchas lenguas, y casi en todas aquellas que entonces eran más generales y más comunes, porque fuesen gozadas comúnmente de todos. Y así fue, que, en los primeros tiempos de la Iglesia, y en no pocos años después, era gran culpa en cualquiera de los fieles no ocuparse mucho en el estudio y lección de los Libros divinos. Y los eclesiásticos y los que llamamos seglares, así los doctos como los que carecían de letras, por esta causa trataban tanto de este conocimiento, que el cuidado de los vulgares despertaba el estudio de los que por su oficio son maestros, quiero decir, de los prelados y obispos; los cuales de ordinario en sus iglesias, casi todos los días declaraban las santas Escrituras al pueblo, para que la lección particular que cada uno tenía de ellas en su casa, alumbrada con la luz de aquella doctrina pública, y como recogida con la voz del maestro, careciese de error y fuese causa de más señalado provecho. El cual, a la verdad, fue tan grande cuanto aquel gobierno era bueno; y respondió el fruto a la sementera, como lo saben los que tienen alguna noticia de la historia de aquellos tiempos.

Pero, como decía, esto que de suyo es tan bueno, y que fue tan útil en aquel tiempo, la condición triste de nuestros siglos y la experiencia de nuestra grande desventura, nos enseñan que nos es ocasión ahora de muchos daños. Y así, los que gobiernan la Iglesia, con maduro consejo y como forzados de la misma necesidad, han puesto una cierta y debida tasa en este negocio, ordenando que los libros de la sagrada Escritura no anden en lenguas vulgares, de manera que los ignorantes los puedan leer; y como a gente animal y tosca, que, o no conocen estas riquezas, o, si las conocen, no usan bien de ellas, se las han quitado al vulgo de entre las manos.

Y si alguno se maravilla, como a la verdad es cosa que hace maravillar, que, en gentes que profesan una misma religión, haya podido acontecer que lo que antes les aprovechaba les dañe ahora, y mayormente en cosas tan sustanciales, y si desea penetrar al origen de este mal, conociendo sus fuentes, digo que, a lo que yo alcanzo, las causas de esto son dos: ignorancia y soberbia, y más soberbia que ignorancia; en los cuales males ha venido a dar poco a poco el pueblo cristiano, decayendo de su primera virtud.

Pois não sendo cegos, e por muito que depois se corrija o antes dito, fica exposto o tópico principal da leitura, tradução e estudo direito das sagradas escrituras, elemento crítico e questionamento que como sabemos iniciaram os humanistas com as suas tradições revisadas e conforma o núcleo principal de debate que apresenta a Reforma.

Um dos grandes contrastes com as sociedades que adotaram a Reforma (as anglo-saxónicas e holandesas em destaque e por alguns momentos na Mitteleuropa) é o uso no decurso da história deste direito pessoal à leitura direita e livre interpretação dos textos sagrados, nomeadamente da Bíblia. O controlo do texto, o poder das traduções principais como conformantes da cultura comum, hábito de leitura familiar e na sua dupla condição de elementos de unificação da língua e da alfabetização popular. Mas também a dispersão em grupos da unidade e fixa hierarquia católica, que permite, em parte, desenhar uma base que leva à tolerância com outras religiões não cristãs.

Não deixa de me surpreender este contraste. As bíblias fora dos graves altares e dentro das casas, do dia a dia da gente. E mais me surpreende, no hoje e no decurso do tempo em acumulação, como afetou nos países católicos à pervivência da noção e necessidade de autoridade intermediária reconhecida e como daí passou à ciência, à forma de entender a cultura, o uso e conservação de arquivos, do uso dos jornais e imprensa, da universidade. Talvez por isso também Sarmiento e Feijó tinham um ponto tão subversivo e críptico quando escreviam e mais quando aconselhavam ler com os próprios olhos.

Mas enfim, muitas de sempre são as tribulações dos que querem saber, perguntam e são curiosos, e já sabemos que não se consola quem não quer:

Pello que Socrates (efpelho & norte por onde fe guiarom nam fomente os Atenienses ynuentores de toda doutrina, mas o refto da gentilidade poffuidora de todalas boas artes) dezia q atras ficauam cõ os prefentes & facilmente lhe achariam confolaçam. Por que nẽhum feria tam piqueno que affaz moor a refpeito do prefente nam se achafe, & certo fe bem quifefemos oulhar & nos nã deixafemos vencer da paixaõ dalma, nã ha trabalho por grande que feja cuja força agora nos atormenta, que ja nã ajam os paffados vifto & padecido mayores; & fe em algũa gente yfto fe entende & pode verefecar he na noffa trabalhada & corrida naçaõ, aqual ynda que neftes noffos dias padeça graves tribulações, toda uia muito moores foram aquellas que ja pellos noffos antiguamẽnte paffarom, pello que estas fe podẽ reputar por piquenas.

(Samuel Usque: “Da ordem e razam do livro Prologo aos senhores do desterro de Portvgal” p. * iii, em Consolaçam ás tribulaçoens de Israel por Samuel Usque, com revisão e prefacio de Mendes dos Remédios, Coimbra, França Amado, ed, 1906, T. I. )

1 Comment

Leave a Reply