Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street – 2. GREENSILL E A DESREGULAÇÃO DOS MERCADOS GLOBAIS: 2.13 De David Cameron a Lord Hogan-Howe: as figuras contratadas por Greensill. Por Kalyeena Makortoff

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

2.13 De David Cameron a Lord Hogan-Howe: as figuras contratadas por Greensill [1]

Damos uma olhada aos pesos-pesados políticos utilizados para reforçar a reputação da Greensill Capital

 Por Kalyeena Makortoff

Publicado por  em 15/04/2021 (ver aqui)

 

 

O fundador da Greensill Capital, Lex Greensill, impulsionou a reputação da sua empresa contratando pesos-pesados políticos e funcionários de Westminster para ajudar a liderar e aconselhar o negócio.

Vejamos algumas das figuras mais influentes contratadas para promover a Greensill Capital antes do seu colapso em Março.

 

Lex Greensill – fundador e chefe executivo da Greensill

O produtor de melão australiano de 44 anos de idade que se tornou banqueiro na City fundou a Greensill em 2011 e foi trazido para Downing Street pelo falecido secretário de gabinete Jeremy Heywood. Ele foi apresentado a uma série de figuras em torno de Whitehall, onde alegadamente estava livre para lançar os seus projectos financeiros durante o mandato de David Cameron.

A Greensill contratou muitos antigos funcionários de Whitehall para a sua empresa, nomeadamente o ex-Primeiro ministro  Cameron, o alto-funcionário público Bill Closers, o  Ex-Ministro do Interior e membro do Partido Trabalhista David Blunkett, assim como a antiza czarina dos sem-abrigo Dame Louise Casey.

 

David Cameron, Ex-Primeiro Ministro Britânico – Conselheiro especial no Conselho de Administração da Greensill

Cameron foi contratado como conselheiro especial em 2018, dois anos após se ter demitido do cargo de Primeiro-Ministro. De acordo com a declaração de 1.700 palavras que Cameron divulgou no Domingo, o seu papel envolvia a prestação de aconselhamento geopolítico, ajudando a ganhar novos negócios, e o apoio ao programa de expansão internacional da Greensil.

Cameron fez lobby junto de uma série de funcionários de Whitehall no ano passado, nomeadamente o envio de uma mensagem de texto ao chanceler do Tesouro Rishi Sunak, na esperança de garantir o acesso da Greensill ao maior esquema de empréstimos de emergência Covid da Grã-Bretanha. Em 2019, também levou Greensill a uma bebida em privado com o Ministro da Saúde Matt Hancock para promover a aplicação de adiantamento salarial da empresa, Earnd, para utilização no SNS.

 

Julie Bishop, Ex-Ministra dos Negócios Estrangeiros Australiana – Conselheira Principal junto da Administração de Greensill

Bishop foi o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Austrália de 2013 a 2015 e foi a primeira mulher a desempenhar esse papel.

Entrou para a Greensill em Dezembro de 2019 e tornou-se membro do seu Conselho Consultivo Internacional e presidente do Grupo Ásia Pacífico. Mas a sua decisão de promover o financiamento da cadeia de abastecimento foi alvo de fortes críticas por parte de advogados de pequenas empresas, que consideravam que isso encorajava que as grandes empresas retardassem os seus pagamentos a fornecedores as quais, por sua vez, tinham pago uma comissão por esse serviço.

 

Bill Clothers um alto funcionário da Administração Pública tornou-se um dos diretores da Greensill

Bill Crothers trabalhara em Whitehall durante oito anos, incluindo a supervisão de 40 mil milhões de libras esterlinas em despesas governamentais anuais como Chief Commercial Officer do governo.

Crothers está entre um elenco crescente de antigos e actuais funcionários de Whitehall envolvidos no escândalo de lobing da Greensill Capital. Soube-se na terça-feira que Crothers começou a aconselhar o agora falido banco Greensill dois meses antes de deixar a função pública em Novembro de 2015, o que foi autorizado pelo Cabinet Office. Tornou-se membro da administração da Greensill em Agosto de 2016.

A decisão de começar a aconselhar Greensill, permitiu a Crothers uma participação no valor estimado de 8 milhões de dólares (£5,8 milhões) em 2019.

Soube-se  ainda que a autorização dada a Crothers foi assinada pelo Governo na base da sua anteriormente desconhecida “política de conflitos de interesses internos”, pelo que o seu novo trabalho não precisava de ser aprovado pelo Acoba, o organismo que supervisiona os empregos ocupados por antigos ministros e funcionários quando estes se mudam para o sector privado. .A correspondência oficial mostra Bill Crothers, que liderou a criação do Serviço Comercial da Coroa (Diretor da Central de Compras da Administração britânica), se tornou conselheiro da Greensill Capital em Setembro de 2015 antes de deixar a função pública em Novembro de 2015.

Mas Acoba confirmou que só recebeu o pedido para analisar o trabalho de consultoria de Crothers em Outubro de 2016, mais de um ano depois da constituição da sua empresa de consultoria. Crothers deu à sua empresa de consultoria  o nome de “Commercial Common Sense” colocando assim em sigla CCS, o mesmo acrónimo da empresa pública que dirigiu, Crown Commercial Service.

Os altos funcionários públicos  são encorajados a estabelecer ligações com as empresas – os sectores privado e público não podem existir em silos – mas o código da função pública também sublinha que não devem ser “influenciados por pressões indevidas de outros ou pela perspectiva de ganho pessoal”.

Considera-se que Crothers, um dos mais altos funcionários públicos britânicos, agora envolvido no escândalo Greensill, violou as regras do governo ao não declarar um papel de administrador que assumiu no espaço de um ano após ter deixado o cargo, declarou o supervisor dos empregos privados ocupados por ex-altos fncionários da Administração Pública.

Crothers disse não ter conhecimento de que o comité consultivo sobre nomeações empresariais (Acoba) precisava de ser informado sobre funções não remuneradas, levantando questões sobre a forma como as regras eram comunicadas de forma consistente em Whitehall.

“Receio que quando nomeado, não pensei que a aprovação por Acoba fosse necessária devido ao facto de ser uma instituição de caridade sem fins lucrativos e um papel de administrador não remunerado”, disse Crothers, numa carta informando Acoba sobre a violação. “Sinto muito por este erro honesto”.

O presidente de Acoba, Lord Pickles, escreveu na quinta-feira ao ministro do Gabinete, Michael Gove, para o informar de que o facto de Crothers não ter declarado a sua gestão com o Chartered Institute of Procurement & Supply (CIPS) violou as regras governamentais.

Por seu lado, a ministra do gabinete sombra Rachel Reeves, apelando a um inquérito parlamentar sobre o lobbying, disse na Câmara dos Comuns: “Ontem soubemos que o antigo chefe de compras do governo [Crothers] era um conselheiro da Greensill enquanto funcionário público e, incrivelmente, isso foi aprovado pelo governo. Dizem-nos que não é uma decisão invulgar, mas que raio, o que é que estava a acontecer no Gabinete de apoio ao governo e no coração do próprio governo para permitir que estes conflitos de interesses envenenassem a Administração Pública?”

 

David Briarwood, antigo representante da Coroa no Gabinete de Apoio do Primeiro Ministro – Diretor da Greensill

David Briarwood, um antigo banqueiro de Morgan Stanley, tal como Lex Greensill, foi trazido para o Gabinete de Apoio do Primeiro-ministro como representante da Coroa com a função de consultor sobre compras do governo e gestão de fornecedores. De acordo com o seu perfil no LinkedIn,  Brierwood foi contratado pela Greensill dois meses após a sua entrada no Gabinete de Apoio do Primeiro ministro em Outubro de 2014.

 

David Blanket, ex-ministro do Interior- conselheiro da Earnd, empresa da Greensill para pagamento antecipado de salários

O membro trabalhista foi nomeado para o novo “conselho consultivo de peritos” da Earnd, fornecedor de adiantamentos salariais da Greensill, em Novembro de 2020. Blunkett serviu no gabinete de Tony Blair desde 1997, nomeadamente como ministro do Trabalho e das Pensões, ministro da Educação e do Emprego, e ministro do Interior.

 

Louise Casey, Baronesa Casey de Blackstock, Presidente do Institute of Global Homelessness – conselheira da Earnd, empresa da Greensill para pagamento antecipado de salários.

Louise Casey, trabalhou como funcionária pública durante 20 anos, foi a directora de uma unidade do Governo de acompanhamento de famílias em dificuldade sob Cameron e a responsável pelo apoio aos sem-abrigo sob o mandato de Boris Johnson.

Foi nomeada para o Conselho Consultivo da Earnd juntamente com Blanket em Novembro do ano passado.

 

Lord Hogan-Howe, Ex-comissário do Departamento de Polícia Metropolitana – conselheiro da Earnd, empresa da Greensill para pagamento antecipado de salários

Bernard Hogan-Howe foi comissário do Departamento de Polícia Metropolitana durante seis anos, até 2017. Na quarta-feira, foi revelado que ele se tornou consultor pago pela primeira vez, assessorando a aplicação do salário pré-pago da Greensill Earnd, em Maio de 2020. Neste mesmo mês foi incorporado no Gabinete de Apoio do Governo como diretor não executivo. Na altura, a divisão de contratos comerciais do governo, o Crown Commercial Services, estava a receber ofertas para contratos ligados com o financiamento da cadeia de abastecimento – a especialidade da Greensill.

Em comunicado afirmou que “aconselhou sobre o desenvolvimento de produtos e da organização, mas não sobre as oportunidades no Gabinete de Apoio do Primeiro-ministro”. “Não estive envolvido de modo nenhum no processo de adjudicação de contratos”.

 

A empresa nomeou também uma série de figuras influentes da  vida social, nomeadamente:

– Presidente Maurice Thompson: Director da WH Smith e Ex-Chefe Executivo do Citibank no Reino Unido

– Directora Tracy Clark: Ex-Chefe da Banca Privada na Standard Chartered

– Conselheira Sénior Patricia F Russo: Presidente da Hewlett Packard Enterprise, e pertencente ao Diretório da General Motors

________________

 

Nota

[1] N.T. O texto integra também algumas partes de artigos citados no próprio artigo do The Guardian.

 

________________

A autora: Kalyeena Makortoff é uma jornalista nascida no Canadá que trocou as montanhas da Colúmbia Britânica pela história de Londres, em 2012. Agora correspondente bancária do Guardian, trabalhou anteriormente na agência de notícias da Associação de Imprensa, onde começou a trabalhar como repórter de negócios e chegou até ao Correspondente Chefe da Cidade. Isso foi depois de ter trabalhado para a agência de radiodifusão comercial de Londres CNBC, onde ganhou experiência como bloguista ao vivo, repórter online e produtora de televisão júnior. Kalyeena formou-se na Universidade de British Columbia com um BA em Ciência Política, mas passou a maior parte da sua carreira universitária a escrever para The Ubyssey and Grand Forks Gazette.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leave a Reply