Sobre o espírito do 25 de Abril e a pretexto de um livro que só existe na Biblioteca da FEUC, novas reflexões sobre o ensino e a Universidade de hoje (2/2). Por Júlio Marques Mota

 

Nota do editor: dada a extensão do texto, o mesmo será publicado em duas partes. Esta é a segunda parte (para ver a primeira parte clique aqui)


 

Faro, 12 de Agosto de 2021

 

(conclusão)

 

3. O tipo de estudantes que temos e /ou que pretendemos ter.

Embora por vezes possa parecer que as reflexões que se seguem se dirigem mais aos docentes do que aos estudantes, elas são, a meu ver, cruciais para se entender os estudantes que temos hoje, os estudantes que o atual ensino universitário está a formar.

Repare-se, pelo que foi dito nos pontos anteriores, é cada vez mais difícil colocar o estudante a sair em qualquer tema fora do texto de referência, do manual, da sebenta, sendo pois incapaz de se autonomizar na sua aprendizagem. Fazer com que o estudante saia deste colete-de-forças, o da ignorância, é cada vez mais difícil e aqui instala-se um círculo vicioso: descobrir textos fora das sebentas de leitura séria mas acessível a que nível ou faixa de estudantes é desmoralizador porque dá muito trabalho e do qual cada vez se obtêm menores resultados. Desmoralizador para os estudantes cuja maioria nem sequer acaba por perceber que não é capaz de fazer a síntese de um texto e muito menos de a escrever corretamente. Não foram ensinados, nada se faz para os “obrigar”, para os estimular a aprender. Desmoralizador para os docentes heroicos que levam a cabo esta tarefa e de que lentamente vão desistindo e ao fazê-lo também reduzem, eles mesmos, o seu campo de generalista em profundidade nas diversas especialidades em economia e deixam de estar continuamente em atualização.

Para se perceber bem o que queremos dizer vejamos como foi o meu procedimento, assim como o dos meus colegas, Luís Lopes e Margarida Antunes na disciplina de Economia Internacional. Para se beneficiar da avaliação contínua, o aluno tinha de garantir 75% de presença nas aulas práticas e tinha de comprar um livro de cultura geral em economia, em português, por nós selecionado. Depois, escolhia um de dois métodos de avaliação contínua: método 1) Apenas controle presencial nas aulas práticas com registo da sua participação e elaboração de um resumo em cinco páginas de um dos capítulos por nós escolhido, aluno a aluno, e a prova escrita era para vinte valores; método 2) Fazer um trabalho em grupo sobre um tema em economia, tema esse por nós previamente selecionado assim como a bibliografia a ser utilizada, escrever uma recensão de um filme documentário e admitir na discussão do trabalho com nota individualizada, questões sobre o próprio livro dito de cultura geral em economia. A avaliação para vinte valores tinha a seguinte composição: a) prova escrita valia 12 valores; b) a avaliação e discussão do trabalho em grupo valia 6 valores; c) a recensão do filme-documentário valia 2 valores. Este segundo método era o nosso preferido, mas disso falaremos a seguir.

Dado que falamos de livros, vale a pena relatar como era este processo de escolha de seleção de livro a impor aos estudantes. O objetivo com esta imposição, e isto era dito publicamente, era fazer com que os estudantes não habituados a ler ganhassem esse hábito e quanto aos que já tinham esse hábito tinha como função estimulá-los a mantê-lo. Ora, o mercado português era pobre em livros sérios de divulgação da economia como ciência. “Ir ao mercado” tornava-se quase inútil. A solução então foi a de sermos “criadores de mercado”, para utilizar o calão dos mercados financeiros. Através da revista Alternatives Economiques ou sobretudo das crónicas de Pierre Drouin, na altura chefe do Serviço de Economia do Le Monde, um jornal que quase religiosamente comprávamos diariamente, recolhíamos a informação sobre livros potencialmente aceitáveis para o objetivo em vista, escolhíamos três a quatro livros, comprávamo-los à nossa custa, liamo-los e escolhíamos dois deles. Dirigíamo-nos a um livreiro, Carlos Araújo, da Terramar, e dizíamos-lhe: se editar um destes dois livros, garantimos-lhe um mercado para 200 exemplares. Oferecemos-lhe como contrapartida a revisão gratuita da edição e, acrescentávamos, que tentaríamos arranjar financiamento para trazer cá o autor. A resposta do editor era sempre: diga qual dos dois livros prefere? E o acordo estava feito.

Foi assim que se editaram, entre muitos outros, os livros:

-Debate Tabu, de Jean-Paul Fitoussi (veio a Portugal),

-A Ilusão Neoliberal, de René Passet (veio a Portugal)

– A Desigualdade do Mundo – A economia do Mundo Contemporâneo de Pierre-Noël Giraud (veio a Portugal) ,

-Joseph Stiglitz com as seguintes obras: 1. A grande desilusão; 2. Os loucos anos 90; 3. Tornar Eficaz a Globalização, obra já editado por Carlos Araújo na editora ASA. Stiglitz esteve para vir a Portugal aquando de uma missão sua junto da OCDE em Paris, mas uma doença na coluna impediu-o na altura de se deslocar à Europa

-A Chama e A Cinza – O Socialismo, A Globalização e A Europa” de Dominique Strauss- Kahn, com prefácio de Ferro Rodrigues.

Em torno da edição do livro de Strauss-Kahn há uma pequena história a contar. O livro deveria ser editado em data que estava próxima do Congresso do PS, facto que levou o Eduardo Prado Coelho a afirmar num jornal que se tratava de um livro que cada congressista devia ler e transportar para o Congresso do PS! Procurei trazer Strauss-Khan a Portugal para apresentação do livro e debate. O autor aceitou. Combinou-se que a apresentação do livro seria feita por Ferro Rodrigues, que haveria uma conferência de Strauss-Kahn e que esta seria comentada por Manuel Maria Carrilho. O debate teria como moderador Mário Soares. O PS estaria em força nesta apresentação debate. Este era mais ou menos o plano para lançamento do livro.

Entretanto haveria que acertar a agenda pois com tanta figura isto não se tornava fácil. No meio disto, eu tinha comprado um telemóvel novo, um Samsung de gama média, e não estava ainda familiarizado com ele. Telefona-me uma das suas secretárias, Madame Martine Duval. Ela ouvia-me bem, eu mal conseguia ouvi-la. Por uma razão que desconhecia o som estava demasiado baixo e por isso tinha dificuldades em ouvir, é o que soube mais tarde! Martine Duval, dada a dificuldade de comunicação, manda-me uma mensagem solicitando que lhe indicasse eu um número de telefone fixo e com três datas e horas possíveis para Dominique Strauss Kahn me telefonar. Indiquei-os mas com um tipo hiperativo como ele, coisas fixas não seriam com ele e falharam. Duval envia-me uma mensagem curiosa: certamente o senhor passará por Paris. Agradecia que a avisasse com antecedência para se combinar um almoço com Dominique Strauss-Kahn para se fixar uma agenda. Li a mensagem e pensei: bom, isto é gente de uma outra esfera que não a minha e com uma carteira muito diferente do que a que eu tenho! É melhor deixar cair a hipótese, concluí. Como resposta disse que não sabia se iria a Paris e se fosse não saberia quando pelo que deixávamos cair a hipótese em questão. O livro já estava em circulação e isso era o que me interessava agora. Para o resto, o Estado-maior do PS que se mexesse se nisso visse interesse.

Foi assim que em defesa do livro e da existência de leitores me fiz “criador de mercado”, apoiado sobretudo na Terramar, embora tenha havido contactos com outros editores mas menos relevantes. A contrapartida do editor era a oferta de meia dúzia de livros destinados a estudantes com dificuldades por nós detetadas aquando da entrevista para estabelecer o plano de estudos na cadeira em termos de avaliação contínua.

Hoje, também esta atitude de “criador de mercado” seria impossível pois seríamos imediatamente acusados de conflito de interesses porque hoje não é entendível que haja almoços grátis. Lembro aqui o exemplo de uma estudante que se dirige ao meu gabinete para se inscrever em avaliação contínua. Pergunto-lhe pelo livro de leitura obrigatória e responde-me que não entende por que é que deve ser obrigada a ler os livros que os outros escolhem, “os livros de que o senhor gosta”. Respondi-lhe: tem o direito de não querer ler os livros de que eu gosto, e eu tenho o direito de não a admitir à avaliação contínua. Como estudante é para mim e nesse caso uma estudante anónima cujo nome só conhecerei na pauta quando registar a sua classificação de prova, como estudante em avaliação contínua sou corresponsável pelo seu acompanhamento, isso exige-me trabalho a que não sou obrigado e que, em contrapartida, exijo trabalho orientado por mim uma vez que sou exigente na obtenção de resultados em termos de formação universitária. A escolha do método de avaliação, essa, é sua. Decida-se.

A prova escrita era para vinte valores. Como avaliação contínua mais aprofundada, o aluno poderia constituir-se em grupo de trabalho com mais um a dois colegas, nunca mais de um total de três, e enquanto grupo teriam que visionar um filme documentário por nós escolhido e fazer uma recensão tipo jornal em duas páginas que valia 2 valores. Neste segundo tipo de avaliação, cada grupo de trabalho teria de fazer um trabalho resumo sobre um texto económico de autor de prestígio por nós indicado, com a dimensão de 10 a 15 páginas. Aqui, como base de trabalho, tanto podia ser um capítulo de um manual de referência na cadeira como ser, por exemplo, um workpaper. Este processo repetia-se ano a ano e sempre com textos, filmes e livros diferentes para evitar cópias de trabalhos feitos. Ano a ano, era assim [1]. Imagine-se o trabalho que isto dava aos docentes e também, por que não dizê-lo, o trabalho a que obrigava os estudantes. Hoje, fazer um sistema de avaliação deste tipo seria pura e simplesmente impossível quer pela parte dos estudantes que pretendem sempre o caminho mais fácil, quer pela parte dos professores sobrecarregados quer com funções burocráticas quer com condicionantes ligadas à criação dos seus ratings se querem sobreviver nesta floresta onde toda a gente é submetido à lógica dos ratings. Quanto aos professores, estes últimos, ao abdicarem de fazer este tipo de avaliação é o próprio docente que fica relativamente desmotivado para uma atualização constante sobre o que de melhor se produz à escala das grandes Faculdades nas matérias que, no âmbito das suas disciplinas, podem interessar-lhes a eles e aos seus alunos.

Olhando hoje para trás e face ao que temos hoje como Universidades, fruto de decisões tomadas por muitos dos ganhadores na progressão nas carreiras, direi que, do ponto de vista pessoal, aqueles que como eu, como o Joaquim Feio da FEUC ou o como o saudoso António Gama da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que por uma razão ou por outra não entraram na corrida à progressão nas carreiras [2], só têm que se sentir profundamente satisfeitos com o trabalho realizado e com a certeza de missão cumprida [3] [4]. E é mesmo de espírito de missão em termos de docência que falamos.

Num mundo universitário assim estruturado e onde o que menos importa para a avaliação do docente é o que este faz como docente, isso levou a que passasse 25 anos na mesma categoria profissional, professor auxiliar convidado, o que o Professor Simões Lopes, então Reitor (com R maiúscula) da Universidade Técnica de Lisboa, referindo-se a mim e ao Joaquim Feio, considerava isso uma decisão inaceitável por parte da FEUC. Mas não se tratava de uma situação inaceitável, respondi-lhe eu, é o produto da lógica do sistema, uma lógica que desvalorizava já e sistematicamente, mesmo que de forma discreta, este tipo de práticas pedagógicas. Ao desvalorizar o trabalho realizado, este não pode servir de base para se progredir na carreira. A decisão de permanência na mesma categoria é pois uma decisão coerente do ponto de vista do sistema. Coerente, sem mais adjetivos.

Acha mesmo isso, perguntou ele. Acho, e dou-lhe um exemplo com o que me disse o Professor Romero de Magalhães na altura da minha passagem a professor auxiliar convidado, a tempo integral e com exclusividade. Terá havido alguma oposição à minha passagem de assistente a professor auxiliar convidado. O professor Romero chamou-me ao seu gabinete e para me dizer mais ou menos o seguinte: meu caro, a Faculdade precisa de ti. O teu contrato de assistente [5] chegou ao fim. Há uma proposta para passares a professor auxiliar convidado. Discordo, quero dizer-te pessoalmente isto. Isto soa mais a um prémio por não te doutorares do que outra coisa. E mais, discordo porque se a Faculdade entende que precisamos de ti, com o que estou de acordo, eu acho que precisamos mais de ti como professor doutorado e de carreira do que colocado num parque de estacionamento, parado numa carreira ao lado. Ora nas nossas sociedades o melhor estímulo para se avançar é a melhoria das remunerações, Se passas a professor auxiliar convidado penso que nunca mais te doutoras. Ao contrário, se passas para a categoria de assistente convidado a tempo integral com exclusividade, se te manténs com a remuneração atual, serás assim incentivado a doutorares-te e com isso ganhas tu e ganha a Faculdade. Fui mais ou menos isto que me disse o meu colega Romero de Magalhães

Pois é, foi a reação do Professor Simões Lopes e senti no ar e no seu olhar uma tristeza de que não estava à espera. Mudei rapidamente de conversa e falámos do filme que tinha ido ver na véspera com a minha filha, salvo erro, o filme À procura do tempo perdido de Raúl Ruiz.

Ficar parado na carreira ou seguir uma carreira pela via de doutoramento. Está aqui tudo dito e por alguém com quem me dava muito bem, que me respeitava tanto como eu a ele, ou seja, muito. Como se ilustra, trata-se de uma questão de sistema, portanto, mais do que uma questão de pessoas. E porque é uma questão de sistema de ensino, é por isso que é aqui relatada.

Curiosamente Romero de Magalhães, um antigo secretário de Estado, era um defensor acérrimo da estrutura de carreiras e já naquela época era um defensor de alguns dos pontos de vista que mais tarde ganharam letras de nobreza ao inscreverem-se na reforma de Bolonha. De entre eles, sublinho a defesa de redução de cargas horárias por disciplina e a defesa em se aligeirar as práticas pedagógicas ditas pesadas como eram por ele consideradas as metodologias por mim utilizadas e acima descritas. Deixa os rapazes ter tempo para estudar, para respirarem, era o que me dizia, a que eu incansavelmente lhe dava a mesma resposta: não precisam de mais tempo para não fazerem nada, precisam de mais estudo para o muito tempo de que dispõem. Em tom de crítica cheguei-lhe a dizer: pensa-se assim quando os nossos filhos já saíram das Universidades e os nossos netos ainda lá não entraram. E ficávamos por ali.

Relembrando agora este nosso encontro, o seu discurso sobre a carreira e o meu silêncio sobre a mesma uma vez que sobre ela não me caberia pronunciar-me, penso hoje que o que esteve subjacente naquele encontro era uma questão de origem de classe. Romero era um homem filho da burguesia algarvia letrada enquanto eu era um filho de camponeses pobres e iletrados, ele habituado desde pequeno a ter sem custo a luz sobre o mundo, eu habituado a lutar duramente por alcançar algumas clareiras de luz sobre a parte de baixo desse mesmo mundo. Ele habituado a entender que os projetos de vida dos indivíduos assentam sobretudo no dinheiro ou alternativamente na autoestima mas com esta a ter sempre subjacente as compensações monetárias, o que é uma outra versão de que não há almoços grátis. Eu, habituado a viver de pouco, a entender que para lá da sobrevivência animal e na esfera exclusivamente pessoal, não no plano coletivo, o que seria relevante seria sobretudo o reconhecimento do que se faz, do que se é, e isso eu tinha-o [6]. Duas visões do mundo completamente diferentes e entre as duas a diferença pode ser abissal. A primeira, segundo a qual os homens agem, fazem, movem-se por razões de compensações monetárias, a segunda, segundo a qual também há homens que agem, fazem, se movem sobretudo pelo espírito de missão de que acima se falava. Isso, Romero, um homem de grande frontalidade, não entendia, nunca seria capaz de entender, dados as suas condicionantes de origem de classe social, entendeu-o Boaventura Sousa Santos, José Veiga Torres e Simões Lopes e, porque entenderam isso mesmo, passei a professor auxiliar convidado. Romero pertencia ao mundo dos en-haut, eu pertencia ao mundo dos en-bas. E era essa diferença de posição que marcava ali a diferença sobre as carreiras, sobre a progressão das mesmas, ele que defendia a estrutura de carreiras existente, e eu que defendia a diferenciação entre carreira de docente, de investigador e mista numa visão mais alargada do que deveria ser a Universidade, para não se cair em Universidades de biscates, tal como hoje nos são oferecidas [7].

Uma posição mais extrema ainda sobre a determinante exclusiva do doutoramento nas carreiras foi-me dada por Alfredo de Sousa, uma referência dos anos 70-80 no ensino em Economia. Encontrei-me com ele e o Miguel Beleza uma tarde no final dos anos 80 no ISEG: falávamos sobre ensino superior e diz-me numa crítica implícita ao facto de não me ter doutorado: na Nova, a técnica na admissão de docentes é IN AND OUT. Entra como docente preparam-se as coisas e sai imediatamente para douramento. Queremos ter só doutorados a lecionar. E para frisar que não era nada de crítica pessoal mas de uma opção correta de sistema, vira-se para o Miguel Beleza e diz-lhe: oh Miguel a este dei-lhe nota superior à tua. Este olhou para mim, como se tivesse à frente um marciano.

Caricatura deste sistema: criou-se na Universidade Nova e sob orientação de Freitas do Amaral uma licenciatura com uma estrutura de grande qualidade em direito e economia. As cadeiras de Economia foram na sua maioria entregues à responsabilidade dos tais jovens doutorados [8] talvez na casa dos 24-28 anos, com a cabeça cheia de ciência. O resultado foi um desastre total, reprovou quase toda a gente e porquê? Porque nesta lógica os alunos são o acessório na carreira do docente e a maioria destes alunos tinham apenas o nono ano de matemática e gramaram com as disciplinas construídas para alunos com o 12º ano de matemática ou mesmo matemáticas gerais. Transformar as disciplinas e adaptá-las a estes alunos daria muito trabalho e na lógica dos ratings não compensaria. Num dado exame, Microeconomia, terá escapado à razia e com nota decente o filho do Jorge Miranda que vinha do ISEG com frequência do primeiro ano e a filha de uns amigos meus (Rosa Tavares) que veio a Coimbra passar uns fins-de-semana a minha casa para ter algumas explicações.

Se adicionarmos a esta estreita visão de Universidade, a introdução da reforma de Bolonha e, depois, as políticas de austeridade, a política dos cortes orçamentais para as Universidades, as saídas de quadros de topo nestas Instituições por passagem à reforma e dificilmente substituíveis a curto e médio prazo, se adicionarmos a isto as passagens antecipadas à reforma de muita gente cansada do sistema, se adicionarmos a isto a utilização massiva de precários sob manifestação do seu interesse, para substituíram todos os que saíram, e a serem  pagos a pouco mais do que se pagaria a uma mulher de limpeza, percebemos bem que o resta da velha Universidade são agora ruínas, ruínas intelectuais, e o que mais espanta de tudo isto é ninguém reconhecer este facto e tudo se passa como se nada se passasse. O rei vai nu, é o tema de conto de Hans Christian Andersen que se adapta bem à situação que temos vindo a comentar, mas agora não se trata de uma história inventada para ser lida às crianças, trata-se antes de uma realidade criada por adultos e destinada a adultos.

Ficar situado num parque de estacionamento em termos de carreira, significa, quer se queira quer não, estar a desvalorizar o trabalho realizado, daí que este não pode servir de base para se progredir na carreira. A decisão de permanência na mesma categoria é pois uma decisão coerente do ponto de vista do sistema. Coerente, sem mais adjetivos. Não nos esqueçamos que a década dos anos de 1990 foi o cadinho onde se gerou esse monstro chamado Reforma de Bolonha. Se na altura essa desvalorização era discreta, agora é plenamente assumida, inscrita nos regulamentos da própria Universidade.

Com este tipo de práticas pedagógicas talvez se tenha pago um custo colateral adicional e este terá sido, talvez, o de retardar a elaboração das teses de doutoramento e a progressão na carreira aos colegas que trabalharam comigo, o Luís Peres e a Margarida Antunes. Disso fui muito criticado pelos meus colegas ganhadores na evolução das carreiras mas, à guisa de consolação, penso que talvez não tenha havido nenhum custo colateral, uma vez que este tipo de práticas levou a fazer deles verdadeiros polímatas em termos de conhecimentos em economia. As suas teses de doutoramento são disso uma prova insofismável, a da Margarida Antunes que ainda hoje, passados anos, se mantém atual como crítica à teoria neoliberal dos mercados de trabalho e a do Luís Peres com o desenvolvimento de estudos então muito recentes sobre taxas de câmbio efetivas sectoriais, paridades de poder de compra e comparação internacional de produtividades, na sequência dos trabalhos do grupo de especialistas sob a direção de Bart van Ark da Universidade de Groninguen.

Este tipo de práticas foi uma tarefa gigantesca incompatível de todo para a maioria dos estudantes que temos hoje e de resto, mesmo que possível, seria francamente improdutiva face aos alunos que nos chegam hoje às Universidades. Destes, fala-nos Carmen Garcia, enfermeira, autora de A Mãe Imperfeita, no seu artigo Leio, logo existo:

“O meu sobrinho, de 17 anos, está no Algarve, de férias com a mãe, há mais de uma semana. Passa os dias na praia e entre mergulhos, bolas-de-berlim e um ócio aquecido pelo sol, leu um total de zero livros. Zero, assim mesmo, o número redondo que representa o nada e o princípio de tudo. De tudo menos de hábitos consistentes de leitura. Dele e dos 21,8% de jovens portugueses do 3.º ciclo e do ensino secundário que, em 2019, não leram um único livro durante um ano. Um ano inteiro.

(…)

Mas, e agora vem o mas, em 2019 o número de jovens que não leu um único livro durante um ano subiu quase 10% comparativamente a 2007, o que não pode deixar de nos levar a pensar que alguma coisa está a falhar aqui. E a afirmar, sem grandes medos que, se calhar, era altura de rever o conceito à volta do Plano Nacional de Leitura.

(…)

Ler é uma fuga, um escape. Ler, como dizia Fernando Pessoa, é sonhar pela mão de outrem. E é essa magia, esse sonho acordado que nos liberta que, temo, não estejamos a conseguir fazer chegar aos nossos filhos. E diariamente os livros vão perdendo a competição para os tablets, para os ecrãs cada vez maiores de televisão ou para as redes sociais.

(…)

É urgente que se invista em bom marketing e que se promovam sorteios à volta da leitura, que se recorra a influencers [9], que se mostrem os livros como recompensa e não como castigo. É altura de pensar em grande porque, parece-me a mim, agora ainda vamos a tempo. E isto vale também para a forma de funcionamento das bibliotecas, que, apesar de se irem constantemente tentando reinventar, continuam a perder leitores, o que nos indica que fará falta uma reestruturação mais profunda que as modernize e aproxime de todas as faixas etárias.

Um país que não lê será sempre um país pobre. Mesmo que, por milagre, o nosso dinheiro começasse a multiplicar-se como o pão e os peixes bíblicos, nunca seríamos um país rico enquanto os livros não fizessem parte integrante das nossas vidas. Quem lê vive múltiplas vidas. Quem não lê morre todos os dias. E um país que não lê é um país que definha lentamente, preso na caverna com medo da própria sombra, um país que caminha de regresso à escuridão de onde foi tão difícil sair há 47 anos, um país que aceita o que lhe dizem, perdendo, algures pelo caminho, a capacidade de questionar.

O meu sobrinho vai regressar das férias sem ter lido um único livro. E, como ele, muitos milhares de jovens chegarão a casa por estes dias. (…) Mas vão chegar sem saber que essa magia que sentem está perfeitamente descrita pelo italiano Federico Moccia, em Três Metros Acima do Céu, romance juvenil cuja “sequela” Quero-te Muito foi responsável por fazer nascer a tradição de colocar cadeados em múltiplas pontes da Europa. Vão chegar sem saber que para Hazel e Augustus a culpa não foi apenas das estrelas. Vão chegar sem saber quem são Harry, Ron e Hermione.

E eu sinto por eles. Pela oportunidade que perdem. Pela viagem que não fazem. Pelas asas que não abrem. E quero muito que sejamos capazes de mudar isto para miúdos e graúdos. Quero muito que sejamos capazes de mostrar-lhes, como escreveu Miguel de Unamuno, que a leitura é caminho para a originalidade. Mas, para isso, teremos também nós de ser originais. Os números estão aí, não enganam, e deviam obrigar-nos a todos, políticos, sociólogos, pais e professores, a parar para reflectir e criar novas estratégias. Porque ensinar a ler não chega. É preciso ensinar a amar os livros.” Fim de citação

Com estudantes como os milhares que são semelhantes ao sobrinho de Carmen Garcia, com dirigentes como os atuais ministros da Educação e do Ensino Superior, com os nossos atuais reitores a sonharem com o reino dos “ tablets, para os ecrãs cada vez maiores de televisão ou para as redes sociais” só há uma coisa a fazer, seguir a sugestão de Carmen Garcia e procurar abrir um debate à escala nacional sobre os caminhos a seguir para responder às questões urgentes que os tempos de hoje nos levantam em termos de educação e de destino também da nossa juventude e do nosso país. E seguiríamos aqui o texto atento de Ashoka Mody e só a partir daqui se poderiam criar condições para que as estantes das bibliotecas deste país se enchessem de livros com a qualidade do de Mody e as suas salas de leitura se enchessem de leitores para os ler.

 


 

Anexo

Com o texto preparado para editar, sou levado a anexar uma pequena história passada com a minha neta num café da baixa de Faro, onde dois anónimos em passeio pela baixa da cidade confirmam o mesmo sentimento que Carmen Garcia: ver estudantes a ler, uma raridade nos dias de hoje.

E o que a seguir se relata expressa exatamente esse sentimento.

Deixem-me relatar o que se passou hoje com a minha neta, 20 de Agosto de 2021.  Estamos a passar férias em Faro e como ela está de saída para Coimbra, pede-me um pequeno luxo, o de ir tomar o pequeno-almoço num café, no Baixa Café, na rua de Santo António. Diz-me que depois toma a bica no café das Docas onde ficará a ler um livro de Gabriel Garcia Marques e só toma aí o café porque os seus preços de quase tudo são proibitivos. Exemplo, uma garrafa de água pequena custa 1,6 euros

Chegada a casa para almoço conta-me uma história que se liga com o presente texto. No café onde está a tomar o pequeno-almoço e cuja esplanada ocupa 2/3 da largura da rua, passam ao seu lado dois sujeitos de idade, em que um deles leva um livro na mão. Por seu lado, a minha neta está a comer a sua torrada e com o livro O Amor nos Tempos de Cólera em cima da mesa. De repente, os dois senhores param e o que tem o livro na mão dirige-se para a minha neta e pergunta-lhe: menina, anda a ler esse livro? Ando, respondeu. Está a gostar? Sim, estou a gostar muito deste autor. O senhor mira-a com atenção e carinho e com ar de espanto diz-lhe ainda: olha, quando acabares de ler esse livro sugiro-te que leias também este, e mostra-lhe o livro que tem em mãos. Era o livro de Bruno Vieira Amaral, O Integrado Marginal – Biografia de José Cardoso Pires. E os dois companheiros seguem o seu caminho, com a minha neta a ficar meio atordoada sobre o que aquilo representava

Uma jovem na rua a ler, a ler Gabriel Garcia Marquez, uma raridade nos tempos de hoje, uma raridade aos olhos de Carmen Garcia, uma raridade aos meus olhos, uma raridade aos olhos daqueles dois passeantes anónimos, na casa dos 70 anos, uma raridade que se torna tão notada enquanto raridade que deu origem a este curto mas ilustrativo diálogo entre pessoas de duas gerações bem separadas pelo tempo, a de uma rapariga de 19 anos e a de alguém que andaria na casa dos 70. 

Uma jovem a ler numa esplanada de café é uma raridade nos tempos de hoje, sim, porque os jovens de hoje não leem, veem, veem ecrãs de telemóveis, de Ipads, de tablets, porque os jovens de jovens são pouco mais do que “nativos digitais” para utilizar uma expressão do reitor da Universidade de Coimbra e é mesmo esse pouco mais que os nossos ministros de hoje e os seus reitores querem eliminar para que tenhamos então nativos virtuais puros. Puros? Mas isto soa a uma outra coisa, a uma outra trajetória que julgávamos já riscada da História. Estarei enganado? Talvez, mas resta uma pergunta: não foi na base de nativos puros de então que se viveram os funestos anos 30 ?


NOTAS

[1] A mesma metodologia era utilizada nas disciplinas de Finanças Internacionais, na licenciatura, e de Macroeconomia da Economia Aberta, no Mestrado.

[2] Em 1987 terminava o meu contrato como assistente na FEUC. Não me doutorei. Por proposta dos Professores Boaventura Sousa Santos e José Veiga Torres foi aprovada no Conselho Científico da FEUC a minha passagem a professor auxiliar convidado em tempo integral e exclusividade, categoria em que me mantive até à minha saída em 2012. No caso do Joaquim Feio, passou primeiro de assistente a assistente convidado e mais tarde de assistente convidado a professor auxiliar convidado, categoria onde permaneceu até à sua passagem à reforma. A figura de professor convidado em tempo integral e exclusividade é hoje uma figura praticamente extinta.

Um liberal dirá que é a sequência lógica para quem não se doutorou. Poderia pensar-se assim, se a extinção destas categorias de docentes desse origem apenas a doutorados de carreira, mas não é assim. Muitos dos cargos ocupados hoje, em sua substituição, são-no por uma categoria especial de candidatos a docentes, por diplomados que sob declaração de interesses enviada às Instituições respetivas informam estar interessados em trabalhar nas condições propostas, ou seja, estão interessados em serem professores à tarefa, à percentagem, e estes abundam hoje nas nossas Universidades, fazendo pura e simplesmente biscates! Sai mais barato, é a resposta dada por um catedrático a tempo inteiro e em exclusividade!

[3] Este mesmo tipo de missão cumprida parece ter sido reconhecido pela direção do ICEP de então ao conceder anualmente ao melhor aluno da disciplina de Economia Internacional um estágio remunerado de 6 meses ou 1 ano, em Portugal ou no estrangeiro, no términus da sua licenciatura. Uma experiência curiosa e se queremos estimular a juventude a hábitos de trabalho e de estudo, deveria ser implementada uma experiência deste tipo à escala nacional por um organismo de Estado a ser criado para o efeito e na base de licenciaturas e de áreas de conhecimento muito próximas. Não seria uma tarefa fácil estruturar uma Instituição com estes objetivos mas seguramente seria uma tarefa muito útil, a criação pelo Estado de estágios remunerados à escala nacional elegíveis a estudante por mérito, se queremos, de facto, cuidar da nossa juventude. Se se gasta dinheiro criando uma Instituição pesada para gerir o programa Erasmus, para gerir, sobretudo, os passeios dos estudantes endinheirados pela Europa, muito mais importante seria gastar dinheiro com o objetivo que acabamos de enunciar, de estimular o trabalho universitário e de premiar os estudantes que o fazem e que o fazem com mérito.

[4] Curiosamente diziam-me o Presidente do ICEP, Guilherme Costa, e o seu Vice-Presidente, Francisco Bandeira, que para a mesma nota os alunos da FEUC face aos alunos da Universidade Nova partiam com alguma superioridade à partida, uma questão sobretudo de traquejo, de expressão oral, mas que três meses depois eram francamente melhores. Esta informação vale o que vale mas creio que vale alguma coisa por muitos enviesamentos que possam haver por aqui. Sublinho que o presidente do ICEP foi professor na Faculdade de Economia do Porto e nunca da FEUC. Uma explicação possível para essa diferença positiva a favor dos estudantes da FEUC naquela altura é a seguinte; enquanto os estudantes da Universidade Nova recebem um ensino formatado ao extremo incidindo na formalização de teoremas sobre teoremas explicativos de uma “realidade” que não existe, situando-se numa “realidade virtual”, os estudantes da FEUC recebem uma formação talvez menos intensa em formalizações de teoremas abstratos mas recebem uma formação incomparavelmente mais rica na análise das contradições económicas e sociais subjacentes às hipóteses desses mesmos teoremas. E mais, ganham assim uma ginástica intelectual que lhes permite mais rapidamente detetar questões da economia real e ganham uma maior capacidade de perceção e de adaptação às mudanças dos materiais em análise.

[5] Na época a remuneração entre assistente de carreira e assistente convidado em tempo integral e exclusividade era igual. As diferenças básicas entre as duas categorias assentavam numa maior carga horária para o assistente convidado e numa maior estabilidade de emprego para o assinte de carreira, uma vez os contratos de assistente convidado tinham a duração de 3 ou cinco anos, renováveis ou não. O mesmo se passaria com as categorias de professor auxiliar de carreira e professor auxiliar convidado em tempo integral e em regime de exclusividade. Creio que esta legislação tinha sido produzida no tempo de Maria de Lurdes Pintassilgo. Sublinhe-se que dela ressalta um profundo respeito pelo professor convidado a tempo integral e em exclusividade, o que não tem nada a ver com o que se passa hoje, onde esta figura é reduzida a biscates!

[6] Dito de outra forma e em termos de desenvolvimentos das forças produtivas, a visão de Romero de Magalhães assenta na concorrência dos indivíduos, à boa maneira de Adam Smith, e a minha assenta sobretudo na cooperação entre os indivíduos assim como entre as instituições. Em termos sociais podem ainda ser dadas outras interpretações a estas duas visões sobre a dinâmica das sociedades.

[7] O problema não é apenas português, é um problema, creio eu, da civilização ocidental ou do seu declínio. Já com o artigo preparado para edição tomo conhecimento do artigo de Rebecca Gordon, sugestivamente intitulado Is Higher Education a Pyramid Scheme? publicado a 17 de agosto de 2021, onde se afirma o seguinte sobre o que se passa no ensino superior dos Estados Unidos:

Muitos dos doutorados não-STEM que permanecem no meio académico acabam por se juntar a uma mão-de-obra explorada e contingente de professores a tempo parcial, ou “adjuntos”. Esse exército de reserva dos subempregados é o pequeno segredo sujo do ensino superior. Afinal, nós – e sim, eu sou um deles – na verdade ensinamos a maioria das turmas em muitas escolas, enquanto ganhamos tão pouco como 1.500 dólares por semestre para cada uma delas.

Detesto falar novamente de transportes, mas há uma razão pela qual professores como nós são chamados de “condutores turbo em auto-estrada”. Um relatório do Congresso de 2014 revelou que 89% de nós trabalhamos em mais de uma instituição e 27% em três escolas diferentes, apenas para melhorarmos um pouco as nossas vidas difíceis.

Muitos de nós, de facto, confiamos em programas públicos anti-pobreza para continuarmos. Inside Higher Ed, refletindo sobre um relatório da Federação Americana de Professores de 2020, descreve a nossa situação desta forma:

“Quase 25% dos membros do corpo docente chamado adjunto dependem da assistência pública, e 40% lutam para cobrir despesas domésticas básicas, de acordo com um novo relatório da Federação Americana de Professores. Quase um terço dos 3.000 adjuntos inquiridos para a elaboração do relatório ganha menos de 25.000 dólares por ano. Isto coloca-os abaixo da linha diretriz federal de pobreza para uma família de quatro pessoas”.

Em muitas faculdades e universidades, os professores adjuntos, professores em situação precária, já não são suplementos, mas sim a parte mais “essencial” do pessoal docente. As aulas simplesmente não poderiam continuar sem nós, os professores adjuntos; nem, se acreditarmos nas administrações das faculdades, os seus orçamentos poderiam ser equilibrados sem nós, professores adjuntos, com os nossos baixos salários. Até porque é que se há-de pagar a um professor a tempo inteiro $10.000 para assegurar a lecionação de uma turma (uma vez que ele ou ela ganhará, em média, $60.000 por ano e assegurando três turmas por semestre) quando se pode dar $1.500 a um professor a tempo parcial como eu pelo mesmo trabalho, ou seja, 9000 dólares?

Tal como cá, isto é o que se passa nos USA.

[8] Com exceção da disciplina de Economia Internacional onde o docente, o Professor Pinto Barbosa, fez um trabalho pedagógico extraordinário: transformou uma cadeira “dura” da licenciatura em Economia numa cadeira “soft” para esta licenciatura, lecionando o fundamental da primeira disciplina na segunda e com o mesmo rigor científico. Nunca vi igual, até hoje, Agosto de 2021. Mas sublinhe-se um detalhe de monta: Pinto Barbosa era um professor da velha guarda, desde que o conheci nos tempos do ISEG, onde foi meu professor. Nada tem a ver com os jovens doutorados da Universidade Nova a quem, claramente faltaria maturidade emocional para as tarefas que na base do doutoramento lhes eram atribuídas. E o exemplo do que aconteceu na disciplina de Microeconomia que a seguir se relata é disso um bom exemplo.

[9] Sublinho que aqui estará sempre implícito o problema da qualidade tal qual eu e os meus colegas fazíamos em Economia Internacional escolhendo o livro que impúnhamos como de leitura obrigatória para quem quisesse seguir o método de avaliação contínua. O importante não é apenas o LER, mas O QUE SE LÊ, diz-me o meu amigo António Gomes Marques, e tem razão.

 

 

 

 

 

 

 

 

Leave a Reply