A ITÁLIA NA ENCRUZILHADA – XI – por ANNA ROSA SCRITTORI

 

 

A crise

Um cruzamento insuportável entre crise pandémica e crise política assinalou profundamente a vida dos italianos já no fim de 2020. Se a pandemia, com as vagas intermitentes de contágios e mortes, destruiu os fundamentos da vida social, a crise política, agora, corre o risco de lhe comprometer o futuro. Os factos são conhecidos: embora tenha contribuído pessoalmente para o nascimento do governo de centro-esquerda no Verão de 2019, Matteo Renzi não hesitou em lhe decretar o fim, primeiro com contínuas acções provocadoras sobretudo a propósito dos projectos do Recovery Fund (um empréstimo parcialmente favorecido de cerca de 200 biliões por parte da UE), depois com a retirada dos seus ministros, o que provocou a demissão do primeiro-ministro Conte.

Matteo Renzi, como se sabe, possui uma especial habilidade táctica para desconstruir as situações em que não seja protagonista absoluto. Grillo, que nos últimos tempos se deleita com textos clássicos (!!!), acusou-o com as palavras que Cícero reservava a Catilina (conhecido maçador): «Usque tandem Catilina abuterit patientia nostra? (Até quando, ‘Matteo’, abusarai da nossa paciência?)».

Se o objectivo declarado de Renzi parecia ser o de libertar-se do primeiro-ministro Conte (que guiava o governo verde-amarelo desde 2018), na realidade ele pretendia pôr em crise a aliança entre o PD e o M5s, tendo em vista, sobretudo, as próximas eleições e, mais ainda, destabilizar o PD que, no mesmo ano de 2018, não lhe tinha renovado o cargo de secretário. Com efeito, logo a seguir à formação do novo governo amarelo-vermelho (centro-esquerda,2019), Renzi tinha fundado um seu partido (“Itália Viva”, agora com 2% de consensos), anexando-lhe deputados e ministros eleitos pelo próprio PD.

O governo Draghi

Ainda que Renzi continue a gabar-se de ter causado, com a sua perspicácia, a chegada de Mario Draghi, a constituição de um novo executivo “especial” deve-se principalmente à intervenção do Presidente Mattarella. Depois de constatar que a precedente maioria de centro-esquerda não conseguia encontrar um consenso estável no Parlamento, e porque a pandemia desaconselhava o recurso a eleições antecipadas, o Presidente preferiu avançar com um governo de emergência nacional, confiando a Draghi a tarefa de enfrentar da melhor maneira, quer a crise sanitária, quer a crise sócio-económica.

Ao definir as linhas do seu governo, Mario Draghi soube conjugar a sua celebérrima habilidade de técnico com as intuições do político. De facto, construiu o seu executivo a partir de duas precisas hipóteses de trabalho: um grupo de especialistas consolidados, de sua confiança, para as questões mais urgentes e inovativas: digitalização, intervenção contra as alterações climáticas, reforma da Escola, plano económico anti-pandemia; por outro lado, os ministérios mais tradicionais confiados a representantes de todos os partidos (excluindo os neo-fascistas e os da extrema-esquerda), aos quais é portanto pedida a responsabilidade política de propor soluções partilhadas para os graves problemas do trabalho, da saúde, da cultura, do turismo, das relações com as regiões, etc..

Assim, os adversários de outrora, berlusconianos e 5 estrelas, democratas e leguistas foram postos a trabalhar lado a lado, não sem problemas, como sustenta o costumado Grillo, citando Platão: «Não conheço uma via infalível para o sucesso, mas para o insucesso uma via é segura: contentar todos».

Na realidade, enquanto a “cabine de regia” está enfrentando com sucesso os problemas da campanha de vacinação e da nova pobreza, são os partidos que têm maior dificuldade de adaptação: os leguistas, depois de terem precipitadamente abandonado a sua conclamada aversão pela União Europeia, adaptaram a clássica dupla estratégia “de governo e de luta” com a ajuda de Salvini que, de fora, não poupa críticas às acções de governo de todos (também seu): na verdade, porém, a estrutura “comissariada” de governo de saúde pública criou sérios problemas sobretudo aos partidos da antiga coligação de centro-esquerda; os “grillini” aderiram ao governo sem o consenso de muitos dos seus parlamentares, o que provocou a intervenção de Grillo com a proposta de reunir o seu grupo sob a direcção de Giuseppe Conte. Um tal movimento pôs em dificuldade o secretário do PD, que tinha apostado em Giuseppe Conte como “federador” de uma futura aliança estratégica, entre democratas e “grillini”. Assim, no seguimento das fibrilações das correntes do seu Partido, evidentemente em grave crise de identidade, Zingaretti apresentou a demissão.

Cursos e recursos

A reconstrução do Partido Democrata está agora nas mãos de Enrico Letta, que acaba de ser eleito como novo secretário. O seu programa prevê a refundação do Partido, definindo uma possível aliança com o M5s, a partir, porém, da voz do território e de todas as realidades – comités e associações várias, como as “Sardne” e o fórum das novas pobrezas, que devem necessariamente acompanhar e motivar a acção política dos parlamentares no novo governo.

Por um curioso efeito do destino, Letta torna a ser protagonista da cena política italiana, que tinha abandonado definitivamente em 2014 quando, por causa da deserção do seu partido (PD), teve que ceder a direcção do governo de então a Matteo Renzi, o qual, pouco antes de tomar posse como presidente do Conselho, lhe tinha mandado a seguinte mensagem: «Enrico, está calmo».

 

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