CARTA DE BRAGA – “da pandemia e de violinos” por António Oliveira

A pandemia que está a alterar completamente as nossas vidas, mostra um conflito tremendo entre as visões globais sobre a sociedade.

Esta afirmação é do filósofo Slavoj Zizek, numa entrevista que começa por dizer, sem quaisquer subterfúgios ‘Necessitamos de uma nova ordem que evite termos de escolher entre a economia e salvar vidas’.

Na realidade, olhando o último e agora divulgado relatório da OXFAM, um conjunto de duas dezenas de organizações internacionais que luta contra a desigualdade, ‘Os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas, cerca de 60% da população mundial’.

O historiador, professor e cronista Pedro Angosto, chama a atenção para esta feroz desigualdade, a propósito do atraso no fornecimento das vacinas, ‘Desde os anos oitenta, abrigadas pelos sistemas de Segurança Social, as farmacêuticas praticam uma espécie de extorsão aos estados e aos cidadãos que os compõem. Aproveitam as investigações feitas, com fundos públicos na primeira fase, seleccionam as mais rentáveis, para ficar com elas e as vender depois aos mesmos estados, com preços de monopólio, sem que se dê valor à origem e ao começo da investigação’.

E Pedro Angosto é ainda muito mais duro, ‘Na hora de valorizar os novos tratamentos, não se tem em conta a necessidade das pessoas, nem os benefícios a longo prazo, só se considera que, em cinco anos, a quantidade investida se deve multiplicar por cem ou por mil, nas contas da multinacional’.

Uma situação repugnante e inadmissível porque, por tão dramática e catastrófica, nada nem ninguém tem o direito de decidir a quem vende e por quanto vende e os estados têm de obrigar as farmacêuticas a liberar as patentes das vacinas porque, diz ainda o relatório da OXFAM, ‘9 de cada 10 habitantes de países pobres ficarão sem vacina em 2021, enquanto os países mais ricos, compraram uma quantidade de vacinas suficiente para imunizar suas populações inteiras por três vezes’.

Uma outra afirmação também lhes merece o destaque de um apontamento à parte ‘Os 10 homens (brancos) mais ricos do mundo acumularam cerca de US$ 500 bilhões desde que a pandemia começou. Isso é mais do que suficiente para pagar vacina contra a covid-19 para todas e todos’.

O suficiente para acudir às imensas populações desfavorecidas em África, América Latina, extensas áreas do sudoeste asiático e os amplíssimos e paupérrimos estratos sociais nas potências emergentes como Índia, Brasil, Rússia e até mesmo nos states

Mereceria também uma análise profunda e uma solução adequada, o que se está a passar na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, onde não se pode entrar nem sair e que, a juntar às outras já apontadas, representam cerca de um terço da humanidade. 

Se estas situações não ficarem resolvidas rapidamente, quantas mais pandemias teremos depois desta, até aprendermos a viver de um outro modo mais justo, ou cairemos no caos e num colapso, onde qualquer solução será tardia?

Estamos naquilo que alguém definiu como uma ‘dobra’ na evolução da humanidade.

Uma dobra vista assim pelo sociólogo e economista José Molina, ‘Herdámos um sistema democrático em estado degenerativo na política, na economia, no social e nas crenças. Estamos a ver como se profanam os ideais que impulsaram os movimentos regeneradores da Humanidade. Há que encontrar, urgentemente, uma ideia que dê novas forças à democracia e fomente o diálogo em todas as forças políticas’ .

Utopias à parte, nem todos os actores dos actuais teatros do mundo económico, político, social e religioso, parecem capazes de se poder considerar válido tal desiderato e veio-me à memória mais um dos aforismos do saudoso Eduardo Galeano ‘El poder es como un violín. Se toma con la izquierda y se toca con la derecha’ .

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

Leave a Reply