Crise financeira no horizonte – Introdução, por Júlio Marques Mota

Logo tipo de WallStreetBets, um sítio subreddit, área de interesse criada pelos utilizadores onde são organizadas discussões na Reddit, um site de agregação de notícias sociais, classificação de conteúdos web e de discussão.

 

Introdução

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 22 de fevereiro de 2021

 

Na última semana de Janeiro estive a preparar uma pequena série de textos sobre a crise que se espera nos venha bater à porta brevemente que teria como título: Sobre a crise atual do capitalismo, sobre a crise financeira violenta que nos espera, à espera da última dança.

Tomei como base para esta série um texto de Jeremy Grantham, uma lenda em Wall Street e hoje reformado, intitulado WAITING FOR THE LAST DANCE. Na sequência deste texto constituí uma pequena série a que juntei dois textos de John Mauldin, que considero estarem relacionados com o que J Grantham nos diz, e um outro, muito técnico, com o título de VALUE: IF NOT NOW, WHEN?, assinado por Ben Inker and John Pease, membros da equipa que trabalhou com Jeremy Grantham na GMO, sociedade de gestão patrimonial e consultoria. Acrescentei um texto referido por estes dois últimos autores, da autoria de John J. Raskob, e que reflete a mentalidade que reina em períodos de euforia nos mercados financeiros, como estes que se têm estado a viver, um texto de Agosto de 1929! Emblematicamente, Raskob afirma que pela Bolsa todos nós podemos ser ricos. Dois meses depois, Outubro de 1929, rebentava a Bolsa.

Sublinho que a tese de Jeremy Grantham é de que a próxima crise está já muito perto e que será muito violenta, e esta tese pode ser sintetizada em quatro curtos excertos do seu texto.

  1. “O longo, longo mercado em alta desde 2009 amadureceu finalmente para se transformar numa verdadeira bolha épica. Apresentando uma sobrevalorização extrema dos ativos financeiros, aumentos explosivos de cotações, emissão frenética, e comportamento histericamente especulativo de investidores, acredito que este evento virá a ser registado como uma das grandes bolhas da história financeira, juntamente com a bolha do Mar do Sul, 1929, e 2000.”
  2. “… este evento de mercado atual é de facto a mesma velha história. Este Verão, eu disse que era provável estarmos na fase final de uma bolha, com alguma dúvida criada pelas características únicas da crise do COVID.

A característica mais fiável das fases finais das grandes bolhas da história tem sido o comportamento realmente louco dos investidores, especialmente por parte de particulares. Durante os primeiros 10 anos deste mercado em alta, que é o mais longo da história, faltou-nos a tal especulação selvagem. Mas agora temo-la. Em quantidades recorde.”

  1. “Portanto, não me surpreende nada que desde o Verão o mercado tenha avançado a um ritmo acelerado e com crescentes excessos especulativos. É precisamente o que se deve esperar de uma bolha em fase avançada: uma fase acelerada, quase vertical, de duração desconhecida – mas tipicamente de curta duração. Mesmo que seja curta, esta fase no final de uma bolha é chocantemente dolorosa e cheia de riscos nas carteiras de títulos para os apostadores nos mercados com tendência à baixa”.
  2. “Desta vez, mais do que em qualquer bolha anterior, os investidores confiam em condições monetárias acomodatícias e taxas reais zero extrapoladas indefinidamente. Isto tem, em teoria, um efeito semelhante a assumir um desempenho económico de pico para sempre: pode ser utilizado para justificar rendimentos muito mais baixos em todos os ativos e, portanto, preços de ativos correspondentemente mais altos. Mas nem condições económicas perfeitas nem condições financeiras perfeitas podem durar para sempre, e aí está o problema.

Todas as bolhas terminam com a aceitação quase universal de que a atual situação ainda não acabou  … porque.

Porque em 1929 a economia havia atingido “um nível permanentemente alto”; porque o Fed de Greenspan em 2000 previa uma melhoria duradoura na produtividade e testemunhava a sua lealdade (ou risco moral) face ao mercado de ações; porque Bernanke acreditava em 2006 que “os preços das casas nos EUA apenas refletem uma economia forte dos EUA (…)”.

Mas eis que com a série já preparada para ser enviada para o nosso editor vejo na minha lista de emails a informação da edição do jornal The New Republic intitulado GameStop Is Teaching Republicans to (Pretend to) Hate Wall Street. Peguei no artigo e sinceramente compreendi-o em termos abstratos, mas não em termos da realidade que lhe estava subjacente e que me era completamente desconhecida. Nomes como plataformas Robinhood, nomes como Redditors, como Wallstreetbeats eram nomes de que nunca tinha ouvido falar e, portanto, a base material do texto escapava-me. Mas houve duas coisas que me chamaram a atenção neste artigo: por um lado, que existe a massificação da negociação a retalho na bolsa, os particulares  a que se refere Grantham, o que eu não entendia; por outro lado, a defesa dessa massificação da utilização da bolsa pelos democratas.

Despertada a minha curiosidade por este artigo tentei então reconstruir uma base alargada para melhor entender o artigo do The New Republic de que, mesmo assim, muito gostei.

É pois esta reconstrução da base material em que assenta o referido artigo que nos levou a refazer e a ampliar a série de textos já preparada, que passei a intitular Crise Financeira no Horizonte, uma vez que os acontecimentos ocorridos nos mercados financeiros dos Estados Unidos são já sinais da crise que vem a caminho e sobre a qual Jeremy Grantham se debruça. Isso levou-nos, a partir do que sucedeu em janeiro nos mercados financeiros nos EUA, à recriação da série já preparada alargando-a com um conjunto sobre o que se tem desenrolado na bolsa de valores americana desde janeiro de 2021. Assim, a partir daqui fomos levados a montar a série Crise Financeira no Horizonte do seguinte modo:

Parte 1 – Rebentam as primeiras bombas que sinalizam a vinda da próxima crise

Parte 2 – Sobre a crise atual do capitalismo, sobre a crise financeira violenta que nos espera, à espera da última dança

 

Falamos em base alargada do contexto em que assenta o artigo do The New Republic, porque ao contrário do que faz a maioria dos jornais e sítios eletrónicos, o problema não se reduz ao confronto entre os que apostam à alta dos títulos contra os que apostam à baixa, pela via das operações de venda a descoberto, o problema coloca-se nos próprios mercados financeiros, nos seus objetivos e nos seus instrumentos, nas suas estruturas institucionais e nos seus mecanismos de regulação e de supervisão.

Desta forma pretende-se dar uma radiografia do que são os mercados financeiros, da violência que lhes é intrínseca num sistema neoliberal, dos meios financeiros e dos recursos humanos em jogo e, no fundo, sobre a utilidade da utilização destes meios e da própria Bolsa tal como funciona.

Talvez valha a pena lembrar aqui o que nos disse uma outra lenda de Wall Street, o criador do fundo de investimento Vanguard, John Boisle:

“Os grandes bancos de negócios americanos poderiam trabalhar uma semana por ano e fechar as suas portas durante todo o resto do tempo sem que isso tenha um qualquer impacto sobre a economia real.”

John Bogle, o fundador do grupo financeiro Vanguard, é uma lenda da finança. Criou em 1976 o primeiro fundo de investimento construído sobre os índices bolsistas. E com 85 anos, denuncia o parasitismo crescente da indústria financeira que ele próprio contribuiu para criar.

Nada menos que 32 milhões de milhões de dólares (36% do PIB mundial) em títulos são trocados todos os anos em Wall Street e diríamos praticamente sem nenhum impacto positivo em termos de investimentos, explica ele. E o financiamento das empresas e da economia real, a razão da existência de Wall Street, representa uma fracção ínfima da atividade da indústria financeira.

“A tarefa da finança é a de proporcionar capital às empresas. Fazemo-lo ao ritmo de 250 mil milhões de dólares por ano sob a forma de IPO-Initial Public Offering (oferta inicial ao público de ações de uma empresa, através da Bolsa) e sob a forma também de aumentos de capital” declarou John Bogle à revista Time. ”E que fazemos para além disto? Levamos os investidores a trocarem entre si cerca de 32 milhões de milhões de dólares de títulos por ano. Por conseguinte, segundo o meu cálculo, 99% do que se faz nesta indústria consiste em as pessoas a negociar umas com as outras com o único interesse da intermediação. É um desperdício de recursos.”

É uma enorme quantidade de dinheiro, 32 milhões de milhões de dólares, quase o dobro do PIB dos Estados Unidos, que se movem de um bolso para outro bolso, com um cobrador de portagem entre eles. A maioria das pessoas chamam-lhes “corretores de bolsa”, mas chamemos-lhes o que realmente eles são – cobradores de portagem e rentistas.

A procura de renda como uma ocupação é tão antiga como as montanhas. Em troca de trabalhar para construir credenciais e relativa fluência nas regras arcanas de uma indústria, é possível afastar-se do trabalho real e apenas recolher dinheiro, neste caso sacar uma percentagem pela intermediação, aconteça o que acontecer à transação.

(…) A investigação mostra, repetidamente, que os corretores de bolsa não podem fazer muito de nada comprovadamente valioso na maior parte do tempo não trazem nada de positivo à economia e ao investidor da economia real cujo título serve de suporte à intermediação. Eles não sabem quais as acções que irão subir ou descer e quando. Não sabem quais as classes de activos que terão um desempenho superior este ano ou no próximo.

(…) O que é uma auto-estrada sem trânsito nela? Se você for um cobrador de portagens, será um perdedor de dinheiro. Por isso, os rentistas de Wall Street precisam de tráfego sob a forma de comércio regular. Uma conta que se mantenha investida durante meses sem efetuar trocas, é para eles um peso morto.”

John Bogle citado por Mitch Tuchman em Why 99% of trading is pointless, texto publicado por Market Watch e disponível em: http://www.marketwatch.com/story/why-99-of-trading-is-pointless-john-bogle-2015-07-30.

 

Os textos agora apresentados são a expressão do que John Boisle afirma. Com efeito, do ponto de vista económico e social assiste-se a um desvio enorme de recursos financeiros e humanos para os mercados financeiros, sem correspondência na economia dita real. O que os mercados financeiros fazem nas 51 semanas em que são, no melhor dos casos, inúteis ou improdutivos do ponto de vista económico, é realizar transferências financeiras de uns lados para outros, dos pequenos acionistas para os grandes acionistas, da economia real para os grandes fundos de cobertura de risco, os hedge funds, para os bancos de investimento. Tanto assim que Joseph Stiglitz chega a dizer, cito de memória um texto que presumo de 2012 sobre o cálculo do PIB, que das receitas do setor financeiro só uma pequena parte deve entrar no PIB como prestação de serviços porque o resto são puras transferências e não acréscimo de valor à riqueza nacional criada, uma forma gentil de dizer apropriação de riqueza criada e já contabilizada. Nestas 51 semanas do ano, os mercados financeiros passam a vida a respeitar o slogan: comprem rumores, vendam notícias, ou seja criem rumores e transformem-nos em realidades depois ampliadas pelos media.

Na primeira parte da série iremos então contextualizar o que está subjacente no artigo do The New Republic e que nos demonstrará à evidência que é correta a tese de John Bogle sobre a quase inutilidade total da Bolsa (exceto um dia no ano!)  assim como a lógica das transferências a que se refere Stigliz. Para isso partiremos do caos relativo que se instalou na Bolsa e para isso tomaremos como exemplo o que se tem passado nos mercados financeiros relativamente aos títulos da empresa GameStop, o maior retalhista mundial de jogos de vídeos, uma empresa que em Dezembro de 2020 se poderia considerar tecnicamente falida segundo os parâmetros americanos. Como se assinala num dos textos:

  • A empresa tinha estado em declínio constante durante anos, mas o preço das suas ações desceu ao fundo ao longo do último ano – de 16 dólares por ação em Janeiro de 2019 para menos de 5 dólares em Janeiro de 2020.
  • A empresa é “um cubo de gelo derretido”, disse o analista de Wedbush Michael Pachter à Business Insider. “Com certeza que vai acabar por desaparecer”.

Mas quanto às cotações da GameStop tudo mudou em 2021, por influência dos grandes operadores de Wall Street e por influência mais importante ainda, por influência das pessoas da Main Street. Tornou-se um título altamente volátil, de acordo com as forças em luta em cada momento do tempo. As suas cotações a nível histórico até 2020 são expressas por:

E as cotações no mês de janeiro de 2021 e princípio de fevereiro de 2021 são ilustradas pelo gráfico abaixo:

 

John Bogle e Stiglitz juntos – quanto a uma transferência de 700 milhões

Em 5 de Fevereiro, e sobre a especulação dos títulos GameStop, ZeroHedge relata-nos como é que alguém que não estava do lado dos especuladores a descoberto ganha 700 milhões de Setembro último ao final de Janeiro:

Do que nos diz ZeroHedge reproduzimos apenas alguns excertos (The Curious Case Of The Hedge Fund That Made $700 Million On GameStop, aqui):

“Enquanto o retalho estava a “seguir os principais responsáveis” – os responsáveis reais no fundo de cobertura Senvest Management estavam prestes a ganhar 700 milhões de dólares na corrida à subida da GameStop. Porquê? Porque a GME [GameStop Corporation] era a maior participação do Senvest a partir de 7 de Outubro, uma coisa estranha considerando que muitos dentro do mundo dos fundos de cobertura na altura a encaravam como um potencial candidato à falência – dificilmente uma atitude prudente do ponto de vista fiduciário, a menos que o Senvest tivesse um plano… e o rapaz parece de facto que tinha um plano. (…)

Os responsáveis da Senvest, Richard Mashaal e Brian Gonick, começaram a comprar ações da GME [GameStop] em Setembro, revela uma reportagem do Wall Street Journal, apenas semanas antes de terem acumulado 3,6 milhões de ações, fazendo com que a Gamestop fosse a maior participação/aplicação do fundo. Mashaal disse ao Journal: “Quando começou a sua marcha, pensámos, algo está a passar-se aqui. Mas não fazíamos ideia de como esta coisa ia ficar louca”.(…)

Thomas Peterffy, presidente da Interactive Brokers, notou o que muitos tinham suspeitado: “Não se trata aqui apenas de pessoas comuns a apostarem no longo prazo. Há jogadores enormes a jogar dos dois lados da GameStop”.

Ele tinha razão. O fundo Senvest diz que o seu interesse no nome GameStop foi “despertado por uma apresentação do novo chefe executivo da GameStop numa conferência de investimento do consumidor em Janeiro de 2020”. O Journal escreve:

“Mas enquanto falavam com a direcção, descobriram concorrentes e notaram o envolvimento de activistas nas acções, incluindo o co-fundador da Chewy Inc., Ryan Cohen, e acabaram por começar a comprar. No final de Outubro, o Senvest possuía mais de 5% da empresa, pagando menos de 10 dólares por uma acção pela maior parte do volume de títulos comprado.

Eles pensaram que se a GameStop pudesse aguentar até que a próxima geração de consolas de videojogos saísse e alimentasse a procura de jogos e acessórios, a empresa receberia um impulso. E raciocinaram: se o Sr. Cohen pudesse ajudar a transformar a GameStop que se em vez de trabalhar em lojas físicas, de tijolos e cimento, onde teriam uma morte assegurada, passasse a ter lojas de venda de jogos em linha, virtuais, a empresa poderia valer muito mais.

Claro que existem fundamentais económico-financeiros mas duvidamos que essa tenha sido a razão para a acumulação acelerada de ações da GME por parte do Senvest. Algo nos diz que houve outros fatores que motivaram a onda de compra urgente, especialmente desde que o artigo original sobre a Reddit, “a queima do século das vendas a descoberto”, que despertou o interesse pelo nome da parte dos operadores de retalho na bolsa, apareceu no início de Setembro por volta da altura em que o Senvest começou a adquirir ações, de acordo com o Journal. Quase nos perguntamos se os dois acontecimentos não estão ligados.

(…)

Eles pensaram… e tinham razão. Tudo o que precisavam era de uma massa crítica de compradores para aumentar uma cascata inicial de compras que depois desencadearia a liquidação forçada e o resto é história. Foi precisamente isso que aconteceu em meados e finais de Janeiro, quando o preço das ações explodiu de 20 dólares para mais de 500 dólares.

Incapazes de acreditar no que viam os seus olhos (ou talvez sabendo precisamente como se comportaria uma liquidação forçada tão grande) o Senvest estava apenas à espera que o catalisador fizesse os seus efeitos. Conseguiram-no a 26 de Janeiro, quando o Diretor Executivo da Tesla, Elon Musk, se juntou à luta de bombeamento das ações e tweeteou: “GameStonk!! [N.T. Stonk é um erro ortográfico propositado de stock, referido a propósito de perdas financeiras com ações]”.

“Dado o que se estava a passar, era difícil imaginar que o mercado ficasse ainda mais louco “, concluiu Mashaal do Senvest.

(…)

Então, apenas uma série de coincidências muito afortunadas que levam a um ganho recorde de 700 milhões de dólares ou um plano magistralmente executado, que foi traçado e executado muito melhor do que a maioria dos guiões de Hollywood?

Esperamos ter a resposta quando o Congresso realizar as suas audições sobre a Gamestop, embora considerando que Maxine Waters está no comando [N.T. deputada democrata da Câmara de Representantes, preside o Comité de Serviços Financeiros] não estaremos à espera de que suceda alguma coisa.” Fim de citação.

 

Bom, 700 milhões mudaram de mãos, as ações foram compradas antes da vaga especulativa, em baixa, foram vendidas em alta, ganharam-se 700 milhões, terão servido para que os seus camaradas especuladores a descoberto, as possam ter comprado para liquidar as suas posições a descoberto. Qual a contribuição para a criação de riqueza nacional? Nenhuma, é a resposta, é uma transferência, dirá Stiglitz.

Pois bem, foi sobre esta empresa, a GameStop. que estava já a dar os seus primeiros passos para se reestruturar, que os abutres de Wall Street especialistas em desventrar empresas, com as suas especulações a descoberto  se lançaram a procurar a sua morte e foi sobre os títulos desta mesma empresa que se lançaram em posição inversa as pessoas da chamada Main Street, os “redditors” em torno das plataformas Robinhood e Wallstreetbets, numa luta de muitos milhares de milhões. Estarmos pois a arrastar as pessoas de Main Street para um jogo tão perigoso como este parece-me simplesmente desonesto. O dinheiro inteligente entrou e terá já saído terá dito um analista, Pratcher. Dito de outra forma: perigo, perigo. Afastem-se, podem ficar sem camisa.

A este respeito diz-nos o referido artigo do The New Republic:

“Alegadamente, o Presidente Joe Biden foi informado da situação, e dificilmente há um político que não tenha agora uma posição sobre o caso. Mas muitos deles parecem-se com o Representante Ro Khanna [democrata], que escreveu que “perto de metade das famílias americanas não têm sequer investido na bolsa de valores”, antes de continuar a pedir “mais regulação e igualdade nos mercados”. Em vez de se preocuparem com a ampla influência do mercado de ações – que afeta muitas vezes pessoas que nunca irão comprar ações – a atenção destes políticos está em transformar mais pessoas em investidores, em pequenos apostadores. A retórica aqui é semelhante à das indústrias de tecnologia de ponta que considera as pessoas “subbancárias” – é um termo ideologicamente bem marcado – com uma falta de direitos políticos e sociais . A implicação do texto de Ro Khanna é que todos deveriam ter o direito de negociar ações, sim, mas também que todos deveriam também ter ações.

Acolher mais clientes no casino é precisamente a lógica que ajudou a conduzir ao crash económico de 2008. Embora possamos querer que Robinhood trate os seus clientes de forma mais justa, não devemos querer que a firma tenha mais clientes. Expandir o acesso ao mercado de ações e a uma comunidade de negociação diária liderada por multidões voláteis de Redditores não é um bem em si mesmo. As exigências deste estranho momento não deveriam ser de dar a outro grupo de pessoas o direito de manipular um mercado já manipulado e socialmente regressivo.”

A tese dos democratas como a citada acima insere-se num movimento que vem de muito longe, a de que podemos ficar ricos com a bolsa. Foi a tese defendida por John J. Raskob, em agosto de 1929, a dois meses de queda da bolsa. Que nos diz ele? Que investindo na bolsa todos podemos viver como ricos. Vejamos o seu raciocínio:

[Poupem-se 15 dólares por mês durante 20 anos e invistam-se em aplicações durante 20 anos reinvestindo para o mesmo período os juros obtidos.] “Quinze dólares por mês equivalem a cento e oitenta dólares por ano. Em vinte anos, portanto, a poupança total ascendeu a três mil e seiscentos dólares. Cada um destes três trusts vale agora bem mais de oitenta mil dólares. Investidos a 6% de juros, estes oitenta mil dólares dariam ao beneficiário do trust um rendimento anual de quatrocentos dólares por mês, o que normalmente representaria mais do que o poder de ganho do beneficiário, pois se ele tivesse podido ganhar até quatrocentos dólares por mês, poderia ter poupado mais de quinze dólares.”

O ovo de Colombo para se ter uma vida de nababo. Naquele tempo 400 dólares por mês eram uma pequena fortuna. Dois meses depois deste texto ser publicado a Bolsa caía com um enorme estrondo, tão grande que ecoou por todo o mundo. E os nossos operários com esta capitalização ficaram sem nada. Mas poderiam eles receber alguma coisa de jeito? Não, não podiam. Nas contas deste alto quadro do Partido democrata há uma PEQUENA vigarice. Como é que aplicando 15 dólares por mês se obtém, capitalizando os juros, 80.000 dólares, os tais 80.000 que à taxa de 6% nos dão de rendimento 4.800 dólares ao ano, ou seja, 400 dólares por mês? Seria necessário que a taxa dos retornos sobre estas poupanças mensais fosse de 26%! Delirante, é o mínimo que se pode dizer. Curiosamente o retorno real para o S&P 500 durante os 20 anos que começaram em Agosto de 1929 foi de 2% por ano, permitindo um estilo de vida um pouco menos luxuoso de 18 dólares por mês!

Não é menos curioso saber-se quem é John J. Raskob. Este foi industrial, financeiro, presidente do Comité Nacional Democrata de 1928 a 1932, e cofundador da Liga Americana da Liberdade.

Consequentemente, deu um forte apoio aos democratas conservadores na sua luta contra a nomeação presidencial de Franklin Roosevelt, em 1932. Raskob tornou-se então um crítico proeminente do New Deal. Em 1934 Raskob, du Pont, Smith, e outros líderes empresariais fundaram a Liga Americana da Liberdade para avisar os americanos dos perigos do centralismo federal e do ativismo governamental, defendendo políticas de austeridade e liberalização dos mercados.

Defender neste contexto a massificação dos investimentos em bolsa como fonte de rendimentos para os pequenos aforadores parece-me de uma grande ousadia, para não dizer descaramento face aos dados da história recente e da realidade de agora.

Não menos curioso, Peterscheck lembra-nos os anúncios dos anos 90, quando corretoras como a E-trade e a TD Ameritrade faziam anúncios como: “encorajando as pessoas a negociar na bolsa no seu no dia-a-dia – que qualquer um pode fazer isso, que cada um de nós  pode ficar rico fazendo isso, que é muito melhor do que ir trabalhar”, disse ele. E continuou: “Anúncios do tipo: todos aqueles idiotas que trabalham das 9 às 17, não seja assim. Fique em casa, negocie durante o dia, fique rico”.

Neste relembrar que a banalização e massificação das operações de bolsa é uma característica dos períodos de euforia que antecedem uma crise, o Wall Street Journal lembra-nos agora alguns exemplos na mesma linha do que temos vindo a afirmar, não tirando daí as devidas conclusões, pois considera que o que se passa agora “pode  ser apenas um símbolo ou um sintoma da perturbação populista que tem varrido o mundo nos últimos anos” e não um problema intrínseco ao sistema capitalista financeirizado como é o caso atual.

Com efeito, assinala o Wall Street Journal:

Este atual momento de mercado, com a sua onda de especulação social alimentada pela tecnologia, é um eco de 1999 e início de 2000, quando anúncios televisivos pagos pelas s empresas de corretagem elogiavam as mães que no dia a dia e ainda vestidas de pijama negociavam na bolsa, anúncios estes em que também se afirmava que os condutores de carros de reboque podiam assim dar-se ao luxo de comprar ilhas tropicais.

Também faz lembrar 1901, quando investidores com acesso generalizado ao telégrafo e à bolha telefónica se entusiasmaram com o novo século.

O volume total de transações na Bolsa de Nova Iorque duplicou desde o ano anterior para 209 milhões de ações.

A 24 de Abril desse ano, dois terços de todas as ações em circulação da Union Pacific Corp. mudaram de mãos.

Em toda a NYSE, o volume de negócios anual, uma medida da rapidez com que as ações se transacionam, atingiu 319%, um recorde que não seria ultrapassado durante aproximadamente mais um século.

Em milhares das chamadas Bucket Shops [lojas “especializadas” em negociações fictícias com ações e commodities, que floresceram nos Estados Unidos no final do século XIX e início do século XX. Eram pseudo-corretoras onde as compras e as vendas não eram realmente efetivadas na Bolsa de Valores] os indivíduos apostaram se os preços das ações subiriam ou desceriam sem ter de comprar qualquer ação.

Tomando apostas direcionadas tão pequenas como $5 ou $10, muito abaixo do mínimo então exigido pelas empresas legítimas, as Bucket Shops dispararam – apesar de serem ilegais em muitos estados.

“O desejo de enriquecer sem trabalho tem prevalecido entre os homens em todas as idades”, escreveu o jornalista e economista Horace White em 1909, “e sem dúvida que continuará enquanto a natureza humana permanecer inalterada“. Fim de citação [1].

Na mesma linha se insere agora a plataforma de negociação em bolsa Robinhood depois de ter bloqueado as transações em bolsa destes pequenos aforradores:

Uma atualização sobre a volatilidade de mercado

Neste último ano, vimos os mercados financeiros tornarem-se uma voz para os sem voz. Vimos uma nova geração de pessoas entrar nos mercados, desencadeando conversas sobre o que significa ser um investidor. Os nossos clientes têm mostrado ao mundo que investir é para todos – não apenas para investidores institucionais e fundos de cobertura.

No meio das circunstâncias extraordinárias desta semana no mercado, tomámos hoje uma decisão difícil de limitar temporariamente a compra de certos títulos.

A partir de amanhã, planeamos permitir a compra limitada destes títulos. Continuaremos a acompanhar a situação e poderemos fazer os ajustamentos que forem necessários.

Apoiamos os nossos clientes e a liberdade dos investidores de retalho para moldarem o seu próprio futuro financeiro. A democratização das finanças tem sido a nossa estrela orientadora desde os nossos primórdios. Continuaremos a construir produtos que dão a mais pessoas – e não a menos – o acesso ao nosso sistema financeiro.”

Tudo bem claro, a corrida à mina de ouro que pode não passar de uma profunda e perigosa miragem é também a proposta da corretora de retalho Robinhood, que está no centro do relativo caos em que foram colocados os mercados financeiros e das muitas situações absurdas que dele podem emergir. É disso um exemplo a emissão de ações por parte da Hertz, em maio passado, na altura uma empresa já falida, que faz uma emissão na ordem dos 30 milhões de dólares porque os investidores de retalho procuravam títulos da Hertz e o juiz de falência, uma vez que isso beneficiava os credores de Hertz, autorizou a respetiva emissão. Quando a SEC explicitamente quis impedir a emissão já tinha sido feita. Não podemos esquecer a posição do analista de mercado Michael Pratcher que nos diz face à GameStop que “o dinheiro inteligente entrou mas já terá saído.” Perigo, afastem-se é o que se pode dizer face à posição de Michael Pratcher. Parafraseando Grantham sobre a mesma coisa, a saída ou a não entrada em dados mercados, diremos que “ser um investidor bem sucedido é simplesmente reconhecer que mais cedo ou mais tarde chegará um momento em que um investidor ficará satisfeito por ter estado fora do mercado” e não dentro como pretendem os nossos democratas de hoje. Os graves problemas de repartição nos Estados Unidos não se resolvem generalizando a sociedade casino à população trabalhadora, mas SIM com políticas macroeconómicas e laborais que tenham como base corrigir essa desigualdade. Deixemo-nos de poeiras tóxicas para os olhos porque podemos ficar cegos e disso nos avisa Jeremy Grantham no seu texto À espera da última dança.

E a concluir esta nota referira-se que estamos a assistir a um comportamento dos indivíduos e dos mercados numa ótica imediatista  ou de muito curto prazo em que se cria desinteresse pelas ações ditas de Valor a favor das ações ditas de crescimento onde a criação parece vir do nada, temática esta que abrange quase toda a nossa segunda parte da série. Em termos de introdução deixem-me esclarecer apenas o conceito de ações dita de Valor e as ações ditas de Crescimento.

 

Sobre as ações valor como uma coisa do passado e as ações de crescimento como a realidade do presente

Do ponto de vista das suas cotações as ações com cotações de mercado abaixo do valor que seria expresso pelos fundamentais económicos da empresa serão ações ditas de Valor enquanto que se a sua cotação de mercado é superior ao expresso pelos seus fundamentais económicos serão ações ditas de Crescimento. As primeiras terão interesse para os investidores pelos retornos pagos e por esperarem um ganho com o aumento do seu valor para valores concordantes com os seus fundamentais, enquanto as segunda terão interesse para os investidores não pelos seus retornos, normalmente baixos, mas pela subida esperada das suas cotações futuras com o crescimento esperado das empresas.

Pela nossa parte diríamos que as primeiras ações, as de Valor, são compradas para serem conservadas, as segundas são compradas para serem vendidas depois de se verificarem alguns picos de subida. Um exemplo curioso é o do título GameStop que passou de ação dita de valor, relativamente à economia real até Dezembro de 2020, a ação dita de Crescimento com a sua cotação volátil, muito volátil, a depender da euforia dos mercados financeiros.

O imediatismo dos tempos modernos leva a que as pessoas, sobretudo nos tempos de euforia, deem relevância às ações ditas de Crescimento contra as ações ditas de Valor. Isto é notório nas gerações mais novas que geralmente não têm como horizonte temporal para a sua carteira de títulos o tempo de vida dos mais novos, dos seus netos, mas sobretudo o seu próprio presente. Isto é grave, e mais grave ainda quando este tipo de comportamentos se transmite à economia real e em termos de investimentos. Um dos exemplos caricatos desta dinâmica de bolsa encontramo-la na economia real quanto ao ativo “floresta” e à não renovação das zonas florestais. Planta-se pinheiro e eucalipto, mais pinheiro, mais eucalipto, rentabilidade à vista. Pensar noutras madeiras, como carvalho, castanheiro, nogueira ou outras é pressupor o tempo longo de gerações e não o imediatismo a que assistimos. Esse pressuposto do tempo longo não se verifica e, portanto, a renovação florestal também não.

Prafraseando Matt Levine da Bloomberg, diremos que uma ação dita de Crescimento, tipo a ação Tesla entre muitas outras, é um ativo financeiro onde os fluxos de caixa são irrelevantes. Tem valor simplesmente porque as pessoas pensam que é valiosa e investem nela com a esperança de valer mais, porque na euforia bolsista se acredita que as pessoas vão considerar que pode valer ainda mais. Pode não haver nenhum suporte de valor subjacente, pode haver apenas o reconhecimento generalizado de que a ação é valiosa e que vai ser ainda mais valiosa com o tempo. Poder-se-á ainda dizer que a compra das ações de crescimento se baseia não apenas na euforia (tipicamente em casos de mercados em bolha como é o caso de agora), mas também, eventualmente, em planos de negócios supostamente credíveis e ambiciosos: projeções financeiras que mostram que um dia tais ações poderão converter-se em ações de valor. Isso traduz-se num montante muito elevado do ativo intangível chamado goodwill no balanço [N.T. também chamado fundo de comércio, afinal, o valor do negócio]. Obviamente, isto exige investidores tradicionais que conservarão os títulos, investidores que terão essa paciência para esperar a médio e longo prazo que essas ações de crescimento se transformem depois em ações Valor. Como dizia um amigo meu ao ler este texto na sua versão inicial, “se as promessas dos planos de negócios não se concretizam no longo período esperado, elas reduzem-se a nada… , então as cotações derretem-se (ou mantêm-se, mas neste último caso durante o tempo permitido pela fé ou pela euforia ou pela magia de uma comunicação eficaz que consegue vender fumo ou utopia). O que é incrível é a existência de ações que mantêm o estatuto de crescimento de forma substancialmente permanente, o que parece uma contradição nos próprios termos. A Tesla e as redes sociais são exemplos eloquentes.” .

Em síntese, as ações ditas de Valor assentam nos fundamentais económico-financeiros das empresas respetivas e da economia em geral, as ações ditas de Crescimento assentam na dinâmica da euforia sobre a empresa e sobre os mercados financeiros, sobretudo destes.

 

A série de textos terá a seguinte sequência:

Parte I – Rebentam as primeiras bombas que sinalizam a vinda da próxima crise

  1. Dados do problema:

1.1. Robinhood tem atraído jovens operadores em bolsa, por vezes com resultados devastadores – New York Times

1.2. E há os que ganham… Como o investidor bilionário Chamath Palihapitiya ganhou 500.000 dólares. Por Júlio Marques Mota

1.3. A História de GameStop – Business Insider.

1.4. Geração ROBINHOOD: Como a aplicação de negociação condicionou os utilizadores inexperientes a jogar obsessivamente no mercado – Business Insider

1.5. Eu era viciado em Robinhood e em Wall Street – Business Insider

1.6. O que é que Biden e Yellen vão fazer em relação ao caso GameStop – StartMag.

1.7. Janet Yellen ganhou milhões em Wall Street em discursos para empresas – Politico.

  1. Os mercados financeiros e os seus operadores

2.1. Perito em investimentos explica a batalha Reddit vs. Wall Street – KFOX14.

2.2. A explosão do valor dos títulos GameStop – Polygon.

2.3. Os fundos de cobertura de risco foram incendiados pelo exército de apostadores que caíram sobre Wall Street – Business Insider

2.4. Reddit vs. Wall Street: Quem é que vai para a prisão – The Market Herald

2.5. Em duelo com pequenos investidores no GameStop, os grandes fundos estão a piscar os olhos – The Business Journal

2.6. O frenesim dos títulos GameStop – Sítio Vox.

2.7 Pare-se com o terrível massacre de análises à volta de GameStop – Business Insider.

2.8. Esta situação de Stop não é engraçada, é estúpida – Business Insider.

2.9. A força real que conduz a revolução GameStop – The Wall Street Journal.

2.10. O dinheiro por detrás de Robinhood é puro Xerife de Nottingham – Financial Times.

  1. Um olhar crítico sobre os mercados financeiros

3.1. A bolha da GameStop é uma lição sobre o absurdo e a inutilidade da bolsa de valores – Sítio Jacobin

3.2. Parem o jogo – quero sair! – Michael Robert

3.3. GameStop está a ensinar os Republicanos a (Fingir que) odeiam Wall Street – The New Republic

  1. Os mercados financeiros- aprofundamentos

4.1. Como a WallStreetBets empurrou as ações da GameStop até à Lua – Bloomberg

4.2. O jogo GameStop nunca para -Também sobre Intel e O’Hare – Bloomberg

4.3. Porque é que a multidão da WallStreetBets pode lucrar com as operações em bolsa depredadoras – The Economist

4.4. Quem é que está a enriquecer com as ações GameStop? Os criadores e intermediários do mercado, incluindo Robinhood – Market Watch

 

As mutações de mercado na base da crise que aí vem

  1. Um outro olhar sobre o disfuncionamento dos mercados financeiros

5.1. O Curioso Caso do Fundo de Cobertura De Risco Que ganhou 700 Milhões – Zero Hedge

5.2. Cinco questões que precisa de saber para começar o seu dia de hoje – Bloomberg.

5.3. Os operadores de retalho em bolsa ligados pela plataforma de discussão Reddit não são o que se pensa – Business Insider.

5.4. Opções de compra longas vs. Opções de vendas longas – Business Insider.

5.5. Um negociante veterano de opções explica a estratégia intrincada que os negociantes da Reddit utilizaram para enganar Wall Street – Business Insider.

5.6. Jogando com a GameStop – Heiner Flassbeck

Parte II – Sobre a crise atual do capitalismo, sobre a crise financeira violenta que nos espera, à espera da última dança

  1. A ansiedade dos investidores aumenta com a perspetiva de uma “bolha” na bolsa de valores – Financial Times
  2. Com a tenaz apertada Parte A – John Mauldin
  3. Com a tenaz apertada, Parte B – John Mauldin.
  4. Qualquer Pessoa Pode Ser Rica – John Raskob (1929)
  5. Controlando a Curva – John Mauldin.
  6. À espera da última dança-Os Riscos da Alocação de Activos numa Grande Bolha em Fase Final – Jeremy Grantham, GMO.
  7. Ações Valor – Se não é agora, quando será? – Grupo GMO
  8. O caso do movimento em torno de GameStop expõe os perigos do ‘populismo meme’ – Eric Levitz (NY Magazine)

 

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NOTA

[1] Veja-se Jason Zweig, Wall Street Journal, The Real Force Driving the GameStop Revolution. 30 de Janeiro de 2021 (ver aqui).