CARTA DE BRAGA – “de redes e liberdade” por António Oliveira

Srećko Horvat, discípulo do tão divulgado Slavoj Zizek, também amigo e colaborador de Yanis Varoufakis, é um filósofo e poeta croata que, no seu último trabalho, por acaso um livro de poemas com o curioso e apelativo título ‘Poesia do futuro’, defende a necessidade de mudar o sistema, claramente o neoliberalismo, para salvar uma civilização que está a caminho do apocalipse. 

E adianta Horvat, ‘Há que fazê-lo hoje, não amanhã; devemos desprender-nos de ideias obsoletas como fronteiras, identidades nacionais ou liberalismo económico e caminhar juntos para um mundo novo’, mas um mundo onde até poderemos estar sujeitos a uma ‘servidão mecânica’, por a tecnologia nos estar a arrastar para uma nova forma de totalitarismo, ‘a proletarização da mente humana, pois agora o capital tira os seus benefícios mesmo da alma do trabalhador’.

Na verdade, a maioria das pessoas nem sequer dá conta de estar já mergulhada em diversos tipos de tecnologias, nem de como elas lhes comandam a vida, ‘estamos já numa situação de nem sequer sabemos se somos livres! A internet só foi um espaço de liberdade, na sua origem! Isso é uma coisa que as gerações mais jovens que a minha, não conheceram. Para elas a net é Google, Facebook ou Instagram. Acedem à rede através dessas grandes multinacionais, cujo objectivo é, obviamente, acumular lucros e, para isso, armazenam os dados pessoais de toda a gente’.

E o filósofo e poeta tem medo de que o estado de excepção que estamos a viver, se prolongue indefinidamente, por as pessoas se poderem habituar a este estado das coisas e, ‘a forma como se usa a tecnologia, pode ter consequências geopolíticas a longo prazo’.

Também o investigador e escritor bielorrusso, Evgeny Morozov, fundador do ‘The Syllabus’, começou por acreditar na revolução digital, mas as investigações de mais de uma dezena de anos, levaram-no a concluir que ‘a rentabilidade é o único imperativo que rege o mundo tecnológico e percebi como os governos autoritários podiam formatar novas opiniões, através da propaganda digital, vigiar os dissidentes e controlar a sociedade’.

Há muito que esta situação merece a atenção de muitos estudiosos e pensadores, mesmo daqueles que nem sequer poderiam imaginar o que viria a ser este mundo digital, um mundo onde se pode estar em qualquer lado pelo poder de um click.

Thomas Hobbes, matemático e filósofo do séc XVI, costumava dizer ‘A política move-se em algum ponto entre a segurança e a liberdade’ e, ainda nesse mesmo século, o filósofo e cientista Francis Bacon, garantia ‘É um propósito estúpido e estranho perseguir o poder e perder a liberdade; mais tarde, já no século XVIII, Benjamim Franklin, um dos maiores vultos da história norte-americana, ajuizou bem, ‘Aqueles que cedem a liberdade para adquirir uma pequena segurança temporal, não merecem liberdade nem segurança’.

Considerações a ter em conta, numa época em que aquelas multinacionais e as redes que as sustentam, canalizam praticamente a comunicação toda, bem como a maioria das interacções sociais, sem qualquer concorrente nesse mercado da economia da atenção; um facto a ter também em conta, até porque os algoritmos e as regras que impõem a todos os usuários, pode mesmo levar a afirmar-se que afectam o direito à liberdade de expressão. 

Em questão estão aqueles algoritmos, mutáveis, opacos, impossíveis de auditar e por isso mesmo desproporcionados, algoritmos que, de algum modo, afectam pessoas e organizações que também dependem de contactos a todos os níveis, sem nunca saberem como, nem de que maneira, apesar de cederem gratuitamente todos os seus dados – localização, contactos, gostos e hábitos – sem nunca terem conhecimento da maneira como são usados, tanto os dados como as pessoas.

Não há dúvida que, nas últimas dezenas de anos, as plataformas digitais se transformaram nos guardiães da palavra e do entretenimento, ocupando o lugar que, talvez durante séculos, foi ocupado pelas indústrias culturais, nascidas com a imprensa, depois potenciadas pela rádio e pela televisão. Plataformas onde agora, se encontram a notícia, a opinião, os vendedores e os publicistas, os curiosos, os gerentes e os ‘sipaios’, porque amos e senhores se mantêm sempre longe da turba. 

De qualquer maneira, mesmo longe da turba, sabem sempre como as coisas andam, porque o alcance global, a grandeza e a omnipresença das plataformas, mais o seu nível altíssimo de concentração, lhes permitem o acesso instantâneo a qualquer dos teatros das operações a efectuar, seja qual for a sua importância.

O veterano jornalista e escritor Juan José Millás, define bem esta situação ‘A política está muito atrás, não já do coronavírus, mas sim das suas consequências, por ter dado um empurrão tão grande ao mundo digital que, o que iremos ver quando tudo tiver passado, será irreconhecível’.

Também já não tenho dúvidas, até por ter lido em qualquer lado que, em Torres Novas, um fulano que comia sozinho uma sandes dentro do seu carro, foi multado em 200€, por lhe aplicarem exactamente o que Hobbes afirmou, ‘A política move-se em algum ponto entre a segurança e a liberdade’. 

A única interrogação, pequenina, embora latente, está no facto de saber que outro cientista, o físico dinamarquês Niels Bohr, afirmou convictamente ‘Predição é muito difícil, especialmente se for sobre o futuro’, mas haverá dificuldade em o reconhecer, com toda a certeza. 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 
 

Leave a Reply