A Universidade em declínio a Alta Frequência: depois de Bolonha, o Covid e o ensino com as suas avaliações à distância acentuam fortemente a degradação da Universidade – Reflexões em torno de uma reportagem do jornal Público sobre as Universidades. Por Júlio Marques Mota

 

Reflexões em torno de uma reportagem do jornal Público sobre as Universidades

 Por Júlio Marques Mota

                        Coimbra, 23 de fevereiro de 2021

 

Quis virar costas à Universidade como algo que já está longe, como uma casa que já mudou e mudou tanto que é uma outra casa, regido por outras normas, outros princípios, outra ética, se de ética se pode falar na Universidade de hoje. Uma questão que se me levanta, a da ética, e exatamente nestes termos, é porque hoje vejo a Universidade sobretudo como uma butique onde se vendem diplomas e alguns muito caros mesmo, onde os estudantes estão lá, não sobretudo para estudar, mas para passar e onde os professores estão lá não sobretudo para ensinar, mas para publicar, publicar, publicar.

Ilustracão (Fuente: Lucía Carvalho), em Cronistas Latinoamericanos, 29/06/2020

 

Com exclusão das não muitas mas honrosas exceções, de alunos e professores, sobretudo destes, esta é a visão que tenho da Universidade de hoje. A entrada da minha neta na Universidade não me levou a melhorar esta cáustica visão que hoje tenho da vida académica. O espetáculo degradante das condições de entrada para exames no ramo das ciências que de resto a SIC nos deu imagens é um sinal claro que mesmo nas ciências da vida haverá pouco respeito pela vida. Com o governo a declarar um confinamento duríssimo houve Universidades que prosseguiram os exames presenciais e mais uma vez o Ministro da Ciência, Tecnologia e (des) Ensino Superior salientou-se pela sua ausência como Ministro de tutela. É amargo ler, até escrito por alguém de um Sindicato de brandos costumes, o SNE-SUP, que o “ Ministro “tem tido uma atitude de alguma ausência” em relação ao ensino à distância no ensino superior”.

Mais precisamente à pergunta do jornalista “Faz sentido que cada instituição esteja a lidar com este momento de emergência de forma autónoma?” que é feita à professora Mariana Gaio Alves, esta responde:

“O ensino superior é uma realidade com muitas realidades lá dentro. Acho que faz sentido que existam soluções diferentes dentro do sistema. O que é importante é garantir um referencial mínimo comum.

E esse referencial existe?

“Não temos muitas indicações quanto a uma visão mais global do sistema da parte da tutela. Há algumas recomendações, mas não existe um quadro referencial muito claro. Penso que o balanço que devemos fazer da situação [criada pela pandemia] é positivo, mas deve-se sobretudo ao trabalho dos professores em cooperação uns com os outros.”

Devia ter havido orientações mais claras da parte do ministério?

“Nós entendemos que deve haver uma intervenção mais próxima da tutela, quer no reconhecimento do trabalho que está a ser feito da parte dos profissionais, quer para estabelecer um quadro de referência claro. Devia haver uma espécie de mínimo denominador comum das atividades à distância.”  Fim de citação.

 

Sublinho a posição da professora Mariana Gaio Alves que refere que o efeito positivo na resposta à pandemia se deve “sobretudo ao trabalho dos professores em cooperação uns com os outros”. E sublinho ainda um outro aspeto fundamental neste processo quando esta professora nos diz “Nós entendemos que deve haver uma intervenção mais próxima da tutela, quer no reconhecimento do trabalho que está a ser feito da parte dos profissionais, quer para estabelecer um quadro de referência claro.”

Em longas conversas que tive com muita gente dedicada a sério ao ensino ao longo do ano passado cheguei à mesma conclusão e sobre ele escrevi na altura quatro textos [1] contundentes sobre o longo processo de degradação do ensino universitário, agravado com o  que se estaria a passar com o ensino à distância, como também sobre os enormes custos que trazia para quem passou a ensinar à distância. Depois disso, tive conhecimento de um trabalho jornalístico bem feito sobre o tema, publicado pelo Diário de Notícias em julho de 2020, denunciando em termos dos grandes meios de comunicação o que se se estava a passar. O título do artigo, da jornalista Catarina Reis datado de 9 de Julho, era bem sugestivo: “Há universitários a pagar a explicadores para realizar exames no seu lugar”.

Ed Carosía em La Voz de Galicia, 24/02/2018

 

Nada aconteceu há um ano, e o ministro do Ensino Superior esteve ausente como estiveram todas as Instituições de topo. Nada aconteceu, os exames decorreram e toda a gente assobiou para o lado. O costume. Esperava-se ao menos que as coisas melhorassem este ano.

O Jornal Público lançou agora, em 21 de fevereiro, uma reportagem sobre o que se passa este ano no Ensino Superior e, em nada é diferente, do que se passou o ano passado. Mas como ninguém oficialmente soube o que se passou, então oficialmente nada se passou e esta é a verdade que consta dos livros.

A professora citada refere-se à falta de reconhecimento pelas Instituições do profundo trabalho de adaptação à situação criada pela pandemia e isso é uma realidade que verifiquei no ano passado nos múltiplos docentes por mim contactados de diversas Universidades do país. Com mais força de razão se deve pressupor que se verifica o mesmo esforço este ano. Inversamente, pelo lado oficial que vimos nós? Assistimos a uma altaneira sobranceria das Instituições ignorando esse mesmo trabalho, foi o que se verificou. No final do segundo semestre de 2020, em Coimbra, foi divulgado um comunicado assinado pelos Vice-reitores da Universidade reconhecendo esse trabalho, com a curiosidade de que nele não constava o nome do reitor (com minúscula). E, curiosamente, manteve-se a pressão sobre os professores quanto a publicar, publicar; e assim temos professores com centenas de artigos científicos publicados! Um orgulho da Universidade, claro, mas tenho muitas dúvidas que isso constitua um orgulho em termos de ensino.

O jornal Público relata-nos duas posições institucionais a propósito da avaliação à distância: a posição dos reitores e a de um antigo colega meu, Paulo Peixoto, em tempos premiado na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra com o “prémio FEUC Ensino pela sua prática pedagógica nas unidades curriculares em que leciona” e hoje Provedor do Estudante.

Em caixa do artigo diz-nos o jornalista: “Desconfiança dos professores poderá resultar em maiores taxas de reprovação e notas mais baixas. Reitores admitem que os docentes têm de aprender a fazer avaliações diferentes à distância”. Depois, e no mesmo sentido, cita Paulo Peixoto para quem a “desconfiança dos professores” vai resultar “em maiores taxas de reprovação” e “notas mais baixas”.

Ao ler estes artigos no jornal Público lembrei-me dos meus artigos do ano passado sobre as condicionantes no ensino criadas pela pandemia, e dos múltiplos relatos do clima de vandalismo intelectual que atravessa as Universidades Portuguesas, com a cumplicidade de muita gente com responsabilidades no ensino. Questionei-me: será que as coisas terão mudado? Será que, de um ano para o outro, serão os professores que se terão degradado e os alunos que terão melhorado, e em muito, para se atirar o ónus do que passa para cima dos professores? Pedi a uma das fontes de que me servi no ano passado para escrever os dois artigos sobre o ensino, um antigo colega e amigo meu – um dos meus brilhantes alunos que tive nos meus quase quarenta anos de professor universitário e a quem terei dado 17 ou 18 valores no início dos anos 80 na disciplina reputada como a mais difícil do curso de Economia, Economia Internacional -, que me dissesse se este ano também teria sido assediado com dinheiro para fazer exames pelos alunos.

Júlio Gomes (este é o antigo colega e aluno, amigo meu) esteve como explicador inscrito na Plataforma Explica-me, plataforma citada no jornal Público. Contudo, recentemente não renovou a inscrição na dita plataforma porque esta é paga pelo número de contactos criados e os contactos que tinha eram, na sua maioria, contactos para fazer os exames pelos alunos. Como explicador teria fama de ser um muito bom explicador e assistiu a uma evolução curiosa: o número de explicações diminuiu à medida que a pandemia avançava: os alunos precisavam de menos explicações!. Em contrapartida aumentavam as propostas sedutoras, em termos monetários, de fraude. Quanto é que cobra pelo serviço? Era a pergunta repetida, como se estivesse num bordel. A ideia de que é um muito bom explicador revela-se ainda nos emails deste ano em que, apesar de ter explicitado no seu perfil – para ver se era menos solicitado -, que não “pactua com fraudes”, ainda assim lhe perguntaram repetidamente se estaria disponível para fazer exame pelos alunos e quanto é que levava pelo serviço! Ora, as respostas que deu este ano a estes vândalos são iguais às que deu no ano passado, o que nos levanta um pequeno paradoxo: circulou a ideia de que era um muito bom explicador, não circulou a ideia de que não era corrupto! Isto só pode ser explicado por uma de duas razões:

  1. Dizê-lo seria, a quem o dissesse, declarar-se como corrupto que terá tentado corrompê-lo e não o conseguiu. Regra: fala-se e/ou mente-se quando se quer passar por bem sucedido, cala-se ou mente-se quando se é mal sucedido.
  2. Tendo dito que não no ano passado, talvez a sua situação económica se tenha degradado tanto que agora se veja obrigado a aceitar as propostas “de serviço”. Dada a sua qualidade de explicador, vale a pena tentar. Não se perde nada, pensar-se-á.

Vejamos alguns dos emails com as ditas propostas recebidas neste ano letivo de 2020-2021.

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Chegados aqui, relembrando o que escreve o jornal Público agora, e relembrando o que se passou igualmente no ano passado, percebe-se que a Universidade é atravessada por um mar de corrupção, de falta de ética que nos deve envergonhar a todos. Dir-me-ão que se trata de casos isolados e que uma árvore não faz uma floresta. Responderei que são já muitas árvores para não se ver uma parte da floresta. Mas há ainda um argumento mais forte a favor da minha argumentação. Vejamo-lo então: em confinamento os exames são feitos à distância, são feitos em casa de cada um. Ora, os casos já apresentados, e os que possam ser neste contexto imaginados, demonstram que há também cumplicidades familiares nesta corrupção generalizada; caso contrário, teríamos de admitir, o que é pouco verosímil, que as famílias desses estudantes ignoram a forma e os meios, sobretudo estes, utilizados pelos seus filhos na avaliação à distância! Implicaria que nunca estariam em casa, porque os seus filhos precisam de silêncio!

Quanto ao envolvimento ou não das famílias há um outro detalhe: como os pontos de exames resolvidos por terceiros implicam um pagamento, como podem essas despesas ser completamente ignoradas pelas famílias, estando os estudantes em casa e sem gastos?

Podemos ir ainda muito mais longe: nas disciplinas ditas fundamentais ou nucleares, em cada curso, em cada ano e em cada Faculdade – uma vez que as provas estão em computador – utilize-se o programa de deteção de cópia e veja-se o elevado nível de infrações atingido. Veja-se também que terá havido por aí, silenciosamente, muitos professores que dignamente tentaram reduzir ao máximo possível o mal comprovado. Silenciosamente, diremos, mas fizeram-no. São estes que agora parecem ser visados pelas afirmações do Presidente do Conselho de Reitores e do meu antigo colega Paulo Peixoto, como sendo os professores ou incompetentes por não terem sabido passar da avaliação presencial à avaliação à distância ou paranoicos por desconfiarem do comportamento dos alunos!

Façam esse estudo, esse levantamento – e urgentemente -, não para se andar à caça de quem copiou, mas para que se tenha uma fotografia mais real do que se passou e se procurem respostas adequadas ao problema para o semestre letivo que se segue. De passagem, confirmarão que muita gente se esforçou, e bem, para fazer a passagem do ensino presencial e da respetiva avaliação para o ensino a distância e mais, confirmarão igualmente que o sistema de fraude nos exames se tornou terrivelmente enraizado nas Universidades portuguesas. Ignorar estas duas realidades é que não. E ignorá-las é o que as nossas autoridades têm estado a fazer, como se vê pelas citações reproduzidas. E acrescento: isso é tão grave quanto a prática ilícita que tem estado a ocorrer e é também sinal de que as nossas autoridades estão arredadas da realidade do que é a Universidade. Vivem na sua torre de marfim!

Esta nossa posição é o oposto do que significa a afirmação do “ presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, António Sousa Pereira, [em que] reconhece que é preciso:

“fazer formação pedagógica” dos professores para que estes “aprendam a fazer testes à distância”. “O problema é que fazer avaliação desta forma não é pegar num teste daqueles que se dão presencialmente e dá-lo online. Isso não funciona”,

E também o oposto da posição assumida pelo meu ex-colega Paulo Peixoto – e reproduzo o texto do Público:

“As desconfianças em torno da avaliação à distância são responsáveis por um “ambiente muito pesado” que se vive no ensino superior, avalia Paulo Peixoto, investigador da Universidade de Coimbra, que faz parte do Instituto Internacional para a Pesquisa e a Acção sobre Fraude Académica e Plágio. “Há professores verdadeiramente paranoicos com esta situação.

Os docentes “querem saber quem está de facto do outro lado do computador: se serão os alunos, um irmão, um colega ou até uma pessoa contratada”, prossegue Peixoto. O clima está a contribuir para tornar as avaliações online “num verdadeiro inferno” para os professores e também para os alunos, diz. O receio da fraude, levou muitos docentes a apertar regras para a realização dos exames à distância e também a fazer exames mais difíceis, o que pode ter impactos nas notas dos alunos.

Ao contrário do que aconteceu com as aulas remotas – “os professores evoluíram bastante”, defende Paulo Peixoto – no que toca às avaliações “a situação degradou-se do primeiro para o segundo confinamento”, entende o investigador da Universidade de Coimbra.” (…)

E ainda:

“Todas estas condicionantes poderão ter consequências nos resultados dos alunos, antecipa Paulo Peixoto, da Universidade de Coimbra. A “desconfiança dos professores” vai resultar “em maiores taxas de reprovação” e “notas mais baixas”.

Curiosamente, sublinho o facto confirmado por Paulo Peixoto, de que “a situação [se] degradou do primeiro para o segundo confinamento”.

Pudera! Com o facilitismo ocorrido o ano passado, porque é que não haviam de se degradar agora. A ocasião faz o ladrão, sempre se ouviu dizer. E por que é que a tensão dos professores não haveria de aumentar, sendo professores conscientes e sabendo o que se passou no ano passado? Uma tensão que só os dignifica a eles e que dá uma triste imagem daqueles que criticam a existência da mesma, como é o caso agora de Paulo Peixoto. Porém, as duas críticas vão mais longe: culpam agora os professores pelas más notas daqueles que não estudam ou que se servem de meios ilícitos para ter aprovação nos exames. Nunca me passaria pela cabeça que a questão pudesse ser vista desta maneira, depreciando – e de que maneira – o trabalho de todos aqueles que lutam dignamente contra a maré do facilitismo.

Ora, quer o Conselho dos Reitores quer o Provedor dos Estudantes da Universidade de Coimbra, Paulo Peixoto, o que deviam era cobrir-se de vergonha por termos uma Universidade em que os professores são insultados desta maneira e ninguém se mostra insultado, indignado, talvez porque mostrar-se indignado apenas tenha custos. Indignai-vos, foi o grito de Stéphane Hessel, mas a indignação é um sentimento que as próprias Universidades estão a perder, como se vê, tal é o estado de anomia em que os nossos responsáveis as colocaram!

Mas se queremos defender os estudantes há coisas muito mais urgentes pelas quais pugnar tais como:

  1. Serviços de Saúde Estudantis, os Serviços Médico-Sociais de outrora, a não viverem de bónus dos médicos. Esse tempo também já lai vai. Pessoalmente procurei muitas vezes “borlas” entre os meus amigos para estudantes em dificuldades.
  2. Rastreios sanitários anuais para estudantes. E esta proposta não tem a ver com Covid. Tem a ver com gente muito jovem a viver separada das famílias.
  3. Centros de acolhimento para os Palops, como outrora já houve em Lisboa. Ter estudantes deslocados a viver num profundo isolamento social como agora aconteceu é, simplesmente, criminoso. Um simples pormenor: numa oral, a minha colega Margarida Antunes chamou-me a atenção para as notas de dado aluno africano, mais precisamente da Guiné. As notas do primeiro semestre eram todas baixas, as do segundo semestre eram genericamente todas boas. Perguntei-lhe como é que ele explicava aquilo. Recebi uma resposta que me cilindrou. De inverno tenho muito frio, fico muito tempo na cama e é aí que estudo! Tudo dito.
  4. Organizar, por grande área de ensino, um ano de preparação, à entrada para a Universidade, para os estudantes dos Palops. E não me digam que isto é racismo.
  5. Organização ao nível dos Serviços Académicos serviços de apoio a estudantes com dificuldades económicos. Pessoalmente cheguei muitas vezes a comprar eu próprio os textos de apoio às disciplinas que eu lecionava. Sei, portanto, do que estou a falar e a Maria José, empregada da secção de textos, que com muito afeto aqui recordo, lembrar-se-á também.

Um pequeno pormenor. Uma vez fiz oral a um aluno da Guiné com o meu colega Luís Peres Lopes. Este diz que ele era seu aluno das práticas e que era um aluno muito bom. Estranhei e perguntei como é que explicas que venha então à oral. Não sei, retorquiu. A oral começou e senti que tinha pela frente um aluno muito bom. Puxei a oral ao máximo para lhe a dar a nota máxima de oral, um 18. E perguntei com espanto: como é que explica que sabendo como sabe tem esta nota na prova escrita? Estive internado no hospital com um problema, creio que numa perna, Saí ontem, foi a resposta. Pensei uns segundos e disse-lhe: passa para o quinto ano. Quero que me dê o prazer de lhe oferecer os livros e sebentas do seu quinto ano. Assim foi. Mais tarde soube pela minha colega Paula Fontoura do ISEG que no mestrado que dirigia ele tinha sido um dos alunos mais brilhantes que conheceu. Coisas destas poderiam ser institucionalizadas.

  1. Organizar ao nível da Reitoria serviços de apoio a estudantes com deficiências específicas. Aqui conto uma história, uma história que comove sempre que me lembro dela.

Era uma vez. As histórias começam sempre assim, mesmo as verdadeiras como é aqui o caso. Tive um aluno de baixíssima visão em Economia Internacional, de nome Hermínio, hoje falecido. Fez com duas colegas o trabalho que foi depois discutido numa oral longa com notas individualizadas. É posta uma pergunta sobre um gráfico relativamente complexo a uma das alunas e esta não responde. Passo a mesma pergunta à outra colega e esta também não responde. Fiquei atrapalhado. Como é que me desenrasco desta, questionei-me. Ninguém vai perguntar a alguém praticamente cego que descreva um gráfico que tem pela frente. Curiosamente uma das colegas pega-lhe na mão, ele estende o dedo indicador e a colega fá-lo passar o dedo indicador por todo o gráfico. Milagre, a única pessoa que via, daquele trio, era o cego. A resposta saiu certa e com profundidade! Como foi possível esta resposta? Pessoalmente sinto-me como tendo feito parte do material que lhe forneceu as bases científicas para essa magia se ter verificado. Como? Explico. Naquele tempo o serviço da Reitoria tinha um serviço de apoio a alunos com deficiência específica. Por exemplo, passavam os textos para Braille. Eu lia os textos da disciplina, e marcava a amarelo o que era fundamental traduzir para Braille e entregava-os aos serviços. Fi-lo um a um e eles traduziram-nos para Braille um a um. Deu-me muito trabalho mas senti-me profundamente gratificado. E a prova estava na magia daquela oral. E tratou-se de um trabalho que nem uma linha valia no currículo, e atualmente seria mesmo um trabalho depreciado e exatamente porque não contaria para nada. Na contabilidade do sistema universitário de hoje isto não é quantificável e como tal, simplesmente não tem valor e não o tem porque é um espaço que não é redutível ao espaço da quantidade.

Hoje, creio que nada disto é possível e, se assim é, é pena que assim seja. Seria mais um ponto que o meu colega Paulo Peixoto poderia defender.

E fico-me por aqui.

 

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Sobre este assunto, deixo aqui a posição de dois docentes face à situação das avaliações escritas não-presenciais:

Do Professor Doutor Rui Bebiano, da Universidade de Coimbra, em 22 de fevereiro de 2021 (ver aqui):

 

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De JF, em 25 de fevereiro de 2021:

“Li o teu texto e não sei quantos não-indignados vão ficar ‘indignados’.

Já ninguém se rala nada a não ser com a progressão na… carreira”

 

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NOTA

[1] “Em jeito de carta aberta dirigida ao Ministro do Ensino Superior, aos Magníficos Reitores, de ontem e de hoje, particularmente João Gabriel e Amílcar Falcão que foram uns verdadeiros falcões da austeridade no Ensino Superior, assim como aos Reitores de amanhã, também” (aqui), “A Universidade em declínio a Alta Frequência – Carta aberta aos docentes e investigadores de hoje e aos Reitores de amanhã” (aqui), “A Universidade em declínio a Alta Frequência – Em forma de carta aberta aos reitores de ontem e de hoje, que espero não sejam os de amanhã também” (aqui), “A Universidade em declínio a Alta Frequência – Comentário às reações desencadeadas pelo texto “A Universidade em declínio a Alta Frequência – Em forma de carta aberta aos reitores de ontem e de hoje, que espero não sejam os de amanhã também”” (aqui).

 

3 Comments

  1. Caro Júlio Mota. Fui o primeiro Provedor do Estudante da Universidade de Coimbra que, como sabe, tem por função defender os direitos dos estudantes. Tinha para mim que o primeiro direito do estudante da UC era o de sair devidamente formado como pessoa e na área do seu estudo. Penso que o atual Provedor mantém a mesma ideia e não concluo, das palavras que dele são citadas no Público e por si, que defenda qualquer tipo de facilitismo ou qualquer ideia de responsabilização dos docentes pelo que de negativo se possa vir a verificar com as avaliações. No artigo do Público vejo que os docentes têm vindo a procurar formas tecnológicas de garantir a maior equidade (várias camaras, respostas ordenadas, verificação do local de realização da prova, etc.). Não serão as melhores soluções, poderão existir outras mais adequadas, mas demonstram que os docentes estão atentos ao problema. O receio de que o estudante, cometendo fraude, prejudique os colegas é, assim, menor. O que é desejável. Evidentemente há estudantes que consideram que essas exigências lhes reduzem o “direito” de cometer fraude, mas esse não é um direito que o Provedor deva defender. Por outro lado, os estudantes têm direito a não ser reprovados ou a não terem notas mais baixas do que teriam noutras circunstâncias, por um eventual receio do Docente de que a fraude seja possível. Ela, como sabemos, é sempre possível em exames presenciais ou on-line, em trabalhos de grupo ou em dissertações de doutoramento. Essa preocupação deve fazer com que o Provedor recomende os maiores cuidados na forma de avaliar, por forma a reduzir o risco de fraude e, portanto, a não provocar o efeito negativo enunciado. E a recomendar que os estudantes sejam informados, com toda a clareza, de quais as consequências para o seu futuro académico de cometerem fraude ou de a tentarem.

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