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Brasilia DF 28 10 2020 Anvisa liberou hoje importação de matéria-prima da Coronavac, vacina chinesa que será produzida pelo Butantan foto GOVESP A interrupção da pesquisa se deu mesmo quando as evidências apresentadas pelo Instituto Butantan mostravam que o óbito de um dos participantes era decorrente de um suicídio – Governo de São Paulo / Fotos Públicas

 

13 de novembro de 2020

 

Olá,

estamos às vésperas das eleições para prefeitos e vereadores. Enquanto isso o país segue ladeira abaixo. Isolado internacionalmente, com crise de fornecimento de energia elétrica, sistemas de dados expostos e sem vacina à vista. E, para completar, um presidente fora da casinha.

  1. Não é, Ernesto? Esta semana Bolsonaro esteve descontrolado. Mais uma vez tripudiou sobre as vítimas da pandemia, fez graves acusações a respeito da vacina chinesa e, para completar com um tom tragicômico, ameaçou militarmente os Estados Unidos. Parte de sua raiva talvez se deva à ressaca da derrota sofrida por seu ídolo Donald Trump. Bolsonaro sabe das mudanças geopolíticas que a eleição de Joe Biden pode representar, especialmente em temas como meio ambiente, direitos humanos, discriminação racial e homofobia. Com isso, as atuais orientações do governo brasileiro podem se tornar alvos simbólicos de Biden. O mesmo vale para o negacionismo em relação à pandemia, que agora passa pela questão da vacinação, novo cavalo de batalha de Bolsonaro e dos evangélicos. Com a perda de seu aliado na casa branca, a pretensão de Paulo Guedes de levar o Brasil à OCDE, uma espécie de clube das nações ocidentais mais ricas e seus amigos, também fica mais distante. Na América Latina o cenário não é melhor, pois com a instabilidade política no Peru, a vitória do MAS na Bolívia, o enfraquecimento de Sebastián Piñera no Chile e a desmoralização da OEA, o governo brasileiro perde aliados no continente. Como disse o ex-embaixador Roberto Abdenur em entrevista à BBC “O Brasil está mais isolado do que nunca”. A eleição de Luis Arce na Bolívia deve ter também consequências práticas, pois o novo presidente já anunciou a intenção de renegociar o acordo de fornecimento de gás boliviano ao Brasil. Mas enquanto 2021 não chega, Ernesto Araújo segue reafirmando seu compromisso com o bloco “cristão-ocidental”, seja lá o que isso for. Em reunião com o secretário para crescimento econômico, energia e meio ambiente do Departamento de Estado norte-americano, Araújo se comprometeu a apoiar a Clean Network, uma iniciativa que busca conter o avanço mundial da China na área da tecnologia 5G. Na prática isto significa que o Brasil se compromete a não negociar com a Huawei o fornecimento de equipamentos de rede de internet. Pior para o Brasil.
  1. Cada um por si. A fala de Bolsonaro sobre a Coronavac expressa sua obsessão contra a China, impulsionada pela rixa contra o governador de São Paulo João Dória. O problema não é que Bolsonaro fala barbaridades e sim que há gente dentro das instituições que as operacionalizam. Foi o que a Anvisa fez ao interromper os testes da vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Cinovac. Agora, o bolsonarismo deve ganhar um reforço dentro da Anvisa com a indicação do tenente-coronel Jorge Luiz Kormann para uma vaga na diretoria da agência. A interrupção da pesquisa se deu mesmo quando as evidências apresentadas pelo Instituto Butantan mostravam que o óbito de um dos participantes era decorrente de um suicídio.  Depois de protestos da Sinovac e do governo chinês e da pressão da comunidade médica nacional e internacional a Anvisa obrigou-se a voltar atrás. Tudo isto no momento em que os sinais de uma nova onda da pandemia no Brasil vão se acentuando. Na Europa, Estados Unidos e Rússia a segunda onda se intensifica. Aqui, hospitais de elite de São Paulo vem alertando sobre o aumento no número de internações por Covid-19 e é provável que a pane no DataSUS esta semana tenha produzido uma subnotificação do registro de casos no país. Felizmente acredita-se que haverá mais de uma vacina em circulação no mundo até o início do ano que vem. A perspectiva do governo dos Estados Unidos, por exemplo, é disponibilizar a vacina desenvolvida pela norte-americana Pfizer em parceria com a alemã BioNtech já em dezembro. As pesquisas apontam que tanto a vacina da Pfizer e da BioNtech quanto a Sputnik V russa têm uma eficácia superior a 90%. Enquanto isso, de parte do governo brasileiro, parece não haver pressa. Os entraves criados vão além da insistência de Bolsonaro em rejeitar a vacinação obrigatória. Há também uma série de medidas logísticas e operacionais que já deveriam estar sendo tomadas. Mas, pra variar, não há qualquer coordenação nacional à vista. E não é de hoje. Em outubro, o diretor-executivo da Pfizer já havia comentado sobre o desinteresse do governo brasileiro em negociar a compra da vacina em teste. Enquanto isso os estados vão fazendo suas próprias articulações. No Rio de Janeiro, a Fiocruz anunciou a intenção de iniciar a produção da vacina de Oxford em janeiro de 2021. O governo de São Paulo, através do Instituto Butantan, fechou um acordo com a China para produzir a Coronavac, e o Paraná firmou parceria com a Rússia para produzir a Sputnik V. No entanto, há diferenças importantes entre elas. Quase todas dependem de um rigoroso sistema de refrigeração que pode chegar a 80º C abaixo de zero no caso do produto da Pfizer e a BioNtech. Daí o diferencial da Coronavac, que pode ser mantida a uma temperatura de 2ºC e 8ºC, similar a de uma geladeira comum. O governo brasileiro, no entanto, parece preferir o produto da Pfizer e da BioNTech, enquanto combate a vacina chinesa, que se presta muito mais a um país de extensão territorial e de clima tropical como o Brasil. Frente à intransigência do governo federal, o governo de São Paulo já se prepara para uma batalha judicial que poderá ocorrer para garantir a aplicação da Coronavac.
  1. Nem tanto ao céu. Se nada de surpreendente acontecer nas próximas horas, as eleições municipais devem caminhar para um desfecho previsível neste final de semana. Ainda que a volatilidade do eleitor brasileiro seja forte nas vésperas dos pleitos, as mudanças tendem a ocorrer principalmente entre os segundo colocados, mas não no topo. No geral, se as pesquisas não foram distorcidas pelo distanciamento social, se não houver um movimento de disparos de mensagens em massa como o que elegeu Wilson Witzel no Rio em 2018 ou se as abstenções causadas pelo temor da Covid-19 não interferirem, algumas tendências devem se confirmar. Por exemplo, nem Bolsonaro, nem a oposição conseguiram nacionalizar a eleição. Bolsonaro se revelou um cabo eleitoral tão ruim para Russomano e Crivella quanto para Trump. Não é exatamente um problema imediato para Bolsonaro, já que candidatos de centro e de direita devem ganhar vários postos e a dependências das prefeituras dos recursos federais permitem que uma teia de apoios seja estabelecida depois. Mas revela que o eleitorado pode estar estressado do discurso de extrema-direita e do bloco mais orgânico do bolsonarismo. Pela projeção da Folha, apenas 6 capitais podem ficar mais à direita do que os atuais ocupantes e 9 capitais ficariam no mesmo espectro ideológico. As derrotas de Crivella e Russomano, por exemplo, são mais graves para o projeto político da Igreja Universal, que sempre sonhou em não terceirizar o exercício do poder. As candidaturas militares, outro fenômeno que se acentuou no bolsonarismo, também parecem ter enfraquecido.
  1. Nem tanto ao inferno. Se não vão para a conta do bolsonarismo, as duas principais capitais do país, Rio e São Paulo, também não vão para a conta da oposição pela esquerda. A disputa nas duas capitais tem sido usado com frequência para assinalar a falta de união da esquerda e sugerir a retirada e troca dos candidatos do PT e do PSOL, respectivamente, na disputa paulista e na carioca. E, em ambos os casos, há ainda uma candidatura vinculada a Ciro Gomes, num meio de campo embolado. Na prática, a nova legislação eleitoral praticamente impôs a necessidade de candidaturas majoritárias para viabilizar a eleição de vereadores e qualquer retirada, a essa altura do campeonato, seria pouco efetiva. E na vida real, o eleitor não precisa de nenhum aceno do partido para decidir pelo “voto útil”. Porém, para quem contava com uma derrota acachapante da oposição de esquerda, o cenário não será tão negativo. Na mesma projeção citada acima da Folha, 11 capitais podem ter prefeitos mais à esquerda do que os atuais ocupantes. Se nas capitais o PT tem chances apenas em Vitória (ES), Fortaleza (CE) e Recife (PE), além do apoio à Manuela Dávila (PCdoB) que lidera em Porto Alegre, nas cidades médias, o cenário é melhor: o PT tem chances de vencer no primeiro turno em Contagem (MG) e ir ao segundo turno em outras sete: Anápolis (GO), Vitória da Conquista (BA) Diadema (SP), Guarulhos (SP), Osasco (SP), Juiz de Fora (MG) e Feira de Santana (BA). Pelos cálculos do cientista político Antonio Lavareda, no Valor, com base no histórico eleitoral, o PT deverá conquistar cerca de 7% do total de municípios, um aumento em torno de 150 prefeituras. Já o PSOL deverá eleger Edmilson Rodrigues em Belém e acumular méritos pelo bom desempenho de Guilherme Boulos em São Paulo.
  1. Limbo. Sem cargo, sem a Lava Jato e sem receber a mesma simpatia e assédio de outros tempos, tem sido dura a vida de Sérgio Moro. No fim de semana, tentando se recolocar na arena política, Moro divulgou à imprensa seu encontro com Luciano Huck e as conversas em torno da formação de uma frente “de centro”. Se a sua intenção era se apresentar como um possível Joe Binden brasileiro, Moro fez tudo errado. Ao invés de atrair aliados para uma possível chapa com o apresentador, o anúncio conseguiu, ao contrário, repelir Rodrigo Maia, que chamou o ex-ministro de “extrema-direita”, e ligar o sinal de alerta de João Dória para acelerar sua própria candidatura. A dupla Moro-Huck talvez consiga atrair apenas outro expurgado do bolsonarismo, Luiz Henrique Mandetta. A refeição foi indigesta para Luciano Huck, que acabou contabilizado como “bolsonarista arrependido”, assim como o ex-juiz, para desespero de seus aliados políticos. Entre parlamentares de direita mais experientes, o encontro foi considerado um fiasco, divulgado num momento equivocado, na véspera das eleições municipais. Ouvidos pela Folha, os parlamentares também alertam que nenhum dos dois presidenciáveis tem base política e relação com o Congresso. O movimento de Moro foi mal recebido até na sua própria base nas redes sociais, que rejeita tanto Mandetta, considerado frio, quanto Huck, “um playboy sem compromisso com o país, patrocinado pela Globo“. Para Thomas Traumann, a entrevista de Moro, em que revelou o encontro, demonstrou também “incrível ignorância” sobre vários temas relevantes como meio ambiente e justiça. Para Traummann, o problema da dupla é não ter votos e não entender que as lições de Joe Binden, num país bipartidário, não se reproduzem automaticamente no Brasil. Mais do que isso, insinua que os dois já perderam o bonde, já que uma candidatura anti-sistema político era favorável em 2018, mas em 2022 deverá exigir um nome moderado. E como já disse Maia, ninguém acredita que Moro seja de centro.
  1. Trevas. Por cinco dias, catorze das dezesseis cidades do Amapá ficaram completamente sem luz e três dias sem abastecimento de água. Socorridos pela Eletronorte, as cidades estão fazendo um revezamento de energia, mas a carga total só será restabelecida na próxima semana, quase duas semanas depois da pane. O cenário caótico foi suficiente para que o Tribunal Superior Eleitoral suspendesse em Macapá (AP) neste final de semana. A população tem protestado desde o final de semana e tem sido reprimida pela ação policial. Um adolescente de 13 anos perdeu a visão depois de ter sido atingido por uma bala de borracha. Num primeiro momento acreditava-se que o apagão tivesse sido causado por um raio, mas a perícia rejeitou esta hipótese. O que se sabe até agora é que ocorreu um superaquecimento num dos transformadores da subestação responsável pelo abastecimento de 90% das cidades, sucedido por um incêndio. A polícia ainda investiga se o incidente foi provocado por ação humana. De qualquer forma, é notável a incapacidade de empresa espanhola Isolux de resolver o problema rapidamente o que evidencia os problemas da privatização de energia no Brasil, analisa Ikaro Chaves, diretor da Associação dos Engenheiros e Técnicos do Sistema Eletrobras. Os leilões são vencidos pelas empresas que apresentam menor valor para a receita anual permitida. Esse modelo possui dois problemas sérios: fragmenta o fornecimento de energia por linhas, sem conseguir ofertar em escala, e o valor mais baixo é alcançado com projetos no limite da tolerância técnica, com equipamentos mais baratos, economizando material e quase sempre com equipes de operação e manutenção imprudentemente enxutas. Exatamente o que aconteceu no Amapá. Estado-natal do presidente do Senado, o episódio do Amapá foi suficiente para convencer David Alcolumbre a enterrar a tramitação da privatização da Eletrobrás no Congresso, para desgosto de Paulo Guedes, que insiste em privatizar a empresa elétrica no próximo ano.

 

  1. Apagão. O apagão não foi só no Amapá. Desde a semana passada o Distrito Federal também vive um apagão, mas neste caso é digital. Cerca de 80 órgãos do governo foram atingidos por um ataque hacker de consequências ainda não totalmente conhecidas. O Superior Tribunal de Justiça, atingido no dia 3 de novembro, normalizou suas atividades apenas na segunda-feira (9/11). Peritos de tecnologia da informação temem que os hackers responsáveis pela ação possam ter copiado dados sigilosos do sistema e venham a utilizar os mesmos de maneira criminosa. Houve inclusive um pedido de resgate por parte dos invasores. Frente à gravidade do problema, o presidente do STF Luiz Fux anunciou a criação de um comitê cibernético para implementar medidas de segurança no poder judiciário. No caso do Ministério da Saúde, no dia 5 de novembro o sistema DataSUS foi paralisado pela ação de um vírus o que gerou um atraso na contabilização das informações a respeito da avanço da pandemia no país. Neste episódio não foi confirmada nenhuma invasão. Casos semelhantes aconteceram também em Osasco (SP) onde uma invasão do sistema da distribuidora de energia ENEL levou ao vazamento de dados de cerca de 300 mil usuários e em Vitória (ES) onde no dia 7 de outubro houve a invasão do sistema da prefeitura paralisando diversos serviços municipais. Todos estes eventos deveriam servir de alerta para as autoridades sobre o grave atraso do Brasil em relação à segurança de dados. Eis aí mais uma área onde o Estado brasileiro segue em ritmo de desmanche.

 

  1. Ponto Final: nossas recomendações de leitura

.Percepção da esquerda brasileira sobre Joe Biden está completamente errada, diz Glenn Greenwald. Na Folha, o jornalista e ex-integrante do Intercept lembra o papel decisivo de Binden para promover a guerra contra o Iraque e as posições bélicas e conservadoras do novo presidente dos EUA.

.3 comentários para “Maravilha e limites da derrocada de Trump”. No Outras Palavras, Antônio Martins extrai lições da derrota de Trump para a esquerda brasileira, mas apenas se for capaz de superar o déficit de imaginação e se ligar aos problemas reais.

.Após um ano de exílio, Evo Morales deixa a Argentina e retorna à Bolívia. O Opera Mundi relata o dia histórico de retorno à Bolívia do ex-presidente Evo Morales, um ano depois de permanecer exilado na Argentina.

.Revolta da Vacina, 116 anos: diferenças e semelhanças com a onda negacionista atual. No aniversário da Revolta da Vacina, o Brasil de Fato relembra as origens do levante popular e as diferenças com o atual discurso anti-vacina conservador.

.Amapá: “Ou a gente corre risco de pegar o corona ou corre risco de ficar com fome”. Na Agência Pública, Dyepeson Martins relata o cotidiano das famílias atingidas pelo apagão de Amapá.

.Paulo Freire e as lutas populares na África do Sul. O Instituto Tricontinental reconstrói o impacto e a influência de Paulo Freire para África do Sul e como seu legado permanece entre sindicatos e movimentos sociais africanos.

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Para ler no original clique em:

https://www.brasildefato.com.br/2020/11/13/um-pais-as-cegas

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