A Galiza como tarefa – perspetiva – Ernesto V. Souza

Desculpem que ultimamente escreva menos e não me concentre. Acontecem cousas na vida que desalentam, e mais quando o contexto arredor assombra por toda parte ruína, e as conversas repletas de problemas da gente,  trazem-nos de cabeça baixa e levam-nos com as tripas quase na mão.

Andei a ler, na procura de evasão ou consolação, Daniel Defoe, as Memoirs of a Cavalier (1790), num belo mas popular exemplar de bolso, 8vo, meia encadernação em couro com dourados, de pequena mais limpíssima tipografia e agradável papel no que não fez dano a idade; impressa em Oxford em 1840, com base na edição preparada pelo mesmíssimo Walter Scott a princípios daquele século.

É este um singular romance histórico, ambientado por volta de 1632-1648, na Guerra dos 30 anos na Alemanha e depois na Guerra Civil inglesa entre Parlamentares e Realistas.

O esquema é o da descoberta de umas memórias fragmentares com a peripécia formativa narrada em forma de memorial por um anónimo protagonista; um moço inglês de boa família que após os estudos e sem muita vocação inicia, após a preceptiva permissão paterna, e com um companheiro, uma jornada formativa.

Um precursor Grand Tour pela Europa, no que seguimos à personagem da França à Itália e da Holanda à Alemanha. Lá incorporar-se-á, com algum sucesso e não poucas aventuras bélicas, aos polivalentes dragões do exército de Gustavo Adolfo II da Suécia, o Rei-general, defensor dos príncipes da Reforma e grande reformulador da arte da guerra.

As viagens, paisagens, as aventuras e combates, a formação dos exércitos, dos principais generais e das fortificações, manhas, sacos de cidades, rapinas, cargas, assaltos e peripécias são vivas, cheias de detalhe, contrastes e não poucas vezes de ironia. Após a morte do rei na batalha de Lützen, abandonará o exército protestante, retornando a Inglaterra. Lá depois de algum descanso, e com a mesma técnica ou sistema passa a descrever,  as campanhas primeiro contra escoceses (com aquela pinturesca descrição dos belicosos higlanders, organização e equipamento), depois contra Parlamentários.

O narrador, servindo na Cavalaria do Exército real de Carlos I, emprega significativamente, como jogo de palavras, “Cavalier”, com o que o título exige uma nota para bem entendermos que está a se definir e mesmo descrever em aspeto, hábito e defesa de uns princípios, como Realista.

Ambos os dous cenários são interessantíssimos. Permitem-nos apreender de forma muito concreta, episódios, personagens, momentos, figuras, batalhas, localidades, detalhes que na narrativa histórica académica de grande fôlego e análise passam um pouco desapercebidos. Esse é talvez o maior mérito da obra, pois tal e como indica o prologuista:

Whether this interesting work is considered as a romance, or as a series of authentic memoirs, in which the only fabulous circumstance is the existence of the hero; it must undoubtedly be allowed to be of the best description of either species of composition, and to reflect additional lustre, even on the author of Robinson Crusoe.

Advertisement to the Edinburgh Edition of 1809, from which the present is reprinted, em Memoirs of a Cavalier, In one volume. Oxford: Printed by D. A. Talboys, for Thomas Tegg, 73, Cheapside, Londosn, 1840 p. [IX]

Todos estes detalhes são fundamentais para ganharmos uma ideia do grande fresco histórico e de crise ideológica, económica e também de espaços plurinacionais submetidos a tensões na reformulação dos estados centralistas à moderna, necessitados de outras organizações militares, administrativas e tributárias, gizado por Defoe. Nomeadamente o dessa Revolução Inglesa e o desse momento e desenlace da Guerra dos trinta anos.

Realmente o feche da Guerra dos 30 anos (com todas as consequências derivadas da queda dos Austrias; da guerra, separação de Portugal e definição de marcantes alianças; do auge da França e o início da revolução burguesa na Inglaterra que prepararia o salto industrial e ao capitalismo) é verdadeiramente o fim de uma época e o inicio de outra. Mesmo poderíamos dizer que as origens da Idade moderna estão já aí, e a Revolução francesa é mais o clímax dos processos e mudanças que se começam a cozinhar nesse momento.

E que dizer das consequências na península, dos relacionamentos cada vez mais friccionados da Espanha e Portugal, entre 1621 e 1648. Que consequências as da política de crescente centralismo, de “provincialização” dos Reinos de Portugal e Aragão, que consequências as da liquidação efetiva da polissinodia, e das urgências tributarias para manter esses tremendos exércitos, já obsoletos, pela Europa.

A Espanha imperial da Fastiginia, o Quixote e as guerras literárias do Século de Ouro, já em decadência, regida pelo Conde Duque de Olivares e arruinada pelo seu militarismo. Justo depois da desaparição da cena política dos grandes embaixadores, secretários e conselheiros e da queda do “partido galego” arredor do Duque de Lerma.

Dá muito que pensar e mais nas bem diferentes propostas, diplomáticas e de modernização e reforma, de alianças, da visão a respeito da Itália, Países Baixos, Inglaterra e de Portugal de Lerma e nomeadamente dos Condes de Gondomar, Lemos, Monterrei e Salinas; e das consequências de umas políticas que definirão a história de Espanha e de Portugal, nos séculos a seguir.

É período este bem importante e momento fundamental na história galega que está a exigir uma grande narrativa e não menos uma revisão histórica.

whereas, by the long continuance of the War, he so broke the very  heart of the Spanish Monarchy so absolutely and irrecoverably impoverished them, that they have ever since languished of the disease, till they are fallen from the most powerful, to be the most despiciable nation in the world.

Defoe: Memoirs…, p.133.

 

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