A Galiza como tarefa – sem tempo – Ernesto V. Souza

Desculpem que ultimamente falho muito nas minhas citas com esta página. Vou fatal de tempo. Não sei se lhes passa também, no trabalho, na vida. O tempo voa e apanha-nos sempre qualquer novidade ou proposta trabalhando, ou digitando ócios, perante algum ecrã. Cada vez dedicamos mais tempo às gestões, cada vez trabalhamos mais e pior, e de mais em mais a rotina vem marcada com mais tarefas e operações, sem sentido, com mais programas e mais sistemas, pelo mesmo soldo e no mesmo horário.

Charlie Chaplin Modern-Times

Boa parte do trabalho consiste em copiar e colar referencias, códigos de barras, transferir ou duplicar operações e resultados realizados no entorno de um sistema eletrónico, desenhado para ser automático; noutros sistemas automáticos. Mais sistemas e mais transferências quanto maior a complexidade da administração ou da empresa na que trabalhamos e quanto mais longe estamos na hierarquia dos órgãos de decisão e mais perto dos níveis operacionais, contabilidades, logística e de armazém.

Menos pessoal reduz muitos gastos. É mais doado sobrecarregar os trabalhadores eficientes e não conflituosos. E é mais doado replicar operações em sistemas sem coordenação por estruturas obsoletas, que re-estruturar os sistemas e desenhar mudanças eficientes. Não. Nada disso. Movimentamos tudo para que as estruturas, os feudos, os poderes não mudem.

Identifico-me com esses trabalhadores desmotivados, arrastados pelas ondas e correntes, sem poder muito opinar, nem que se aproveite a experiência acumulada, neste caso fazendo trabalhos administrativos que um mono treinado para ir premendo botões fazia melhor.

E, como clientes, de mais em mais a mesma cousa. Menos pessoal em atenção, mais automatização e uma crescente conversão do cliente em auto-serviço; do consumidor em consumidor ativo, obrigado a adaptar-se e a resolver, a participar, estudar, aprender o funcionamento de sistemas e apps para realizarmos com sucesso as nossas compras na casa, a melhor prezo; e as consultas, gestões bancárias ou com a administração. Até o ócio de mais em mais vem definido pela eletrónica e a burocracia.

É tremenda a crescente de carga burocrática que tem o pessoal. E não sei porque têm de resolver os trabalhadores, ou os clientes, e não o sistema e os serviços centrais dos Centros e das administrações, com pessoal específico.

E resulta interessante ver como nos estão colocando pro-ativamente, vendendo-nos que somos os donos do nosso ócio e destino ao comando dos nossos artilúgios, dispositivos eletrónicos e apps. Que é bom termos o papel ativo dos trabalhadores aos que substituímos. Já não é apenas que tenhamos passado em muitos casos de clientes à própria mercadoria, é que agora também somos os trabalhadores que executam as operações de estudo, procura, localização e compra.

Tempos modernos. Passamos de ser servos da gleba a trabalhar na terra, a operários na linha de montagem, e de novo a ser servos trabalhando de clerks eletrónicos. Poupamos dinheiro em troques de tempo. Do nosso tempo. Mas nós não ganhamos tempo, não é uma variável do ordenado. Ocupamos tempo, perdemos tempo, gastamos tempo. E conforme imos vivendo, mais claro fica que o que mais vale é o tempo.

Tudo a um click, diziam.

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