GRILLO E A AMPULHETA DO DUPLO MANDATO: ALARME ENTRE OS REPRESENTANTES ELEITOS, por GIULIANO SANTORO

 

 

Grillo e la clessidra del doppio mandato: allarme tra gli eletti, por Giuliano Santoro

Il Manifesto, 28 de março de 2021

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

M5S. O fundador reitera o valor do princípio. Um terço dos deputados, e todos os manda-chuvas, estariam a expirar

 

“Falámos durante mais de três horas sobre a transição ecológica, mas foi suficiente para Beppe mencionar durante alguns minutos a regra dos dois mandatos para desviar a atenção dos observadores”, é isto que se verifica nos escalões superiores do Movimento 5 Estrelas após a reunião conjunta (à distância) na sexta-feira à noite. Os deputados e senadores tinham sido convocados para um seminário sobre a transição ecológica com uma palestra do Professor Marco Morosini, um dos teóricos e inspiradores da viragem verde do M5S, e a presença do Ministro Roberto Cingolani.

GRILLO surpreendeu por uma breve introdução na qual lançou a bomba: “O limite de dois termos é um pilar, não pode ser tocado”. Depois prometeu: “Os eleitos que terminarem o seu segundo mandato não serão abandonados”. Uma  subordinação que se quer  tranquilizadora  mas que teve o efeito de reforçar o conceito: para os mais de sessenta parlamentares (cerca de um terço do total) que estão no seu segundo mandato o jogo terminaria aqui, e entre eles estão quase todos os grandes nomes. Apenas Stefano Patuanelli seria salvo, porque foi conselheiro municipal na última legislatura e, portanto, ainda tem um cartucho para disparar. E é fácil compreender que  Conte corre o risco de cair vítima dos coronéis que lhe estenderam o tapete vermelho por agora, caso decida que a sua presença nos palácios irá expirar com o fim desta legislatura.

POR COSEQUÊNCIA, ENTRE AS REGRAS que  Conte irá propor nas próximas semanas, a que talvez tenha mais caracterizado a história do M5S permaneceria em vigor, o único princípio que ainda não conheceu excepções significativas mas sobre o qual as pessoas têm vindo a pedir para intervir desde há algum tempo. Esperava-se que tivesse acontecido durante os Estados Gerais de Novembro último, mas a pressão da base desaconselhava-o nessa altura. A regeneração do M5S por obra de Conte parecia ser a oportunidade perfeita, mas Grillo não parece concordar.

O FACTO de que a sua saída tenha sido  completamente inesperada confirma a dinâmica contraditória em que o Movimento 5 Estrelas tem vindo a deslizar nos últimos tempos. Se por um lado há um movimento no sentido da “normalização”, e por isso são lançados sinais de estima para Draghi, imagina-se uma comunicação construtiva e cada vez menos apocalíptica, procura-se um lar no seio de uma das famílias europeias e constrói-se uma relação estrutural com o centro-esquerda. Por outro lado, contudo, o M5S parece ser realmente o das origens, em que ninguém sabia nada antes de Grillo ter falado  e mostrado  o caminho, e em que a mesma comunicação com o exterior respondeu a indicações muito precisas fornecidas de cima.

DESTA discrepância resulta o fosso entre  Grillo e os representantes eleitos. O elevado  e os seus conselheiros podem permitir-se raciocinar sobre sistemas máximos. No blogue do Grillo fala-se da necessidade de construir “uma sociedade baseada em pessoas e tempo libertado” em vez de “uma sociedade como a nossa, baseada em coisas e tempo trabalhado”. Ou, há apenas alguns dias, o próprio Grillo fez circular um apelo à OCDE para convidar os países ricos a comprar vacinas anti-Covid para os pobres que não as podem pagar.

ESTES HORIZONTES não correspondem ao clima que circula entre a maioria dos eleitos, à espera de saberem que regras serão aplicadas no M5S, quem irá gerir os recursos, que relação será mantida com Davide Casaleggio e a plataforma Rousseau. Estes dois níveis, o das estratégias de médio-longo prazo evocadas por Grillo com a data simbólica de 2050 e o das táticas de curto prazo porque a política quotidiana é inexoravelmente composta, arriscam-se a colidir porque falam línguas diferentes e são movidos por gramáticas quase irreconciliáveis. A força que em muito poucos anos se apoderou de centenas de representantes eleitos que se sentaram nas instituições e aprenderam os seus truques e vícios está a incubar uma contradição que corre o risco de cair no colo de Conte, a de um partido que nunca deixou de o ser enquanto poder mas que ao mesmo tempo gerou miríades de micro-poderes e que deve encontrar uma forma de funcionar e sedimentar a classe dirigente.

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