A GALIZA COMO TAREFA – paisagens – Ernesto V. Souza

Levarei um par de horas, ou mais, sentado, no silêncio urbano próprio do estio dominical castelhano, na varanda do nosso apartamento, a ler e matear, por fazer tempo, na fresca, até o sol sair queimante, lourenço e soberano, em breve, no grande pátio, por riba das casas que apantalham. É de manhã ceda neste 15 de agosto e leio, releio (que o livrinho diz o meu nome nas folhas de guarda com data de 1990), na vida e aventuras do Capitão Alonso de Contreras.

Vão passando, no Discurso, os episódios, aventuras, percursos a grandes carreiras e posta por terra, navegações, triunfos, memoriais, patentes, relações e serviços, perdas, mortes, assaltos, anedotas, peripécias, naufrágios e mal-andanças do capitão, corsário, espia, pícaro, cavaleiro de São João de Malta, amigo de Lope de Vega e soldado de fortuna. 

Numa derrota inteira pelo mediterrâneo espanhol com centro em Malta e viagens a grandes itinerários até a Corte, por Estremadura, Valência, ou às pequenas cortes vice-reinais em Sicília e Nápoles dos Condes de Lemos e Monterrei. Relatórios de trabalhos e petições a secretários, memoriais ao Rei e ao Papa, conflitos com corregedores, justiças, capitães, jurados, fidalgos orgulhosos e canalha diversa. Grandes ganhos e perdas de fortunas, encontros, lances de espada com valentões e insubordinados, histórias de mouriscos e armadas turcas e holandesas; damas, quiracas, queridas, amores e pendências de roupas, honras, baralhos, mesões e putarias.

Desfilam pela acelerada prosa todo tipo de embarcações e navios de comércio e guerra, embarques, e desembarques, jogos de naipe e fortuna, refúgios em ilhas e calas escondidas, perseguições navais, governos e justiças, deserções fugidas, revistas de terços luzidos e de cavalos couraça, enganches em bandeiras e marchas e contramarchas de companhias aos portos e teatros principais do império. O século XVII espanhol, com algum dos seus principais personagens, incluídos fugazmente e em contraste, Rodrigo Calderón e Andrés de Prada, junto com grandes mestres de campo, almirantes, generais, governadores e alferezia, criados, inquisidores, pajens, botelheiros, sargentos, soldados veteranos e bisonhos, todos coloridos, vario-pintos, bem levados no detalhe e na prosa irónica do ventureiro.

Vou acumulando leituras desse XVII espanhol que me envolve na própria paisagem urbana arredor. Mas não penso, pelo momento, em fazer nada disto. Apenas que leio biografias, velhas ou não mui novas, papéis privados, escritas do eu, reais ou fantasiosos, de mais em mais ultimamente; talvez porque me encontro eu órfão de projeto quanto de língua, sem voz, obsoleto e desubicado, perdido o caminho e derrotado enfim; a pensar desde há um tempo (podem medir pelos meus silêncios) mal dos anos e trabalhos passados e não bem do futuro.

Embarrancado no meio da seca castelhana, num tempo de passagem que se prolonga em décadas, a cada volta na roda do ano, custa-me mais seguir, com esta luz e paisagens, de terra seca e campos espidos com os trabalhos da seitura. Ainda no ar paira, como uma névoa acastanhada de brilho opalino, o pó levantado do chão pelas grandes máquinas e o da seitura do trigo, tamanhos são os campos, omnipresente com o calor abafante, nas últimas semanas.

Viajei nelas cara Salamanca com destino à ducal Béjar dos Zúñiga, para Cantábria e rumo à Galiza. Viagens breves, fugitivas, sem encontros; compromissos de família adiados e voltas sempre urgentes. A Caminho de Salamanca, que é o principal de Portugal e o da Prata, sucedem-se as devesas e as terras de vinho, pão, girassol, oliva, touro e porco. Terras secas, com vilas de enormes igrejas, espaçadas nos campos imensos de pó, cultivo e oliveiras. Entra-se na montanha para encontramos de novo, um pouco no refúgio do sol, algumas populações ontem ricas, principais caminhos e pontos estratégicos para Castela e Portugal, habitadas hoje, por serem refúgios de verão e de turistas.

A viagem a Sul-Oeste a Sul-Leste, a Norte e Noroeste de Valhadolid (esse nó, centro administrativo e capital, que não é capaz hoje de ser centro alternativo, onde confluem os traçados e a história cortesã e imperial do noroeste ibérico) evidencia que a história antiga de conquistas e criação de populações traçou um caminho inverso ao que hoje desenham as auto-vias radiais que partem de Madrid e ré-estruturaram a paisagem enxergada, os caminhos e a desocupação do território excluído das suas rotas tradicionais e paradas de postas, ventas, feiras e correios.

Perguntam-se na Espanha intelectual pela Espanha que se vazia e não é. Quadra nova na cantiga de lamento perplexo do país mal planificado e pior estruturado que esqueceu tanto património, deslumbrado de novidades e que não se dá tornado nação, quanto que mais desintegra, como as suas vilas hoje fantasmais, na história e num presente homogéneo, individualista e sem sabores.

O continuado movimentar, intenso nas datas de férias, de carros por estes caminhos novos que inventou, entre capitais, às presas o século XX, define o presente e determina uma leitura alterada da história, da paisagem e do sentido que por séculos, milénios, tiveram as comunicações, comércio e estratégias entre as populações.

 

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