Pós-covid: palcos e honras ou dignidade e salários apropriados para os trabalhadores essenciais? – 3. Algumas reflexões em tornos dos textos de Victor Hill e de Francisco Tavares.  Por Júlio Marques Mota

 

Nota de editor:

Publicamos uma mini-série de 4 textos, ocasionada a propósito do texto, de Victor Hill, “Um novo modelo económico?” (ver aqui). É um texto que denuncia alguns males do capitalismo atual no Reino Unido mas que padece, como diz Júlio Mota, dos limites de uma análise feita no quadro do sistema que produz os problemas que se pretende resolver. O segundo texto, publicado ontem (ver aqui), é uma observação crítica de Francisco Tavares sobre o artigo de Victor Hill e o terceiro, que publicamos hoje, é um comentário crítico de Júlio Mota a ambos os textos. O quarto, e último, texto mostra o que se está a passar nos Estados Unidos com o fenómeno dos salários baixos, em particular com os trabalhadores que foram louvados e aplaudidos a propósito da pandemia Covid, e que justamente foram apontados como trabalhadores essenciais. Como diz a autora, Molly Osberg, estes trabalhadores não parece que estejam dispostos a aceitar “a lógica cínica que lhes deu palcos e honras em vez de dignidade e de um salário apropriado”.


 

3. Algumas reflexões em tornos dos textos de Victor Hill e de Francisco Tavares

  Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 21 de Outubro de 2021

 

 

Devo ser muito simplório, quis-me livrar de um comentário a um texto de Victor Hill e, afinal, sinto-me obrigado a comentar dois textos, o de Victor Hill e o do comentador deste autor, o meu amigo Francisco Tavares e ainda por cima concordando em todas as razões de fundo com o que este meu amigo afirma. Então perguntar-se-á: qual a razão para comentar agora os dois ? A razão é então muito simples, Victor Hill é um homem de direita pura e dura. Mas é um homem extremamente inteligente e culto.

Ora, Francisco Tavares pega no texto e nas elipses do texto, no não dito de Victor Hill, e casca duro e a doer.

Vejamos o título do texto de Victor Hill: Um novo modelo económico?

Com isto quis dizer Victor Hill que a Inglaterra precisa de um outro modelo económico, um modelo económico assente em altos salários, em capital intensivo, em elevados níveis de formação. Verdade de La Palisse, dir-me-ão. Não parece, digo eu. Vejam só se veem alguém de um qualquer PS, português, francês ou outro, dizer alguma semelhante coisa? E um dos escolhos da situação passa pelo sistema de ensino britânico, uma desgraça, um sistema verdadeiramente falido tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista financeiro.

Diz-nos Victor Hill:

Depois há a educação. Desde há algum tempo, tem sido evidente que as nossas escolas e universidades não estão a produzir jovens ansiosos por trabalhar nas profissões de cuidados, em quintas ou no sector da hotelaria. Porquê? Porque não são informados sobre o extraordinário potencial de realização nessas profissões – para além, claro, da imagem de salários baixos e condições de trabalho desanimadoras. É preciso que haja uma mudança de cultura.

É preciso que haja uma mudança de cultura, diz Victor Hill, e isto é um mundo em termos de ensino que aqui pode estar subjacente. Falta de gente com vontade de querer fazer, falta de gente com saber ensinar a aprender e a saber-fazer e, sem isso, lamento, não há nenhuma possibilidade se chegar a uma economia de altos salários e elevados níveis de produtividade. Uma outra cultura é uma condição necessária, é verdade, mas é também uma condição não suficiente.

Mas será que pela esquerda se ouve falar nisso em Portugal. Viu-se algum político relevante referir-se a isso? Veja-se, por exemplo, o texto de Tadeu no Diário de Notícias sobre a Universidade que precisa de ser salva de si-própria!

Diz-nos ainda Victor Hill:

Se pagar salários mais elevados sem aumentar a produtividade, isso só traz inflação. Para aumentar a produtividade, é necessário investimento. O regime de ‘super deduções’ do Sr. Sunak é um passo na direção certa, uma vez que encorajará novos investimentos de capital. Mas os resultados levarão tempo a fazerem-se sentir. E investimento não significa apenas software deslumbrante, robótica e gadgets: inclui investimento dito de capital humano, tais como estruturas de acolhimento de crianças e democracia digital (ou seja, todos devem ter acesso a banda larga super-rápida).

Ao ler este excerto lembro-me imediatamente do Plano Nacional de Recuperação e Resiliência de Portugal ou de um outro país europeu qualquer, todos feitos à pressa e todos a colocarem em parangonas SOFTWARE DESLUMBRANTE, ROBÓTICA E GADGETS. De uma penada uma crítica ao que se faz na Inglaterra ou em qualquer outro país.

Sublinho: o investimento deve antes incluir “investimento dito de capital humano, tais como estruturas de acolhimento de crianças e democracia digital (ou seja, todos devem ter acesso a banda larga super-rápida).

Mas isto não se faz de um momento para o outro, avisa-nos. Todos o sabemos, menos os governos que pensam sobretudo nas reduções do orçamento público e na imigração seletiva ou desejada como solução para a mão de obra altamente qualificada mas fora dos postos de comando. Veja-se o caso dos americanos.

Um exemplo caricato desta imigração [qualificada] desejada era-nos dado, por volta de 2010, pelo geógrafo Courade sobre a cidade de Manchester: havia mais médicos do Malawi a trabalhar em Manchester que no seu próprio país! Mas aqui, de novo, para desenvolver este tema seriam necessários muitos artigos. Ficam as referências apenas.

Curiosamente, não vejo da mesma forma a frase de Victor Hill relativamente ao acolhimento das crianças. Vejo-a como uma necessidade de reformular mais uma vez o sistema de ensino que se inicia desde pequenino. Porque ter gente alta qualificada não é uma questão genética, é sobretudo uma questão de educação que se faz desde as bases, e mais uma vez aqui temos o fator tempo a que se refere Hill. Não acredito que Hill não tivesse presente o conjunto das crianças inglesas e aqui penso ser forçada a crítica de Francisco Tavares.

Mas Victor Hill no seu texto refere-se antes disto causticamente ao setor empresarial, e diz-nos duas coisas importantes:

Ponto 1

É agora claro, pós-Brexit, que ‘UK plc’ [1] simplesmente não tem estado a cuidar suficientemente da sua força de trabalho. O instinto natural dos empresários britânicos tem sido o de contratar mão-de-obra barata, estrangeira, que pode ser despedida como e quando os empresários o desejem. Tem-se sido relutante em investir em formação e automatização – isto onde tem sido claramente mais evidente é na agricultura. Uma gestão progressista deseja que se obtenha o melhor das pessoas, alimentando-as. Isso significa proporcionar condições de trabalho decentes, pagando-lhes o melhor possível e assegurando que os trabalhadores tenham melhores competências do que os seus concorrentes. Mas os empresários britânicos ao longo do último quarto de século, mais ou menos, têm estado demasiado concentrados nos resultados e têm permitido o declínio das condições de trabalho e das competências, como no sector dos transportes.

O que temos tido na Inglaterra, e é isto que ele denuncia, é um sistema assente nos baixos salários e nas más condições de trabalho, do trabalho precário, dos “empregos zero horas”. Mas também se trata, e isto ele não reconhece por ser um homem de direita, do desmantelamento do Estado Providência, desmantelamento que vem desde Margaret Thatcher, todo um sistema assente nos lucros imediatos e na exploração intensiva de praticamente todos os tipos de trabalho que não seja de direção e sem nenhum horizonte de progresso técnico sustentado.

 

Ponto 2

A UK plc também se tornou viciada em práticas de gestão just-in-time com reservas mínimas de quase tudo. Esta tendência apresenta agora graves perigos em termos de segurança energética e de segurança alimentar. A França tem 14 semanas de abastecimento de gás em armazém; a Itália tem 11; e a Alemanha tem oito semanas de abastecimento. A Grã-Bretanha tem reservas de gás estimadas em quatro a oito dias. É uma história semelhante com os alimentos. E a maioria dos abastecimentos alimentares entra no país através de alguns poucos pontos, sobretudo Dover. Quando os pescadores franceses bloquearem Calais no próximo mês, os resultados tornar-se-ão visíveis nas prateleiras dos nossos supermercados dentro de dias.

A linha dos fios tensos, dos stocks mínimos, das tarifas estranhas com preços variáveis à hora como se um capitalismo eficiente seja compatível com este tipo de práticas. Os exemplos estão à vista e quando a pressão ataca, os capitalistas tornam-se selvagens. Lembram-se como trataram Pedro Nunes dos Santos aquando da greve motoristas de transporte de materiais perigosos? Lembram-se das condições desumanas em que estes trabalhadores se encontram no que diz respeito quer a salários quer a condições de trabalho? Ao ler a denúncia de Victor Hill relembro esse período de 2019 em Portugal e que, muito brevemente, se pode mesmo repetir. Veremos se iremos ver a esquerda a dizer o mesmo que Victor Hill do ponto de denúncia das condições de trabalho e remuneração.

A denúncia de Victor Hill poderia ser mais clara ainda: o sistema privado falhado criado pelo neoliberalismo estendeu-se ao setor público tornando-o igual ou mesmo pior que o privado devido à presença de uma classe política corrupta que merece ganhar menos que os camionistas.

Onde a crítica de Francisco Tavares é duramente certeira é que se o texto de Victor Hill é para mim uma denúncia dos males do capitalismo ele não é mais do que isso, mas nisso acho o texto muito bom, com o senão de precisar de muitas mais páginas para se explicar o que se pode considerar apenas subjacente. E sente-se que o autor, no quadro intelectual em que se situa tem dificuldade em ver uma saída. O título com o ponto de interrogação só por si pode querer dizer isso mesmo. E a saída que vê é, a meu ver, aterradora, mais do mesmo: a entrega dos comandos aos especialistas dos mercados! Num texto com esta qualidade analítica avançar com uma ideia deste tipo é algo que mostra os limites da análise feita no quadro do sistema que produz os problemas que se pretende resolver, o que aprendemos com Einstein. Deste ponto de vista, Einstein tem razão contra Hill e a favor de Francisco Tavares. Neste campo a crítica de Francisco Tavares ao texto de Victor Hill assenta que nem uma luva. Um ponto em que estamos completamente de acordo.

O texto vai longo pelo que tomemos de referência apenas um ponto mais, o problema da produtividade. Penso que ele fala da produtividade em geral porque, como é evidente, a evolução possível da produtividade será sempre diferenciada por setores, mas os ganhos da produtividade poderão ser sempre sociais. Simplifiquemos. o aumento da produtividade do serviço de cabeleireira será praticamente nulo mas isso não quer dizer que a sua evolução salarial não evolua no mesmo nível que a produtividade geral do país. Creio que é nisso que assenta uma boa parte do raciocínio de Victor Hill, hipótese que a crítica de Francisco Tavares exclui mas não deixando eu de afirmar que é uma crítica pertinente desde que entre em linha de conta com os subentendidos do textos, em vez de os estar a excluir.

Fiquemos por aqui e saudamos a crítica salutar de Francisco Tavares e esperemos que parte dos problemas com que se debatem os ingleses agora (falta de abastecimento de combustíveis e de bens) não venham a ter algo de equivalente em Portugal dentro de um a dois meses.

 

Nota

[1] Pensamos que aqui Victor Hill se refere ao conjunto dos empresários britânicos. PLC designa uma “public limited company”. Refere-se a uma empresa privada cotada em bolsa com características específicas que a diferenciam de uma simples empresa privada cotada em bolsa. Por exemplo, tem de ter obrigatoriamente dois sócios, dois diretores, apresentação de contas 6 meses após o fecho do ano fiscal, obrigatoriedade de designar um secretário geral plenamente qualificado (ver aqui).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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