CARTA DE BRAGA – “da juventude e da fidelidade” por António Oliveira

Temos assistido, um pouco por todo o mundo, a uma indiscutível mudança de paradigmas, principalmente na relação das pessoas consigo mesmas, onde o predomínio dos valores individualistas entre as novas gerações, está intimamente ligado à desconfiança que mostram pelas instituições e pela política, em todo o seu conjunto. 

Esta é uma das principais conclusões de um estudo feito em França, Alemanha, Grã Bretanha e Itália, onde também se salienta a decepção com as promessas não cumpridas pela democracia no campo social, particularmente na segurança, justiça e progresso sociais.

O individualismo ganha terreno entre os jovens, tanto mais que a esquerda parece não ter já a capacidade de ‘dar forma ao mundo’, por também já não ter capacidade para impor as suas receitas e soluções ao imaginário colectivo, como aconteceu nos anos 70 e 80, onde havia razões fortemente motivadoras como a guerra no Vietnam, a Fração do Exército Vermelho na Alemanha, as Brigadas Vermelhas em Itália e ainda a então chamada Primavera de Praga, tudo questões que eles hoje desconhecem completamente, agora substituídas pelas migrações, pela mudança climática e por uma gritante desigualdade, que parecem não ter um fim à vista. 

Independentemente deste estudo, tem vindo a verificar-se que se pretende, das mais diversas maneiras, ‘inocular’ nas pessoas, mormente nos mais novos, que deverão e terão de lutar por uma liderança individual forte, para ampliar de qualquer modo o seu ‘capital humano’, pois só subindo deixando ‘arrumados’ os eventuais competidores, terão aumentados bens e as virtudes, porque o caminho para o êxito passa pelo ‘capital’ que se consegue, sempre com a obrigação de o cultivar e valorizar em permanência. 

É um processo que tem também algumas décadas de sedimentação, que foi destruindo lentamente a ideia de solidariedade, ao mesmo tempo que mandou para o canto dos descartáveis, as poucas vantagens que ainda estavam ao lado dos assalariados, como uns vencimentos minimamente decentes, que não reflectissem o ‘fosso enorme’ existente entre quem gere e quem é gerido, amargo espelho da situação dos últimos anos, no campo económico, logo reflectido no social.

E, quando os vemos sair à rua, gritando e agitando cartazes pedindo ‘liberdade’, sabemos serem os mesmos que também vemos a engrossar as filas das lojas de roupa ‘em conta’ nos centros comerciais, que se constituíram nas catedrais do ‘laissez faire, laissez passer’, sempre com luzes e música a condizer, óptimas para cimentar a ideia máxima do neoliberalismo, a do ‘indivíduo empresa’, autónomo na liberdade que o capital e a finança lhe proporcionam e permitem, uma liberdade exactamente igual à de todos os fulanos que aceitaram as regras do jogo, jogo em que são sempre eles (capital e finança) a ganhar. 

Mas, enquanto gritam por ‘liberdade’ não pensam na metodologia que os levou ali, na censura e na estigmatização de tudo o que é público, maiormente acusado e incriminado pela sua ineficácia e ineficiência, uma deia (fake) repetida milhentas vezes, pelas mais diversas maneiras, contando sempre com a ajuda, obviamente bem recompensada, de ‘escribas e comentadeiros’, estrategicamente distribuídos pelos distintos canais que ‘comanditam’.

Deixou escrito Hannah Arendt, ao falar das origens do totalitarismo, haver sempre dois elementos essenciais para o conseguir: o primeiro é terminar com a luta de classes como definição da orientação política e o segundo, o triunfo da mentira como fio da narrativa de todos os discursos. Mas para que os dois elementos se constituam em motores da vitória do totalitarismo, é necessária a transformação que acabe com as estruturas sociais, deixando em seu lugar aquele composto heterogéneo que os mais atentos chamam ‘massa’.

Como afirmava há poucos dias, o cronista político Jordi Évole, ‘Essa gente dá medo e, nos últimos anos armaram-se, movem-se à vontade nos parlamentos, fizeram das redes sociais a agulha preferida para injectar as suas ideias. São tóxicos e contaminam tudo, os discursos, as tertúlias, os debates’.

A complicar mais este panorama, já por si deprimente, temos ainda uma pandemia para durar, a que se deve juntar o que disse uma vez, o romancista e reformador social norte americano Upton Sinclaire, ‘É difícil fazer um homem compreender algo, quando o seu salário depende, acima de tudo, de que não o compreenda’.

E, a propósito, numa homenagem ao último Prémio Cervantes, o poeta Francisco Brindes, desaparecido há algumas semanas, aqui deixo um dos seus versos ‘Com que fidelidade, o homem caminha, ama, desaparece’, mas não sei se um espanto ou um lamento!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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