UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (103) – Reposição

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CASA DOS 24
Os Paços do Concelho

A designação popular de Casa dos 24 deve-se ao facto de, até 1757, ano da sua extinção provocada pelos incidentes da Revolta da Companhia, quando da vinda para o Porto do Governador João Almada e Melo, aí se reunirem os 24 representantes dos vários mesteres (ofícios), 2 de cada mister, da cidade do Porto.
Na “História do Porto de Francisco Ribeiro da Silva” consta que em 1613 o espectro profissional presente na Casa era o seguinte: Sapateiros – 3 elementos, Sombreireiros – 2, Alfaiates – 1, Baínheiros – 1, Sorradores – 1, Ferreiros – 2, Picheleiros – 1, Barbeiros – 2, Correeiros – 2, Pedreiros – 2, Tanoeiros – 2, Cordoeiros – 1 e Carpinteiros – 1. Feitas as contas, na altura só havia 21 representantes.

Da esquerda para a direita SÉ DO PORTO - CASA DOS 24 - VIMARA PERES
Da esquerda para a direita
SÉ DO PORTO – CASA DOS 24 – VIMARA PERES

 

"Casa dos 24" e Sé
“Casa dos 24” e Sé
Casa dos 24 Vista Norte
Casa dos 24
Vista Norte

Durante muitos anos, os Paços do Concelho do Porto situavam-se na Casa-Torre, edificada no Século XV, situada a apenas sete metros das paredes da Sé do Porto, com entrada pelo Pátio da Sé e pela rua de S. Sebastião. Em 1784 a Câmara viu-se obrigada a mudar a sua sede para o antigo Colégio de S. Lourenço, ocupando-o numa parte cedida por arrendamento pelos Agostinhos Descalços, porque as condições de segurança da Casa-Torre se tinham agravado irremediavelmente.

(Serviu no entanto, posteriormente, e apesar das fracas condições de segurança, de cadeia e asilo para prostitutas e sem abrigo, entrando rapidamente em ruína)

Onze anos passados, voltou a mudar de instalações, desta feita para a Casa Pia, e mais tarde ainda, para o Palacete da Praça das Hortas, onde se manteve entre 1819 e 1916 (mandada destruir para a abertura da Avenida das Nações Aliadas, mais tarde chamada Avenida dos Aliados). Era no cimo deste edifício que a estátua “O Porto” se encontrava primitivamente.

Casa dos 24 Entrada pela rua de S. Sebastião
Casa dos 24
Entrada pela rua de S. Sebastião
Casa dos 24 Fotografia Internet, anterior a 1934
Casa dos 24
Fotografia Internet, anterior a 1934

A primitiva Casa era um edifício de grande altura, todo construído em granito, com entrada pela “loja” na rua de S. Sebastião, e tinha dois andares, sendo que o segundo tinha uma imponente entrada pelo Pátio da Sé.

(A envolvente da Sé não era como hoje a conhecemos. Na década de 1940 este espaço sofreu alterações significativas provocadas pelas demolições e arranjo urbanístico ordenados pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Demoliram-se vários quarteirões de feição medieval que ainda subsistiam e que se encontravam em frente à Sé, alargando-se amplamente o seu Terreiro.

Mesmo em frente à porta da Sé do Porto estava a Capela dos Alfaiates que foi desmontada e reconstruída em 1953 na Rua do Sol, onde actualmente se encontra. Nas imediações estava, também, uma casa torre que foi reconstruída, reinterpretada e rebaptizada como Torre Medieval do Porto. A quase totalidade das construções do local desapareceram para sempre, nomeadamente a antiga Cadeia do Bispo e a casa armoriada que pertencia ao conde de Castelo de Paiva. Desapareceram também diversos arruamentos como o Largo do Açougue e as Ruas das Tendas, do Faval e da Francisca.

Em 1945, foi colocado pela Câmara Municipal do Porto, no centro do novo Terreiro da Sé, um pelourinho – o que ainda hoje lá se encontra –  como remate das obras de reestruturação da zona envolvente da Sé)

PELOURINHO existente no Terreiro da Sé Fot Internet
PELOURINHO
existente no Terreiro da Sé
Fot Internet

O prédio (Casa dos 24) era coroado por uma linha de ameias. Na loja situava-se um dos armazéns da Câmara, dedicado ao depósito de parte importante das armas e munições existentes para defesa da cidade. O primeiro andar era utilizado como sala de audiências, e no segundo andar, para o qual se subia por uma escada interior de madeira, ficava a Sala do Senado, local onde se efectuavam as sessões da Câmara.

A Casa-Torre, de que se conservam ainda ruínas na parte da rua de S. Sebastião, após incêndio em 1875, foi recuperada pelo Arquitecto Fernando Távora, assentando sobre parte das ruínas existentes, tanto da primitiva torre como da primeira muralha a que ela estava encostada. Essa recuperação, feita em 2000/2001, que respeitou a altura de “cem palmos” do edifício original, não respeitou no entanto o aspecto dos materiais da Casa-Torre, sendo hoje um edifício de traça moderna. A escassos metros da fachada em vidro (muito bonita por permitir a visão sobre a cidade, mas que nada tem a ver com o que alguma vez foi), colocou a estátua “O Porto”, virada de costas para a cidade, e não tem, hoje, qualquer serventia efectiva, embora tenha sido programada para ser unicamente um Memorial Recordatório. Felizmente, e no que respeita à estátua “O Porto”, a actual vereação decidiu mudá-la de lugar, colocando-a na Praça da Liberdade, ali ao lado do edifício do Banco de Portugal.

Estátua "O PORTO", agora colocada na Praça da Liberdade. No capacete, a estátua ostenta o Dragão da Cidade, retirado das nossas armas em 25 de Abril de 1940
Estátua “O PORTO”, agora colocada na Praça da Liberdade.
No capacete, a estátua ostenta o Dragão da Cidade, retirado das nossas armas em 25 de Abril de 1940

 

"O PORTO" Quando estava, tristemente, de costas para a cidade Fot. Internet
“O PORTO”
Quando estava, tristemente, de costas para a cidade
.Fot. Internet

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Conversa com Joaquim António Gonçalves Guimarães – “O Vinho Verde na obra de Eça de Queiroz”

Quinta da Cesta – Engº Gonçalo Correia

Vinhos “Lethes” – Dr. Alberto Meirelles

 

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5 Comments

  1. Uma vez mais o seu deambular pelo Porto de paixão -belíssimas fotos -adorei .
    O Porto tem uma vida activa artística -Parabéns .

    Escolhi a frase seguinte sobre a música “A parte boa da música é que quando ela te atinge, não sentes dor alguma. (Bob Marley)

    Adoro jazz…senti saudades de tempos roubados cruelmente -Obrigada Amigo José Magalhães .

  2. Sabias que alguns pseudo-artistas, (e isto a propósito do Porto de costas voltadas à sua origem), acham de forma mentecapta, que a aberração, é o único veículo que lhes permite chegar á grande maioria dos acéfalos que perpetuam o nauseaum-continium da estupidez humana,que lhes garante (€) uma única, e só, efémera , privada e ignorada abrilhantação “ criativa”??
    Tudo e sempre ( nauseaum-continium) com o beneplácito, de quem elegemos…

  3. Muito giro, se bem que eu não chamo aquilo um pelourinho, no máximo é um pseudo-pelourinho! Enfim… Parabéns pelas fotos e texto!

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