A DEMOCRACIA NORTE-AMERICANA AINDA ESTÁ NA ZONA DE PERIGO – por EDWARD LUCE

Financial Times – Flickr: Alex Kliment (Eurasia Group) and Ed Luce (Financial Times)

 

US democracy is still in the danger zone, por Edward Luce

Finantial Times, 27 de Maio de 2021

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de João Machado

 

A ameaça está para além de Trump na medida  em que os estados republicanos procuram controlar o que  pode vir a passar-se  nas futuras eleições

Se uma prova de força semelhante à de 2020 se verificar em 2024 o sistema terá sido despojado de muitas das suas proteções. © AP

 

No início da presidência de Donald Trump, a Economist Intelligence Unit desclassificou os EUA, considerando-o  como um país de  “democracia imperfeita”. Infelizmente, esta classificação ainda se mantém. Longe de deixar para trás as desordens trumpianas, a vitória de Joe Biden aprofundou-as. O estilo de política de Trump assumiu uma vida que se tornou independente dele próprio. Mesmo que ele se retire e vá para  um mosteiro, o partido republicano escolheu a  via por ele praticada como orientação política .

O perigo que isto representa para a democracia nos EUA é duplo. O primeiro perigo é em termos das  regras da América para escolher o seu presidente. Não se deve subestimar a força do que é justamente chamado a “grande mentira” sobre as “eleições roubadas” do ano passado. Se existisse qualquer prova de fraude em novembro passado, William Barr, o ultraliberal advogado-geral de Trump, ter-lhe-ia saltado em cima. O seu Departamento de Justiça não encontrou provas de má prática.

Como todos os mitos, a eleição roubada é imune a provas. Nem pode ser descartada, como por vezes é, como puro resultado da síndrome do perdedor. Estados governados pelos republicanos, como o Arizona e a Geórgia, estão a aprovar leis para tomar o controlo sobre os resultados nos seus colégios eleitorais. São motivados tanto pelo que querem que aconteça em 2024 como por um esforço para aplacar Trump. Trata-se de tomadas de poder preventivas da acção de futuras autoridades  eleitorais independentes. Algumas destas disposições envergonhariam a Hungria de Viktor Orban – a original “democracia iliberal”. O padrão é privar as cidades democráticas, como Houston, de locais de voto, ao mesmo tempo que se facilita o voto nas zonas rurais conservadoras.

O segundo perigo é a natureza de outras leis que os estados republicanos estão a aprovar, algumas das quais fazem Trump parecer um político  moderado. O Texas está prestes a eliminar a necessidade de quase todos os compradores de armas precisarem de ter  licença de porte de arma. O Estado também acabou de votar para limitar o aborto a seis semanas, sem exceções para a violação ou incesto. Os republicanos texanos têm a reputação de serem extremistas. A sua plataforma apela à retirada dos EUA da ONU e à abolição da Reserva Federal. Mas o estado é também um guia que os republicanos a nível nacional  seguem frequentemente.

Seria um erro  considerar que esta evolução política do partido tem apenas como base  Trump. Muitas destas medidas estão a ser tomadas sem a pressão das bases do partido. Alguns líderes republicanos, como o governador da Florida Ron DeSantis, estão a tentar suceder a Trump em 2024. Outros, como o texano Greg Abbott, estão a promulgar leis que estão há muito na lista de desejos dos seus doadores. Não houve nenhum clamor popular no Texas para tornar a compra de armas de fogo mais simples ou a votação mais difícil.

A estratégia é alimentar o pavor de uma América sob a ameaça existencial de influências alienígenas – os liberais europeizados que desejam ultrapassar os americanos trabalhadores com eleitores importados. Trump desde há muito que encoraja esta paranóia. Mas adquiriu uma nova velocidade após a sua derrota. Numa recente sondagem para o conservador American Enterprise Institute, 56% dos Republicanos apoiaram o uso da força para “proteger o estilo de vida tradicional americano”.

Evidentemente, é fácil dramatizar em demasia o que as pessoas dizem aos inquiridores sobre o que podem fazer na vida real. A maioria dos americanos, incluindo quase metade dos republicanos, rejeitam a violência política. A taxa de aprovação de Biden não desceu abaixo dos 50% – um teto que o Trump nunca ultrapassou. E o sistema passou um severo teste de resistência  entre a eleição de novembro passado e a tomada de posse de Biden. Tudo isto é verdade. Mas este relato falha em não abordar as graves alterações às regras que regem as futuras eleições.

Os republicanos não estão longe dos democratas nas sondagens, numa altura em que Biden está a conduzir  um enorme lançamento de vacinas que está a conduzir a uma recuperação económica. As probabilidades de os democratas perderem uma ou outra câmara do Congresso no próximo ano são elevadas. Antes disso, os limites distritais terão sido redesenhados na sequência do recente censo americano. A maioria dos Estados são controlados pelos Republicanos, pelo que o novo mapa vai favorecer-los em grande medida. Se uma prova de força semelhante à de 2020 se verificar em 2024 o sistema terá sido despojado  de muitas das suas proteções.

A mudança – boa ou má – por vezes depende da mais ínfima margem. A presidência de Biden seria hoje muito diferente se o seu partido não tivesse ganho por pouco as duas eleições na segunda volta para  o Senado no estado da Geórgia em Janeiro. Isto deu aos Democratas o Senado dos 50:50 de que ele precisava. Desde então, a Geórgia reescreveu as suas regras para tornar esse resultado muito menos provável – um movimento que Biden descreveu como “Jim Crow no século XXI” (1). Biden estava a exagerar apenas um pouco. É demasiado cedo para tirar a América da lista de perigo da democracia.

edward.luce@ft.com


(1) – As leis Jim Crow partiam de uma imagem esteriotipada das populações americanas de origem ou descendência africana, e visavam a sua segregação. Para ler mais clique em “”Jim Crow”” – Infopédia (infopedia.pt) e em Jim Crow laws – Wikipedia


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US democracy is still in the danger zone | Financial Times (ft.com)

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Gonzalo Raffo InfoNews: U.S. DEMOCRACY IS STILL IN THE DANGER ZONE / THE FINANCIAL TIMES OP EDITORIAL

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