UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (86) – Reposição

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 CARLOS ALBERTO

Foi Rei, foi deposto e teve de fugir, exilou-se em Portugal, na cidade do Porto, viveu no Palacete dos Viscondes de Balsemão, onde numa das alas existe uma sala que se diz ter sido a sala onde viveu e está decorada com elementos em sua honra, e deu nome a uma Praça, a um Teatro (TeCA – foi inaugurado em 1897, sendo desde logo um espaço vocacionado para a apresentação de espectáculos de cariz popular – circo, operetas, teatro ligeiro e cinema – em 2003 depois de anos de abandono, foi renovado), e a uma Capela (mandada construir em 1854 pela Princesa Frederica Augusta de Montheart, sua meia-irmã, nos terrenos da quinta que actualmente incorporam os jardins do Palácio de Cristal – no Campo do Duque de Bragança, antes da Torre da Marca – em sua honra e memória).

Carlos Alberto de Sabóia, Rei de Piemonte-Sardenha
Carlos Alberto de Sabóia, Rei de Piemonte-Sardenha

A Torre da Marca, era uma estrutura em pedra, sobranceira ao rio, com a forma de torre com ameias, que servia de referência para a entrada dos navios na barra do Douro. Foi construída pela Câmara do Porto em 1542, a pedido do rei D. João III, ao que se supõe para substituir um enorme pinheiro que ali existia e que tinha as mesmas funções. Já não existe.

A Torre da Marca na gravura (parte) de Manuel Marques de Aguilar de 1793
A Torre da Marca na gravura (parte) de Manuel Marques de Aguilar de 1793

Em 1907 os delegados da Exposição Internacional de Milão, vieram expressamente ao Porto para deporem, na capela Carlos Alberto uma coroa de bronze, e em 1934, por doação das rainhas D. Amélia e D. Augusta Vitória, mãe e esposa de D. Manuel II, ficou a Santa Casa com a propriedade da capela, sob condição de lá promover sufrágios nos aniversários da morte do último rei português.

Hoje celebra-se, na capela, o culto da Igreja Luterana de Portugal.

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Capela de Carlos Alberto e Av. das Tílias - jardins do Palácio de Cristal
Capela de Carlos Alberto e Av. das Tílias – jardins do Palácio de Cristal

A capela acabou de ser construída no ano de 1861, no mesmo ano do início da construção do Palácio de Cristal (a cerimónia do lançamento da primeira pedra ocorreu a 3 de Setembro), e desde essa altura pertenceu à Casa de Bragança. A partir de 1934 passa a pertencer à Santa Casa da Misericórdia, sendo que em 1951, também no mesmo ano em que desaparecia o Palácio de Cristal, foi doada à Câmara Municipal do Porto. Carlos Alberto de Sabóia, Rei de Piemonte-Sardenha (Turim? Paris?, 2 de Outubro de 1798 – Massarelos – Porto, 29 de Julho 1849), foi rei da Sardenha entre 1831 e 1849 e um dos pais da unificação de Itália. Derrotado pelos austríacos em Custozza (25 de Julho de 1848), e na batalha de Novara (23 de Março de 1849), abdicou a favor de seu filho VÍtor Manuel e exilou-se na nossa cidade. Não se sabem as razões que o levaram a escolher-nos.

Quinta da Macieirinha, na Rua de Entre-Quintas Museu Romântico e ex Solar do Vinho do Porto
Quinta da Macieirinha, na Rua de Entre-Quintas
Museu Romântico e ex Solar do Vinho do Porto

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TeCA Teatro Carlos Alberto
TeCA
Teatro Carlos Alberto
Palacete dos Condes de Balsemão. Outrora Hospedaria do Peixe
Palacete dos Condes de Balsemão.
Outrora Hospedaria do Peixe

Chegou ao Porto a 19 de Abril e após ter vivido, durante uma semana, no majestoso Palacete dos Condes de Balsemão (onde funcionava a Hospedaria do Peixe), na Praça que adoptou o seu nome, mas que na altura se chamava “dos Ferradores”, mudou-se para a Quinta da Macieirinha (casa de Campo da família Ferreira Pinto Basto, hoje conhecida por ter lá funcionado o Solar do Vinho do Porto e funcionar ainda o Museu Romântico), onde se encontra o seu quadro (oferecido ao Senado do Porto pelo seu filho VÍtor Manuel II), e onde veio a falecer pouco mais de três meses após a sua chegada a Portugal.
A humildade com que o Rei se apresentou, viajando com apenas dois criados e tentando passar despercebido e incógnito, a natural simpatia que os infortunados originam, aliadas à palidez que o cansaço e a doença lhe provocavam, ao seu ar amargurado e à sua melancolia, conquistaram os corações dos portuenses no exacto momento da sua entrada na cidade. O estado de saúde de Carlos Alberto era muito delicado e agravava-se de dia para dia. Em muito pouco tempo deixou de poder dar os curtos passeios a cavalo pela cidade, que ajudaram a aumentar a estima que o povo nutria por ele.
À notícia do falecimento, se bem que esperada, toda a gente, independentemente das suas opções políticas ou da sua classe social, sentiu profundamente a morte tão cruel e prematura do malogrado Rei, e, uma grande parte da população vestiu de preto. Durante dois dias, os sinos das igrejas dobraram a finados, as bandeiras foram colocadas a meia haste, e de quarto em quarto de hora, ouvia-se o barulho de uma descarga de bateria, colocada no largo da Torre da Marca.
A cidade chorou Carlos Alberto e rendeu-lhe homenagem.

 

 

3 Comments

  1. Porque existe ou qual é a história do pelourinho se é que o é com o Brasão da cidade de Pontevedra ? Qual é a relação ?

  2. Muito giro. Gostei muito. Ainda hoje há muitos portuenses que se chamam Carlos Alberto. Já li algures que o rei nos escolheu por sermos sede da revolução liberal de 1820 e ele também ter ideais liberais. Eu li jornais da época e todos os dias vinham notícias sobre o estado de saúde do Conde de Barge (nome pelo qual ele preferia ser chamado), quem o visitava, etc. O funeral, a ida para o barco Sardo no rio Douro, etc., tudo impressionante pelos milhares de portuense de luto por ele… O cônsul da Sardanha até disse que ele na terra dele não teria um funeral melhor ou mais impressionante

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