A União Europeia transformou a Europa num bordel. Por José Vítor Malheiros

 

Nota de editor:

Reproduzimos este notável artigo com a devida vénia ao José Vítor Malheiros e ao Público. Apesar de escrito em 2016, há mais de cinco anos, pensamos que mantém toda a atualidade neste tempo dos ditos planos de resiliência e recuperação da União Europeia e de supostas alterações às políticas económicas da UE em virtude da saída de Merkel e da entrada em cena de novos atores alemães. De momento, o Brexit não parece que tenha provocado algum passo no sentido da desmontagem da UE. Nesse sentido, mais parecia ir a sequência da pandemia do Covid. Mas também aqui já se ouvem as vozes das sereias do neoliberalismo predicando as maiores catástrofes caso não regressemos rapidamente às regras dos pactos austeritários. Por mais absurdo que isso possa ser em relação à realidade dos factos. Entretanto, os “nossos” dirigentes europeus entretêm-se com o novo “brinquedo”: os Planos de Resiliência e Recuperação.

 

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A União Europeia transformou a Europa num bordel

A saída do Reino Unido pode ser o toque a rebate democrático de que a UE precisa.

 

 Por José Vítor Malheiros

Publicado por  em 21/06/2016

 

Era um dia de Primavera de 1995. Atravessei de carro a ponte sobre o rio Minho, ao pé de Valença, em direcção à cidade galega de Tuy, e não aconteceu absolutamente nada. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida.

Eu estava habituado a entrar em Espanha depois de parar na fronteira, esperar numa bicha interminável de carros e camiões, mostrar o passaporte, responder a perguntas dos guardas e deixar o carro ser revistado antes de poder seguir caminho. E a travessia desta fronteira despertava sempre recordações de antes do 25 de Abril, onde a espera era ainda mais demorada, as perguntas mais agressivas, os polícias mais desagradáveis e as revistas mais rigorosas, principalmente para os jovens que tinham de apresentar os seus documentos militares em ordem e podiam estar a preparar-se para fugir à guerra colonial.

Foi por isso que atravessar a ponte e entrar em Espanha sem ver um único polícia, sem ver um posto de fronteira, sem mostrar um documento, foi uma experiência inesquecível.

Na altura eu era ainda um ingénuo adepto da União Europeia e aquilo era para mim a Europa. Não só a liberdade de circulação, mas a corporização da própria liberdade dos cidadãos, da confiança na sociedade, da cooperação e da solidariedade entre os estados.

Eu era então, como me considero ainda hoje, um europeu e um europeísta. Nascido entre dois países e duas línguas, educado entre quatro línguas, habituado a desconfiar de todos os nacionalismos, a ideia de uma Europa que transcende os seus países sempre me foi cara.

É por isso que, na próxima quinta-feira, quando conhecermos os resultados do referendo no Reino Unido, eu espero ardentemente que o resultado seja a vitória do “Brexit”.

Não porque penso que o Reino Unido vá ficar melhor fora da UE. Não porque pense que a UE vai ficar melhor sem o Reino Unido. Mas apenas porque espero que a saída do Reino Unido seja o choque que irá provocar o abalo político, o exame de consciência e o toque a rebate democrático de que a União Europeia precisa para se reformar de forma radical e para se reconstruir, num formato e com regras diferentes, sob o signo da decência. E não penso que isso seja possível sem uma vitória do “Brexit”.

O presidente do Parlamento Europeu, o socialista Martin Schulz, já disse: “Seja qual for o resultado [do referendo], teremos necessidade de uma reforma integral da União Europeia com regras claras.” Mas o problema é que já ouvimos dizer a mesma coisa noutras circunstâncias para tudo ficar na mesma. Ouvimo-lo dizer depois da guerra do Iraque, da crise financeira de 2008, da crise das dívidas soberanas, das políticas de austeridade, da crise dos refugiados. Mas sabemos que não podemos acreditar em nada do que sai da boca dos dirigentes da UE.

A questão é que a UE não é aquela associação entre iguais que nos venderam, empenhada no progresso de todos os países e no bem-estar de todos os cidadãos, no pleno emprego e na segurança dos trabalhadores, na paz mundial e na promoção da democracia.

A questão é que a UE é apenas uma máscara que disfarça o domínio de um grande grupo de países por um pequeno grupo de países, numa nova forma de ocupação que usa a finança como instrumento de submissão, como antes se usavam tanques.

A questão é que a UE é uma organização antidemocrática, que não só é governada por dirigentes não eleitos e não removíveis, da Comissão Europeia ao Banco Central Europeu, como construiu ardilosamente uma camisa de forças jurídica, sob a forma de tratados irreformáveis de facto, através da qual manieta e subjuga os Estados-membros e lhes impõe políticas que estes não escolheram, mas não podem recusar.

A questão é que a UE e as suas instituições se transformaram na tropa de choque do poder financeiro mundial e da ideologia neoliberal e, apesar das suas juras democráticas, impõem a agenda asfixiante da austeridade e proíbem de facto os países de prosseguir políticas nacionais progressistas mesmo quando elas são a escolha democrática dos seus povos.

A questão é que a UE, autoproclamado clube das democracias e dos direitos humanos, acolhe no seu seio sem um piscar de olhos países que desrespeitam os direitos mais básicos e adopta no plano internacional aRealpolitik de se submeter aos mais fortes, obedecer aos mais ricos e fechar os olhos aos desmandos dos mais agressivos.

A questão é que a UE perdeu o direito de reivindicar qualquer superioridade moral quando continuou a atirar refugiados para a morte mesmo depois de ter chorado lágrimas de crocodilo sobre a fotografia de uma criança afogada no Mediterrâneo. Hoje, tenho vergonha de pertencer a este clube e não gosto desse sentimento. Será isto isolacionismo? Pelo contrário. O que eu e muitos cidadãos europeus exigimos é a solidariedade entre países que a União se recusa a praticar.

Há pessoas pouco recomendáveis do lado do “Brexit”? Há. Mas do outro lado também. E na UE não faltam pessoas pouco recomendáveis, a começar pelo senhor Jean-Claude Juncker, símbolo da evasão fiscal e da imoralidade política.

A questão é que a União Europeia não é a Europa dos valores que sonhámos. A UE capturou essa Europa e transformou-a num bordel. O sonho transformou-se num pesadelo.

A questão é que a União Europeia se tornou o ninho da serpente e deve ser desmontada peça por peça. Espero que o referendo britânico possa ser o primeiro passo.

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O autor: José Vítor Malheiros é consultor de Comunicação de Ciência. Desenvolve predominantemente a sua actividade em Universidades, Institutos de Investigação e na Administração Pública e é consultor permanente da Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica. Foi jornalista durante a maior parte da sua vida profissional, tendo-se dedicado às áreas da Ciência, Tecnologia, Educação, Saúde e Ambiente. Criou e coordenou a primeira secção semanal de Ciência no semanário Expresso (1983-1989), a primeira secção diária de Ciência no diário Público (1989) e fundou o site web do jornal Público (1995). Manteve durante dezasseis anos uma coluna semanal de comentário político no Público, jornal do qual foi um dos fundadores e onde ocupou os cargos de editor de Ciência, editor de Opinião, director do site Publico.pt e director executivo. Paralelamente à sua actividade como jornalista e como consultor dedicou-se à área da formação de jornalistas, formação em Comunicação de Ciência e ensino do jornalismo a nível graduado e pós-graduado. É docente convidado do mestrado em Cultura Científica e Divulgação das Ciências da Universidade de Lisboa. Foi anteriormente professor convidado do mestrado de Comunicação de Ciência da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, da Universidade Lusófona, da Universidade Independente, da Universidade Autónoma, da Escola Superior de Comunicação Social e da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona. Integrou, em 2001, a primeira Comissão Internacional de Avaliação de La Cité des Sciences et de l’Industrie de La Villette (Paris). Foi durante oito anos membro da direcção da EUSJA – European Union of Science Journalists’ Associations. Foi co-relator do relatório “Contributos para a Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável em Portugal” (2006). Foi director executivo da parceria Harvard Medical School-Portugal (2009-2010) e responsável da unidade ComLab da UMIC-Agência para a Sociedade do Conhecimento (2010). É co-autor, com António Granado, do livro “Como falar com jornalistas sem ficar à beira de um ataque de nervos” (Gradiva, 2000; do livro “Portugal 2020” (Fenda, 1998), com Adelino Gomes e Teresa de Sousa; e do estudo “Cultura Científica em Portugal” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015) com António   Granado. É membro activo de várias associações cívicas.

 

 

 

 

 

 

 

 

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