A GALIZA COMO TAREFA – diáspora – Ernesto V. Souza

A gente emigra. De qualquer parte e para toda a parte, mais longe ou mais perto, em todos os tempos, por umas e outras causas. Nomeadamente e em massa com as mudanças climáticas, as fames, as pestes e as guerras. E, por causas económicas, sistematicamente desde o século XIX, como consequência ou característica do capitalismo, do desenvolvimento industrial e do predomínio urbano dos Estados.

As grandes urbes consumem gente como combustível, mão de obra, pessoal e também como consumidores dos produtos e da própria cidade (das necessidades criadas pelo trabalho e a vida nela) como produto. O campo abandonou-se a escala global, como projeto da modernidade, a partir do século XVIII e em proporções geométricas nos últimos 50 anos.

Assistimos a um lento (para uma vida humana) ocaso do mundo rural, ou a uma acelerada mudança (em termos históricos) de estruturas, condições, relacionamento, habitação que rompe condições, práticas, ciclos e costumes apenas alterados no decurso dos séculos, estabelecidas documentalmente na Galiza, em muitos casos, antes do ano 1000 e de fazermos caso à arqueologia algumas provavelmente já na Idade do Bronze ou do Ferro.

Na Galiza, que tanto contribuíra a povoar a Península e América, em nome da Cristandade, o Império e os diversos projetos coloniais com os seus genocídios e expulsões de indígenas, não se parou de emigrar, em massa, a diferentes destinos (em função dos ciclos económicos e dos auges e declínios dos países de acolhida) a partir do século XIX.

Luis Seoane. Ilustração em ‘Galicia Emigrante’, nº2

O mundo muda e muita da épica narrativa e institucional da emigração galega pertence a esse mesmo mundo rural e de fame no sol-por. Como noutras partes, algumas regiões da Europa, da Ásia, América e da África a gente emigrou, e ainda emigra, também ou mais em função de tragédias diversas.

Mas emigrar é de qualquer jeito, uma fugida, uma mudança radical na procura de sobrevivência ou melhora. É por muito que os números pareçam alterar o sentido, é uma questão individual.

De facto, se reparamos, a emigração só se converte num significado coletivo quando existe uma identidade política, cultural ou social que permite construir uma narrativa plural com base em tropos, alegorias ou metáforas comuns. As coletividades nos países recetores conformam-se (ou não) como significados reivindicativos, associativos ou mutualistas em função de uma identidade que se concede o coletivo.

Mas isto só pode acontecer quando a origem tem esse significado, quando a origem se define como coletivo, quando denota uma identidade. Por sua vez para que a origem aproveite e conceda significado ao associativismo emigrado e reconheça e valore essa identidade tem por sua vez que existir um projeto de identidade, bem político, bem social, bem nacional no ponto de partida.

Os coletivos galegos foram-se associando desde o século XVIII em função de diversas identidades corporativas e locais, depois em muitos casos, federadas ou confederadas, em entidades regionais e depois nacionais. Construindo-se os coletivos em função da invenção da própria Galiza antes Reino, depois província e região remota da Espanha. Em fins do século XVIII e princípios do XIX, antes das Independências, os coletivos reconhecem-se como naturais da Galiza, vinculados em confrarias pelo Santo Patrão.

Depois do 1850, já com o Estado Espanhol em andamento e projeto nacional, as associações retomam as identidades paroquias e comarcais, para irem recuperando aos poucos, um característico sentido identitário que ecoa a ambas beiras do Atlântico a invenção nacional da Galiza a partir da geração dos Provincialistas. Ambas as repúblicas espanholas, a Independência de Cuba, o processo estatutário e o anti-fascismo abalaram intensamente as coletividades em confrontos,  polémicas, diretivas e cisões. O franquismo e o fraguismo souberam desativar muitas questões e potencias, à vez que cultivaram um sentimentalismo folclórico e cultural.

A Galiza dá hoje, um valor e significado pobre à sua diáspora, não porque a sua diáspora seja insignificante, quanto porque na própria Galiza não se define, senão pobremente um reconhecimento político, social da identidade galega, e prefere deixar-se no nível institucional, no plano histórico, individual, ou patrimonial esse conteúdo identitário no canto de no coletivo.

Afinal a emigração galega espelha a Galiza. O declínio atual da diáspora, espelha de novo, esse ocaso do rural e também a ausência de toda ideia, de todo projeto para uma Galiza moderna, que não seja o de ser uma singular região da Espanha.

 

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