A sacralização da União Europeia – “A questão UE: dilemas e fantasmas”. Por Rafael Poch

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Apesar de escrito em Março de 2019, a propósito das eleições europeias, publicamos este artigo de Rafael Poch que nos parece manter toda a atualidade na presente crise pandémica.

FT

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A questão UE: dilemas e fantasmas

 Por Rafael Poch

Publicado por  em 6 de março de 2019 (ver aqui)

 

Sessão plenária no Parlamento Europeu no passado mês de setembro. EUROPEAN UNION 2016 – EUROPEAN PARLIAMENT

 

A atual construção é irreformável sem ruptura, mas o medo que os progressistas têm do nacionalismo paralisa qualquer propósito e alimenta aquilo que quer evitar.

 

A questão da UE divide a afeta as forças progressistas europeias até à impotência. Porquê? Por um lado, cada vez se aceita mais o facto de que, pelo menos desde os anos noventa, a UE foi construída e concebida como uma concessão da mundialização neoliberal nesta parte do mundo. É uma construção blindada porque toda a política neoliberal, de austeridade, privatização, de supremacia das finanças e das empresas sobre os Estados, de destruição do estado social, de deslocalização e incremento da desigualdade em benefício dos ricos, tudo isso, está metido nos tratados fundamentais da UE.

Esses tratados, que ninguém votou, são praticamente imutáveis porque qualquer alteração exige o voto de todos os Estados membros, algo praticamente impossível. Qualquer projeto de transformação choca com os tratados. Os tratados blindam a política e as instituições do neoliberalismo na Europa, porque colocam essa política e essas instituições fora do alcance do parlamentarismo e da soberania, ou seja, fora da democracia.

Esta estúpida e retrógrada construção de cimento alemão não tem marcha atrás. Como disse Jean-Claude Juncker na sua famosa entrevista ao Le Figaro há um par de anos, “não há democracia fora dos tratados”. Assim que, para mudar as coisas e tornar possível uma política social nos Estados europeus é necessário romper a atual arquitetura alemã da UE. Reforma aqui é igual a ruptura. E aí é onde nos deparamos com a Igreja.

 

A sacralização da UE, fator da sua desintegração

Para um grande setor dos progressistas europeus, romper a UE é um anátema. A UE está sacralizada. Não a romper, mas apenas criticá-la é fazer o jogo a algo a que os progressistas têm muito mais medo que ao neoliberalismo: o nacionalismo, geralmente capitalizado pela extrema direita, xenófobo e ultramontano que nos trai ecos da Europa cinzenta de Estados enfrentados entre si dos anos trinta. Em vez de subscrever o soberanismo, que é nacional-estatal, porque esse é o quadro da única democracia (de baixa intensidade) que temos e enfrentar a UE, esse progressismo, por medo a esse espectro, prefere continuar a comungar, como diz Frederic Lordon, com o internacionalismo europeísta, ou seja, “o internacionalismo da empresa, da economia neoliberal, da moeda, do comércio e das finanças”, por outras palavras: com tudo aquilo que deteriorou a vida da maioria social nas últimas décadas.

Evidentemente, tudo isso não tem nada que ver com o internacionalismo social da esquerda, nem com o humanismo “dos que ainda acreditam no legado de Erasmo, Dante, Goethe e Comenio”, como afirma o manifesto “Europa en llamas” lançado pelo patético Bernard-Henri Lévy “em defensa da civilização”. Este temeroso alinhamento com o neoliberalismo e as suas autoestradas institucionais europeias por parte dos progressistas mediáticos e políticos, geralmente acomodados, é o que provocou que as classes populares desfavorecidas fujam como da peste dos discursos da esquerda europeísta e do seu (neo) liberalismo social que vai dentro do mesmo pacote. Não é que os dos estratos de baixo se tenham tornado loucos. O que acontece é que isto já dura há muitos anos, que já existe uma experiência vivida que gerou alergias massivas a essa mistura de caucionar a degradação socioeconómica e potenciar questões de género e identidade para compensar o anterior que está no discurso progressista-europeísta. Assim, muitos antigos votantes da social-democracia ou bem não votam, ou fazem-no, furiosos, por opções que vendem rupturas, ainda que sejam pela porta falsa.

Tudo isto tem diversas concretizações e leituras em diferentes países. Aí está boa parte da explicação do brexit, da Hungria de Orbán, da intoxicada Polónia, do extraordinário auge que a Frente Nacional experimenta desde há tantos anos em França, de que a cintura vermelha de Barcelona se tenha passado para Ciudadanos, o do êxito geral que se vaticina à nova ultradireita em Espanha –Catalunha carlista incluída– sem ir mais longe. Mas se há que falar de tendências gerais, eu diria que a sacralização da União Europeia para protegê-la das críticas é cada vez mais insuportável para mais gente.

Como solucionar isto? Que tem que fazer a esquerda para afirmar um europeísmo que valha a pena, que não seja uma fraude neoliberal, que não obrigue a comprar no mesmo pacote Erasmo, Dante com o Banco Central Europeu, Goldman-Sachs e a crescente desigualdade? É possível uma reforma social na UE sem sair do colete de forças da moeda única? É possível uma reforma social da UE, sem que a Alemanha e outros beneficiários do euro, rompam o club? Muitas perguntas e uma só certeza: continuar assim, caucionando o europeísmo sacralizado, é continuar a alimentar a Europa parda. O razoável medo do progressismo europeu à extrema direita, só serve para engordar a besta. Que irá trazer a este paradoxo uma nova crise como a de 2008, que muitos observadores já consideram ineludível?

Era uma vez um circo

A falta de respostas, o establishment e os seus papagaios mediáticos apontam o culpado: a Rússia. A maior noticia falsa dos últimos anos, a eleição de Donald Trump como consequência da ingerência russa, não só se impõe quando ainda está fresca a anterior (as armas de destruição massiva de Sadam Hussein), como também faz escola na Europa. A estupidez complotista atinge níveis grotescos e afeta aos máximos líderes europeus. Merkel e Macron advertem sobre a ingerência russa nas eleições europeias, apesar de os seus telefones não estarem controlados pelo Kremlin mas sim pela NSA e apesar de que o único embaixador que namora descaradamente em Berlim com os fascistas da Alternative für Deutschland e se imiscui abertamente na política local seja o dos Estados Unidos. Macron solta que Moscovo manipula esses “coletes amarelos” que já invalidaram a possibilidade de qualquer política socialmente regressiva em França com o atual presidente (por isso defendo que Macron está acabado, mesmo se ganha as europeias).

No El País, um diário espanhol que anos atrás foi sério, podem ler-se coisas como: “Um após um, dia após dia, como num aterrador relato mitológico, polimórficos tentáculos estendem-se desde a impenetrável atalaia do Kremlin e alcançam e cercam o bonito corpo da Europa”. O artigo vem ilustrado com a foto da filha do porta-voz do Presidente Putin, que trabalha como bolseira para um deputado ultra francês em Estrasburgo. No La Vanguardia, outro diario sério, afirma-se sobre o grotesco procés que em Barcelona, “há quem defenda que o inimigo é Espanha sem ponderar que podemos ser uma peça do tabuleiro de xadrez que se maneja à distância desde Moscovo”.

O menor dos problemas é que os jornalistas tenham perdido o medo ao ridículo. O pior é que em toda a Europa, toda esta estupidez vai de mãos dadas com um rearmamento militar muito sério com aumento das tensões bélicas, nomeadamente as nucleares. Tudo isto é um aviso de que a próxima crise terá um quadro de tensão internacional que não existia na anterior crise de 2007/2008. A quem importa as eleições europeias no meio desta bagunça?

 

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O autor: Rafael Poch (1956-) foi correspondente de La Vanguardia durante vinte anos em Moscovo (1988-2002) e Pequim (2002-2008). Depois foi correspondente em Berlim, de 2008 a 2014. Nos anos setenta e oitenta, estudou história contemporânea em Barcelona e Berlín Oeste, foi correspondente em Espanha de Die Tageszeitung, redator da agência alemã de imprensa DPA em Hamburgo e correspondente itinerante na Europa de Leste (1983 a 1987). Autor de vários livros; sobre o fim da URSS (traduzido em russo, chinês e português), sobre a Rússia de Putin, sobre a China, e um pequeno ensaio coletivo sobre a Alemanha da eurocrise (traduzido em italiano). Em janeiro de 2018 foi despedido de correspondente de La Vanguardia em Paris.

 

 

 

 

 

 

 

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