CARTA DE BRAGA – “leitura e resistência” por António Oliveira

A propósito das ‘Feiras do Livro’.

Deparei-me há uns tempos, com uma extraordinária sentença de Hemingway sobre o segredo da literatura. Extraordinária pela comparação e linguagem usadas, a mostrar perfeitamente como era avesso a formalismos sociais e amante da liberdade de escrita e de pensamento, que alguns dissabores lhe acarretaram.

Por mim traduzida do castelhano em que a li, dizia assim: ‘Só conheço duas regras absolutas e uma é -se fazes amor enquanto estás atolado numa novela, o perigo é que as melhores partes fiquem na cama; a outra é -a integridade do escritor é como a virgindade de uma mulher, pois uma vez perdida, não se recupera’ .

Assim, de repente e sem pensar em grandes princípios ou valores, parece-me que destes quase aforismos, se deve concluir que a palavra também se transforma  na base do conjunto de estruturas comportamentais e de pertença e ligação ao meio circundante, um conjunto já pré-existente, mas que ‘enforma’ e determina o resto da existência, em que intervém tanto a realidade do mundo, como as da circunstância e da realidade do autor. 

Realidades profundamente marcadas e determinadas pela imagem (real ou virtual), que Gaston Bachelard em ‘A poética do devaneio’, explica assim, ‘uma imagem poética pode ser o germe de um mundo, o germe de um universo imaginado diante do devaneio de um poeta e a consciência de maravilhamento diante desse mundo criado pelo poeta, abre-se com toda a ingenuidade’.

Esse é e será sempre o caminho da aprendizagem da sociabilização, que só pode ser olhada também como decorrente do conjunto de experiências e experimentações em todos os domínios da actividade humana, ela própria também um conjunto de pós-experiências, aliás a base da aprendizagem. 

Tudo seria perfeito se a sequência dos acontecimentos fosse sempre assim, mas numa entrevista à ‘Revista Prosa, Verso e Arte’, o sociólogo Edgar Morin (100 anos em 8 de Julho passado!) salienta, ‘É preciso entender bem que estamos cada vez mais ameaçados por duas barbáries. A primeira a gente conhece, vem desde os primórdios da história, é a crueldade, a dominação, a subserviência, a tortura, tudo isso. A segunda barbárie, ao contrário, é uma barbárie fria e gelada, a do cálculo económico’.

O cálculo económico, o grande domínio das estatísticas, devia ser apenas um instrumento, mas não forma de isolada e comanditária do conhecimento, aquele falso conhecimento usado para mascarar a realidade humana. 

Aliás, Edgar Morin, também afirma na mesma entrevista, ‘No fundo, assim que entra o cálculo, os humanos são tratados como objetos. E hoje, com o domínio justamente do poder e do dinheiro, com o domínio do mundo burocrático, tudo isso, é o reino da barbárie gelada’.

Este tema tem vindo a ganhar preponderância crescente na comunicação social, pois em questão está a nossa relação com o poder, ‘Relação que participa como repressão na nossa vida diária’, garante o cineasta Costa Gravas ao diário ‘Publico.es’, em finais de Abril passado, ‘não só o poder político, eclesiástico, económico, nós mesmos temos poder sobre algumas pessoas, como há pessoas que o têm sobre nós e desta relação dependem a felicidade e a infelicidade’.

Felicidade e infelicidade ligadas também à linguagem, pelas ‘visão’ e ‘mediação’ do mundo, para se poder afirmar e testemunhar como o ‘eu’ também é o ‘outro’ e, assim, compreender a importância da cultura, do reconhecimento e do relacionamento social, qualquer que seja o lugar, o contexto e a circunstância.  

O ‘outro’ que, em comunicação, também pode e deve ser visto como um ‘tu’, reclama e exige ser sujeito de conhecimento e reconhecimento, com capacidade de resposta e mediação, por ter identidade própria e não existir apenas como emanação e consequência de cada um.  

Hoje vivemos um mundo de confronto entre o livro e o computador que, em si mesmo, é também uma nova forma de pensar, imaginar, criar e ainda de ler, apesar de pouco servir para isso quando se fala em literatura, porque pegar num livro, pode levar-nos à árvore, ao papel, ao linotipista e à criação da imagem dos personagens e ao envolvimento dos sentidos, tudo decorrente da leitura, ao mesmo tempo que sabemos e sentimos as palavras electrónicas, como vindas só de uma selva de signos virtuais, indecifrável e misteriosa. 

E seguindo o conselho de um velho amigo, há que tirar a transcendência à leitura, porque nem um tonto se cura lendo, nem um inteligente deixa de o ser por não o fazer. A leitura só é bonita para quem gosta e dela saiba tirar o sumo todo, como de uma fruta apetecida. 

E voltando a Costa Gravas, ‘Depois também vem a resistência e como resistimos ao negativo. Resistir é importante, ou nos converteremos em escravos’.

E, nestes tempos, ler até parece (terá de ser!) uma forma de resistência!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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