UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (129) + Conversas em Surdina

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5 de Maio de 2016

O MERCADO DE SÃO SEBASTIÃO

O Porto é uma cidade para ser percorrida a pé, caminhando, caminhando, e os seus encantos são muitos, publicitados em reportagens, em livros, em sites e em blogues.

Andando pelas ruas da zona histórica, observando, sentindo, vivenciando, olhando as gentes que caminham como se o tempo não tivesse passado, desfrutamos de um sossego que paira no ar, de uma calma que nos invade, e de um sentimento de ausência e de falta de pressa. Os ares da história fazem-nos viajar no tempo e sonhar com a vida de antanho.

Saí da Praça de Almeida Garrett e comecei a subir a Avenida de D. Afonso Henriques. Avenida larga, demasiadamente desafogada e desaproveitada (o lado esquerdo de quem a sobe é uma pedreira inestética e sem serventia, que espera há dezenas de anos por uma solução, e o lado direito já quase não tem árvores). Avenida que, hoje em dia, isola o primitivo bairro da Sé das áreas situadas a Norte da freguesia.

AVENIDA DE D. AFONSO HENRIQUES
AVENIDA DE D. AFONSO HENRIQUES

 

Mas, logo no início da Avenida, virei à direita pela Rua do Corpo da Guarda, subi e enveredei pela Rua dos Pelames.

A Rua dos Pelames é uma rua bonita, que está já com prédios em vias de recuperação, e logo à entrada tem um Miradouro sobre a Rua de Mouzinho da Silveira. Dali, poder-se-ia ver o casario desde São Bento até ao rio, mas, o gradeamento que lá está colocado impede tal desiderato. É pena, uma solução como a que foi encontrada no Passeio das Virtudes seria muito mais agradável, e transformaria este Miradouro num local aprazível.

MIRADOURO DA RUA DOS PELAMES
MIRADOURO DA RUA DOS PELAMES

Desci a rua até à Rua Escura, e comecei a subir. No entroncamento com a Rua de São Sebastião, olhei o lugar onde, até à altura das obras do Largo da Sé (1936 – 1940), existia a Fonte de Sâo Sebastião, ou do Pelicano (Junto ao Oratório de São Sebastião). Agora, a Fonte, do século XVII, está na Rua de D. Hugo, ali muito perto.

 

RUA S. SEBASTIÃO ANTES DE 1936, até às demolições para a abertura do Largo da Sé Blogue http://portoarc.blogspot.pt
RUA S. SEBASTIÃO ANTES DE 1936, até às demolições para a abertura do Largo da Sé
Blogue http://portoarc.blogspot.pt

 

fONTE DE SÃO SEBASTIÃO
fONTE DE SÃO SEBASTIÃO

Um pouco mais acima, na confluência da Travessa de São Sebastião com a Rua Tareija Vaz de Altaro (1), um Mercado, escondido e triste. Hoje menos escondido que outrora, mas com a mesma tristeza. O primeiro Mercado que no Porto teve um jardim por cobertura (relvado).

A cidade do Porto tem este pequeno mercado (mais um de entre muitos) situado na zona histórica da cidade, junto à Sé. O edifício é Municipal, mas a sua gestão é da responsabilidade da União de Freguesias do Centro Histórico do Porto.

Comparado com os milhares de pessoas que diariamente visitam a zona da Sé, os visitantes e turistas que sobem ou descem a Avenida D. Afonso Henriques, e passam junto ao local, só ocasionalmente espreitam ou fotografam, mas raramente entram ou compram o que quer que seja. O Mercado passa despercebido, não chama a atenção, e se o fizer, não é pelos melhores motivos. O edifício, dos anos 1990, é interessante, no entanto é pequeno e acanhado, não tendo sanitários próprios, não sendo agradável à vista. Apesar das potencialidades que tem, necessita de obras de restauro e de uma directriz. Talvez que se fosse um Mercado primordialmente Temático, sem descurar os elementos necessários ao dia-a-dia dos utentes, tivesse maior sucesso.

Ao entrarmos ficamos tristes, com pena. Plásticos cobrem as enormes aberturas viradas para o exterior, bancadas de peixe, duas de frutas e legumes, uma de flores e pouco mais.

O restante espaço está abandonado!

MERCADO DE SÃO SEBASTIÃO
MERCADO DE SÃO SEBASTIÃO

A clientela habitual é constituída por cada vez menos gente, unicamente residentes locais, cada vez mais velhos e cada vez mais empobrecidos.

Apesar de tudo, o espaço merece uma visita e, se possível, uma pequena compra. Seja o que for, para ajudar e dar ânimo àquela gente.

Por que esperam, Senhores Presidente da Câmara e Presidente da Junta?

 

(1) Tereija ou Teresa Vaz de Altaro era o nome de um Hospital medieval. Não se conhece a sua localização exacta, apenas se sabendo que ficaria na rua da Bainharia. Recolhia mulheres pobres, podendo ter sido um hospital-albergaria, como sugeriu Luís de Pina, que levantou mesmo a possibilidade de ser esta, a mesma instituição que o Hospital Albergaria de Sta Clara, que ficava na parte de cima da Rua dos Mercadores.

 

CONVERSAS EM SURDINA

Irritações

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